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Amor em jogo

Fandom: Fanfic

Criado: 26/09/2026

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Entre o Couro e o Cetim

O ronco da Ducati preta de Amber era um som que a universidade inteira reconhecia. Quando ela estacionava na vaga de sempre, perto do ginásio, o mundo parecia desacelerar. Ela desceu da moto com a fluidez de quem nasceu sobre duas rodas, retirando o capacete e sacudindo os fios curtos e escuros. Vestia sua armadura habitual: coturnos gastos, uma calça jeans preta rasgada nos joelhos e uma jaqueta de couro que exalava o cheiro de asfalto e liberdade.

Do outro lado do pátio, Karen era o flash de cor em um mar de uniformes cinzas. A saia plissada rosa da liderança de torcida balançava conforme ela caminhava, cercada por suas amigas que discutiam a última tendência da Vogue. Ela era a "princesinha" do campus, a garota cujos sorrisos eram distribuídos como prêmios e cuja risada soava como sinos de cristal.

Amber caminhou em direção à entrada, tentando manter a expressão neutra e o olhar gélido que afastava curiosos. Mas, ao passar pelo grupo de Karen, sentiu um toque suave no braço.

— Bom dia, Amberzinha. — A voz de Karen era doce, carregada de uma malícia que só as duas conheciam. — Dormiu bem? Ou sentiu falta de algo... macio no seu travesseiro?

Amber parou, sentindo o calor subir pelo pescoço, embora seu rosto permanecesse uma máscara de indiferença.

— Dormi como um anjo, Karen. — Amber inclinou-se levemente, o tom de voz baixando para um registro que apenas a loira ouviria. — Mas o meu lençol ainda está com cheiro de baunilha e gloss de morango. Difícil de ignorar.

Karen soltou uma risadinha, passando a ponta dos dedos pela gola da jaqueta de Amber, um gesto que parecia casual para quem via de longe, mas que era uma provocação deliberada.

— Que coincidência. — Karen piscou. — Talvez eu precise ir buscar meu perfume de volta hoje à noite.

— Karen! Vamos, o treino vai começar! — O grito veio de Kain, que atravessava o pátio com a bola de basquete debaixo do braço.

Kain era a imagem cuspida da irmã, mas em uma versão atlética e protetora. Ele era o melhor amigo de Amber desde a infância, o cara que dividiu com ela o primeiro cigarro e a primeira queda de moto. Ele se aproximou, dando um soco amigável no ombro de Amber.

— E aí, Amber? Vai ver o treino hoje? — perguntou Kain, alheio à eletricidade que ainda pairava entre as duas mulheres.

— Talvez, se eu não tiver nada melhor para fazer — respondeu Amber, ajeitando a mochila.

— Ela vai sim, maninho — interrompeu Karen, com um sorriso radiante. — Ela adora ver o time... ou pelo menos uma parte específica dele.

Amber lançou um olhar de aviso para Karen, que apenas deu de ombros, triunfante, antes de se afastar saltitante em direção ao ginásio.

— Minha irmã é uma peça, né? — Kain riu, começando a andar ao lado de Amber. — Às vezes acho que ela te aluga demais. Se ela te encher o saco, me avisa.

— Ela não enche, Kain. Tá tudo sob controle — mentiu Amber, sentindo o peso do segredo esmagar seu peito.

Dar uma chance ao que sentia por Karen fora a decisão mais assustadora da vida de Amber. Por meses, ela resistiu. Karen era a irmã do seu melhor amigo. Karen era uma patricinha que vivia sob os holofotes. Amber era a badboy desfem que preferia a sombra. Mas Karen era persistente. Ela começou com "esbarrões" acidentais nos corredores, comentários de duplo sentido durante os jantares na casa dos pais dela e, finalmente, a invasão silenciosa do quarto de Amber no meio da noite.

Agora, elas viviam esse paradoxo. Durante o dia, Amber era a segurança silenciosa e Karen era a estrela inalcançável. À noite, entre quatro paredes, as posições se invertiam e as máscaras caíam.

O problema, no entanto, não era o segredo em si, mas o que vinha com a popularidade de Karen.

No ginásio, o treino estava a todo vapor. Amber sentou-se na última fileira da arquibancada, tentando se concentrar em um livro, mas seus olhos sempre fugiam para a quadra. Karen estava lá, liderando a coreografia com uma energia contagiante.

— Cara, a Karen está cada dia mais gata, não acha? — Um dos reservas do time de basquete comentou alto o suficiente para Amber ouvir.

— Com certeza. Eu daria tudo por uma noite com a princesinha. Imagina o que ela faz com aquelas pernas — respondeu outro, soltando um assobio baixo quando Karen fez um salto.

Amber sentiu o sangue ferver. Suas mãos fecharam-se em punhos sobre o livro. Ela odiava aquilo. Odiava o modo como os amigos de Kain olhavam para Karen como se ela fosse um troféu, e odiava ainda mais o fato de que ela não podia simplesmente descer lá, puxar Karen pela cintura e marcar seu território diante de todos.

Karen, percebendo a tensão de Amber de longe, tentou lançar um olhar reconfortante, mas foi interrompida por um dos jogadores que se aproximou dela durante a pausa, passando o braço pelo seu ombro de forma possessiva.

— E aí, Karen, vai na festa na fraternidade hoje? — perguntou o rapaz, um tal de Tyler, que sempre tentava a sorte. — Eu posso te dar uma carona no meu conversível. Bem melhor que andar de moto por aí.

Karen riu, tentando se desvencilhar educadamente.

— Obrigada, Tyler, mas eu já tenho meus planos.

— Ah, qual é? Deixa de ser difícil. A gente sabe que você adora uma atenção.

Amber não aguentou. Ela levantou-se bruscamente, o som de seus coturnos batendo na madeira da arquibancada ecoando como tiros. Sem dizer uma palavra, ela saiu do ginásio, sentindo a raiva borbulhar.

Ela passou o resto da tarde na oficina, descontando sua frustração em um motor velho. O cheiro de graxa e óleo costumava acalmá-la, mas hoje nada funcionava. O ciúme era uma fera que ela não sabia domar.

Quando a noite caiu, Amber estava em seu quarto, a luz apagada, apenas a claridade da lua entrando pela janela. Ela ouviu o som familiar da janela sendo aberta. Karen entrou, vestindo um robe de seda rosa por cima do pijama, o cabelo loiro um pouco bagunçado.

— Amber? Por que você saiu daquele jeito? — perguntou Karen, aproximando-se da cama.

Amber não respondeu. Ela estava sentada na borda da cama, os braços cruzados.

— Amber, fala comigo.

— Por que você não foi com o Tyler no conversível dele? — A voz de Amber saiu rouca, carregada de sarcasmo. — Parece que ele é mais o seu tipo. Alguém que você pode exibir para os amigos do seu irmão.

Karen suspirou, sentando-se ao lado dela.

— Você sabe que eu não ligo para o Tyler. Eu não ligo para nenhum deles.

— Mas eles ligam para você! — Amber explodiu, levantando-se. — Eles te olham como se você fosse um pedaço de carne. E o pior é que eu tenho que ficar lá, sentada, ouvindo cada comentário nojento, enquanto o seu irmão ri com eles. Eu me sinto uma idiota, Karen.

— Você não é uma idiota. Você é a minha namorada — disse Karen, a voz firme apesar da doçura habitual.

— Namorada? — Amber riu amargamente. — Ninguém sabe disso. Para o mundo, eu sou só a amiga esquisita do seu irmão que pilota moto. E você é a patricinha perfeita que está sempre disponível para o próximo capitão do time.

Karen levantou-se e caminhou até Amber, encurtando a distância entre elas. Ela colocou as mãos pequenas no peito da jaqueta de couro que Amber ainda usava.

— Eu não estou disponível. Eu sou sua. Todo mundo que importa sabe disso.

— O Kain não sabe. E ele é quem mais importa para mim nessa história toda.

— O Kain é um tonto, Amber. Ele aceitaria a gente se soubesse, mas eu sei que você tem medo de perder a amizade dele. E eu respeito isso. Mas não desconte em mim o fato de eu ser popular. Eu não pedi para aqueles caras serem idiotas.

Amber olhou para baixo, encontrando os olhos azuis de Karen, que brilhavam com uma mistura de carinho e irritação.

— Eu odeio ficar sem falar com você — admitiu Amber, a voz falhando. — Mas ver aqueles caras dando em cima de você... me faz sentir que eu não sou o suficiente. Que uma hora você vai perceber que prefere o conversível e o status.

Karen puxou Amber pelo colarinho, forçando-a a se inclinar até que seus lábios estivessem a milímetros de distância.

— Escuta aqui, sua badboy de araque — sussurrou Karen. — Eu passo o dia inteiro sendo a boneca de todo mundo. Eu falo de moda, eu sorrio para as fotos, eu aguento aqueles babacas. Mas eu faço tudo isso porque sei que, no fim do dia, é na sua moto que eu vou subir. É o seu couro que eu vou abraçar. E é na sua cama que eu vou ser eu mesma.

Amber sentiu a tensão deixar seu corpo. Ela envolveu a cintura de Karen com os braços, puxando-a para perto.

— Você é muito irritante, sabe disso? — resmungou Amber.

— E você é louca por mim — rebateu Karen, selando seus lábios nos dela em um beijo profundo, que misturava a urgência da saudade com a doçura da reconciliação.

O beijo foi se tornando mais intenso. Amber conduziu Karen de volta para a cama, o contraste entre o couro preto e o cetim rosa criando uma imagem que era a definição da relação delas.

— Promete que não vai mais me ignorar por causa daqueles idiotas? — pediu Karen, entre beijos no pescoço de Amber.

— Vou tentar — respondeu Amber, sentindo as mãos de Karen percorrerem suas costas. — Mas se o Tyler chegar perto de você de novo, eu não respondo por mim.

— Deixa ele — Karen riu, desabotoando a jaqueta de Amber. — Ele não tem nem metade da pegada que você tem.

A noite seguiu seu curso natural. Ali, no refúgio do quarto escuro, não havia líderes de torcida ou mecânicas solitárias. Havia apenas duas garotas descobrindo que os opostos não apenas se atraem, eles se completam de formas que o resto do mundo jamais entenderia.

No dia seguinte, a rotina recomeçaria. Amber voltaria para sua moto e seu silêncio. Karen voltaria para seus pompons e seu brilho. Mas, enquanto cruzavam o pátio, um breve olhar trocado, um ajuste quase imperceptível no colar de Karen que Amber havia dado a ela secretamente, era o suficiente para manter o fogo aceso.

Kain, passando por elas com o time, gritou:

— Ei, Amber! Vai levar a Karen em casa hoje? O carro do papai quebrou.

Amber olhou para Karen, que deu um sorriso travesso.

— Claro, Kain — respondeu Amber, montando na Ducati. — Eu cuido dela.

— Valeu, cara! Você é a melhor! — gritou Kain, seguindo para o treino.

Karen subiu na garupa, colando o corpo ao de Amber e passando os braços firmemente em volta de sua cintura.

— Viu só? — sussurrou Karen no ouvido de Amber, por baixo do capacete. — Ele confia em você.

— Mal sabe ele — Amber deu partida no motor, sentindo a vibração poderosa entre suas pernas.

— Ele não precisa saber de tudo — disse Karen. — Algumas coisas são melhores quando são só nossas.

Amber acelerou, deixando para trás o ginásio, os jogadores e as expectativas. Naquele momento, na estrada aberta, com o vento batendo e Karen agarrada a ela, Amber sabia que não importava o quanto o mundo tentasse rotulá-las. Elas eram o seu próprio universo, um lugar onde o rosa e o preto se fundiam em uma cor que só elas podiam ver. E, enquanto estivessem juntas, o resto era apenas ruído de fundo.

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