
Vôlei família
Fandom: Vôlei
Criado: 28/09/2026
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Entre Panelas, Ciúmes e Redes
O barulho metálico da colher de pau batendo com força contra a lateral da panela de cerâmica ressoou por toda a cozinha. Júlia Bergmann soltou o ar com força pelo nariz, afastando uma mecha ruiva teimosa que insistia em cair sobre os olhos verdes faiscantes. No fogão, o molho de tomate caseiro borbulhava com ferocidade, espirrando pequenas gotas avermelhadas sobre o mármore limpo — um reflexo exato do temperamento de Júlia naquele fim de tarde.
No chão, perto dos seus pés, uma criaturinha gordinha de bochechas rosadas e seis meses de pura determinação tentava a todo custo arrancar a fita adesiva que fechava uma das gavetas baixas.
— Não, Bella! — Júlia se abaixou com cuidado, resmungando um palavrão baixinho enquanto tirava a mãozinha gorda da bebê do puxador. — Se você bater essa cabeça no chão, juro que enlouqueço antes da sua mãe cruzar aquela porta.
A pequena Bella apenas deu uma gargalhada sem dentes, batendo as palmas no piso frio e girando nos quatro apoios para avançar em direção ao pote de água do cachorro.
— Lucas! Léo! — gritou Júlia, levantando o tom de voz enquanto mexia o molho com a mão direita e empurrava a bebê de volta com a perna esquerda, equilibrando-se como se estivesse no fundo de quadra. — Vocês dois não servem nem para olhar uma criança de dez quilos por cinco minutos?
Da sala ampla de estar, vinham risadas altas e o barulho característico de um videogame. Lucas Bergmann, irmão de Júlia, estava jogado no tapete com o controle na mão, enquanto Léo, o primogênito de dezenove anos, alto, esguio e dono dos mesmos cabelos ruivos da mãe, ria histericamente. Gabi Guimarães estava sentada no sofá com os pés para cima, mastigando uma maçã com a maior tranquilidade do mundo, enquanto Noah, de oito anos, tentava construir uma torre de cartas no meio da bagunça dos tios e do irmão mais velho.
— Calma, mãe, você tá muito estressada! — Léo gritou de volta, sem desgrudar os olhos da tela da TV. — O Lucas perdeu a torre no jogo, tô concentrado em humilhar meu tio!
— Eu vou humilhar vocês dois com a panela quente se alguém não tirar essa menina debaixo das minhas pernas agora! — rebateu Júlia, com a veia do pescoço saltada.
— Deixa que eu pego a gordinha, Ju — Gabi se levantou rindo, jogando o miolo da maçã na lixeira antes de caminhar até a cozinha com passos calmos. Ela pegou Bella no colo, enchendo a barriga da bebê de beijos que arrancaram gargalhadas estridentes da pequena. — Você tá com a macaca hoje, hein? O que foi? O treino do Minas foi tão pesado assim ou a saudade da loira tá corroendo o estômago?
— Não enche, Gabriela — Júlia bufou, olhando com fúria para o relógio digital no micro-ondas. Marcava quase sete e meia da noite. — O treino do Scandicci acabou há duas horas. Duas horas! Ela não atende o telefone, não mandou mensagem e a última vez que olhei a localização, ainda tava perto do ginásio. Com quem ela ficou conversando até essa hora? Com a comissão técnica ou com a boboca da ponteira nova?
Gabi soltou uma risada debochada, ajeitando Bella no quadril.
— Ah, pronto. Começou o show de ciúmes da ruiva. Júlia, a Kate te ama até os ossos, você parece uma maluca falando assim.
— Não sou maluca, sou prevenida! — Júlia rebateu, abusada, apontando a colher manchada de molho na direção da amiga. — Ela sabe que eu odeio atraso, principalmente quando eu tô aqui me virando nos trinta com três filhos, a casa cheia e a coluna pedindo arrego.
Lucas apareceu na passagem da cozinha, com as mãos nos bolsos da bermuda e um sorriso provocador no rosto.
— Se a Kate demorar mais um pouco, vai ter que entrar com colete à prova de balas. O Léo já até apostou vinte reais comigo que a mãe ruiva vai deixar a mãe loira dormindo no sofá hoje.
— E eu dobro a aposta — Léo falou, surgindo atrás do tio com um sorriso idêntico ao de Júlia. — Quando a Dona Júlia cruza os braços desse jeito, é melhor nem respirar muito perto.
— Vocês dois calem a boca antes que eu bote os dois pra dormir na casinha do cachorro — Júlia avisou, fuzilando ambos com o olhar verde cortante.
Foi exatamente nesse momento que o barulho característico da maçaneta girando ecoou pela casa. A porta principal se abriu, e por ela passou a figura esguia, monumental e loira de Ekaterine Antropova. Kate trazia a mochila de treino pendurada em um ombro só, as bochechas coradas pelo frio da rua e os olhos azuis brilhando ao encontrar a casa cheia de vida.
— Boa noite, família — a voz rouca e com leve sotaque arrastado de Kate preencheu o ambiente.
Noah foi o primeiro a correr, abraçando as pernas longas da mãe russa. Kate largou a mochila no chão imediatamente, erguendo o menino de oito anos no ar em um movimento fluido e beijando o topo de sua cabeça loira.
— Oi, meu campeão! Como foi a escola hoje?
— Tirei dez em matemática, mãe! — Noah se gabou, abraçado ao pescoço dela.
— Esse é o meu garoto — Kate sorriu largo, descendo o filho e passando a mão pelos cabelos ruivos de Léo ao cruzar a sala. — E aí, moleque? Cuidou dos seus irmãos?
— Tentei, mas a sua esposa tá prestes a matar alguém — Léo cochichou, apontando discretamente para a cozinha. — Vai lá se defender antes que a janta vire arma branca.
Kate arqueou uma das sobrancelhas claras, achando graça. Ela caminhou com passos pesados e confiantes até a cozinha. Ao passar pelo batente, seus olhos azuis encontraram Júlia de costas para ela, mexendo freneticamente na frigideira de legumes como se quisesse pulverizar os brócolis.
Gabi deu uma piscadela cúmplice para Kate, recuando discretamente com Bella nos braços:
— Vou dar uma volta com a Bella pela sala. Se precisarem de ajuda para esconder o corpo, não me chamem.
Kate esperou os amigos e os filhos se afastarem. Com um sorriso de canto, safado e completamente desprovido de medo, ela deu dois passos silenciosos e envolveu a cintura de Júlia por trás. A diferença de altura era notável, mas os corpos se encaixavam com uma precisão cirúrgica de anos de convivência.
— Solta, Ekaterine — Júlia chiou na mesma hora, endurecendo o corpo, embora o arrepio involuntário em sua nuca tivesse denunciado o efeito do toque.
Em vez de se afastar, Kate colou ainda mais o corpo quente contra as costas de Júlia, apoiando o queixo no ombro coberto pela regata e deslizando os lábios macios pela curva sensível do pescoço da ruiva.
— Que recepção fria para a mulher da sua vida, moya krasavitsa — Kate sussurrou bem perto do ouvido de Júlia, com uma voz aveludada e provocadora que fez o estômago da ruiva dar uma cambalhota traiçoeira. — Vai me queimar com esse fogo todo antes mesmo de provar a janta?
— Eu tô com cara de brincadeira? — Júlia virou o rosto apenas o suficiente para encará-la com os olhos estreitos. — Onde você tava até agora? O treino acabou às cinco e meia! São quase oito da noite, Kate!
Kate deu uma risadinha baixa, vibrando contra o peito de Júlia, e plantou um beijo estalado e molhado bem na bochecha irritada da esposa.
— A fisioterapia me prendeu na maca por quarenta minutos por causa daquele incômodo no joelho, e depois o técnico reuniu o time para assistir aos vídeos do próximo jogo contra o Conegliano — explicou com paciência, os dedos apertando de leve a carne firme dos quadris de Júlia. — Meu celular morreu na primeira metade do vídeo. Eu vim voando pela estrada só para ver esse seu biquinho bravo.
— Não faz essa vozinha pra mim — Júlia tentou empurrar as mãos grandes de Kate de sua cintura, mas a loira era teimosa feito uma mula e só apertou mais o abraço. — Você adora me ver irritada, né? Acha lindo me deixar aqui surtando, achando que você bateu o carro ou que ficou de papinho com quem não devia.
Kate mordiscou de leve o lóbulo da orelha de Júlia, arrancando um suspiro entrecortado que quebrou totalmente a postura de mulher brava da ruiva.
— Ciumenta — murmurou Kate contra a pele quente da esposa, a boca roçando em sua têmpora. — Você sabe muito bem que ninguém naquela quadra, na Itália inteira ou no mundo chega aos pés dessa ruiva brava que tá me cozinhando o jantar. Sossega esse coraçãozinho, amor. Eu sou toda sua, você sabe disso.
Júlia fechou os olhos por um segundo, amaldiçoando mentalmente o poder absurdo que Kate tinha de desarmá-la com poucas palavras e alguns toques precisos.
— Você é muito abusada, Ekaterine. Um dia eu ainda jogo essa panela na sua cabeça.
— Joga nada. Você me ama demais para estragar esse rostinho bonito — rebateu a loira, rindo gostoso antes de dar um beijo firme e demorado nos lábios de Júlia, que, a contragosto, acabou cedendo e aprofundando o contato antes de empurrá-la de leve.
— Chega. Vai tomar um banho e lavar essa inhaca de treino. A janta tá pronta e o Noah tá morrendo de fome.
— Sim, senhora, capitã — Kate bateu uma continência zombeteira e saiu da cozinha com uma piscadela descarada.
O jantar foi a habitual sinfonia de barulho, gargalhadas e discussões bobas que marcava os dias em que a casa estava cheia. Léo e Lucas passavam a maior parte do tempo implicando um com o outro sobre futebol, enquanto Gabi ajudava a dar papinha para Bella, rindo das caretas que a bebê fazia a cada colherada. Noah tagarelava sobre seus desenhos animados, sendo pacientemente ouvido por Kate, que parecia revigorada depois de um banho quente.
Júlia observava a cena em silêncio por alguns minutos, o peito aquecido pela bagunça cotidiana. Por mais que reclamasse e ameaçasse todo mundo, não trocaria aquela família caótica por nada no mundo.
Assim que a mesa foi limpa com a ajuda relutante de Léo e Lucas, que só queriam voltar ao videogame, Júlia colocou sua roupa de treino: uma legging cinza escura justa e um top esportivo preto.
— Onde você vai com essa pressa toda? — Kate perguntou da sala, onde estava esticada no tapete brincando de empilhar blocos com Noah.
— Vou na academia do anexo fazer uns exercícios leves — Júlia respondeu, amarrando o cabelo ruivo em um rabo de cavalo alto. — Preciso soltar a musculatura antes de dormir.
— Não vai inventar de puxar ferro pesado, Bergmann — avisou Kate, o tom agora protetor e sério. — O médico liberou você para os treinos de vôlei, mas a carga máxima ainda tá vetada depois do parto. Não quero você travando a coluna de novo.
— Eu sei me cuidar, Antropova — retrucou Júlia com um sorriso de lado, lançando-lhe um olhar provocador. — Não preciso de babá.
Júlia seguiu pelo corredor envidraçado que dava acesso à pequena academia montada nos fundos da casa. O ar fresco da noite entrava pelas portas de correr que davam para o jardim iluminado. Ela ligou o som em volume baixo, fez um aquecimento cuidadoso nas esteiras e partiu para a série de agachamentos com peso livre e exercícios de mobilidade. Realmente não podia abusar; sentia o corpo exigir cautela após seis meses do nascimento de Bella, mas a sensação de queimação muscular e o retorno gradual da forma física de atleta de elite eram indescritivelmente prazerosos.
Cerca de quarenta minutos depois, suada, com os músculos da coxa e dos glúteos estalando de tensão e o abdômen latejando, ela encerrou o treino com alguns alongamentos profundos.
Ao caminhar de volta para a varanda que dava para o quintal gramado, Júlia avistou Kate. A loira estava deitada confortavelmente na grande rede de descanso de tecido cru, pendurada entre as duas colunas de madeira da varanda, de frente para a piscina e a escuridão suave do jardim. Kate vestia apenas uma camiseta larga e um short de algodão folgado, com as pernas longas balançando suavemente no ar, segurando uma garrafa de água gelada.
Júlia não resistiu. Sentindo a adrenalina do pós-treino correr nas veias e aquele espírito abusado e competitivo falar mais alto, caminhou até a varanda sem fazer barulho, os passos firmes ecoando no deck de madeira.
Ela parou bem em frente à rede, apoiando o peso em uma perna só, cruzando os braços sob os seios e arqueando a sobrancelha ruiva com desdém brincalhão.
— Vida boa, né? Enquanto eu tô ali suando a camisa, você fica aí jogada como se fosse dona da pensão.
Kate abriu lentamente um olho azul, encarando Júlia de baixo para cima com uma calma irritante. O olhar da loira desceu pelas curvas bem delineadas da esposa, detendo-se na cintura fina e nas linhas atléticas esculpidas pela legging apertada.
— Eu já trabalhei duro hoje, querida — respondeu Kate, a voz arrastada e rouca. — Dei mais de trinta ataques naquela quadra. Tenho direito ao meu descanso sagrado. Mas vejo que você não aguentou nem uma hora lá dentro. Veio correndo porque não aguenta ficar longe de mim, é?
— Sonha, russa — Júlia riu pelo nariz, dando um passo mais perto da rede, projetando o quadril de forma deliberadamente provocante. — Voltei porque não sou burra de me lesionar, ao contrário de certas jogadoras que esquecem que têm cartilagem no joelho. Mas o treino foi ótimo. Me sinto ótima.
Kate soltou a garrafa de água no chão e apoiou as costas na lateral da rede, sentando-se com aquele sorriso torto, provocador e zangado que Júlia conhecia tão bem quando o jogo esquentava.
— É mesmo? Tá se sentindo ótima? — Kate passou a língua pelo lábio superior, os olhos azuis faiscando na penumbra da varanda. — Porque de onde eu tô olhando, parece que aquela academia fez milagre nesse corpo em quarenta minutos.
Júlia deu uma giradinha teatral, virando de costas para fingir que olhava a piscina, exibindo propositalmente o contorno curvilíneo e empinado das nádegas realçadas pelo tecido colado da legging.
— Inveja é uma coisa muito feia, Kate — Júlia debochou por cima do ombro. — Reconheça a dedicação de quem se esforça.
Num movimento rápido como um bote na rede de vôlei, as mãos grandes e fortes de Kate dispararam para a frente, agarrando a cintura de Júlia com firmeza inegociável e puxando-a para trás. Júlia soltou um gritinho de surpresa quando seu corpo caiu desajeitado, mas certeiro, no meio da rede, bem em cima do colo da loira.
— Ei! Ficou maluca?! — Júlia tentou se debater, rindo em meio ao falso protesto, mas o tecido da rede se fechou ao redor das duas como um casulo, deixando-as prensadas uma contra a outra.
Kate não perdeu tempo. Em vez de afrouxar o aperto, deslizou uma das mãos com descaramento absoluto direto para as nádegas de Júlia, apertando a carne firme com força calculada que fez o ar faltar nos pulmões da ruiva.
— Você veio aqui me provocar achando que eu ia ficar quieta, Bergmann? — Kate sussurrou contra o maxilar de Júlia, os lábios roçando na pele suada e quente. — Você me conhece há tempo demais para saber que eu não aceito provocação sem dar o troco.
— Sua descarada... — Júlia gemeu baixinho, os olhos verdes semicerrados enquanto sentia a palma de Kate subir lentamente e delinear sua curva. — Tira essa mão daí, o Léo ou o Lucas podem aparecer aqui a qualquer momento.
— Eles estão muito ocupados no videogame, e a porta de vidro tá fechada — Kate deu mais um aperto audacioso, mordiscando a lateral do pescoço de Júlia, que estremeceu inteira em seus braços. — E você não respondeu à minha pergunta. Tá muito abusada com essa calça colada, exibindo essa bunda gigante que parece que dobrou de tamanho depois que você saiu daquela sala.
— É tudo músculo, meu amor — Júlia conseguiu soltar uma risada provocadora, virando o rosto para encará-la bem de perto, a respiração de ambas se misturando na brisa fresca da noite. — Coisa que você não tem paciência de construir na academia sem ficar reclamando pros fisioterapeutas.
— Músculo, é? — Kate sorriu com malícia, colando a testa na de Júlia, seus olhos azuis brilhando na penumbra. — Pois eu acho que você tá querendo que eu teste a resistência desse músculo todo. Fala a verdade... quando é que eu vou poder testar isso tudo sem você inventar desculpa de ciúme ou cansaço?
Júlia sentiu um calor súbito subir pelo peito, o coração batendo no mesmo ritmo acelerado de uma final de campeonato. Ela levou as mãos até a nuca de Kate, afundando os dedos nos fios dourados da esposa, e puxou levemente a cabeça dela para mais perto.
— Quem disse que eu tô inventando desculpa? — Júlia sussurrou, a voz carregada de desafio e um desejo que não se preocupava mais em esconder. — Se você acha que tem energia suficiente para dar conta depois de um treino pesado e dessa conversa fiada toda... o quarto do fim do corredor tá com a porta trancada esperando.
Kate soltou uma risada rouca, aquele som gutural e vitorioso que Júlia amava e odiava na mesma medida.
— Eu tenho energia de sobra para você, ruiva — Kate disse, colando os lábios nos de Júlia em um beijo profundo, exigente e cheio de posse, que fez a rede balançar suavemente sob o peso das duas. — E se você continuar com essa pose de abusada, não te deixo levantar daquela cama até o meio-dia de amanhã.
Júlia sorriu entre o beijo, mordendo o lábio inferior da loira antes de se afastar apenas o suficiente para encará-la nos olhos.
— Quero ver você tentar, Antropova. Quero ver você tentar.
