
A aranha encurralada pelo filhote de morcego
Fandom: Marvel e DC
Criado: 24/09/2026
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Sinfonia de Silêncio e Cafeína
Gotham City nunca dormia, mas ela certamente sussurrava. Para Peter Parker, no entanto, esses sussurros eram gritos ensurdecedores. Desde que o Doutor Estranho conjurara aquele último feitiço — aquele que não apenas apagou sua existência da memória de todos que ele amava, mas o arremessou através do tecido da realidade —, seus sentidos haviam saído de controle. O ar de Gotham era mais denso, carregado de eletricidade e poluição, e sua audição, já sobre-humana, tornara-se uma maldição. O bater de asas de um pombo a três quarteirões de distância soava como um helicóptero; o tic-tac de um relógio de pulso era como marteladas em sua têmpora.
Peter ajustou o pequeno dispositivo prateado em sua orelha esquerda. Não era um aparelho auditivo comum para surdez, mas um supressor de frequência que ele mesmo projetara com peças de sucata que encontrara em seu primeiro mês na cidade. O aparelho filtrava o caos, transformando o ruído branco de Gotham em algo suportável, permitindo que ele fingisse ser apenas mais um órfão desajeitado tentando sobreviver.
Ele estava sentado em uma das mesas de canto da Biblioteca Pública de Gotham, escondido atrás de uma pilha de livros sobre física quântica e literatura clássica. Seus óculos escorregavam pelo nariz enquanto ele mergulhava na leitura, tentando ignorar a sensação constante de que estava sendo observado.
— Esse autor é um pretensioso, mas a análise dele sobre a desconstrução do ego é... aceitável.
Peter deu um pulo na cadeira, quase derrubando a pilha de livros. Ele olhou para cima e viu um garoto mais novo, com cabelos pretos perfeitamente alinhados e um olhar que parecia julgar toda a linhagem ancestral de Peter. Era Damian Wayne.
— Ah... oi — gaguejou Peter, ajeitando os óculos. — Eu, hum, eu gosto da forma como ele conecta a ética à ciência.
Damian arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— A maioria das pessoas da sua idade prefere ler futilidades. Você tem um gosto minimamente refinado, Parker.
— Você sabe meu nome? — Peter perguntou, surpreso.
— Eu frequento a Academia Gotham. Você é o bolsista novo que parece estar sempre tentando se fundir com as paredes — Damian respondeu com um desdém que, estranhamente, não parecia hostil. — Não estrague o livro. É uma edição rara.
Antes que Peter pudesse responder, o garoto se virou e saiu com uma postura régia. Peter piscou, confuso. Gotham era um lugar estranho, mas, de alguma forma, aquelas pequenas interações o faziam sentir que, talvez, ele pudesse ter um lugar ali.
Algumas semanas se passaram. Peter dividia seu tempo entre as aulas na Academia Gotham, onde tentava não tirar notas altas demais para não chamar atenção, e seu emprego de meio período na "The Drip", uma cafeteria movimentada perto do distrito financeiro. Era um trabalho cansativo, mas o aroma do café ajudava a acalmar seus sentidos hiperativos.
Foi ali que ele o conheceu de verdade.
O sino acima da porta tocou, e o sentido aranha de Peter deu um leve formigamento — não um aviso de perigo, mas uma vibração de presença. Ele olhou para cima e viu um jovem um pouco mais alto que ele, com ombros largos, cabelos pretos curtos e olhos que pareciam analisar cada detalhe do ambiente em segundos.
— Um café preto, o maior que você tiver, e talvez um pouco de misericórdia por alguém que não dorme há quarenta e oito horas — disse o recém-chegado, apoiando os cotovelos no balcão.
Peter sorriu timidamente, pegando um copo de papel.
— A misericórdia está em falta, mas o café eu consigo resolver. Açúcar?
— Puro. Como a minha alma — o rapaz brincou, dando um sorriso que fez o estômago de Peter dar uma cambalhota estranha. — Eu sou o Tim. Tim Drake.
— Peter. Peter Parker.
Tim aceitou o café, mas não saiu do balcão. Ele observou o pequeno aparelho na orelha de Peter.
— Design interessante. Você mesmo fez?
Peter congelou por um segundo, sentindo o rosto esquentar.
— Ah, isso? É só um... é para audição. Eu tenho alguns problemas com ruído.
— As soldas são muito precisas para um modelo comercial — comentou Tim, inclinando-se um pouco mais, invadindo levemente o espaço pessoal de Peter. — Você estuda engenharia?
— Eu... eu gosto de mexer com coisas. Na Academia Gotham, sabe? — Peter começou a gaguejar, mexendo nervosamente no avental.
— Sei bem. Eu também estudo lá, embora passe mais tempo em "reuniões de negócios" da Wayne Enterprises — Tim piscou para ele. — É um prazer finalmente falar com o gênio recluso do laboratório de física.
Nos dias seguintes, Tim Drake tornou-se um cliente frequente. E por "frequente", Peter queria dizer que Tim aparecia três vezes por dia. Às vezes ele trazia um laptop e trabalhava em um canto, mas sempre dava um jeito de puxar conversa com Peter durante os intervalos.
Na escola, a dinâmica era a mesma. Tim, que era popular e circulava entre a elite de Gotham, frequentemente abandonava seus amigos para se sentar ao lado de Peter no almoço ou na biblioteca.
— Sabe, Parker — disse Tim em uma tarde chuvosa, enquanto caminhavam pelo corredor da Academia —, esse seu hábito de se esconder atrás desses óculos é quase um crime.
— Eu não me escondo — protestou Peter, sentindo a habitual timidez tomar conta. — Eu só... preciso deles para ver.
Tim parou de andar e se virou para Peter. Ele era mais alto, e Peter sentiu a diferença de estatura quando Tim se aproximou, reduzindo a distância entre eles.
— Acho que você só não quer que as pessoas vejam o quanto você é interessante — Tim disse em um tom baixo, sua voz vibrando de uma forma que o aparelho auditivo de Peter captava com uma clareza desconcertante.
Tim estendeu a mão e, com uma audácia que deixou Peter paralisado, ajustou a gola da camisa do outro. Seus dedos roçaram o pescoço de Peter, e a mão de Tim desceu lentamente, parando por um segundo na cintura de Peter, um toque possessivo e protetor que fez o coração do herói deslocado disparar.
— Você está vermelho, Peter — sussurrou Tim com um sorriso de canto.
— É o... é o calor — mentiu Peter, a voz falhando miseravelmente. — O aquecimento da escola deve estar quebrado.
Tim riu, um som rico e genuíno.
— Claro. Deve ser isso.
Peter não entendia. Por que alguém como Tim Drake, que parecia ter o mundo aos seus pés, estaria interessado no garoto órfão de outro universo que trabalhava em uma cafeteria? Ele não percebia os olhares analíticos de Tim, a forma como o Robin observava cada movimento de Peter, notando a agilidade incomum quando ele desviava de um esbarrão ou a rapidez com que seus reflexos agiam. Tim estava fascinado, não apenas pelo mistério que Peter Parker representava, mas pela bondade genuína que emanava dele.
Certa noite, Peter estava terminando seu turno na cafeteria. A chuva de Gotham caía pesada lá fora. Ele sentia uma melancolia profunda, a saudade de um mundo que não se lembrava dele pesando em seus ombros. Ele começou a limpar o balcão, seus movimentos automáticos, até que sentiu aquela mesma presença.
Tim estava lá, mas não usava suas roupas de grife habituais. Ele parecia exausto, com olheiras profundas e uma postura tensa.
— Ainda tem aquele café com misericórdia? — perguntou Tim, a voz rouca.
Peter preparou a bebida em silêncio e a entregou.
— Você parece que foi atropelado por um caminhão, Tim.
— Gotham tem esse efeito nas pessoas — Tim respondeu, tomando um gole longo. Ele olhou para Peter, seus olhos escuros brilhando sob a luz fluorescente. — Por que você veio para cá, Peter?
A pergunta pegou Peter de surpresa.
— O quê?
— Você não é daqui. Não falo apenas de outra cidade. Você age como se estivesse constantemente tentando se ajustar a uma gravidade diferente.
Peter sentiu o suor frio. O instinto de proteção de Tim era aguçado, e sua mente analítica estava claramente trabalhando horas extras.
— Eu só... perdi minha família. Precisava de um recomeço.
Tim estendeu a mão sobre o balcão e cobriu a mão de Peter com a sua. O toque era quente e firme.
— Eu também perdi muita gente, Peter. E eu protejo o que é meu.
Peter engoliu em seco, o rosto queimando novamente.
— O que... o que isso significa?
Tim se inclinou para frente, o rosto a poucos centímetros do de Peter. O cheiro de café e algo metálico, como chuva no asfalto, emanava dele.
— Significa que eu notei você. E eu não pretendo deixar você desaparecer nas sombras de Gotham.
— Tim, eu sou só um atendente de cafeteria — Peter disse, tentando usar o humor para aliviar a tensão. — E um nerd que usa aparelhos auditivos esquisitos.
Tim soltou uma risada curta e apertou levemente a mão de Peter.
— Você é muito mais do que isso. E eu tenho todo o tempo do mundo para descobrir cada segredo seu.
Ele se afastou, deixando um Peter Parker completamente atordoado e com o coração batendo como um tambor contra as costelas. Enquanto Tim saía pela porta, ele parou e olhou para trás.
— Vejo você na escola amanhã, Peter. Não se atrase.
Peter ficou parado, segurando o pano de limpeza, sentindo o silêncio da cafeteria ser preenchido pelo som rítmico de seu próprio coração. Ele tinha vindo para este universo para ser ninguém, para proteger o mundo do fardo de sua existência. Mas, olhando para a porta por onde Tim saíra, ele percebeu que, em Gotham, era impossível permanecer invisível para quem tinha olhos treinados para encontrar a luz no meio da escuridão.
Pela primeira vez em muito tempo, a solidão de Peter Parker parecia um pouco menos absoluta. E, embora ele ainda tivesse medo do que o futuro reservava, o toque de Tim em sua cintura e o brilho protetor em seus olhos faziam Peter pensar que, talvez, ser encontrado não fosse algo tão ruim assim.
Ele ajustou seu aparelho auditivo, mas desta vez, não para silenciar o mundo. Ele queria ter certeza de que ouviria cada passo de Tim Drake quando ele voltasse.
— Com grandes poderes... — sussurrou Peter para si mesmo, um sorriso triste, mas esperançoso, surgindo em seus lábios — ...vêm grandes complicações amorosas. O Tio Ben esqueceu de mencionar essa parte.
Lá fora, a chuva continuava a cair, mas para Peter, o ruído de Gotham finalmente parecia uma música que ele estava começando a aprender a tocar.
