
Everyone is a suspect
Fandom: Alien stage
Criado: 28/09/2026
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O Eco do Silêncio e o Caos das Prateleiras
O internato de Anakt era uma construção imponente, cujas torres de pedra pareciam arranhar o céu cinzento da manhã. Para a maioria dos recém-chegados, o lugar exalava uma aura de prestígio e tradição, mas para os alunos que caminhavam por seus corredores de mármore, era apenas uma gaiola dourada com regras demais e pouca liberdade. O início do semestre trazia consigo aquele cheiro característico de cera de assoalho, livros velhos e a ansiedade coletiva de centenas de adolescentes confinados.
No Bloco C, onde ficavam os dormitórios femininos, o quarto 302 era o epicentro de uma anomalia social.
Mizi entrou no quarto chutando a porta levemente para fechá-la. Ela carregava uma pilha de livros que parecia prestes a desmoronar e uma mochila pendurada em apenas um ombro. Com um suspiro dramático, ela jogou tudo sobre a cama desfeita. O baque surdo dos livros contra o colchão foi o único som que preencheu o ambiente por vários minutos.
Do outro lado do quarto, Sua estava sentada à sua escrivaninha. Suas costas estavam perfeitamente retas, a postura impecável enquanto folheava as páginas de um romance clássico. Ela não se virou. Não cumprimentou. Não fez sequer um ruído de reconhecimento.
Mizi começou a vasculhar suas gavetas à procura de um par de meias limpas, revirando roupas com uma energia caótica. Ela parou por um segundo, olhando para o reflexo de Sua no pequeno espelho da parede. A colega de quarto permanecia imóvel, mergulhada em sua leitura, como se Mizi fosse apenas um fantasma ou uma peça de mobília barulhenta.
Era assim desde o primeiro dia. Não havia hostilidade, apenas um vácuo. Mizi, que costumava ser a pessoa mais vocal e direta em qualquer círculo social, aceitara o desafio silencioso. Se Sua não ia falar, ela também não falaria. Mizi pegou seu fone de ouvido, colocou-o no volume máximo — o suficiente para que um chiado de rock pudesse ser ouvido por qualquer pessoa a dois metros de distância — e deitou-se de cara no travesseiro.
O silêncio entre as duas era tão denso que poderia ser cortado com uma faca, mas nenhuma delas parecia disposta a segurar o cabo.
Enquanto isso, no Bloco A, o clima era drasticamente diferente.
— Ivan, se você tocar nessa prateleira mais uma vez, eu vou garantir que você seja escalado para a limpeza do biotério por um mês inteiro — disse Luka, sem tirar os olhos do cronômetro em sua mão.
Ivan estava encostado na moldura da porta do quarto que dividiam, equilibrando uma caneta na ponta do nariz. Ele deu um passo para dentro, deliberadamente arrastando o pé no tapete que Luka acabara de alinhar milimetricamente com a borda da cama.
— Você é muito tenso, Luka. "Por assunto e ordem alfabética"? Sério? — Ivan soltou a caneta e caminhou até a estante, inclinando a cabeça para ler as lombadas. — Onde você coloca livros sobre botânica que também falam sobre venenos? Na letra B ou na letra V? Ou você tem uma seção especial para "Coisas que o Ivan usaria para me matar"?
Luka ajustou os óculos, a expressão gélida.
— Eles estão sob a categoria de Ciências Aplicadas, subseção Toxicologia. E, para sua informação, a ordem alfabética é pelo sobrenome do autor. Agora, saia de perto da minha mesa. Você está exalando... desordem.
Ivan riu, um som seco e divertido. Ele adorava ver as engrenagens da mente de Luka girarem sob pressão.
— Você é muito esquisito, sabia? Devia agradecer por ter eu como colega. Se fosse o Till, ele já teria usado suas enciclopédias como calço para o amplificador de guitarra dele.
Luka finalmente olhou para Ivan, seus olhos semicerrados.
— O Till é um bárbaro, mas pelo menos ele respeita o silêncio quando está desenhando. Você, por outro lado, parece ter uma necessidade patológica de ser inconveniente.
— É o meu charme — Ivan piscou, jogando-se na própria cama, que, ao contrário da de Luka, parecia ter sido atingida por um furacão de lençóis e casacos.
Longe dali, no pátio central que ligava os prédios de salas de aula, Till estava sentado em um banco de pedra, com um caderno de desenho apoiado nos joelhos. Ele estava com o cenho franzido, a mão movendo-se freneticamente com um pedaço de carvão.
— Isso está horrível — resmungou Till para si mesmo, arrancando a página com tanta força que o papel rasgou.
— Se você parar de tentar desenhar com raiva, talvez saia algo que não pareça um borrão de ódio — disse uma voz feminina logo atrás dele.
Till nem precisou se virar para saber quem era. Mizi se jogou no banco ao lado dele, roubando um dos seus lápis de cor apenas para girá-lo entre os dedos.
— O que você quer, Mizi? — perguntou Till, irritado. — Não devia estar no seu quarto meditando com a "Rainha do Gelo"?
Mizi revirou os olhos, soltando um suspiro longo.
— A Sua não é uma "Rainha do Gelo". Ela só... existe no vácuo dela. É bizarro. Passamos três horas no mesmo quarto hoje e a única coisa que eu ouvi foi o barulho das páginas do livro dela virando. Eu quase gritei só para ver se ela pulava, mas achei que seria perda de tempo.
— Pelo menos ela é quieta — rebateu Till, voltando a riscar o papel. — A garota que divide o quarto comigo não para de tentar me mostrar fotos do gato dela. Eu não me importo com o gato. Eu não me importo com a ração do gato. Eu só quero terminar esse riff.
— Você é um ranzinza, Till. Por isso a gente se dá bem. Você é o único que consegue ser mais insuportável que o silêncio da Sua.
Till deu um empurrão no ombro de Mizi, que devolveu com uma cotovelada. Eles ficaram ali por um tempo, trocando insultos leves e provocações, uma dinâmica que, para qualquer observador externo, pareceria uma briga iminente, mas que para eles era a única forma de conforto naquele lugar.
— Ei, olha lá — Mizi apontou para o outro lado do pátio.
Hyuna estava caminhando em direção a eles, com seu passo confiante e um sorriso que parecia iluminar até os cantos mais escuros de Anakt. Ela estava acompanhada por Luka, que parecia estar explicando algo complexo sobre o regulamento da biblioteca, e Ivan, que caminhava logo atrás, tentando colocar uma flor de plástico no cabelo de Sua, que por sua vez, caminhava em silêncio absoluto, ignorando a existência do irmão.
— O circo chegou — comentou Till, fechando o caderno de desenho.
— Pessoal! — Hyuna acenou, aproximando-se com energia. — Vocês não vão acreditar. Ouvi dizer que a festa de boas-vindas deste ano vai ser no Salão Oeste.
Luka franziu a testa imediatamente.
— O Salão Oeste está interditado para reformas desde o semestre passado. É contra as regras de segurança circular por lá sem supervisão.
— Ah, qual é, Luka! — Hyuna passou o braço pelo pescoço dele, puxando-o para perto. — As regras são apenas sugestões para quem não sabe se divertir. O zelador esqueceu a porta lateral aberta ontem. Eu vi.
Ivan se aproximou de Mizi e Till, com um brilho malicioso nos olhos.
— Eu topo. Qualquer coisa para sair daquele quarto. O Luka começou a catalogar as meias dele por gradiente de cinza. Eu estou prestes a ter um colapso nervoso.
— Eu não catalogo por gradiente — corrigiu Luka, embora sua expressão denunciasse que ele talvez tivesse considerado a ideia. — Mas a infraestrutura daquele prédio é instável.
Sua, que até então permanecia como uma estátua melancólica ao lado do grupo, finalmente fechou o livro que carregava. O som do impacto da capa foi seco. Todos olharam para ela, esperando que dissesse algo.
Ela apenas olhou para o prédio antigo no horizonte, depois para o irmão, e deu um único aceno de cabeça antes de começar a caminhar em direção ao refeitório.
— Isso foi um "sim"? — perguntou Till, confuso.
— Foi o "sim" mais entusiasmado que ela deu o dia todo — respondeu Ivan, seguindo a irmã enquanto tentava, novamente, cutucar o ombro dela.
O grupo começou a se dispersar em direção às aulas da tarde. O sol começava a baixar, lançando sombras longas sobre os gramados perfeitamente aparados. A rotina de Anakt seguia seu curso: aulas de história antiga, laboratórios de química e o rigor dos professores que não toleravam um atraso sequer.
No entanto, o clima na escola estava mudando. Entre os sussurros nos corredores vazios e os olhares trocados sobre as mesas do refeitório, havia uma sensação de que as regras, por mais rígidas que fossem, estavam prestes a ser testadas.
À noite, de volta ao quarto 302, o ciclo de silêncio se repetiu. Mizi estava sentada em sua cama, observando Sua pentear os cabelos pretos diante do espelho. A luz do abajur criava uma atmosfera íntima e, ao mesmo tempo, estranhamente distante.
Mizi abriu a boca para perguntar se Sua tinha a anotação da aula de literatura, mas a palavra morreu em sua garganta. Ela viu Sua colocar o pente sobre a mesa com uma delicadeza quase ritualística. Por um breve segundo, os olhos das duas se encontraram pelo espelho.
Houve um lampejo de algo — reconhecimento? Cansaço? — mas Sua desviou o olhar rapidamente e apagou a luz do seu lado do quarto.
— Boa noite — Mizi sussurrou, tão baixo que mal podia ser ouvido.
Não houve resposta. Mas, pela primeira vez, o silêncio não pareceu tão vazio.
Enquanto isso, no quarto de Ivan e Luka, o caos era absoluto. Ivan decidira que era uma ótima hora para praticar malabarismo com laranjas que roubara do refeitório, enquanto Luka tentava, inutilmente, redigir uma petição para a coordenação sobre a qualidade da conexão de internet no bloco de estudos.
— Se uma dessas laranjas cair no meu teclado, Ivan, eu juro que vou usar seus órgãos para um experimento de biologia — ameaçou Luka, sem tirar os olhos da tela.
— Você não teria coragem. Você teria que limpar o sangue depois, e a gente sabe que você odeia manchas — Ivan riu, jogando uma laranja ainda mais alto.
A vida em Anakt era um jogo de contrastes. O silêncio absoluto de um lado, o barulho incessante do outro. A ordem maníaca de uns e a rebeldia descuidada de outros. E, no centro de tudo, uma escola cheia de segredos, portas trancadas e corredores que prometiam muito mais do que apenas educação.
A primeira semana estava apenas começando, e as peças já estavam no tabuleiro. Se eles sobreviveriam às regras ou se seriam consumidos por elas, era algo que apenas o tempo — e talvez algumas visitas proibidas ao Salão Oeste — diria.
