
De volta ao nosso começo
Fandom: Fanfic
Criado: 29/09/2026
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Sombras Sob a Poeira da Estrada
A placa de madeira desgastada na entrada da cidade indicava "Bem-vindo a Willow Creek". Para o mundo, Sophie Keily era a voz que preenchia estádios e dominava as paradas de sucesso. Para aquela pequena cidade de interior, escondida entre colinas e campos de cultivo, ela era apenas a garota que partiu corações e deixou um rastro de tragédia antes de fugir para as luzes de Nova York.
O carro de luxo, dirigido por Megg, contrastava violentamente com as caminhonetes empoeiradas e as cercas de madeira da estrada principal. Sophie olhava pela janela, os dedos apertando o tecido da calça jeans. Seus olhos verdes, geralmente brilhantes sob os holofotes, estavam nublados por uma névoa de ansiedade.
— Você está respirando, Soph? — perguntou Lena, do banco de trás, fechando o notebook. A advogada conhecia cada expressão de sua cliente e melhor amiga. — Lembre-se: viemos pelo seu pai. O resto é ruído.
— Eu sei — respondeu Sophie, a voz rouca. — É só que... parece que o ar aqui ainda tem o cheiro daquela noite.
Megg soltou um suspiro longo, ajustando os óculos escuros sobre os cabelos loiros impecáveis.
— Se alguém começar a falar bobagem, eu mesma cuido disso. Não importa se é sua família ou o padeiro. Ninguém toca na nossa estrela.
Sophie esboçou um sorriso fraco. Ela precisava daquela proteção. Ao longo dos dez anos de ausência, ela se transformara em uma mulher forte, capaz de lidar com contratos milionários e críticas ferozes da mídia. Mas ali, cruzando o limite da cidade, ela se sentia novamente como a menina de dezesseis anos, com o vestido encharcado de chuva e o grito de dor preso na garganta.
A chegada à casa dos Calloway foi recebida com um silêncio pesado. O jardim, antes impecável, mostrava os sinais do tempo. Jene Calloway estava na varanda. A mãe de Sophie parecia ter envelhecido vinte anos em dez. Ao ver a filha sair do carro, seus olhos se encheram de uma mistura confusa de alívio e mágoa.
— Você veio — disse Jene, a voz trêmula quando Sophie a abraçou. O abraço foi rígido.
— Eu prometi ao papai que estaria aqui, mãe.
O reencontro com os irmãos foi mais tenso. Jack e Olivia estavam na sala, cercados por seus cônjuges e filhos. O silêncio que se seguiu à entrada de Sophie foi cortante. Jack, agora um homem robusto e de olhar severo, cruzou os braços.
— Demorou dez anos para o caminho de volta para casa aparecer no seu GPS, Sophie? Ou Nova York era longe demais para o funeral dele, mas perto o suficiente para uma festa de despedida? — A voz de Jack pingava sarcasmo.
Sophie sentiu a pontada no peito, mas não baixou a cabeça. Ela não era mais a menina que aceitava a culpa em silêncio.
— Eu não vim aqui para discutir o passado que vocês se recusam a perdoar, Jack — disse ela, mantendo o tom de voz firme e elegante. — Vim honrar o último desejo do papai. Se você não consegue ser civilizado por ele, o problema é seu, não meu.
— Ora, veja só — Olivia interveio, levantando-se do sofá. — A fama deu garras para a nossa pequena fugitiva.
— Não são garras, Olivia — cortou Lena, dando um passo à frente com sua postura profissional e intimidadora. — É apenas maturidade. Algo que, pelo visto, não cresce tão rápido nesta cidade quanto o milho.
O clima pesou, mas a presença de Megg, que começou a descarregar malas caras e a organizar o ambiente como se fosse a dona do lugar, impediu que a discussão escalasse.
Naquela tarde, Sophie decidiu caminhar. Ela precisava de ar, longe dos olhares acusadores de seus irmãos. O destino, embora ela tentasse negar a si mesma, era a antiga trilha que levava à fazenda dos Sally.
Willow Creek não havia mudado. As pessoas ainda trabalhavam na terra, os adolescentes se reuniam na frente da única lanchonete da cidade e o ritmo da vida era ditado pelo sol. Sophie foi reconhecida por alguns jovens, que pediram fotos timidamente, maravilhados por verem a "Sophie Keily" em carne e osso. Ela os atendeu com a doçura que lhe era característica, mas seu coração deu um salto quando avistou a silhueta de um homem cuidando de um cavalo perto de uma cerca de madeira.
Era ele.
Benjamin Sally não era mais o garoto magro e bronzeado que surfava nas férias e sonhava com o mar. Ele estava mais alto, os ombros largos preenchendo a camisa de flanela, o cabelo preto curto e uma barba por fazer que lhe dava um ar rústico e maduro. Ele se movia com uma leve mancada na perna esquerda — a cicatriz física do dia em que o mundo de ambos desmoronou.
Sophie parou a alguns metros de distância. O som de seus passos na grama seca fez Ben se virar. Por um momento, o tempo parou. O olhar castanho claro dele encontrou o verde dela, e o impacto foi quase físico.
— Sophie — disse ele. Não era uma pergunta, era uma constatação carregada de um peso insuportável.
— Oi, Ben.
Ele soltou as rédeas do cavalo e caminhou lentamente até a cerca. Cada passo dele era um lembrete para Sophie do campeonato que ele perdeu, da lesão que encerrou sua carreira e da partida dela sem um adeus adequado.
— Ouvi dizer que você voltaria para a cerimônia do Tom — Ben falou, a voz agora mais grossa, com o sotaque do interior mais marcado. — Não achei que teria coragem de aparecer por aqui.
— Eu precisava vir. Por ele.
— Só por ele? — Ben soltou uma risada amarga, encostando-se na cerca. — Claro. Sempre foi sobre o que você queria, Sophie. A faculdade, a música, a cidade grande. Você nunca olhou para trás para ver quem estava sangrando na estrada.
— Isso não é verdade — Sophie rebateu, aproximando-se, a mágoa subindo pela garganta. — Eu tentei falar com você antes de ir. Você me mandou embora! Você disse que não queria me ver nunca mais!
— E o que você esperava? — Ben explodiu, o temperamento calmo dando lugar à dor guardada por uma década. — Eu estava em uma cama de hospital, com a perna destruída porque não conseguia pensar em nada além de onde você estava enquanto eu competia. E aí eu descubro que você já estava com as malas prontas para me deixar para trás. Você me amava, Sophie? Ou eu era só o passatempo de verão antes da sua vida real começar?
— Eu amava você mais do que a mim mesma! — gritou ela, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Mas eu me sentia um monstro! Meu pai morreu por minha causa, meus irmãos me odiavam, e você... você era a única coisa boa que restava, e eu senti que ia destruir você também se ficasse.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som do vento nas árvores. Ben a olhou, e por um segundo, Sophie viu o brilho do antigo Ben ali, o menino que a protegia de tudo. Mas o brilho desapareceu rapidamente.
— Tarde demais, Soph. Você já destruiu.
— Ben! — Uma voz feminina chamou da entrada da casa principal da fazenda.
Uma mulher de cabelos claros e sorriso confiante caminhava em direção a eles. Sophie sentiu o sangue congelar. Era Tali Fields. Sua ex-melhor amiga. A pessoa que conhecia todos os seus segredos, agora caminhava até Ben e passava o braço pela cintura dele com uma naturalidade possessiva.
— Sophie? — Tali fingiu surpresa, embora o brilho em seus olhos sugerisse que ela já sabia da chegada da cantora. — Puxa, quanto tempo. Soubemos que você viria para o memorial.
— Oi, Tali — Sophie respondeu, recompondo-se e limpando o rosto rapidamente.
— Você deve estar exausta da viagem — Tali continuou, o tom de voz doce demais para ser sincero. — Ben e eu estávamos agora mesmo discutindo os detalhes do nosso noivado. Queríamos que tudo estivesse pronto antes da cerimônia do seu pai, por respeito, sabe?
Noivado. A palavra ecoou na mente de Sophie como um sino fúnebre.
— Parabéns — disse Sophie, a voz agora fria como gelo, a máscara de Sophie Keily retornando para protegê-la. — Fico feliz que vocês tenham encontrado o que procuravam um no outro.
Ben não disse nada. Ele apenas olhava para Sophie, uma batalha silenciosa ocorrendo em seus olhos.
— Bom, eu tenho muito o que organizar para a despedida do meu pai — Sophie continuou, olhando diretamente para Tali. — E, ao contrário do que vocês pensam, eu não vim aqui para reviver o passado. Vim para enterrá-lo de vez. Com licença.
Ela deu as costas e começou a caminhar, mantendo a postura ereta até ter certeza de que estava fora da visão deles. Quando chegou a uma curva da estrada, onde as árvores a escondiam, Sophie desabou contra um tronco, soluçando silenciosamente.
— Soph? — A voz de Megg surgiu logo atrás. A produtora a seguira de longe, prevendo que o encontro não terminaria bem.
Megg se aproximou e abraçou a amiga, deixando que ela chorasse em seu ombro.
— Ele está noivo, Megg. Com a Tali.
— Eu sei, querida. Eu vi — Megg acariciou o cabelo de Sophie. — Mas escute bem: você é Sophie Keily. Você sobreviveu àquela noite, sobreviveu a Nova York e construiu um império do nada. Você não vai deixar que uma sombra do passado e uma noiva de interior derrubem você.
Sophie se afastou, secando os olhos. O olhar verde agora estava endurecido.
— Você tem razão.
— A cerimônia é em três dias — lembrou Lena, que aparecera logo atrás de Megg. — Sua família quer que você cante. Jack foi contra, mas sua mãe insistiu. É o desejo do seu pai no testamento.
— Eu vou cantar — disse Sophie, a voz firme. — Mas não vai ser uma canção de derrota.
Ao voltarem para a casa dos Calloway, encontraram a varanda cheia. Os amigos de Ben — Caly, Mike e Léo — estavam lá, ajudando Jack com os preparativos das mesas para a festa. A atmosfera era estranha. Caly, sempre o brincalhão, tentou aliviar o clima.
— Olha só se não é a estrela de Hollywood! — disse ele, abrindo os braços. — Sophie, você está... diferente. Mais alta? Ou é só o cheiro de dinheiro?
— É o cheiro de quem não limpa estábulos há dez anos, Caly — brincou Sophie, permitindo-se um pequeno sorriso. Caly era o único que parecia não carregar um peso enorme contra ela.
— Ei, respeite o meu trabalho! — riu ele, mas logo ficou sério ao ver Ben e Tali se aproximarem do grupo.
Léo, segurando o pequeno Liam no colo, aproximou-se de Sophie.
— Sinto muito pelo seu pai, Sophie. Ele era um grande homem. O Liam adora as histórias que o Frank conta sobre ele.
— Obrigada, Léo. Fico feliz que ele seja lembrado assim.
A noite caiu sobre Willow Creek com uma beleza melancólica. Sophie estava em seu antigo quarto, que permanecera exatamente como ela o deixara — um santuário de pôsteres de bandas de rock e letras de música rabiscadas em cadernos.
Ela pegou um violão velho que estava no canto e dedilhou algumas notas. A madeira estava seca, o som um pouco desafinado, mas era real.
Lá embaixo, no jardim, ela podia ouvir as risadas dos amigos, o som da cerveja sendo aberta e as conversas sobre a colheita. Era o mundo ao qual ela pertencia, mas do qual fora expulsa pela culpa e pela dor.
A porta do quarto se abriu levemente. Era sua irmã, Olivia.
— A mamãe quer saber se você vai descer para o jantar. Ou se a comida daqui é simples demais para o seu paladar refinado.
Sophie suspirou, deixando o violão de lado.
— Olivia, por que você me odeia tanto? Eu era uma criança. Eu também perdi meu pai naquela noite. Eu também quase morri.
Olivia parou na porta, a expressão suavizando-se por apenas um milésimo de segundo antes de endurecer novamente.
— Você saiu. Nós ficamos. Nós vimos a mamãe definhar. Nós ouvimos o silêncio daquela casa por anos enquanto você brilhava na televisão. Você teve o sucesso, Sophie. Nós tivemos o luto. Não espere que a gente bata palmas para a sua redempção.
Olivia saiu, batendo a porta.
Sophie caminhou até a janela e olhou para a fazenda vizinha. Uma luz estava acesa no celeiro dos Sally. Ela sabia que Ben estava lá. Ele sempre ia para o celeiro quando não conseguia dormir.
Ela sentiu uma vontade avassaladora de ir até lá, de gritar que nunca deixou de amá-lo, de explicar que cada música de amor que ela escreveu era para ele. Mas então, a imagem de Tali passando o braço pela cintura dele voltou à sua mente.
— Dez anos, Tom — sussurrou Sophie para a escuridão, falando com o pai. — Dez anos e a ferida ainda está aberta.
Ela pegou uma caneta e um pedaço de papel. O memorial não seria apenas uma despedida para Tom Calloway. Seria o acerto de contas de Sophie com a cidade que a criou e a destruiu. E ela faria isso da única maneira que sabia: através da música.
Enquanto a lua subia sobre as colinas de Willow Creek, a cantora começou a escrever. Não era Sophie Keily quem movia a caneta, mas Sophie Calloway. A garota que amava o mar, que temia a chuva e que ainda esperava, no fundo do coração, que o primeiro amor pudesse, algum dia, perdoar o imperdoável.
