
O contrato
Fandom: Mr.Blair
Criado: 28/09/2026
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Alianças de Papel
O reflexo no vidro temperado do quinquagésimo andar devolvia a Leona Blair a imagem de uma mulher prestes a cometer um homicídio corporativo. Seus olhos castanhos esverdeados, que a maioria dos subordinados aprendera a temer antes mesmo de ouvir o estalar de seus saltos no mármore, ardiam com um rancor concentrado.
Ela havia sido passada para trás.
A sociedade na Nexus Capital — o troféu pelo qual abrira mão de fins de semana, escrúpulos e de qualquer resquício de vida pessoal pelos últimos seis anos — fora entregue de bandeja para Julian Vance. Um incompetente herdeiro de sobrenome prestigioso que roubara sua melhor proposta de fusão na calada da noite. E o pior: o conselho diretor havia aprovado com sorrisos condescendentes, afirmando que Julian trazia uma "imagem mais sólida e familiar" para o futuro da empresa.
Leona girou sobre os calcanhares. Ela não ficaria para aplaudir. Ela iria queimar a Nexus até as cinzas, e faria isso trabalhando para a Vance & Sterling, a principal rival do mercado.
Havia apenas um obstáculo, e ele tinha nome, sobrenome e princípios morais intransigentes: Arthur Sterling, o patriarca da concorrente. Quando Leona se encontrara clandestinamente com ele na noite anterior, a resposta fora direta e desdenhosa: “Não contrato tubarões sem alma, senhorita Blair. Minha empresa é construída sobre lealdade, ética e estabilidade comunitária. A sua reputação a precede: implacável, destrutiva e incapaz de criar laços verdadeiros. Se quiser a vice-presidência, mostre-me que é alguém confiável. Mostre-me que mudou da água para o vinho.”
Leona soltou um riso seco e sem humor, ajeitando a gola de sua camisa de seda escura. Provar redenção era fácil quando se tratava apenas de manipular a percepção pública. E ela já sabia exatamente qual peça usaria em seu tabuleiro.
A porta de sua sala se abriu sem ruído excessivo. Christine Lovel entrou carregando uma pasta de couro e um tablet.
De aparência delicada, com cabelos castanho-claros caindo em ondas suaves pelos ombros e olhos azuis cristalinos que pareciam capazes de enxergar através de qualquer hipocrisia, Christine era a assistente pessoal mais eficiente que Leona já tivera. E também a única pessoa naquele prédio que a olhava como se ela fosse o próprio diabo disfarçado em um terninho sob medida.
— Os relatórios que a senhora pediu sobre a liquidação da subsidiária do leste estão prontos — disse Christine, parando a uma distância prudente da mesa de mogno. Sua voz era impecavelmente profissional, desprovida de qualquer calor.
Leona cruzou os braços, avaliando-a demoradamente.
— Deixe-os aí — ordenou Leona, apontando o queixo para a mesa. — E feche a porta com a tranca.
Christine hesitou por uma fração de segundo. Seus olhos azuis faiscaram de desconfiança, mas ela obedeceu. Deu meia-volta, girou o trinco e retornou, mantendo a postura ereta, como um soldado diante de um pelotão de fuzilamento.
— Há algum erro nos cálculos? — perguntou a assistente, a voz contida. — Se houver, posso revisar imediatamente.
— Não se trata de números, Christine. Sente-se.
— Prefiro ficar de pé, senhora Blair.
— Não foi um convite — rebateu Leona, fria. — Sente-se.
Christine engoliu em seco. Com movimentos calculados e rígidos, ela puxou a poltrona de couro italiano diante da mesa e se acomodou na borda do assento, como se o móvel estivesse prestes a desmoronar.
Leona não se sentou. Permaneceu de pé, usando sua altura e presença imponente para dominar o espaço. Caminhou lentamente até a borda da mesa, apoiando as duas mãos sobre o tampo escuro.
— Quanto você ganha atualmente, Christine? Setenta mil por ano?
A assistente franziu o cenho delicado, ofendida pela intromissão súbita.
— A senhora sabe exatamente o valor do meu salário. O departamento financeiro responde diretamente a você.
— Sei. Sei também que você tem uma irmã caçula cursando medicina com uma bolsa parcial que não cobre as despesas de internação e remédios para a condição cardíaca dela — disse Leona, sem hesitar diante do lampejo de choque que cruzou o rosto de Christine. — Sei que o seu aluguel vence na próxima semana e que você está com dois meses de atraso no condomínio daquele cubículo onde vive.
— Você andou investigando a minha vida? — Christine ergueu-se um centímetro da cadeira, os nós dos dedos ficando brancos enquanto apertava a própria bolsa. A delicadeza habitual deu lugar a uma fúria silenciosa. — Isso ultrapassa todos os limites éticos! Minha vida pessoal não diz respeito a esta empresa nem a você!
— Poupe-me do sermão sobre ética, Lovel. Nós duas sabemos que você me despreza — disparou Leona, inclinando-se para a frente, seus olhos castanhos esverdeados brilhando como vidro polido. — Você me acha um monstro ganancioso, sem escrúpulos e obcecada pelo poder. E sabe de uma coisa? Você está absolutamente certa.
Christine cerrou os lábios, recusando-se a responder, mas seu silêncio dizia tudo.
— A diferença — continuou a executiva, com uma calma assustadora — é que este monstro é a única pessoa no mundo disposta a quitar todas as dívidas hospitalares da sua irmã hoje à tarde, pagar o tratamento completo dela até o fim da faculdade e depositar um milhão de dólares na sua conta bancária pessoal.
O ar pareceu evaporar da sala. Christine arregalou os olhos azuis, piscando como se tentasse acordar de um pesadelo absurdo.
— O quê?
Leona deu a volta na mesa, abriu uma das gavetas com chave e retirou uma pasta de veludo preto. Jogou-a displicentemente sobre a madeira, entre as duas.
— Fui traída pela diretoria da Nexus. Eles entregaram a sociedade ao Julian porque alegaram que sou fria, instável e desprovida de humanidade para representar a marca. Eu vou me vingar. Vou assumir a vice-presidência da Vance & Sterling e arrancar cada cliente desta espelunca.
— E o que eu tenho a ver com a sua vingança mesquinha? — questionou Christine, com o tom carregado de veneno.
— Arthur Sterling só aceita me contratar se eu provar que mudei. Ele quer ver estabilidade emocional, compromisso moral, um estilo de vida acolhedor. Ele quer a droga de um conto de fadas — disse Leona, com uma careta de repugnância pela própria palavra. — Ele quer ver que eu sou capaz de amar e de ser amada por alguém honesto, simples e intocável. Alguém como você.
Christine demorou longos segundos para processar as palavras. Quando o fez, um riso incrédulo e abafado escapou de sua garganta.
— Você perdeu o juízo de vez.
— Estou mais lúcida do que nunca.
— Você quer que eu mintam dizendo que você é uma boa pessoa? Ninguém no mercado financeiro acreditaria nisso nem sob tortura!
— Não quero um depoimento de caráter, Christine — cortou Leona, com a voz baixa e perigosamente firme. — Eu quero você. Como minha noiva.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O murmúrio distante do tráfego da cidade abaixo parecia abafado pela tensão espessa que tomou conta do escritório.
Christine abriu a boca para falar, fechou-a em seguida e finalmente soltou um suspiro trêmulo.
— Noiva?
— Uma relação estável de quase um ano, mantida em segredo por discrição profissional — explicou Leona, como se estivesse recitando uma apresentação de slides. — Você é a influência doce e ética que me fez repensar minhas prioridades de vida. Graças ao seu amor, a tirana Leona Blair se tornou uma mulher pronta para construir uma família sólida.
— Isso é doentio — sussurrou Christine, balançando a cabeça em negação. — É patético. Eu odeio você. Odeio a forma como você trata as pessoas, odeio a sua falta de empatia, odeio o jeito como você respira achando que é dona do mundo! Eu preferiria me jogar desta janela a fingir que estou apaixonada por você!
Leona não se abalou. Em vez disso, deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Christine até que a assistente sentisse o calor sutil que emanava do corpo da executiva e o aroma caro e amadeirado de seu perfume importado.
— Você pode me odiar o quanto quiser, Lovel. O contrato não exige que você sinta absolutamente nada por mim além do desprezo que já tem. Mas exige que você convença Arthur Sterling, a esposa dele e toda a alta sociedade de que não consegue passar cinco minutos longe dos meus braços.
— Eu não me vendo — Christine retrucou, levantando-se bruscamente, embora o queixo tremesse levemente pela proximidade forçada.
— Não seja hipócrita — sibilou Leona, encarando-a com ferocidade. — Não é sobre vender a si mesma, é sobre salvar a sua irmã. O hospital São Lucas não aceita a sua moral intocável como forma de pagamento. Eles aceitam dinheiro. E o tratamento experimental de cardiologia que ela precisa custa quatrocentos mil dólares. Você tem esse valor na sua conta, Christine? Porque se tiver, por favor, sinta-se livre para passar por aquela porta e nunca mais olhar na minha cara.
Christine paralisou. A menção direta à irmã foi como um golpe físico em seu estômago. O ar faltou em seus pulmões, e por um instante, a postura rígida da assistente desmoronou, revelando o cansaço esmagador que ela carregava há meses nos ombros estreitos.
— Você é um monstro — disse Christine, a voz agora embargada, mas ainda cortante como uma lâmina.
— Sou prática — corrigiu Leona, mantendo os olhos fixos nos dela, sem um pingo de remorso visível. — Seis meses. Você se muda para a minha cobertura hoje à noite. Apareceremos juntas em três jantares beneficentes, assinaremos o contrato com a Sterling e, quando a fusão for concluída e minha posição estiver blindada, anunciaremos um término amigável por diferenças irreconciliáveis de agenda. Um milhão de dólares limpos na sua conta, além de todos os custos médicos da sua família cobertos para sempre.
Christine desviou o olhar para a janela, lutando contra o nó que se formava em sua garganta. A humilhação de ter que se submeter àquela mulher era quase insuportável. Mas o rosto pálido de sua irmã no leito hospitalar surgiu em sua mente, apagando qualquer vestígio de orgulho.
— Quais são as regras? — perguntou a assistente, com a voz tão baixa que quase foi abafada pelo ar-condicionado.
Leona permitiu-se um sorriso mínimo, vitorioso e gélido.
— Nada de contato físico íntimo desnecessário fora dos eventos públicos. Em público, você me toca como se eu fosse o centro do seu universo. Você segura minha mão, sorri para as minhas piadas e me beija quando a ocasião exigir.
Christine estremeceu visivelmente com a última palavra.
— Beijar você?
— Faz parte do pacote de noivado, Christine. Ou você acha que noivas apaixonadas se cumprimentam com um aperto de mãos corporativo?
— Eu vou vomitar — rebateu a mais jovem, virando-se para ela com o olhar faiscante.
— Mantenha a digestão sob controle até que os jantares terminem — retrucou Leona com sarcasmo, alcançando a caixinha de veludo preto sobre a mesa e abrindo-a com um estalo seco.
Lá dentro, repousava um anel de platina com um diamante de corte esmeralda que brilhava com insolência sob as lâmpadas fluorescentes. Era extravagante, impecável e absolutamente impessoal.
— A mão esquerda — ordenou Leona.
Christine permaneceu imóvel por alguns segundos, as mãos cerradas ao lado do corpo. Lentamente, como se estivesse mergulhando o braço em água fervente, ela estendeu a mão trêmula.
Leona segurou os dedos delicados de Christine com os seus. O toque foi imediato e surpreendentemente elétrico; a pele de Christine era quente e macia, em total contraste com a frieza que Leona projetava. Por um breve instante, os olhos castanhos esverdeados encontraram os azuis, e uma faísca crua de pura antipatia e consciência física mútua saltou entre as duas. Nenhuma das duas quebrou o contato visual enquanto Leona deslizava a joia gelada pelo anular da assistente.
O anel serviu com uma precisão assustadora.
— Ficou perfeito — comentou Leona, sem soltar a mão dela imediatamente.
— É pesado demais — respondeu Christine, puxando a mão de volta com um movimento brusco, como se tivesse sido queimada. — Parece uma algema.
— Considere uma algema com garantia de sobrevivência financeira — retrucou a executiva, ajeitando o paletó e retomando sua expressão profissional inabalável. — Suas coisas devem ser empacotadas até as sete. Meu motorista estará no seu prédio para recolher a mudança.
— Não preciso de tanto tempo. Eu quase não tenho nada — disparou Christine, o sarcasmo pingando de sua voz suave. — Certifique-se apenas de que a primeira transferência para o hospital seja feita antes de eu colocar os pés na sua cobertura. Se o dinheiro não cair na conta da administração até as cinco, eu conto a Julian Vance exatamente o que você está planejando.
Leona ergueu uma sobrancelha, ligeiramente surpresa com a ousadia da garota. Em vez de irritação, no entanto, sentiu um vislumbre quase imperceptível de divertimento.
— Adoro negociar com pessoas motivadas, querida — ironizou Leona, usando o termo carinhoso com uma dose pesada de provocação. — Agora volte para a sua mesa e cancele todas as minhas reuniões da tarde. Nós temos uma história de amor para ensaiar.
Christine lançou a ela um último olhar carregado de desprezo puro, virou-se nos calcanhares e caminhou até a porta. Quando a assistente destrancou e abriu a madeira maciça, Leona ainda a observava, os braços cruzados, a mente calculando cada movimento futuro.
— Ah, Christine? — chamou Leona antes que ela saísse.
A garota parou no batente, sem se virar completamente.
— O que é?
— Tente parecer um pouco menos infeliz quando o Sterling nos vir juntas amanhã — aconselhou a executiva, com um sorriso desafiador nos lábios perfeitos. — Noivas apaixonadas costumam sorrir, não planejar funerais.
— Não se preocupe, senhora Blair — disse Christine por cima do ombro, a voz gélida. — Eu guardarei o meu melhor sorriso para o dia em que este contrato acabar e eu puder ver você pagar por cada pecado que cometeu.
A porta se fechou com um clique definitivo.
Leona permaneceu sozinha no vasto escritório silencioso. Olhou para a própria mão, ainda sentindo o fantasma do calor da pele de Christine contra a sua. Soltou um riso curto pelo nariz, voltando a encarar a paisagem de aço e vidro lá fora.
O jogo estava apenas começando, e se para vencer ela precisava brincar com fogo ao lado de Christine Lovel, queimaria a cidade inteira sem pestanejar. Restava saber qual das duas seria a primeira a virar cinzas.
