
Mime and Dash(Marita & Miffy) :3
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 24/09/2026
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Notas em Silêncio e Risos Coloridos
O corredor leste da Paper School sempre fora um dos mais silenciosos durante o intervalo dos professores, mas naquela tarde em particular, parecia mergulhado em uma calmaria quase irreal. O chão quadriculado, desenhado como uma folha milimetrada gigante, rangia suavemente sob o peso controlado dos passos de Mister Demi. O som rítmico e pontual do salto fino de suas botas pretas ecoava pelas paredes de papel dobrado, criando uma cadência melódica que tentava, sem muito sucesso, acalmar seus nervos sempre à flor da pele.
Mister Demi apertava contra o peito um maço generoso de partituras recém-impressas. As notas musicais desenhadas em tinta preta pareciam tremer no compasso das batidas do seu coração ansioso. Ele ajustou os óculos escuros sobre o rosto pálido com as pontas dos dedos compridos. Seus braços, brancos com listras pretas e terminando em antebraços e mãos completamente negros, seguravam os papéis como se fossem um escudo contra qualquer eventualidade trágica que pudesse surgir nos corredores impiedosos daquela escola.
Sua franja assimétrica, recortada cuidadosamente para lembrar as teclas monocromáticas de um piano antigo, cobria seu lado direito, deixando apenas o olho esquerdo visível — uma íris verde-clara com reflexos azulados que se movia inquieta, perscrutando cada quina e dobradura da arquitetura de papel. No topo de sua cabeça, entre seus cabelos brancos cortados na altura dos ombros em um chanel impecável, destacavam-se os dois lápis brancos e os pequenos chifres pretos, quase como antenas sintonizadas com o perigo iminente.
— Só preciso deixar estas partituras na sala de música... — murmurou Demi para si mesmo, com a voz suave e trêmula, enquanto ajeitava a gola alta de sua camisa branca de mangas bufantes. — Nenhuma confusão hoje. Apenas notas limpas, clave de sol e silêncio. Por favor, que seja apenas isso...
Ele respirou fundo, alisando a estampa da colcheia no centro de seu peito, logo abaixo dos suspensórios pretos. No entanto, o universo da Paper School raramente concedia momentos de paz absoluta.
Ao dobrar o corredor que dava acesso à antiga sala de artes, Mister Demi congelou. Seus saltos travaram bruscamente sobre o piso.
Diante dele, onde outrora existia uma porta branca convencional com moldura recortada em cartolina cinza, havia agora um retângulo imponente e assustador, completamente pintado de preto. Não era um cinza escuro ou um sombreado de grafite; era uma camada densa, profunda e opaca de tinta preta que parecia ter engolido toda a luminosidade ao redor. Parecia uma fenda no próprio tecido de papel do mundo.
— Mas o que... o que aconteceu aqui? — sussurrou Demi, dando um passo involuntário para trás, com o olho verde arregalado atrás da lente. — Quem teria autorização para pintar isso? Se a diretora Grace ou a senhorita Circle virem isso... Céus, vai haver uma carnificina de giz e sangue...
O professor deu mais um passo cauteloso em direção à porta negra, esticando o pescoço. Não havia maçaneta visível; a tinta cobrira tudo, fresca em alguns pontos, fosca em outros. Uma sensação incômoda de estar sendo observado arrepiou a nuca de Demi.
De repente, sem que nenhum rangido no chão o alertasse, duas pequenas mãos vestindo luvas de um tom rosa avermelhado brotaram da sombra da lateral do batente e repousaram suavemente em sua perna, logo acima da bota.
— Aaaaah! — gritou Demi, dando um salto patético para cima, quase derrubando metade das partituras no processo.
Ele tropeçou nos próprios saltos, os lápis em sua cabeça balançando enquanto ele se encostava na parede oposta, respirando aos solavancos e cobrindo o peito com os papéis. Seus óculos escorregaram levemente pelo nariz.
— Quem está aí?! Eu... eu avisei que não permito emboscadas fora da sala de aula!
Um risinho abafado, seguido por passos miúdos e apressados, respondeu ao seu desespero. De trás do batente escurecido, duas figuras diminutas deram um salto coreografado e teatral para o meio do corredor, parando lado a lado com poses dramáticas.
Demi piscou repetidas vezes, empurrando os óculos de volta para o lugar. O pânico deu lugar a uma expressão de puro choque e perplexidade.
— Marita Belén...? Miffy...?
Ali estavam duas crianças pequenas, perfeitamente alinhadas, vestidas de uma maneira tão peculiar que pareciam ter saído diretamente de um espetáculo mudo de rua parisiense.
Marita Belén, sua sobrinha de cabelos pretos cortados em um chanel idêntico ao formato do dele, não estava usando seu habitual chapéu de marinheiro preto e branco. Em vez disso, ostentava orgulhosamente uma charmosa boina rosa avermelhada inclinada de lado. Seu traje consistia em uma regata preta com listras brancas horizontais, cruzada por alças pretas firmes no peito, calças pretas justas que terminavam em pequenas botinhas brancas reluzentes. As luvas avermelhadas em tom de rosa destacavam-se em suas mãozinhas gesticulantes.
Ao lado dela, a pequena Miffy parecia uma nuvem de fofura. Seus cabelos brancos como algodão emolduravam um rostinho redondo e rechonchudo, brilhando de pura empolgação. Ela vestia o mesmo conjunto de mímica que Marita — a regata listrada, a boina rosa e as luvas coloridas —, mas com seu próprio toque delicado, parecendo uma versão em miniatura e angelical de um artista circense.
Marita Belén olhou para Demi com olhos brilhantes e travessos. Ela não disse uma única palavra. Em vez disso, levou o dedo indicador enluvado aos lábios, fazendo um sinal universal de segredo, antes de se virar para Miffy.
Miffy bateu palmas sem emitir som — apenas encostando a palma de uma luva na outra no ar — e se abaixou com uma flexibilidade adorável para pegar algo que estava escondido atrás de um vaso de papelão decorativo.
Era uma placa de papelão rústica, recortada com tesoura de ponta redonda, onde se lia em letras garrafais desenhadas com giz de cera colorido:
"OLÁ! QUER JOGAR PRA ADIVINHAR?"
Mister Demi soltou um longo suspiro, deixando os ombros despencarem. Toda a tensão que acumulava desde o início do dia pareceu esvair-se em um misto de alívio e cansaço fraternal.
— Meninas... por todos os compassos musicais deste mundo, vocês quase me fizeram ter um ataque cardíaco! — repreendeu ele, embora sua voz não conseguisse esconder a ternura habitual. Ele olhou da placa para a porta negra e depois para a sobrinha. — O que significa tudo isso? E por que aquela porta está pintada desse jeito? Vocês sabem que é perigoso brincar nos corredores a esta hora...
Marita Belén cerrou os olhos e abanou a cabeça vigorosamente em negativa, cruzando os braços no peito com um ar de severidade cômica. Ela apontou para a própria boca e fez o gesto de passar um zíper imaginário pelos lábios, trancando a chave e jogando-a por cima do ombro.
Miffy concordou com a cabeça tantas vezes que seus cachos brancos e macios saltitaram ao redor do rosto. A garotinha colocou a placa no chão, apoiada contra a parede, e apontou para Demi, esperando uma confirmação.
— Ah, não... — Demi gemeu baixinho, olhando para os lados do corredor para checar se nenhuma professora sinistra estava por perto. — Um jogo de mímica? Agora? Eu realmente preciso entregar estas músicas para o ensaio do coral...
Marita fez um beicinho dramático e juntou as duas mãos enluvadas em frente ao queixo, inclinando o tronco para a frente com os olhos arregalados, suplicando em silêncio. Miffy a imitou com perfeição, inflando as bochechas e piscando os olhos com uma doçura irresistível.
O professor de música não tinha nenhuma chance contra aquele golpe duplo de fofura.
— Está bem, está bem! — rendeu-se Demi, ajeitando as partituras debaixo do braço esquerdo. — Apenas uma rodada rápida. Se alguém vier, nós vamos direto para a minha sala, entenderam?
As duas meninas deram um pulinho silencioso de comemoração.
Marita Belén assumiu o centro do corredor como se estivesse sob os holofotes do maior teatro do mundo. Ela respirou fundo, fechou a expressão em uma seriedade teatral e começou a se mover.
Primeiro, ela esticou os braços e abriu as palmas das mãos, tateando o ar à sua frente com precisão matemática. Seus dedos deslizavam sobre uma superfície plana e perfeitamente invisível. Ela empurrava o vazio, fingindo surpresa ao encontrar uma quina, depois virou o corpo de lado e continuou apalpando as quatro paredes de uma caixa imaginária que parecia se fechar ao redor dela.
— Uma parede invisível? — tentou adivinhar Demi, inclinando a cabeça. — Uma caixa de vidro?
Marita negou com a cabeça, fazendo uma careta rápida, antes de mudar drasticamente de performance.
Ela colocou a mão esquerda na altura do pescoço, com os dedos curvados como se segurasse um braço de madeira fino, e com a mão direita fez o movimento gracioso de puxar e empurrar um arco invisível, balançando o corpo no ritmo de uma valsa silenciosa e melancólica.
— Ah! Um violino! — exclamou Demi, animando-se um pouco. — Você está tocando um violino pequeno!
Marita assentiu brevemente com a cabeça, mas não parou por aí. Ela subitamente largou o instrumento imaginário, curvou as costas para a frente, esticou os dedos como se fossem garras compridas e começou a marchar pelo corredor de forma rígida e assustadora. Com uma das mãos, fez o gesto de segurar um enorme compasso de metal imaginário e fingiu apontá-lo para Miffy.
Miffy levou as duas mãos enluvadas às bochechas, abrindo a boca em um "O" mudo de puro deleite e fingindo pavor, jogando-se contra a parede enquanto tremia dramaticamente. O rostinho da menina de cabelos brancos brilhava de pura felicidade por fazer parte daquela encenação.
Demi arregalou o olho esquerdo, sentindo um calafrio real subir pela espinha.
— A senhorita Circle! — adivinhou ele, quase em um sussurro aterrorizado. — Você está imitando a senhorita Circle furiosa procurando alguém que tirou nota baixa!
Marita Belén parou a marcha, abriu um sorriso triunfante de orelha a orelha e apontou para o tio, dando um salto para comemorar. A encenação mudo-teatral ruiu por terra naquele exato segundo, incapaz de conter a energia transbordante da infância.
— Acertou, tio Demi! — gritou Marita, quebrando o silêncio do corredor com sua voz infantil, clara e cheia de travessura. — Você adivinhou tudinho! Viu como eu sou uma mímica perfeita? Eu tava presa na caixa, aí toquei a música triste e depois virei o monstro do compasso!
— E eu fui a vítima que levou nota zero! — exclamou Miffy, rindo abertamente enquanto tirava a boina rosa para sacudir os cabelos brancos e fofos. — Minha parte foi muito assustadora, não foi, senhor Demi? Eu fiz uma cara de muito medo!
Demi levou a mão à testa, rindo de forma entrecortada, uma mistura de nervosismo e alívio caloroso.
— Foi incrivelmente convincente, Miffy. Quase me fez querer correr de verdade — admitiu o professor, abaixando-se um pouco para ficar mais próximo da altura das duas. — Mas, Marita, por favor, fale mais baixo! Vocês sabem que imitar os outros professores pelos corredores pode acabar muito mal se alguém escutar.
— Ninguém vai escutar, titio — disse Marita Belén com desdém brincalhão, ajeitando o cinto de sua calça preta e cruzando os braços com ar de importância. — A gente montou nosso camarim secreto bem aqui!
Ela apontou com orgulho para a assustadora porta negra.
— Falando nisso... — Demi franziu o cenho, apontando com a ponta de um dos seus lápis brancos para a madeira escurecida. — De onde veio toda essa tinta preta? Por que pintaram a porta da velha sala de artes?
Marita e Miffy trocaram olhares cúmplices antes de caírem na gargalhada.
— Não é tinta de verdade, senhor Demi! — revelou Miffy, saltitando até a porta e puxando cuidadosamente a borda superior.
Com um som suave de papel descolando, ela revelou que não se tratava de uma camada de tinta fresca, mas sim de uma folha inteira de papel cartolina preta fosca, colada com fita adesiva de ponta a ponta sobre a porta original.
— Era para ser o nosso cenário de teatro! — explicou Marita Belén, gesticulando amplamente com as luvas avermelhadas. — Mímicos precisam de um fundo preto bem escuro para que as luvas rosas e as roupas listradas apareçam bastante! A gente aprendeu isso em um livro de arte que achamos na biblioteca. A gente colou a folha preta para fazer um palco de verdade!
— Um palco... — repetiu Demi, processando a informação enquanto seu coração finalmente voltava ao ritmo normal. — Então era apenas papel preto colado com fita adesiva?
— Sim! — respondeu Miffy alegremente, batendo palminhas. — E a gente ia fazer um show de adivinhação para todo mundo que passasse, mas só você apareceu, porque todo mundo tem medo dessa ala da escola depois do almoço.
— E com razão — murmurou Demi, sentindo um arrepio só de lembrar quem costumava rondar aquelas redondezas. Ele olhou para as duas pequenas artistas, notando a dedicação de cada detalhe: as boinas combinando, as listras desenhadas com capricho, a energia pura que parecia iluminar aquele corredor monótono e perigoso.
Ele não pôde evitar que um sorriso sincero e caloroso surgisse em seus lábios. Seus olhos verdes suavizaram-se completamente.
— Devo admitir que vocês duas são atrizes fantásticas — elogiou Demi, fazendo uma reverência formal com a cabeça, como um maestro cumprimentando sua orquestra após uma sinfonia. — O número da caixa foi muito expressivo, e o violino imaginário tinha uma postura excelente para alguém da sua idade, Marita. Mas agora, o show precisa mudar de local.
— Por quê? — perguntou Marita, fazendo um biquinho desapontado.
— Porque se a senhorita Circle de verdade passar por aqui e vir essa cartolina preta na porta... ela pode achar que é uma nova prova surpresa de geometria — brincou Demi, arrancando uma risadinha nervosa de Miffy. — Além disso, eu tenho uma sala de música inteira, com um piano de verdade, um palco de madeira lustrada e cortinas vermelhas. O que vocês acham de levarem o espetáculo para lá? Eu posso até tocar uma trilha sonora ao vivo para a próxima adivinhação.
Os olhos de Marita Belén brilharam de entusiasmo puro.
— Com música de suspense quando eu fizer cara de monstro?! — perguntou ela, quase pulando nos braços do tio.
— Com todo o suspense que os acordes menores puderem oferecer — prometeu Mister Demi com uma risada leve. — E você, Miffy? Gostaria de tocar alguns pratos ou triângulo durante a apresentação?
— Sim, sim! Eu quero fazer o som do susto! — exclamou a garotinha de cabelos brancos, erguendo os braços para o alto em comemoração.
— Perfeito. Mas primeiro... ajudem-me a descolar essa cartolina antes que alguém veja — instruiu o professor, ajoelhando-se para ajudar as duas pequenas mímicas a puxarem a fita adesiva com cuidado, sem rasgar a superfície da porta original.
Em poucos minutos, a folha preta foi enrolada como um pergaminho secreto de travessuras. Com a placa de adivinhar debaixo do braço de Miffy e as partituras seguras novamente contra o peito de Demi, o trio começou a caminhar pelo corredor em direção à segurança da sala de música.
Enquanto andavam, Marita Belén puxou a barra da camisa bufante de Demi, fazendo-o olhar para baixo. Com um sorriso travesso, ela colocou a mão enluvada sobre a boca e fez novamente o gesto do zíper invisível.
Demi riu baixo, balançando a cabeça em sinal de aprovação, e fez o mesmo gesto em seus próprios lábios. Pelo menos por aquela tarde, a Paper School não seria um lugar de medo ou provas sangrentas, mas sim o palco para risadas doces, mímicos de luvas rosas e melodias que fariam qualquer corredor sombrio parecer um pouco mais colorido.
