
Eu não queria amar você
Fandom: Romance
Criado: 27/09/2026
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Redes e Algoritmos: O Caos Encontra a Calmaria
O sol da tarde batia implacável sobre o campus da Universidade Federal, fazendo o asfalto brilhar com aquele mormaço típico de início de semestre. Samuel ajeitou a mochila surrada no ombro, sentindo o suor escorrer pela nuca. Seu cabelo liso, naturalmente bagunçado, parecia ter vida própria naquele dia, mas ele não se importava. O sorriso em seu rosto era largo o suficiente para iluminar um corredor inteiro. Ele finalmente estava ali. Engenharia de Pesca não era exatamente o curso que as pessoas esperavam de um gênio da matemática vindo da periferia, mas Samuel amava a ideia de estar perto da água, de entender a biologia e a tecnologia por trás da sustentabilidade.
— Se você sorrir mais um pouco, a mandíbula vai travar, Sam — brincou Gaby, ajustando os óculos de grau que insistiam em escorregar pelo nariz.
Gaby era uma explosão de energia e cachos. Ela e Ryana, que caminhava silenciosamente ao lado deles, cursavam Engenharia de Software e haviam adotado Samuel desde o primeiro dia de matrícula.
— Deixa ele, Gaby — Ryana disse, com sua voz suave e a calma de quem parecia estar sempre em meditação. — O Samuel é o único calouro que eu conheço que realmente parece feliz por ter cinco disciplinas de cálculo no primeiro semestre.
— É que vocês não entendem a beleza da coisa! — Samuel exclamou, soltando uma daquelas risadas altas e peculiares que faziam as pessoas ao redor olharem e, inevitavelmente, sorrirem junto. — É sobre o desafio. E sobre o fato de que, se tudo der errado, eu posso morar num barco e viver de peixe.
— Você é um idiota — Gaby riu, empurrando-o de leve.
Eles atravessavam a praça central, um reduto de estudantes de exatas, quando o som característico de rodas de poliuretano batendo no concreto seco ecoou. Samuel parou de falar abruptamente quando um vulto passou em alta velocidade entre ele e as meninas.
O skatista executou um ollie perfeito sobre um banco de cimento, aterrissando com uma precisão que parecia desafiar a gravidade. Ele deslizou mais alguns metros antes de frear bruscamente, fazendo a prancha levantar para que ele a segurasse com uma mão só.
Samuel piscou, momentaneamente irritado pela quase colisão, mas o que viu o deixou mudo. O rapaz era alto, de pele morena e ombros largos que ficavam evidentes sob a camiseta de algodão premium. O cabelo cacheado estava perfeitamente desarrumado, e ele usava óculos de armação fina que lhe davam um ar intelectual, contrastando com a aura de "bad boy" do skate.
— Ei! — Samuel gritou, recuperando a voz. — A calçada é para pedestres, sabia? Quase levou a Gaby junto!
O skatista virou-se lentamente. Seus olhos castanhos eram profundos e carregavam uma expressão de tédio absoluto. Ele mediu Samuel de cima a baixo, notando a camiseta desbotada e os tênis gastos do rapaz de Engenharia de Pesca.
— O espaço é público — disse Nycollas, sua voz era um barítono calmo, mas carregado de uma arrogância que fez o sangue de Samuel ferver. — Se você estivesse prestando atenção no caminho em vez de rir como um hiena, teria me visto.
— Como é que é? — Samuel deu um passo à frente, o estresse começando a borbulhar sob sua fachada divertida. — Eu sou inteligente o suficiente para saber que velocidade e massa em um lugar apertado resultam em acidente. Ou será que você precisa que eu desenhe a equação de física para você?
Nycollas deu um meio sorriso, algo que parecia mais um insulto do que um gesto de simpatia.
— Eu curso Ciências da Computação, garoto. Eu escrevo os algoritmos que simulam as leis da física que você ainda está tentando entender nos livros. Tenta não ficar no meu caminho da próxima vez.
Sem esperar resposta, Nycollas jogou o skate no chão e saiu deslizando, deixando para trás um rastro de perfume caro e uma indignação palpável.
— Que cara babaca! — Samuel exclamou, gesticulando freneticamente. — Quem ele pensa que é? O dono do asfalto?
— Aquele — Ryana disse, suspirando — é o Nycollas. Ele é brilhante, dizem que é o melhor da Computação em anos. E, infelizmente, ele é podre de rico e sabe o quanto é bonito.
— Atraente e arrogante, a pior combinação — completou Gaby, embora seus olhos ainda estivessem na direção por onde o skatista sumira. — Mas esquece ele, Sam. Vamos, o Lopes está esperando a gente no C.A.
Lopes era o porto seguro de Samuel. Amigos desde a infância, eles haviam crescido na mesma rua, dividindo lanches e sonhos. Lopes, com seu bigode que ele jurava ser charmoso e seu senso de humor rápido, cursava Administração, mas passava mais tempo no prédio da engenharia do que no seu próprio.
Quando o trio entrou na sala do Centro Acadêmico, Lopes saltou do sofá rasgado.
— Sam! Achei que você tinha sido engolido por um tubarão imaginário naquela aula de introdução à pesca — Lopes disse, abraçando o amigo com uma força que quase o tirou do chão.
— Quase fui atropelado por um ego em cima de um skate, isso sim — resmungou Samuel, sentando-se em uma cadeira de plástico.
— Deixa eu adivinhar... Nycollas? — Lopes perguntou, e por um breve segundo, seu olhar sobre Samuel foi intenso demais, carregado de algo que Samuel, em sua eterna distração, nunca conseguia nomear. — Aquele cara é um pé no saco. Mas esquece ele, cara. Eu trouxe coxinha.
— Coxinha resolve tudo — Samuel sorriu, a irritação começando a dissipar.
A semana seguiu seu curso, mas parecia que o universo estava determinado a cruzar os caminhos de Samuel e Nycollas. Seja na fila do Restaurante Universitário ou na biblioteca, Samuel sempre sentia a presença do skatista.
Na quinta-feira, Samuel estava na biblioteca, cercado por diagramas de redes de pesca e cálculos de hidrodinâmica. Ele estava concentrado, os óculos (que ele só usava para ler) escorregando, o cabelo mais bagunçado que o normal pelo hábito de passar as mãos nele quando estava estressado.
— A resistência do fluido está errada nessa parte.
Samuel deu um pulo na cadeira. Nycollas estava em pé atrás dele, segurando um livro grosso sobre inteligência artificial.
— O que você está fazendo aqui? Me perseguindo? — Samuel perguntou, fechando o caderno.
— É uma biblioteca, gênio. E eu não pude evitar ver que você está usando a constante errada para a viscosidade da água salgada — Nycollas disse, encostando-se na mesa com uma elegância irritante.
— Eu sei o que estou fazendo — rebateu Samuel, embora soubesse que, no fundo, Nycollas tinha razão. — Por que você não vai programar um robô para ter educação no seu lugar?
Nycollas soltou uma risada curta, seca.
— Você é engraçado, Samuel. Estressadinho, mas inteligente. É uma pena que gaste seu cérebro com... peixes.
— É Engenharia de Pesca! É sobre alimentar o mundo de forma sustentável, seu riquinho alienado! — O tom de voz de Samuel subiu, atraindo olhares de reprovação da bibliotecária.
— Silêncio! — a mulher sussurrou com severidade.
Nycollas se inclinou para frente, ficando a poucos centímetros do rosto de Samuel. O cheiro de menta e algo amadeirado envolveu o rapaz mais novo.
— A gente se vê por aí, Engenheiro — Nycollas sussurrou, com um brilho desafiador nos olhos antes de se afastar.
Samuel ficou parado, o coração batendo mais rápido do que deveria. Ele odiava aquele cara. Tinha certeza disso. O problema era que, toda vez que Nycollas aparecia, o mundo parecia ganhar uma nitidez irritante e eletrizante.
— Cara, você está vermelho — Lopes apareceu do nada, observando a saída de Nycollas com um semblante fechado. — O que ele queria?
— Só me irritar, como sempre — Samuel suspirou, tentando focar nos números à sua frente. — Ele é só um idiota com muito dinheiro e tempo livre.
— É... — Lopes murmurou, sentando-se ao lado dele. — Mas toma cuidado, Sam. Pessoas como ele... elas costumam quebrar o que não conseguem entender.
Samuel olhou para o amigo, notando a seriedade incomum no rosto de Lopes.
— Relaxa, Lopes. Ninguém vai quebrar nada. Eu sou duro na queda, você sabe.
No final daquela tarde, Gaby e Ryana arrastaram Samuel para um evento no pátio. Havia música, skatistas fazendo manobras e uma mistura de todos os cursos.
— Olha lá — Gaby apontou. — O Nycollas está fazendo um desafio de manobras.
Samuel tentou não olhar, mas foi impossível. Nycollas estava sem os óculos agora, o suor fazendo sua pele brilhar sob as luzes do pátio. Ele parecia outra pessoa quando estava em cima do skate: calmo, focado, quase em transe. Quando ele finalizou uma sequência complexa, a multidão aplaudiu.
Ele desceu do skate e, como se tivesse um radar, seus olhos encontraram os de Samuel na multidão. Nycollas não desviou o olhar. Ele caminhou em direção ao grupo, ignorando as garotas que tentavam chamar sua atenção.
— E aí, Pesca? — Nycollas parou na frente de Samuel. — Veio ver como se faz algo com precisão?
— Vim ver se você caía de cara no chão, para ser sincero — Samuel respondeu, cruzando os braços, mas um sorriso involuntário brincava no canto de sua boca.
— Você é péssimo mentiroso — Nycollas deu um passo para mais perto. — Você estava gostando.
— Talvez da parte técnica — Samuel admitiu, a voz falhando levemente. — A física envolvida é... interessante.
— Só a física? — Nycollas arqueou uma sobrancelha, um tom mais suave surgindo em sua voz, perdendo um pouco daquela arrogância defensiva.
Gaby e Ryana trocaram olhares significativos. Lopes, que estava logo atrás, apertou a alça da mochila, o maxilar tenso.
— Eu... eu tenho que ir — Samuel disse subitamente, sentindo o ambiente ficar quente demais. — Tenho um relatório para entregar.
— A gente se vê na segunda, Samuel — Nycollas disse, e dessa vez não soou como uma ameaça ou um deboche. Soou como uma promessa.
Enquanto Samuel se afastava, quase tropeçando nos próprios pés, ele ouviu a risada de Gaby atrás dele.
— Sam, você está em apuros — ela gritou.
Samuel não respondeu. Ele estava ocupado demais tentando entender por que, pela primeira vez na vida, a matemática não conseguia explicar a aceleração súbita do seu próprio coração. Ele era um rapaz pobre, bolsista, que cheirava a maresia e livros usados. Nycollas era o herdeiro da tecnologia, cercado de luxo e desdém.
Em teoria, a conta não fechava. Mas Samuel sempre fora bom em resolver problemas complexos, e algo lhe dizia que aquele semestre seria a lição mais difícil de sua vida.
Ao chegar no portão da universidade, Lopes o alcançou.
— Sam, espera!
Samuel parou e olhou para o amigo de infância. Lopes parecia querer dizer algo importante, algo que estava guardado há anos, desde as tardes brincando na rua de terra.
— O que foi, Lopes?
Lopes olhou para os pés, depois para Samuel. O bigode se moveu quando ele forçou um sorriso.
— Nada... só... não esquece quem sempre esteve aqui, tá? Aquele cara... ele não é do nosso mundo.
Samuel sentiu um aperto no peito. Ele tocou o ombro de Lopes.
— Eu sei, cara. Eu sei.
Mas, enquanto caminhava para o ponto de ônibus, a imagem que permanecia em sua mente não era a do conforto da infância com Lopes, nem a dos algoritmos de Gaby. Era a imagem de um skatista arrogante, de óculos, que parecia ter decifrado o código secreto do interesse de Samuel sem sequer tentar.
O caos de Samuel tinha acabado de encontrar a calmaria calculada de Nycollas, e a colisão era inevitável.
