
Kidnapping
Fandom: EngLot FayeLotte
Criado: 29/09/2026
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Xeque-Mate Carmesim
O silêncio no galpão industrial era interrompido apenas pelo som rítmico e seco de um cubo mágico sendo manipulado. Engfa Waraha estava sentada em uma poltrona de couro desgastada, os dedos movendo-se com uma precisão cirúrgica, os olhos castanhos fixos nos quadrados coloridos que se alinhavam sob seu comando. Ela não precisava olhar para as mãos; as pequenas cicatrizes em seus nós dos dedos, lembranças de lutas que a diplomacia da máfia não resolveu, eram apenas texturas familiares contra o plástico do brinquedo.
A poucos metros dali, presa não por correntes, mas pelo medo e por uma porta trancada que ela sabia ser vigiada, Charlotte Austin tentava manter o foco em seu caderno de esboços. Suas mãos tremiam levemente, um sinal claro da ansiedade que subia por sua garganta como uma maré persistente. Ela odiava estar ali. Odiava o fato de seu pai ser um banqueiro cujos pecados agora recaíam sobre seus ombros. Mas, acima de tudo, Charlotte odiava o fato de que suas sequestradoras eram as mulheres mais hipnotizantes que ela já vira.
Engfa, com sua aura de controle absoluto e silêncio cortante, e Faye, que era o oposto exato: um incêndio em forma de mulher.
O som de um motor potente rugiu do lado de fora, seguido pelo ranger da porta metálica. Charlotte sentiu o coração disparar.
— Ela chegou — murmurou Engfa, sem desviar os olhos do cubo. O estalo final indicou que todas as cores estavam em seus devidos lugares.
Faye Malisorn entrou no ambiente como se fosse a dona do mundo, e tecnicamente, naquele perímetro, ela era. O cabelo vermelho vibrante parecia brilhar sob as luzes fluorescentes, e o pequeno corte no canto da boca, uma marca de sua última aventura, apenas acentuava seu sorriso predatório. Ela jogou as chaves de um Porsche sobre a mesa de metal, fazendo um barulho estridente que fez Charlotte sobressaltar-se.
— Senti saudades, bonequinha? — Faye perguntou, caminhando direto em direção a Charlotte.
A jovem de sardas no rosto apertou o lápis com força, a dualidade entre sua coragem natural e a submissão imposta pela situação lutando dentro dela.
— Eu preferia que você tivesse batido o carro — retrucou Charlotte, a língua afiada disparando antes que sua prudência pudesse detê-la.
Faye soltou uma risada alta, energética, e se inclinou sobre a mesa de Charlotte, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado e caro de Faye envolveu os sentidos da mais nova.
— Tão brava... eu adoro quando você mostra os dentes — Faye esticou a mão, tocando levemente uma das sardas no nariz de Charlotte. — O papai ainda está dificultando as coisas. Ele acha que o dinheiro dele vale mais que a integridade da pele da filha.
— Deixe ela em paz, Faye — a voz de Engfa soou baixa, mas carregada de uma autoridade que fez o ar na sala pesar.
Engfa se levantou. Ela era três centímetros mais baixa que Faye, mas sua presença controladora preenchia o espaço de forma diferente. Ela caminhou até as duas, seus olhos observadores escaneando cada detalhe da postura de Charlotte, notando a respiração curta que denunciava o início de uma crise de pânico.
— Você está sufocando ela — continuou Engfa, parando ao lado de Faye.
Faye virou-se para a parceira, um brilho travesso nos olhos. Ela sabia exatamente quais botões apertar em Engfa.
— Ah, Engfa... sempre tão protetora. O que foi? Está com ciúmes porque eu cheguei perto demais da nossa mercadoria? — Faye deu um passo em direção a Engfa, diminuindo a distância entre as duas até que seus corpos quase se tocassem.
Engfa não recuou. Ela manteve a expressão impassível, embora a tensão em sua mandíbula revelasse a irritação.
— Ela precisa estar calma para ser útil. Se ela tiver um colapso, o valor de troca diminui — respondeu Engfa, a voz fria e lógica.
— Mentirosa — Faye sussurrou, passando a ponta dos dedos pelo ombro do casaco de Engfa. — Você só quer ela toda para você, trancada nessa sua bolha de silêncio e xadrez.
Charlotte observava a interação, esquecendo-se por um momento de respirar. A tensão entre as duas mafiosas era quase palpável, uma mistura de rivalidade, parceria e algo muito mais sombrio e possessivo. Era aterrorizante e, ao mesmo tempo, terrivelmente atraente.
— Vá verificar o perímetro, Faye — ordenou Engfa, os olhos fixos nos da ruiva.
— E se eu não quiser? — Faye desafiou, aproximando o rosto do de Engfa. — O que você vai fazer, Waraha? Vai me colocar de castigo?
Engfa deu um passo à frente, forçando Faye a recuar um centímetro. A postura de controle de Engfa estava ali, mas Charlotte viu o momento exato em que a arrogância de Faye começou a quebrar a barreira da outra.
— Eu não brinco, Faye. Você sabe disso — disse Engfa, a voz agora um rosnado baixo.
Faye sorriu, vitoriosa por ter conseguido uma reação, e então se virou para Charlotte, piscando um olho.
— Volto logo para te ver, Charlotte. Tente não se apaixonar pela chatice da Engfa enquanto eu estiver fora.
Assim que Faye saiu, o silêncio retornou, mas não era mais o mesmo. Charlotte sentia o peito apertado. A ansiedade, que Faye havia mascarado com sua energia caótica, voltou com força total. Suas mãos começaram a tremer visivelmente e ela soltou o lápis, que rolou pela mesa e caiu no chão.
Engfa observou a cena. Ela não se aproximou bruscamente. Em vez disso, contornou a mesa com passos lentos e calculados.
— Respire, Charlotte — disse Engfa, sua voz suavizando-se em um tom que poucas pessoas tinham o privilégio de ouvir.
— Eu... eu não consigo — Charlotte ofegou, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Vocês vão me matar, não vão? Meu pai não vai pagar... ele nunca cede...
Engfa parou à frente dela e, com uma hesitação que durou apenas um milésimo de segundo, colocou as mãos nos ombros da garota. O toque era firme, controlador, mas estranhamente reconfortante.
— Olhe para mim — ordenou Engfa.
Charlotte levantou o olhar, encontrando os olhos castanhos profundos da mulher mais velha.
— Ninguém vai encostar um dedo em você. Nem Faye, nem os homens do seu pai, nem ninguém — Engfa afirmou com uma convicção absoluta. — Você está sob minha custódia. E eu não perco o que é meu.
A palavra "meu" ecoou na mente de Charlotte. Era possessivo, era errado, mas naquele momento, era a única âncora que ela tinha.
— Por que você faz isso? — perguntou Charlotte, a voz falha. — Por que age como se se importasse?
Engfa inclinou-se ligeiramente, seu rosto a centímetros do de Charlotte. Ela podia ver cada sarda, cada traço de medo e coragem no rosto da jovem.
— Porque você é uma peça rara, Charlotte. E eu sempre guardo as melhores peças do tabuleiro para o final.
Engfa afastou-se e pegou o lápis que havia caído no chão, entregando-o de volta a Charlotte. Seus dedos se roçaram, e o choque elétrico fez Charlotte recuar levemente. Engfa notou, um pequeno sorriso de canto surgindo em seus lábios — um gesto raro e perigoso.
Algumas horas depois, a noite havia caído sobre o galpão. Faye retornou, trazendo consigo o cheiro de asfalto e adrenalina. Ela encontrou Engfa e Charlotte em um silêncio tenso. Engfa estava montando um tabuleiro de xadrez em uma mesa lateral, enquanto Charlotte a observava, ainda sentada em seu canto, mas parecendo mais composta.
— Ora, ora... o clube do xadrez começou? — Faye zombou, jogando-se em um sofá próximo. — Engfa, você é tão previsível. Por que não jogamos algo mais interessante? Cartas? Apostas de verdade?
Engfa moveu um peão.
— Xadrez exige estratégia, Faye. Coisa que você raramente usa antes de agir.
— Eu uso a intuição — rebateu Faye, levantando-se e caminhando até Charlotte. Ela se sentou no braço da cadeira da jovem, passando o braço por cima do encosto, cercando-a. — O que você acha, Charlotte? Prefere o silêncio mortal da Engfa ou a diversão que eu posso te oferecer?
Charlotte olhou de uma para a outra. A dualidade de sua situação nunca foi tão clara. Faye era o fogo que prometia queimar, mas também aquecer. Engfa era o gelo que mantinha tudo no lugar, mas que poderia esmagar com a mesma facilidade.
— Eu acho que as duas são loucas — respondeu Charlotte, ganhando um olhar de aprovação de Faye e um erguer de sobrancelhas de Engfa.
— Corajosa — comentou Faye, deslizando a mão pelo cabelo castanho-claro de Charlotte. — Ela tem língua afiada, Engfa. Você não disse que ela era tão atrevida.
— Ela é observadora — disse Engfa, sem tirar os olhos do tabuleiro. — Ela vê o que você está tentando fazer, Faye. Você está tentando me provocar usando ela. Pare.
Faye soltou uma risada anasalada e se inclinou, sussurrando no ouvido de Charlotte, mas alto o suficiente para Engfa ouvir:
— Ela fica tão brava quando eu toco no que ela acha que controla. É delicioso ver a máscara dela cair.
Engfa levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um som estridente. Em dois passos, ela estava na frente de Faye, puxando-a pelo braço para longe de Charlotte.
— Já chega — sibilou Engfa.
Faye não pareceu intimidada. Pelo contrário, ela se aproximou ainda mais de Engfa, desafiando o espaço físico da outra com uma dominância natural.
— O que foi, Waraha? Vai me forçar a parar? — Faye passou a língua pelo pequeno corte no lábio, os olhos brilhando com o desafio. — Você quer ela. Eu também quero. Por que estamos fingindo que isso é apenas sobre um resgate?
Charlotte sentiu o rosto arder. A confissão direta de Faye jogou a tensão para um nível insuportável. Engfa soltou o braço de Faye, mas não se afastou. A teimosia e o orgulho de ambas colidiam no ar.
— Ela é nossa responsabilidade — disse Engfa, embora sua voz tivesse perdido um pouco da frieza habitual, substituída por uma intensidade sombria. — Não um brinquedo.
— Ela pode ser os dois — Faye retrucou, virando-se para Charlotte. — O que você diz, Charlotte? Quer ser cuidada pela mão de ferro da Engfa ou quer ver até onde a minha adrenalina pode te levar?
Charlotte respirou fundo, tentando controlar a ansiedade que ameaçava voltar. Ela olhou para Faye, com seu cabelo vermelho e sorriso perigoso, e depois para Engfa, com sua postura impecável e olhos que pareciam ler sua alma.
— Eu só quero ir para casa — mentiu Charlotte, sua voz tremendo levemente.
Engfa deu um passo em direção a ela, ignorando Faye por um momento. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Charlotte, o polegar acariciando uma das sardas.
— Você não vai para casa até que eu decida que é seguro — disse Engfa, sua voz carregada de uma possessividade que não deixava margem para discussões. — E até lá, você pertence a este lugar. A nós.
Faye aproximou-se por trás de Engfa, colocando as mãos nos ombros da mafiosa mais velha, formando uma barreira física ao redor de Charlotte.
— Viu só? — Faye sussurrou. — Até a nossa rainha do gelo admite. Você é nossa, Charlotte Austin. E nós cuidamos muito bem do que nos pertence.
Charlotte sentiu-se pequena entre as duas, mas, pela primeira vez desde que fora sequestrada, a sensação de pânico foi substituída por uma curiosidade perigosa. Ela odiava o charme delas, odiava a forma como elas a controlavam, mas não podia negar a atração gravitacional que Engfa e Faye exerciam sobre ela.
Engfa olhou para Faye pelo canto do olho, um entendimento silencioso passando entre as duas. Elas eram rivais em muitos sentidos, mas no que dizia respeito a Charlotte, estavam em perfeita sintonia.
— Faye, vá preparar o jantar — ordenou Engfa, embora o tom fosse menos um comando e mais uma concessão.
— Só porque eu também estou com fome — Faye piscou para Charlotte e saiu em direção à pequena cozinha do galpão, cantarolando uma melodia qualquer.
Engfa voltou sua atenção total para Charlotte. Ela se sentou na beirada da mesa, observando os desenhos no caderno da jovem. Eram esboços de grades, de sombras e, curiosamente, um esboço inacabado do perfil de Engfa.
— Você tem talento — comentou Engfa, a voz baixa.
— É a única coisa que me impede de enlouquecer aqui — respondeu Charlotte, fechando o caderno rapidamente.
— Não precisa se esconder de mim — Engfa estendeu a mão, abrindo o caderno novamente na página do seu retrato. — Eu gosto da forma como você me vê. Menos perigosa do que eu realmente sou.
— Talvez eu veja o que você tenta esconder com esse cubo mágico e esses jogos de xadrez — Charlotte arriscou, o sarcasmo voltando a sua voz.
Engfa deu um meio sorriso, algo que transformou completamente seu rosto severo.
— Você é muito observadora para o seu próprio bem, Charlotte. Isso pode ser uma virtude ou uma maldição nesta casa.
— E qual das duas você prefere? — perguntou a mais nova.
Engfa inclinou-se, o cheiro de Charlotte — uma mistura de tinta e medo — preenchendo seus pulmões.
— Eu prefiro que você continue sendo exatamente quem é. Teimosa, afiada e... minha.
O momento foi interrompido pelo som de algo quebrando na cozinha, seguido por um xingamento alto de Faye. Engfa suspirou, a fachada de controle voltando instantaneamente ao lugar.
— Ela é um caos — murmurou Engfa.
— E você é a ordem? — perguntou Charlotte.
Engfa olhou para ela uma última vez antes de se levantar para ir ver o que Faye havia aprontado.
— Eu sou o xeque-mate, Charlotte. Nunca se esqueça disso.
Enquanto Engfa se afastava, Charlotte tocou o próprio rosto, onde os dedos da mafiosa haviam estado. O coração dela ainda batia rápido, mas não era mais apenas por medo. Era o início de algo muito mais complicado. Ela estava presa entre o fogo e o gelo, e, pela primeira vez, não tinha certeza se realmente queria ser resgatada.
Na cozinha, Faye e Engfa discutiam por algo trivial, mas a tensão erótica e possessiva entre as duas ainda ecoava pelo galpão. Charlotte pegou seu lápis novamente. Ela tinha um novo quadro para pintar em sua mente: umnde as cores vermelhas de Faye e os tons escuros de Engfa se misturavam, criando algo que ela ainda não conseguia definir, mas que, desesperadamente, queria explorar.
A noite estava apenas começando, e o jogo de poder entre as três mulheres estava longe de terminar. Naquele tabuleiro de máfia e desejo, cada movimento era crucial, e Charlotte Austin estava prestes a descobrir que, às vezes, ser a peça central é a posição mais perigosa — e excitante — de todas.
