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O contrato

Fandom: Mr.Blair

Criado: 26/09/2026

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RomanceDramaAngústiaPsicológicoHistória DomésticaEstudo de PersonagemSuspenseRealismoCiúmesNoirDor/Conforto
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O Contrato de Vidro e a Farsa do Coração

Leona Blair nunca soube o que era perder. Para ela, a vida era um tabuleiro de xadrez onde ela sempre jogava com as peças brancas e o primeiro movimento era invariavelmente um xeque-mate. Mas ali estava ela, diante da fachada imponente da Lovelace Enterprises, sentindo o gosto amargo da traição ainda fresco em sua garganta. A sociedade na Blair & Co., o império que ela ajudou a construir com sangue e falta de escrúpulos, havia sido roubada por aquele verme do Marcus.

Ela precisava de vingança. E a vingança atendia pelo nome de Arthur Lovelace, o maior concorrente de seu antigo mentor. Mas Arthur tinha uma condição: ele não contratava "tubarões sem alma". Ele queria alguém que inspirasse confiança, alguém com valores familiares. Em suma, ele queria uma Leona que não existia.

— Você está atrasada três minutos — disparou Leona, sem se virar para a mulher que acabara de estacionar o carro.

Christine Lovel respirou fundo, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela odiava aquele tom. Odiava a forma como Leona tratava o mundo como se fosse seu tapete particular. Mas as contas do hospital de sua mãe não se pagariam sozinhas, e o salário de assistente pessoal de uma tirana, por mais insuportável que fosse, era a única coisa que a mantinha fora do abismo.

— O trânsito na Quinta Avenida não respeita a sua agenda, Leona — respondeu Christine, saindo do carro e ajeitando o blazer. — E eu não sou sua motorista, sou sua assistente.

Leona finalmente se virou, os olhos gélidos como o inverno de Nova York.

— A partir de hoje, Christine, você será muito mais do que isso.

Christine franziu a testa, uma sensação de mau presságio subindo pela espinha.

— O que você quer dizer com isso?

— Arthur Lovelace me ofereceu o cargo de Diretora Executiva. É a minha chance de destruir o Marcus e retomar o que é meu — Leona começou a caminhar em direção ao saguão, seus saltos ecoando como tiros no mármore. — Mas ele tem uma obsessão arcaica por "estabilidade emocional". Ele acha que sou volátil demais. Ele quer ver uma mudança de vida. Da água para o vinho.

— E onde eu entro nisso? — perguntou Christine, apressando o passo para acompanhar a passada firme da chefe. — Vai me pedir para forjar um certificado de caridade?

Leona parou abruptamente diante do elevador e encarou a assistente. Havia um brilho perigoso em seu olhar, algo que Christine nunca tinha visto antes.

— Não. Eu vou provar que mudei me casando. E você, Christine, vai ser a minha noiva.

O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Christine abriu a boca, mas nenhum som saiu por alguns segundos. Ela soltou uma risada nervosa, esperando que Leona soltasse uma de suas raras e ácidas piadas. Mas o rosto da executiva permanecia uma máscara de seriedade absoluta.

— Você enlouqueceu — disse Christine, finalmente recuperando a voz. — Eu te desprezo. Você acha que a ética é um obstáculo opcional e trata as pessoas como descartáveis. Eu jamais aceitaria participar de uma farsa dessas.

— Eu vou triplicar o seu salário — interrompeu Leona, com a frieza de quem negocia um lote de ações. — E vou pagar integralmente o tratamento da sua mãe na Suíça.

Christine estacou. O golpe foi baixo, preciso e dolorosamente eficaz. Leona sabia exatamente onde apertar.

— Isso é chantagem — sussurrou Christine, o ódio faiscando em seus olhos castanhos.

— Isso é um negócio, Christine. Um contrato — Leona deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da assistente. O perfume caro de sândalo e ambição envolveu Christine. — Seis meses. Moraremos juntas, frequentaremos os jantares de Lovelace, convenceremos o mundo de que somos o casal do ano. Depois, nos divorciamos amigavelmente por "diferenças irreconciliáveis" e você nunca mais precisará trabalhar um dia sequer na vida.

— Por que eu? — Christine perguntou, a voz trêmula. — Você poderia contratar qualquer atriz da Broadway para isso.

— Porque Lovelace conhece você. Ele sabe que você é íntegra, quase irritantemente honesta — Leona deu um sorriso de lado, desprovido de qualquer calor. — Se alguém como você se apaixonou por mim, então eu devo ter realmente mudado. Você é a minha redenção aos olhos do mercado.

O elevador chegou. As portas se abriram, revelando o espelho que refletia as duas mulheres: uma, a imagem da frieza corporativa; a outra, o retrato do conflito moral.

— Temos um acordo? — perguntou Leona, estendendo a mão enluvada.

Christine olhou para aquela mão. Era a mão que assinava demissões sem piscar, mas também era a mão que segurava o seu futuro e a saúde de sua mãe. Com um suspiro que pareceu carregar o peso do mundo, ela apertou a mão de Leona.

— Eu vou me arrepender disso todos os dias da minha vida.

— Ótimo — respondeu Leona, puxando-a para dentro do elevador. — Agora, tente não parecer que está prestes a vomitar. Temos um jantar com o Arthur em duas horas e você precisa parecer "loucamente apaixonada".


O apartamento de Leona Blair era exatamente como ela: impecável, minimalista e frio. Não havia fotos nas paredes, apenas arte abstrata que parecia gritar por ordem. Christine carregava sua mala pequena, sentindo-se uma intrusa em um santuário de gelo.

— Você vai dormir na suíte de hóspedes — instruiu Leona, tirando o casaco de pele. — Mas suas coisas precisam estar espalhadas pelo meu quarto. Escovas de dentes juntas, seus cremes no meu balcão, algumas roupas no meu closet. O serviço de limpeza não pode suspeitar de nada.

— E como vamos explicar que nunca fomos vistas juntas em público como um casal antes? — perguntou Christine, jogando a mala no sofá de couro branco.

— Romance de escritório escondido — respondeu Leona, servindo-se de um uísque. — O clássico "não queríamos misturar o profissional com o pessoal até termos certeza". É clichê o suficiente para que as pessoas acreditem.

Christine caminhou até a janela, observando as luzes de Manhattan.

— Você realmente não tem limites, não é? Mentir para todos, usar a vida das pessoas como se fossem peças de um plano de marketing...

— A ética não constrói arranha-céus, Christine — Leona aproximou-se, o copo de cristal na mão. — Resultados constroem. E o resultado que eu quero é ver o Marcus na sarjeta. Se para isso eu preciso fingir que adoro o seu jeito certinho e o seu perfume de flores baratas, eu farei.

Christine virou-se bruscamente, ficando a poucos centímetros de Leona. A tensão entre as duas era quase palpável, uma eletricidade estática que fazia o ar vibrar.

— Não é perfume barato. É lavanda — corrigiu Christine, a voz baixa e carregada de desafio. — E se vamos fazer isso, existem regras.

— Regras? — Leona arqueou uma sobrancelha, divertida. — Eu sou a chefe aqui.

— No escritório, talvez. Mas nesta farsa, somos parceiras — Christine cruzou os braços. — Regra número um: nada de me humilhar em público ou no privado. Regra número dois: você vai ter que aprender a ser um ser humano, pelo menos na frente das câmeras. E regra número três...

— Diga — instigou Leona, dando um gole em sua bebida sem desviar os olhos dos lábios de Christine.

— Não toque em mim a menos que seja estritamente necessário para manter o disfarce.

Leona soltou uma risada curta e seca.

— Acredite, Christine, eu não tenho o menor interesse em tocar em você. Você é o oposto de tudo o que eu considero atraente em uma mulher. Você é... emocional demais.

— E você é um bloco de gelo — rebateu Christine. — Só espero que o aquecimento global não chegue a este apartamento, ou você vai acabar derretendo e não vai sobrar nada.

Leona estreitou os olhos. Ninguém falava com ela daquela forma. Ninguém ousava desafiá-la. Havia algo na insolência de Christine que, embora a irritasse profundamente, também despertava uma curiosidade perigosa.

— Prepare-se — disse Leona, virando as costas. — O carro para o jantar chega em trinta minutos. E Christine?

A assistente parou na porta do quarto.

— Use o vestido vermelho que deixei na sua cama. Quero que Arthur Lovelace veja exatamente por que eu "perdi a cabeça" por você.


O restaurante era um dos mais exclusivos de Soho, o tipo de lugar onde o menu não tinha preços e a discrição era a moeda principal. Arthur Lovelace já as esperava, um homem de cabelos brancos e olhar perspicaz que parecia ler a alma de qualquer um.

— Leona, minha cara — disse Arthur, levantando-se para beijar a mão da executiva. — E esta deve ser a famosa Christine.

Leona mudou instantaneamente. Seus ombros relaxaram, um sorriso suave — e assustadoramente convincente — surgiu em seu rosto. Ela envolveu a cintura de Christine com o braço, puxando-a para perto.

— Sim, Arthur. Esta é a mulher que conseguiu o impossível: me fazer esquecer o trabalho nos fins de semana — mentiu Leona, sua voz soando como seda.

Christine sentiu o calor da mão de Leona em sua cintura. A pele da executiva, mesmo através do tecido do vestido, parecia queimar. Ela forçou um sorriso, olhando para Leona com o que esperava ser adoração, mas que provavelmente parecia apenas um leve torcicolo.

— É um prazer, Sr. Lovelace — disse Christine. — Leona fala muito do senhor.

— Só coisas boas, espero — Arthur riu, gesticulando para que se sentassem. — Devo confessar, Leona, que fiquei surpreso. Sempre achei que você era casada com a sua planilha de lucros. Ver você assim, tão... radiante, me dá confiança.

— A vida tem formas curiosas de nos mostrar o que realmente importa — disse Leona, e para o horror de Christine, ela entrelaçou seus dedos sobre a mesa.

A mão de Leona era firme, mas seus dedos começaram a acariciar o dorso da mão de Christine de forma lenta, quase hipnótica. Christine sentiu um arrepio percorrer sua espinha que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do restaurante.

— E como foi o pedido de casamento? — perguntou Arthur, inclinado para a frente, genuinamente interessado. — Sou um romântico incurável, sabem?

Christine entrou em pânico. Elas não tinham combinado aquela parte da história. Ela olhou para Leona, esperando que a mentirosa profissional assumisse o controle, mas Leona apenas sorriu para ela, como se a estivesse encorajando a falar.

— Foi... em Central Park — começou Christine, a voz ganhando força conforme a mentira se formava. — Estava nevando. Leona me levou até a ponte Bow e, entre uma reclamação sobre o preço das ações e outra, ela simplesmente se ajoelhou. Ela disse que não conseguia imaginar um futuro onde eu não estivesse corrigindo os erros dela.

Leona apertou levemente a mão de Christine, um sinal silencioso de aprovação.

— Eu estava sendo pragmática — interrompeu Leona, olhando nos olhos de Christine com uma intensidade que fez o coração da assistente errar uma batida. — Percebi que minha vida era um caos organizado, e que Christine era a única pessoa capaz de trazer a desordem que eu precisava para ser feliz.

Houve um momento de silêncio na mesa. Arthur parecia encantado. Christine, por outro lado, sentia-se em um campo minado. As palavras de Leona soavam tão reais, tão carregadas de uma emoção simulada, que ela começou a se perguntar onde terminava a executiva tirana e onde começava a atriz premiada.

— Fantástico — exclamou Arthur. — Bem, se vocês sobreviverem ao planejamento de um casamento, sobreviverão a qualquer fusão de empresas. O cargo é seu, Leona. Mas quero vocês duas no meu jantar de gala no próximo mês. Como noivas oficiais.

— Estaremos lá, Arthur — garantiu Leona.

O restante do jantar foi um borrão de risadas falsas e toques calculados. Quando finalmente entraram no carro para voltar ao apartamento, a máscara de Leona caiu no mesmo instante em que a porta se fechou.

— Você foi bem na história da ponte — disse Leona, soltando a mão de Christine como se ela estivesse pegando fogo. — Um pouco dramático demais, mas ele engoliu.

Christine sentiu um vazio súbito onde a mão de Leona estivera momentos antes. O contraste entre o carinho fingido e a frieza imediata era desconcertante.

— Eu fiz o que tinha que fazer pelo contrato — respondeu Christine, olhando pela janela. — Mas não se acostume. Aquilo foi uma performance.

— É claro que foi — disse Leona, embora houvesse uma nota estranha em sua voz. — Tudo é uma performance, Christine. A única diferença é que agora temos um público.

Ao chegarem ao apartamento, o silêncio retornou. Christine caminhou em direção ao quarto de hóspedes, mas parou no corredor.

— Leona?

A executiva, que estava prestes a entrar em seu próprio quarto, parou.

— O que foi?

— Por que você disse aquilo? Sobre eu ser a "desordem" que você precisava? Não estava no roteiro.

Leona ficou de costas para ela por um longo tempo. Quando se virou, a luz do corredor iluminava apenas metade de seu rosto, deixando o resto em sombras.

— Porque para mentir bem, Christine, você precisa usar um pouco da verdade. E a verdade é que, desde que você entrou na minha vida, nada tem sido tão controlado quanto eu gostaria.

Sem esperar por uma resposta, Leona entrou no quarto e fechou a porta.

Christine ficou parada no corredor escuro, o coração batendo forte contra as costelas. Ela odiava Leona Blair. Odiava sua arrogância, seu egoísmo e sua falta de coração. Mas, enquanto caminhava para sua cama solitária, ela não conseguia parar de pensar no calor da mão de Leona contra a sua e na forma como, por um breve e aterrorizante segundo no restaurante, ela desejou que a mentira fosse verdade.

As faíscas tinham começado. E Christine temia que, antes dos seis meses acabarem, elas incendiassem todo o castelo de cartas que haviam construído.

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