
Equilíbrio Instável e o Peso do Zelo
O silêncio no apartamento de cobertura em São Paulo era denso, carregado com a eletricidade que precede uma tempestade. Emanuel estava parado diante da imensa parede de vidro que revelava as luzes da cidade, mas seus olhos não viam a paisagem urbana. Ele via, em sua mente, a imagem do carrinho de bebê tombado na calçada e o choro agudo de Maya ecoando pelo estacionamento do shopping.
Ele era um homem de controle. Administrar estúdios de tatuagem em três continentes exigia uma frieza cirúrgica, a mesma que ele usava para traçar linhas definitivas na pele de seus clientes. Mas, quando se tratava de sua família — daquela configuração peculiar e intensa que ele havia construído —, o controle era uma ilusão que se esfacelava facilmente.
Atrás dele, o som de saltos altos e o roçar de tecido leve indicavam que elas haviam chegado.
— Emanuel, querido... — A voz de Sara era a primeira a romper o silêncio. Era uma voz confiante, tingida por aquele tom levemente irônico que ela usava para desarmar qualquer situação.
Emanuel se virou lentamente. Sara estava encostada no batente da porta, a postura impecável. O vestido justo realçava cada curva de seu corpo esculpido, os cabelos loiros perfeitamente alinhados e a maquiagem impecável, apesar do susto de meia hora atrás. Ao lado dela, Eduarda parecia o oposto absoluto. A jovem de vinte anos, com seus olhos amendoados e úmidos, vestia um conjunto de moletom claro e trazia o cabelo castanho preso em um coque frouxo que deixava escapar algumas mechas sobre o rosto pálido.
— Eu disse para esperarem o segurança no saguão — a voz de Emanuel saiu baixa, rouca de tensão. — Eu fui claro, não fui?
— Foi, Manu. Cristalino como um diamante bruto — Sara deu um passo à frente, balançando os quadris com uma indiferença que ele sabia ser apenas fachada. — Mas a Ágata estava inquieta e a Maya queria o colinho da Duda. O carro estava logo ali. Não achei que aquele idiota fosse dar ré sem olhar.
— "Não achou" não é uma medida de segurança, Sara! — Emanuel explodiu, o volume da voz subindo apenas o suficiente para fazê-las sobressaltar. — A Maya quase foi atingida! Ela caiu do carrinho porque vocês decidiram que as regras não se aplicavam a vocês hoje.
Eduarda, que até então permanecia encolhida, soltou um soluço baixo. O som cortou o peito de Emanuel como uma agulha de tatuagem mal ajustada. Ele a viu tremer, as mãos pequenas apertando a barra da blusa. Ela era sua prima, sua protegida, a mulher que ele havia resgatado da solidão de uma gravidez abandonada e trazido para o centro de sua vida, dividindo-a com Sara.
— Emanuel... desculpa — Eduarda murmurou, a voz falhando. — Eu... eu só queria chegar em casa logo. A Maya estava cansada da aula de ballet... eu não queria desobedecer.
Ela se aproximou dele com passos curtos, a imagem da fragilidade. Eduarda tinha esse poder sobre ele; sua sensibilidade intuitiva sempre detectava as rachaduras na armadura de Emanuel. Ela sabia que ele não estava apenas bravo, ele estava aterrorizado com a ideia de perder o que eles tinham.
Emanuel sentou-se no sofá de couro, massageando as têmporas. A pressão de ser o pilar para duas mulheres tão distintas e duas bebês de um ano — Ágata, sua carne e sangue com Sara, e Maya, a menina que ele assumira legal e emocionalmente como filha — às vezes parecia esmagadora.
— Venham cá — ele ordenou, o tom ainda rígido, mas menos cortante.
Sara não esperou um segundo convite. Ela caminhou até ele com a confiança de quem conhece cada centímetro daquele homem. Sentou-se ao lado dele, passando os braços pelo pescoço de Emanuel, o perfume caro inundando os sentidos dele.
— O senhor "Dono do Mundo" está muito tenso — Sara sussurrou perto do ouvido dele, distribuindo beijinhos provocantes ao longo da linha da mandíbula dele. — A Ágata está bem, está dormindo com a babá. A Maya só ralou o dedinho, Duda já cuidou disso. Relaxa, grandão.
— Você é impossível, Sara — Emanuel resmungou, mas não a afastou. Ele amava a audácia dela, a forma como ela não se curvava diante de ninguém, nem mesmo dele.
Enquanto isso, Eduarda se aproximou pelo outro lado. Com sua timidez característica, ela não sentou ao lado; ela se acomodou entre as pernas dele, no chão, apoiando as costas contra os joelhos de Emanuel e, lentamente, subindo para o colo dele conforme ele abria espaço. Ela se aninhou ali, escondendo o rosto no pescoço dele, buscando o calor e a segurança que só ele provia.
— Papai está bravo com a gente? — Eduarda perguntou baixinho, usando o termo que Maya usava, sabendo que aquilo sempre amolecia o coração dele. Ela começou a se esfregar suavemente contra o peito dele, um gesto manhoso e carente, buscando o contato físico que era sua linguagem principal.
— Estou furioso com a irresponsabilidade de vocês — Emanuel disse, embora suas mãos já estivessem acariciando os cabelos castanhos de Eduarda e a cintura de Sara simultaneamente. — Se algo acontece com a Maya... se aquele carro não para...
— Mas parou — Eduarda interrompeu, levantando os
