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nos somos aqueles caras

Fandom: aqueles caras

Criado: 27/09/2026

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RomanceFatias de VidaHumorEstudo de PersonagemCiúmesCenário CanônicoFilme de Amigos
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Primeira Rodada

O calor do início de janeiro no Rio de Janeiro parecia derreter o asfalto do lado de fora, mas dentro do estúdio o ar-condicionado trabalhava no limite, soprando uma brisa gelada sobre os cabos espalhados pelo chão de cimento queimado. O espaço tinha a bagunça típica de um set de gravação movimentado: refletores em tripés altos, câmeras já posicionadas em semi-círculo, garrafas d’água pela metade e uma mesa de canto forrada com café frio e restos de biscoitos.

Bruna ajustou a alça da bolsa pequena no ombro antes de empurrar a porta de vidro fosco. Usava uma calça jeans de cintura alta que desenhava perfeitamente sua silhueta, um cropped preto simples de alcinha fina que valorizava o colo e um tênis casual. Seus cachos escuros e volumosos tinham aquele movimento solto e natural, caindo pelos ombros e emoldurando um rosto delicado de maçãs levemente coradas pelo sol da praia do dia anterior. Ela não precisava de exageros; sua presença se impunha no instante em que pisava em qualquer recinto.

— Bom dia, pessoal — disse ela, com a voz firme, clara, acompanhada por um sorriso espontâneo que quebrou de imediato o ar sério da sala.

Beltrão foi o primeiro a se virar. Com sua barba cheia, armação de óculos grossa e a costumeira camiseta larga, ele limpou as mãos na calça e abriu um sorriso acolhedor, quase paternal.

— Olha ela aí! Seja bem-vinda, Bruna — disse Beltrão, adiantando-se com passos tranquilos para estender a mão e puxá-la para um abraço rápido e respeitoso. — Conseguiu chegar sem se perder no trânsito da Barra?

— Foi tranquilo, Beltrão. O trânsito do Rio assusta no começo, mas já estou me acostumando — respondeu ela, sorrindo com os olhos atentos.

Logo atrás dele, Maciel surgiu segurando um copo plástico com café, os olhos brilhando com uma energia contagiante.

— Pô, até que enfim uma presença feminina pra elevar o nível intelectual desse grupo aqui — brincou Maciel, rindo alto e estendendo a mão para cumprimentá-la. — Prazer, Bruna! Tava na hora de trazerem alguém que sabe articular uma frase inteira sem gaguejar.

Bruna riu com vontade, achando graça imediata no jeito aberto e descontraído dele.

— Prazer, Maciel. Mas não eleva tanto a expectativa, senão a pressão cai toda em cima de mim.

— Que nada, a gente já percebeu de longe que tu aguenta o tranco — devolveu Maciel, apontando com a cabeça para o fundo da sala.

Sentado em uma poltrona gasta, com as pernas esticadas e um boné virado para trás sobre os cabelos escuros e bagunçados, Chico Moedas assistia à cena em silêncio. Ele rodava um isqueiro entre os dedos, com uma postura quase preguiçosa, mas os olhos atentos não perdiam um único detalhe. Reparou na segurança com que ela caminhava, na curvatura suave da cintura, na forma como o riso iluminava seu rosto sem parecer ensaiado.

Quando Bruna virou o rosto na direção dele, os olhares se cruzaram. Em vez de desviar com timidez, ela manteve o contato visual, erguendo discretamente uma das sobrancelhas. Chico soltou o ar pelo nariz, curvando o canto dos lábios em seu clássico sorriso de lado — aquele de quem acabara de encontrar um desafio interessante.

Ele se levantou devagar, guardou o isqueiro no bolso da calça larga e caminhou até ela.

— E aí, Bruna. Tranquila? — A voz dele saiu naquele tom rouco, arrastado e tipicamente carioca, carregado de uma calma provocadora.

— Tranquila — respondeu ela, sustentando a aproximação dele com uma serenidade inabalável. — E você, Chico? Pronto pra ser desmascarado hoje ou vai fingir que entende de motel?

O silêncio caiu no estúdio por uma fração de segundo. Maciel soltou uma gargalhada escandalosa, e Beltrão deu uma risadinha baixa, ajeitando os óculos no nariz com a expressão de quem já aprovava a recém-chegada.

Chico deu meio passo para trás, surpreso pela resposta afiada logo de cara. Ele cruzou os braços sobre o peito, os olhos vivos brilhando com uma curiosidade evidente.

— Pô, cheia de marra, né? Chegou agora do Sul e já quer dar aula de malandragem carioca pra cima de mim? — rebateu ele, inclinando a cabeça de lado com aquele sorriso que costumava desarmar qualquer um.

Bruna apenas inclinou levemente o rosto, devolvendo um sorriso de canto milimetricamente calculado, que deixava explícito que ela sabia exatamente o que estava fazendo.

— Malandragem a gente não aprende pelo CEP, Chico. A gente nasce sabendo. Você vai ver na gravação.

— Quero só ver — murmurou Chico, pigarreando de leve, sem conseguir esconder o fascínio diante daquela postura firme.

— Todo mundo nos seus lugares! — gritou o produtor da mesa técnica. — Cinco minutos pra rodar! Convidada no meio, Beltrão na ponta, Maciel e Chico do outro lado!

Maciel puxou a banqueta ao lado de Bruna para que ela se acomodasse melhor.

— Senta aqui, Bruna. Deixa o Chico ali na ponta ruminando a resposta que ele não conseguiu dar.

— Falou o especialista em apanhar de graça — retrucou Chico, mas o olhar dele se fixou no gesto de Maciel, cerrando os olhos de maneira quase imperceptível.

Havia um incômodo sutil, uma faísca rápida de ciúme que ele mesmo não sabia justificar, afinal tinha acabado de conhecê-la. Mas a facilidade com que Maciel a fazia rir pareceu pinçar uma corda sensível no peito de Chico.

Quando as luzes principais acenderam e a claquete bateu, o clima mudou para a energia dinâmica das gravações. O tema do vídeo do dia, 06 de janeiro, era direto: Quem Trabalha no Motel?. Seis participantes anônimos estavam perfilados diante deles, cada um sustentando uma história diferente sobre sua rotina profissional.

— Fala, rapaziada! Estamos aqui hoje com uma convidada mais que especial — Beltrão abriu o vídeo olhando para a câmera central. — A Bruna veio direto lá do Sul pra ver se a intuição feminina salva esse canal do fracasso de sempre.

— Ela acha que tem lábia, Beltrão — provocou Chico, ajeitando o microfone de lapela e lançando um olhar enviesado para ela. — Mas hoje ela vai descobrir que aqui o buraco é mais embaixo.

Bruna encarou a lente com naturalidade impressionante, a postura ereta e a expressão divertida.

— Eu não acho, Chico. Eu tenho certeza. E conhecendo a fama de vocês, a chance de eu acertar quem é o profissional e vocês caírem no papo do primeiro mentiroso é de uns cem por cento.

— Eita! Começou quente! — gritou Maciel, batendo palmas e rindo para a câmera.

A primeira rodada de perguntas começou. O participante número três, um rapaz de jaqueta jeans que garantia ser recepcionista de um motel conceituado na Zona Sul, começou a detalhar os turnos e os tipos de quartos mais pedidos.

Chico tentou conduzir a sabatina com seu jeito malandro:

— Mas me diz uma coisa, irmão… sexta-feira à noite, entra aquele carro com vidro escuro, a suíte presidencial tá ocupada, tu faz o quê? Empurra a executiva com sauna ou já manda a real pro cliente?

O rapaz gaguejou de leve, tentando manter a pose:

— Ah, a gente… a gente tenta negociar, oferece a hidromassagem comum pelo mesmo valor.

Chico assentiu com a cabeça, parecendo convencido.

— É, faz sentido. O cara sabe a dor do cliente.

Bruna, no entanto, estreitou os olhos grandes e escuros. Ela se inclinou para a frente na banqueta, apoiando os cotovelos nos joelhos em uma atitude analítica que imediatamente puxou a atenção de todos na sala.

— Espera aí — interveio ela, com a voz suave, mas incisiva. — Em qual sistema você faz o fechamento da comanda dessas trocas de quarto?

O homem piscou, hesitando.

— No… no sistema interno lá. No Excel.

Um som genuíno escapou da garganta de Bruna antes que ela pudesse conter:

— Bah… Excel? — Ela riu com deboche espontâneo, sacudindo os cachos. — Motel de grande porte na Zona Sul usando planilha em vez de software de gestão automatizado pra frigobar e pernoite? Amigo, você nunca pisou numa recepção dessas na vida.

O rapaz abaixou a cabeça, engolindo em seco, enquanto o estúdio explodiu em gargalhadas.

— Caralho! Pegou no pulo! — berrou Maciel, apontando para o convidado. — O cara tomou uma invertida ao vivo!

Beltrão tirou os óculos, rindo com gosto e balançando a cabeça em aprovação:

— Essa foi cirúrgica, Bruna. O Chico comprou o papo do cara todinho e você desmontou a narrativa com uma pergunta.

Chico tentou manter a pose, coçando a nuca e soltando aquele riso meio sem graça, mas seus olhos não saíam de Bruna. Havia admiração genuína ali. Ela não era apenas bonita; tinha um raciocínio veloz, prestava atenção aos mínimos detalhes e não se deixava intimidar pela pressão do formato ou pelas câmeras.

— Foi sorte — disse Chico, tentando cutucar. — Pegou uma ponta solta qualquer.

Bruna virou-se para ele, o corpo virado quase inteiramente na direção do garoto.

— Não é sorte, Chico. É observação. Você se distrai muito fácil com o papo furado dos outros. Quer que eu te dê umas aulas de persuasão depois da gravação?

Chico sustentou o olhar dela por três segundos intensos. A tensão entre os dois era quase palpável, uma eletricidade gostosa de disputa onde nenhum dos dois dava o braço a torcer.

— Se for particular, eu até aceito a proposta — rebateu ele, a voz descendo meio tom, com o sorriso malicioso ressurgindo.

— Pois continue sonhando — devolveu ela no mesmo segundo, sem piscar. — Minha hora-aula é cara demais pro teu orçamento.

A equipe técnica atrás das câmeras caiu na risada. Maciel quase caiu da banqueta de tanto rir, dando tapinhas no ombro de Bruna:

— Garota, você é sensacional! Alguém finalmente colocou o Chico no lugar dele!

Chico olhou para a mão de Maciel encostada no ombro dela e franziu levemente a testa, mexendo a perna com um tique nervoso quase invisível. Ele tossiu, ajeitou a gola da camiseta e puxou o roteiro mental do vídeo:

— Vamos pro participante número quatro, vai. Deixa a sabichona aí analisar o próximo.

Durante o restante da gravação, o ritmo continuou impecável. Bruna comandou a intuição do grupo com comentários inteligentes e respostas rápidas. Quando a gravação finalmente encerrou, o veredito final dela se provou correto: a mulher de blusa verde, tímida no canto, era de fato a camareira veterana do estabelecimento.

— Corta! — gritou o diretor. — Gravação perfeita, rapaziada! Rendimento absurdo hoje!

Assim que as luzes diminuíram de intensidade, o clima no estúdio descontraiu de vez. Os microfones foram desplugados.

Bruna suspirou, esticando os braços para cima e relaxando as costas após mais de uma hora sentada na banqueta de madeira. Chico, que já havia descido do estrado, pegou duas garrafinhas de água mineral gelada da caixa térmica. Ele se aproximou dela com passos calmos.

— Toma aí — disse ele, estendendo a garrafa já destampada para ela.

Bruna olhou para a garrafa aberta e depois para ele, um pouco surpresa com a delicadeza repentina.

— Obrigada, Chico.

— Não precisa agradecer, não — falou ele em tom baixo, sem o público ou os microfones por perto, o olhar muito mais calmo e atencioso. — Cansou muito? O ar aqui tava meio seco hoje, o estúdio esquenta rápido por causa dos refletores.

— Um pouco, mas foi muito divertido. Vocês são maluquinhos gravando — respondeu ela, bebendo um longo gole d'água. Uma gota solitária escorreu pelo canto de sua boca delicada, e ela a limpou com as costas do dedo.

Chico acompanhou o movimento com o olhar antes de pigarrear de leve.

— Tu mandou bem demais. De verdade. Aquele lance do software foi foda.

— Eu disse que não tava de brincadeira — ela sorriu, com o rosto mais suave agora, sem as defesas da competição.

— Tô vendo. Vou ter que me preparar melhor da próxima vez que tu colar aqui.

Antes que ela pudesse responder, Maciel se aproximou segurando a jaqueta:

— Ô Bruna! Tu vai direto pra casa ou quer pegar uma carona com a gente pra comer alguma coisa ali na orla?

Chico imediatamente virou a cabeça na direção de Maciel, a expressão fechando sutilmente, os braços cruzados de novo na defensiva.

Bruna olhou o relógio no pulso, lamentando de verdade:

— Ah, Maciel, hoje não vai dar. Combinei de ligar pra minha mãe às seis, a família no Sul fica em pânico se eu demoro pra dar sinal de vida no Rio. Mas na próxima eu topo com certeza!

— Fechou então! Me passa teu número aí pra gente combinar os bastidores — pediu Maciel, tirando o celular do bolso.

Ela ditou o número com naturalidade, enquanto Chico permaneceu ali ao lado, com as mãos nos bolsos, fingindo que observava o teto do estúdio, mas escutando cada dígito com atenção cirúrgica.

Quando Bruna pegou sua bolsa e se despediu de todos com beijinhos no rosto e abraços afetuosos — recebendo de Beltrão um aviso protetor de "manda mensagem quando chegar em casa" —, ela finalmente parou diante de Chico.

— Até mais, Moedas.

— Valeu, Chica — respondeu ele, soltando o apelido de repente, com um tom meio sarcástico e meio íntimo. — Vê se não perde a viagem de volta pro teu bairro. Qualquer coisa dá um toque aí.

Ela riu, balançando a cabeça em negação diante do apelido, e saiu pela porta de vidro, deixando para trás o rastro suave de um perfume floral doce.

Assim que a porta bateu, Beltrão virou-se para os dois:

— O que foi isso, meus amigos? A garota tem presença. A câmera adora ela.

— Puta que pariu, ela é muito boa — disparou Maciel, guardando o celular. — Rápida no raciocínio, bonita pra caramba e ainda deu um nó tático no Chico.

Chico apenas bufou, pegando a sua própria garrafa de água e fingindo indiferença:

— Ela é marrenta, isso sim. Mas tem futuro. O vídeo vai ficar bom.


Três dias depois, no final da tarde de uma terça-feira, o vídeo foi ao ar no canal oficial do YouTube com o título: Quem Trabalha no Motel?.

Bruna estava no sofá do seu apartamento recém-alugado em Botafogo, vestindo um short de algodão confortável e uma regata larga, com o cabelo preso em um coque alto e frouxo. Ela segurava uma xícara de café enquanto abria a notificação do YouTube no notebook.

Em menos de duas horas, as visualizações já batiam centenas de milhares. O algoritmo estava voando, mas o que realmente a surpreendeu foi a enxurrada na seção de comentários. Ela começou a rolar a página para baixo com o indicador ágil:

@pedro_alves99: "Mano, quem é essa garota dos cachos??? A mulher humilhou o Chico no próprio canal kkkkkk sensacional!"

@maricosta_rj: "A química da Bruna com o Chico é uma loucura! Dois marrentos cheios de lábia. Já quero ela em todos os vídeos!"

@lucas_vibe: "A mina pegou o cara no pulo com o negócio do Excel kkkkkk inteligente demais. Virou membra honorária já!"

@felipe_goncalves: "Chica Moedas! Nasceu a versão feminina do Chico, só que muito mais esperta kkkkk tragam ela de volta urgente!"

@gabriela_silva: "Ela é linda, fala bem, tem uma vibe super leve com o Maciel e não deita pro ego dos caras. Contratem logo!"

Bruna mordeu o lábio inferior, sentindo o peito esquentar com uma mistura de alívio e pura empolgação. Mudar de estado para tentar uma vida nova no Rio de Janeiro não era fácil, e ver uma recepção tão calorosa do público fazia tudo parecer no caminho certo.

O celular sobre a mesinha de centro vibrou com uma notificação de mensagem. Ela esticou o braço para pegar o aparelho, esperando uma mensagem da mãe ou de Maciel.

A foto de perfil era a de Chico Moedas, encostado em um carro, com seu boné torto.

Chico: Tô lendo os comentários aqui. Parece que o público gostou do teu showzinho de marra.

Bruna não conseguiu conter um sorriso largo e provocador. Ajeitou-se nas almofadas do sofá e começou a digitar com rapidez, deixando escapar toda a sua lábia natural:

Bruna: Showzinho não, Chico. Talento puro. Aceita que a Chica Moedas roubou o teu público.

A resposta demorou menos de vinte segundos para piscar na tela:

Chico: Chica Moedas é foda kkkkkk. Mas ó, o Beltrão acabou de mandar mensagem no grupo. Próxima terça a gente grava "Quem é Professor?". Nem pensa em inventar desculpa. Tu vem.

Ela encarou a tela iluminada no quarto já escurecendo pelo fim de tarde carioca. Sentiu aquele frio gostoso na barriga, a certeza de que aquele tinha sido apenas o primeiro round de uma disputa que estava muito longe de terminar.

Bruna: Pode separar a minha banqueta, Francisco. Eu não fujo de desafio.

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