
Mister hotchkiss x Psycho-Kun
Fandom: The Late Night Urban Legend LNUL
Criado: 26/09/2026
O Fã-Clube Mais Perigoso de North City Enigma
A névoa espessa que cobria os telhados tortos de North City Enigma raramente trazia bons presságios, mas para os agentes da Paranormal Purge, aquilo era apenas a rotina habitual da terça-feira. Entre as vielas mal iluminadas e as construções decadentes, uma residência em particular conseguia a proeza de ofender qualquer senso estético razoável: uma casa de dois andares pintada em um tom berrante de rosa-choque, contrastando de forma violenta com a escuridão da cidade.
Mister Hotchkiss observava o alvo do alto de uma árvore frondosa. Sua constituição esguia e pernas longas mantinham o equilíbrio com facilidade quase acrobática sobre o galho úmido. Seus chifres negros curvavam-se com imponência demoníaca em direção ao céu noturno, com anéis prateados reluzindo à luz fraca dos postes, lembrando piercings caros. O longo cabelo escarlate, que alcançava sua cintura com grandes manchas pretas espalhadas pelas costas e cauda, balançava sutilmente com a brisa gélida. A parte direita de seus fios mantinha uma ondulação impecável, enquanto a traseira ostentava pontas espetadas que desafiavam a gravidade.
No lado direito de seu rosto, o pequeno monitor hexagonal cobrindo a órbita exibia uma luz esverdeada e um ícone de mira oscilante, muito parecido com o dispositivo que seu amado marido, Mister Barrel, costumava usar durante as operações conjuntas. Seu olho esquerdo, negro e amendoadamente elegante, manteve-se fixo na janela do segundo andar. A cauda semelhante à de um cão agitava-se de leve, denunciando o tédio profissional que antecedia a violência.
Ele vestia o uniforme padrão da P.P.F. impecavelmente alinhado: camisa branca de colarinho rígido sob uma gravata vermelha escarlate, protegida por um blazer preto sem mangas que descia até os joelhos, com detalhes escarlates vibrantes nas lapelas dobradas e nas barras. Por baixo, mangas compridas pretas envolviam seus braços até os punhos, complementadas por botas de cano alto com aberturas em losango no joelho. Em seu braço direito, ajustado e perfeitamente simbiótico, repousava o canhão de braço em que Potchi assumia o papel de armamento letal.
Um relatório simples indicava a presença de uma anomalia de classe humana residente naquele endereço. Uma eliminadora de aulas, reclusa, potencialmente perigosa. O trabalho de Marshall Hotchkiss era entrar, neutralizar e documentar. Nada mais, nada menos.
Com um impulso ágil, ele saltou da árvore, aterrissando sem o menor ruído no peitoril da janela entreaberta. Seus lábios, habitualmente curvados em um sorriso calmo ou educadamente amigável, moveram-se em uma cantoria baixa e melodiosa, um compasso rítmico que ele gostava de entoar antes de executar uma purga.
O interior do quarto era um caos monumental. Pilhas de mangás amassados, embalagens de lamen instantâneo vazias, fios espalhados pelo carpete e uma penumbra iluminada quase que exclusivamente pelo brilho azulado de um monitor de computador. Sentada de costas em uma cadeira de rodinhas felpuda, a anomalia em questão estava completamente absorvida pela tela.
Era uma garota de estatura baixa, miúda de uma forma que parecia quase frágil. Psycho-Kun tinha a pele extremamente clara e cabelos pretos cortados em estilo Chanel até a altura dos ombros, mas que se estendiam em mechas compridas até a cintura. Dois pares de chifres negros projetavam-se de sua cabeça, enfeitados com mechas em tom azul-pastel que combinavam perfeitamente com os fios da parte de trás de sua nuca. Suas sobrancelhas eram alvas como giz, e ela vestia um moletom preto largo com cordões e estampas rosa-pastel, além de uma saia plissada da mesma tonalidade com listras escuras. As pernas estavam cobertas por meias pretas até a coxa, estilizadas com carinhas de gatos.
Nos ouvidos da jovem repousava um par de fones enormes com orelhas de gato luminosas. O áudio vazava aos borbotões: gemidos histéricos em japonês, falas arrastadas e sons indiscutíveis de tentáculos que deixavam claríssimo o fato de que a criatura não estava assistindo a um desenho animado convencional para o horário nobre.
Hotchkiss ergueu o canhão Potchi, a boca da arma ganhando um zumbido característico de energia concentrada. Ele cantarolou outra estrofe entre dentes, dando passos calculados sobre o piso bagunçado para se posicionar bem atrás da garota. O monitor hexagonal em seu rosto piscou para um tom avermelhado, pronto para acionar o protocolo de disparo à queima-roupa.
Ele deu mais um passo à frente, mas a sola pesada de sua bota atingiu algo macio no chão.
Uma pelúcia felpuda, rosa-choque e ostentando pequenos chifres pontudos, foi violentamente prensada contra a carcaça de metal de Potchi, explodindo em enchimento sintético com um ruído seco de tecido rasgado.
O barulho foi suficiente para quebrar o transe da garota. Com o susto súbito da aproximação sombria, Psycho-Kun deu um pulo na cadeira giratória. Seus calcanhares prenderam-se nas rodinhas e ela tombou para trás de forma desajeitada, caindo de bunda no tapete felpudo. No impacto, o fio dos fones de ouvido foi arrancado violentamente da entrada de som, o pé da menina acertou o filtro de linha embaixo da mesa e a tela do computador simplesmente apagou com um estalo seco de eletricidade cortada.
O quarto ficou na penumbra, quebrado apenas pela fraca luz da lua e o visor de Hotchkiss.
Psycho-Kun permaneceu no chão por alguns segundos, atordoada. A boca de lábios escuros e dentes assustadoramente afiados entreabriu-se enquanto ela abaixava levemente a cabeça, piscando os olhos desiguais: o direito era branco com uma pupila negra contendo uma bolinha rosa-pastel, cercado por cicatrizes negras que escorriam pela bochecha; o esquerdo exibia um pentagrama preto gravado com um símbolo de risco biológico rosa-choque.
Ela ergueu as duas mãos pequenas, apoiando as palmas nas próprias bochechas e arregalando os olhos numa expressão caricata de donzela indefesa de quadrinhos japoneses.
— Ooh… Meu Deus, o que é você?! — exclamou ela, a voz fina e melodramática ecoando pelas paredes abarrotadas de tralhas.
O sorriso calmo de Hotchkiss evaporou instantaneamente. A veia em sua testa saltou de irritação diante de tamanha teatralidade imbecil. O monitor hexagonal projetou uma sequência rápida de pontos de exclamação vermelhos.
— EU SOU O SEU MAIOR PESADELO, DESGRAÇA! — berrou o agente, perdendo completamente a compostura aristocrática.
Avançando com passadas rápidas, ele apontou Potchi diretamente para a cabeça da anomalia, engatilhando o mecanismo para obliterar o alvo de uma vez por todas. Porém, no instante em que o tiro ia se formar, um pingente roxo-pastel com uma estrela verde-clara, preso ao pescoço de Psycho-Kun por um cordão amarelo, começou a emanar uma pulsação ofuscante.
Uma barreira energética cintilante, dourada como ouro polido e adornada com caracteres incompreensíveis, materializou-se no ar entre os dois. A ponta de Potchi colidiu contra o campo de força e uma repulsão magnética violenta foi disparada em retorno.
Hotchkiss foi lançado para trás com força desproporcional. Suas pernas compridas tropeçaram nas pilhas de revistas e ele colidiu de costas contra uma estante abarrotada, caindo sentado no chão enquanto livros caíam sobre seus ombros.
— Mas que diabos?! — rosnou o agente, sacudindo a poeira do sobretudo escarlate e preto, o monitor hexagonal apitando em amarelo com alertas de impacto imprevisto. — Como foi que você conseguiu uma barreira dimensional dessa classe?! Onde arranjou isso?!
Ainda caída no chão, Psycho-Kun ajeitou os fios pretos e azulados com desdém sonhador, apontando para o amuleto em seu peito como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do universo.
— Ai, que grosseiro… Isso aqui é mercadoria oficial de colecionador de Akuma no Otto! É um omamori réplica escala um para um que a Setsuki-chan ganha no clímax do episódio seiscentos e setenta! Ele tem encantamento de ressonância espiritual que protege o usuário de qualquer—
Ela congelou no meio da frase. As palavras morreram em sua garganta escura e os olhos bicolores se fixaram detalhadamente na indumentária de Hotchkiss. A camisa branca impecável, a gravata vermelha, as lapelas bordadas, os losangos abertos nas botas e o canhão Potchi.
— Espera… — Psycho-Kun prendeu a respiração, as feições contorcendo-se em um êxtase quase religioso. — Você é… Você é um membro da P.P.F.?!
Hotchkiss franziu as sobrancelhas alinhadas, levantando-se com elegância fria enquanto sacudia a lapela do paletó.
— Sim, eu sou da Paranormal Purge Foundation — respondeu ele com a voz gélida e cortante. — Agora pare de tagarelar bobagens e me responda direito: de onde veio essa tecnologia de escudo? Quem forneceu isso para você?
Em vez de responder, Psycho-Kun soltou um suspiro agudo que parecia o guincho de uma chaleira fervendo. Ela juntou as mãos contra as bochechas novamente, seus dentes afiados à mostra em um sorriso largo e histérico, as bochechas pálidas tingindo-se subitamente de um rubor rosado evidente.
— Um membro da P.P.F.! — gritou ela com um tom dengoso, fazendo um biquinho exagerado com os lábios negros. — Um agente oficial de elite veio aqui nas sombras da noite só para capturar a sua gatinha kawaii~? Você veio me subjugar e me forçar a ir para as masmorras secretas da sua empresa, não é?!
Ela torceu a saia curta com as pontas dos dedos e soltou um gemido teatral:
— Sugoi~! Isso é tão… Tão excitante!
Hotchkiss estacou no lugar, a mandíbula quase caindo enquanto seu monitor hexagonal passava a exibir um ponto de interrogação estático e piscante.
— O quê? Por que você tá falando desse jeito? O que tem de errado com a sua cabeça?!
Foi nesse momento que os olhos amendoados de Marshall Hotchkiss finalmente se desviaram da garota para analisar com mais calma o ambiente do quarto, que até então parecia apenas uma lixeira comum. Ao inspecionar as paredes além das pilhas de mangá, sua expressão transformou-se em puro pavor e constrangimento.
As paredes não estavam apenas decoradas; estavam completamente forradas de fotografias. Centenas delas.
Fotos dele em missões passadas, tiradas de ângulos impossivelmente distantes. Fotos de vigilância com a borda recortada em formato de coração. Desenhos feitos à mão dele com roupas casuais constrangedoras, e até páginas impressas de fóruns de internet com títulos garrafais que diziam: "Diários de Purga: O Agente dos Meus Sonhos - Capítulo 48". Em quase todas as imagens de Hotchkiss, alguém havia usado canetinha marca-texto rosa para desenhar pequenos beijos e asas de anjo sobre seus chifres demoníacos.
A cauda de Hotchkiss eriçou-se inteira de repulsa.
— Mas que porra é essa nas suas paredes?! — berrou ele, dando dois passos hesitantes para trás. — Isso é perseguição em nível federal!
Psycho-Kun não pareceu se importar com a indignação dele. Ela se apoiou nos joelhos, inclinando o tronco para a frente de modo a exibir o decote largo do moletom com um ar supostamente sedutor.
— Diga-me seu nome, senhor agente misterioso… — pediu ela com um sussurro aveludado, piscando o olho com a pupila rosa. — Deixe-me ouvir dos seus próprios lábios antes que você me dome!
— Marshall Hotchkiss! — disparou ele automaticamente, acostumado ao protocolo de identificação da P.P.F., antes de se arrepender no mesmo milésimo de segundo. — Quer dizer, não interessa quem eu sou! Você é uma anomalia não registrada e—
— Marshall-kun… — ela gemeu o nome com uma entonação arrastada que soou como um miado doentio.
De repente, a garota levantou-se com movimentos deliberadamente desajeitados, tropeçando de propósito e esbarrando as costas com estrépito dramático contra outra prateleira cheia de bonequinhos de anime.
— Ahh~! — ela arqueou as costas, jogando a cabeça para trás de maneira absolutamente forçada. — E o que você vai fazer comigo agora, fala?! Marshall-kun~… O que o seu canhão vai disparar nessa pobre donzela indefesa?!
Hotchkiss não moveu um único músculo. Permaneceu com os braços abaixados, olhando para ela com uma mistura avassaladora de repulsa, choque e cansaço mental.
— Eu tô parado — disse ele em tom monótono. — Eu literalmente nem encostei em você.
— Ah, mas eu tô me sentindo tão estranha… Tão quente… — Ela colocou a mãozinha pálida sobre a testa, virando-se lentamente de costas para ele em uma pose clássica de heroína prestes a desmaiar. — V-você… Você colocou um feitiço hipnótico em mim, não colocou?! Um encanto proibido da P.P.F. para dobrar a minha vontade de anomalia?!
— Eu já disse que tô parado! — gritou Hotchkiss, os dentes trincados, sua cauda balançando irritada de um lado para o outro. — Ninguém usou feitiço nenhum! Eu nem sequer mexi um dedo desde que levantei do chão! Para com isso, sua louca!
Psycho-Kun soltou um suspiro entrecortado, fingindo fraqueza extrema nas pernas, e deixou-se cair de joelhos sobre o carpete mais uma vez.
— Ahh… Se é isso o que você realmente quer, mestre… — ela murmurou com a voz trêmula. Então, fez uma pausa dramática. Seus dedos prenderam uma das mechas azul-pastel de seu cabelo, girando-a ao redor do indicador enquanto inclinava o pescoço em um ângulo assustadoramente torto.
Quando voltou a abrir a boca, a tonalidade fina e estridente de sua voz desapareceu completamente, substituída por um tom gutural, grave, cavernoso e inacreditavelmente masculino que reverberou pelos cantos do quarto:
— Ou melhor… Senpai~!
O contraste da voz grossa com o corpinho miúdo e as roupas rosas fez com que o monitor hexagonal de Hotchkiss emitisse um zumbido agudo de curto-circuito, projetando um emoji de caveira por puro reflexo do pânico psicológico do agente.
— Que porra de voz foi essa?! — exclamou Hotchkiss, dando mais um passo em direção à janela aberta, sentindo que sua integridade mental estava correndo muito mais perigo do que sua integridade física.
Tão rápido quanto mudou, Psycho-Kun voltou a usar sua voz normal e fofa, soltando uma risadinha reprimida. Ela deitou-se de bruços sobre o chão bagunçado, arrastando os cotovelos pelo carpete em sua direção, rastejando feito uma lagarta obsessiva entre as folhas de papel e embalagens de salgadinho.
— Marshall-kun… Não fuja da sua gatinha… — dizia ela em um tom suplicante e teatral, erguendo a cabeça enquanto os olhos brilhavam na penumbra. — Meu coração sempre pertenceu aos homens cruéis da lei! Me prenda! Me algeme com as suas correntes de contenção de plasma e me leve para a sede! Eu prometo me comportar nos interrogatórios, desde que seja você a me interrogar no escuro~…
— Fica longe de mim! — gritou o agente, tropeçando nos próprios pés longos ao tentar manter distância do rastejo determinado da garota.
Potchi emitiu faíscas azuis, mas Hotchkiss sequer cogitou atirar; a ideia de acertar aquele amuleto de novo e ter que passar mais dez minutos ouvindo o resumo da sexta temporada daquele anime horrendo era insuportável demais para arriscar.
— Eu sou um homem casado! — berrou Hotchkiss, apontando desesperadamente para o anel em seu chifre e para o monitor no olho. — Você tá me ouvindo?! Eu sou casado com o Mister Barrel! Ele é gigante, ele tem um machado e ele esmagaria o seu crânio em dois segundos, sua aberração!
Psycho-Kun estacou o rastejo no meio do caminho, apoiando o queixo nas duas mãos espalmadas no chão, os olhos bicolores brilhando ainda mais com a nova informação.
— Casado com o Daniel F. Barrel…? — sussurrou ela, com a boca aberta em fascínio absoluto. — O lendário brutamontes do esquadrão pesado?! Um romance secreto entre agentes de elite nos corredores frios da purga… Oh meu Deus, isso é material canônico para mais quinhentas páginas no meu fórum!
— Não escreva nada! Não encoste no teclado! — Hotchkiss já estava com uma das pernas compridas apoiadas no peitoril da janela, a dignidade profissional em frangalhos enquanto o sobretudo balançava com o vento frio da noite. — A operação está abortada! Eu vou mandar o esquadrão de choque com lança-chamas para dedetizar essa casa inteira!
— Marshall-kun, espere! — Psycho-Kun ergueu o tronco rapidamente, esticando um braço melodramático em direção à janela enquanto colocava a outra mão sobre o peito, fingindo dor aguda. — Não quebre meu coração frágil de estudante delinquente! Me leve com você no seu abraço da morte~!
— Nem que me paguem o dobro do salário! — vociferou Hotchkiss antes de se lançar de costas pela janela aberta.
Ele caiu com agilidade na copa da árvore, saltou para a calçada e disparou em velocidade recorde pelas ruas desertas de North City Enigma, a cauda escarlate e preta abaixada em puro desespero enquanto digitava furiosamente no comunicador interno de seu visor.
Lá em cima, apoiada no parapeito da janela de rosa-choque e cercada por pedaços de sua pelúcia destruída, Psycho-Kun observava a silhueta graciosa do agente sumir na névoa, soltando um longo suspiro apaixonado.
— Ai, ai… — murmurou ela, ligando o filtro de linha com o dedão do pé e vendo a tela do computador acender novamente. — Tão tsundere… O Marshall-kun definitivamente me ama.
