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Fandom: Nenhum
Criado: 24/09/2026
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Zelo Excessivo
O som estridente das chaves sendo jogadas sobre o aparador de mármore ecoou pela sala ampla da cobertura. Emanuel passou a mão pesada pelos cabelos curtos, a mandíbula travada em uma linha dura que denunciava exatamente o nível de tensão acumulado nas últimas horas. Ele havia acabado de sair de uma conferência demorada com os gerentes de seus estúdios de tatuagem em Berlim e Londres, mas não era o trabalho, nem os milhões em jogo que estavam fazendo sua veia saltar na têmpora.
Era o silêncio suspeito no apartamento. E a ausência de um risinho infantil específico.
— Onde está a Maya? — perguntou ele, a voz grave cortando o ambiente antes mesmo de tirar a jaqueta preta de couro.
Eduarda estava sentada na ponta do sofá de linho cru, com os pés descalços encolhidos sob o corpo miúdo. Usava uma saia fluida de algodão e um cardigã bege que caía de lado, revelando a clavícula fina e a pele alva e delicada de quem passava os dias dividida entre salas de aula de história da arte e tablados de dança. Seus cabelos castanhos escuros estavam presos num coque frouxo, desmanchando-se em mechas suaves ao redor do rosto doce. Ela ergueu os grandes olhos expressivos, piscando devagar com aquela mansidão quase infantil que sempre desarmava — ou tentava desarmar — as tempestades dele.
— Oi para você também, Manu — murmurou ela com um biquinho dengoso, esticando os braços com preguiça graciosa. — Ela saiu.
Emanuel parou no meio da sala, os olhos escuros se estreitando perigosamente.
— Saiu com quem, Eduarda? A sua mãe está trabalhando hoje.
— A Bruna e a Luísa passaram aqui para me ver — respondeu ela com uma naturalidade que beirava a provocação inocente. — E levaram a Maya para tomar sorvete e passear no shopping da esquina.
O ar pareceu sumir dos pulmões de Emanuel por um segundo antes de explodir em pura indignação.
— Você deixou a minha filha sair com a Bruna e a Luísa?! — A voz dele subiu uma oitava, firme, controladora, carregada de puro pânico paternal. — A minha irmã não consegue cuidar nem da própria planta sem afogar a coitada, e a Luísa perde a carteira toda semana! Elas têm vinte e dois anos e a maturidade de duas adolescentes inconsequentes! Você perdeu o juízo, Eduarda?
Eduarda franziu o nariz, ajeitando a postura com um suspiro manhoso. Ela se levantou sem pressa, com a leveza milimétrica de quem tinha anos de ballet moldando cada movimento, e caminhou até ele. Não havia um pingo de agressividade em seu corpo esguio; pelo contrário, seu instinto era sempre o de desarmar qualquer confronto buscando proximidade. Ela parou bem na frente de Emanuel, erguendo o queixo delicado para encará-lo, e pousou as mãos pequenas e mornas nos antebraços dele, logo acima das tatuagens intrincadas que cobriam sua pele.
— Manu, para de ser chato — pediu ela, manhosa, inclinando a cabeça de lado enquanto deslizava as pontas dos dedos suavemente pelos pulsos dele. — Por favor, né? Elas não são irresponsáveis. Elas amam a Maya e só queriam dar uma voltinha rápida. Você trata a Bruna como se ela tivesse dez anos.
— Ela quase bateu o carro na semana passada porque estava trocando de música no rádio! — rebateu ele, rígido, mas sem conseguir afastar os braços do toque dela. O calor das mãos de Eduarda sempre operava pequenos milagres no seu estresse, uma âncora invisível que puxava sua respiração de volta para o ritmo normal. — Maya tem um ano, Eduarda. Ela mal aprendeu a andar direito, se soltar a mãozinha no meio do shopping, ela some em dois segundos!
— Mas a Luísa foi de carona, a Bruna não estava dirigindo — ela rebateu baixinho, os olhos brilhando com uma doçura desarmante. — E a Luísa prometeu que não ia tirar a Maya do carrinho. Para de surtar, papai coruja. Você fica insuportável quando quer controlar até o ar que a gente respira.
A palavra "papai" teve o efeito de sempre: desmontou metade das barreiras de Emanuel.
Do outro lado do cômodo, perto da bancada da cozinha americana, uma risada anasalada e debochada quebrou a bolha de tensão.
— Deixa ele ter um infarto, Duda. Se o coração dele parar, pelo menos a gente fica com as contas bancárias dele e vive em paz.
Sara deslizou para fora da banqueta alta com a segurança avassaladora de quem dominava qualquer centímetro quadrado por onde passava. Aos vinte e cinco anos, a loira era a personificação do impacto visual: cabelos platinados impecavelmente escovados caindo sobre os ombros, lábios delineados com gloss cintilante e um vestido tubinho vermelho colado ao corpo escultural, realçando os seios fartos turbinados pelo silicone e o quadril largo. Sara não pedia licença para existir; ela simplesmente invadia.
Em um dos braços torneados, ela segurava Ágata, a filha de um ano que tivera com Emanuel. A menininha, com bochechas rosadas e cabelos loiros fininhos, mastigava preguiçosamente um mordedor de borracha, alheia ao drama dos adultos.
— Sara, não coloca lenha na fogueira — rosnou Emanuel, virando a cabeça para a namorada, mas seus olhos inevitavelmente desceram pela silhueta exuberante dela, reconhecendo a presença magnética da mulher que amava.
— Não estou colocando lenha, amor, estou sendo realista — Sara rebateu com um sorriso irônico, caminhando com passos firmes até eles. — Você parece um pastor alemão raivoso. A Bruna me mandou foto tem dez minutos. Maya está no carrinho, com um laço gigante na cabeça, comendo uma papinha de fruta orgânica que custou o olho da cara. Ninguém sequestrou sua princesa, calma.
— Não é piada, Sara — Emanuel respirou fundo, massageando as têmporas. A veia controladora pulsava forte. — A Maya é um bebê. Eu não gosto de gente descuidada por perto dela.
— A Bruna é sua irmã, Manu. Ela é estabanada, mas não é uma psicopata negligente — Sara deu de ombros, aproximando-se o suficiente para que seu perfume doce e caro inundasse o ar entre eles. Ela estendeu a mão livre, exibindo unhas compridas e vermelhas, e deu um tapinha provocador no peito dele. — Se você continuar com essa cara de bunda, vai ficar cheio de rugas antes dos trinta. Aí eu vou ter que arrumar outro tatuador rico para bancar a minha loja.
Eduarda não conteve uma risadinha tímida, cobrindo os lábios com a manga comprida do cardigã. Emanuel olhou de uma para a outra, sentindo aquele turbilhão familiar rodopiar no estômago.
Ali estavam as duas mulheres que dominavam sua mente de maneiras tão absurdamente distintas e avassaladoras.
Sara era a tempestade, o fogo ardente, a cumplicidade carnal e a lealdade feroz. Ele a amava desesperadamente. Amava a vulgaridade elegante com que ela se vestia, amava o deboche afiado, a forma como ela geria a própria boutique de roupas femininas como uma leoa e como não abaixava a cabeça para ninguém — nem mesmo para ele. Com Sara, não havia rodeios, nem meias verdades.
E então havia Eduarda.
Sua prima doce, sensível, que carregava uma fragilidade quase etérea que despertava nele um instinto primordial e feroz de proteção. Quando o namorado de Eduarda descobriu a gravidez e sumiu no mundo feito um covarde, deixando a garota de dezenove anos desolada e assustada, foi Emanuel quem chutou a porta e assumiu tudo. Ele pagou o melhor pré-natal, bancou o parto particular, montou o quarto mais lindo do mundo na casa dos pais dela — que eram jovens e mal tinham estabilidade para ajudar — e estendeu um manto protetor sobre ela. No dia em que Maya nasceu, ele a segurou nos braços com a mesma devoção que mais tarde dedicaria à pequena Ágata. Ele fez questão de que Maya o chamasse de "papai". Comprou suas roupas, escolheu sua escola futura e fez questão de que a garotinha jamais sentisse a falta de um pai de sangue.
Mas o que começou como zelo familiar havia se transformado, silenciosa e inevitavelmente, em algo muito mais denso.
Emanuel era hipnotizado pela pureza de Eduarda. Pelo jeito que ela se encolhia perto dele em busca de segurança, pelos seios macios que adivinhava sob os tecidos leves que ela usava, pelo olhar sensível que entregava cada mínimo pensamento. Ele queria protegê-la do mundo. Ele a desejava com a mesma intensidade que temia assustá-la. Ele queria as duas. Um homem dividido por um amor visceral por sua mulher e uma paixão protetora e arrebatadora por sua prima.
O mais louco de tudo era que Sara sabia.
Emanuel nunca conseguira guardar segredos da mulher. Numa madrugada regada a uísque e exaustão, meses atrás, quando a culpa o consumia por desejar a prima enquanto amava a mãe de sua filha, ele desabafara. Confessara cada nuance, cada pensamento, esperando os gritos, a louça quebrada e o fim do relacionamento.
Sara apenas ouvira em silêncio. E depois de uma tragada lenta no cigarro eletrônico, soltara uma gargalhada genuína.
— Eu sei, Manu — dissera ela na época, com um olhar desprovido de qualquer ressentimento. — Você acha que eu sou cega? A garota é linda, parece uma bonequinha de porcelana e você tem esse complexo ridículo de cavaleiro andante. Se você a ama também, fazer o quê? Eu amo você. E se para você ser completamente feliz você precisa dela junto da gente, então você vai ter ela. Só não me venha com mentiras.
Sara não odiava Eduarda. Muito pelo contrário, simpatizava profundamente com a doçura da menina. Não a via como ameaça ao seu posto; na cabeça prática e confiante de Sara, havia espaço suficiente no reino de Emanuel para a força dela e a delicadeza de Duda.
O único problema era que Eduarda não fazia a menor ideia de nada disso.
Para ela, Emanuel era apenas o primo herói, o esteio inabalável a quem ela recorria sempre que o mundo parecia pesado demais, o pai de coração de sua menininha.
— Ela está rindo de você, Manu — disse Sara, apontando com a cabeça para Eduarda, tirando Emanuel de seus devaneios. — Nem a Duda aguenta seus ataques de pelanca.
— Eu não estou tendo ataque de pelanca — ele resmungou, sentindo a tensão afrouxar um pouco nos ombros enquanto olhava para Sara, pegando a pequena Ágata dos braços dela. A bebê soltou um grunhido alegre ao ver o pai e puxou a gola de sua camiseta. — Eu só me preocupo. A Maya é pequena demais.
— E eu sou a mãe dela — interveio Eduarda com suavidade, aproximando-se mais e tocando as bochechinhas rechonchudas de Ágata. — Eu sei cuidar da minha filha, tá? Sei que você é o melhor pai do mundo para ela, Manu, mas precisa respirar fundo às vezes.
Emanuel fitou o rosto de Eduarda. Tão perto. O cheiro dela — lavanda e loção hidratante infantil — misturava-se ao perfume forte de baunilha e frutas vermelhas que emanava de Sara. O contraste perfeito. A seda e a pimenta.
— Eu sei que você cuida — Emanuel disse em um tom mais baixo, a aspereza sumindo quase por completo, substituída por uma ternura que ele não conseguia disfarçar. — Mas eu não consigo evitar, Duda. Se alguma coisa acontecer com aquela menina... ou com você...
— Nada vai acontecer — sussurrou ela, e num impulso carinhoso e tímido, Eduarda deu um passo à frente e descansou a testa contra o ombro de Emanuel, enlaçando a cintura dele de forma manhosa. — Confia em mim. As meninas só queriam comprar uns lacinhos novos para ela.
Emanuel engoliu em seco. A mão dele, pesada e calejada pelo dermógrafo e pelos anos de trabalho, desceu instintivamente para as costas de Eduarda, acariciando o tecido fino do cardigã. Sentiu a maciez do corpo dela pressionado contra o seu, os contornos leves e femininos que faziam seu sangue esquentar, ao mesmo tempo em que o senso de dever o mantinha no lugar.
Ele ergueu o olhar e encontrou os olhos de Sara.
Sara não desviou. Ela estava encostada na bancada, os braços cruzados sob os seios fartos empurrados pelo decote generoso, observando a cena com um sorrisinho cúmplice e calculista nos lábios perfeitamente pintados. Havia uma fagulha divertida e provocadora em seu olhar azul, como quem dizia: Viu só? Ela é sua se você souber como pegar.
Emanuel sentiu o coração bater no ritmo acelerado de um homem que caminha na corda bamba, fascinado pela queda iminente.
— Se em meia hora elas não estiverem aqui — disse Emanuel, tentando manter a voz firme apesar do contato com o corpo de Eduarda —, eu vou buscar a Maya pessoalmente no shopping.
— Meia hora — concordou Eduarda, desvencilhando-se do abraço e sorrindo com os olhos brilhantes, sem ter a menor noção da tempestade que provocava dentro dele. — Agora senta aqui e para de resmungar. Você quer um café? Eu faço para você.
— Faz um chá para ele, Duda — Sara zombou da cozinha, pegando sua bolsa de grife sobre a mesa. — De camomila. Três xícaras bem cheias, antes que o homem mais rico e estressado dessa cidade quebre o restante da mobília.
Emanuel suspirou, sentando-se no sofá com Ágata no colo, enquanto observava Eduarda caminhar delicadamente até a cozinha, os quadris pequenos oscilando sob a saia rodada. Sara passou por ela, dando-lhe uma piscadinha amigável e despretensiosa antes de voltar o olhar para Emanuel com pura audácia.
Ele estava no inferno e no paraíso ao mesmo tempo. Mas de uma coisa ele tinha absoluta certeza: não abriria mão de nenhum dos dois lados.
