
Amorpio
Fandom: Diário de uma princesa desastrada
Criado: 29/09/2026
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O Segredo entre Espinhos e Violetas
O campo de batalha estava mergulhado em um caos de cores vibrantes e faíscas mágicas que zuniam pelo ar como vespas enfurecidas. Amora, com seus cabelos roxos presos em um coque apressado que insistia em se soltar, tentava manter a postura. Por trás de sua fachada de garota comum, o peso de ser uma princesa escondida e a responsabilidade de portar o diário mágico queimavam em seu peito. Ela era inteligente, sabia exatamente qual feitiço de contenção deveria usar, mas a vilã — uma sombra distorcida de inveja e magia antiga — era rápida demais.
— Cuidado, Amora! — gritou Lila, cujos cachos saltitavam enquanto ela tentava criar uma barreira defensiva com as mãos trêmulas.
Amora virou-se, mas o feitiço, um raio de luz escarlate e sombrio, já estava a poucos centímetros de seu rosto. O impacto não foi doloroso no início; foi como um mergulho súbito em água gelada. O mundo girou, as cores se misturaram em um borrão violeta e suas pernas simplesmente deixaram de obedecer.
Antes que o chão duro a recebesse, braços fortes e surpreendentemente ágeis a envolveram.
Scorpion, que segundos antes estava fazendo uma piada infame sobre como o cabelo de Amora parecia um repolho roxo sob a luz do sol, agora tinha uma expressão que ninguém jamais vira em seu rosto: terror puro. O garoto de cabelos espetados, sempre pronto para incomodar e provocar, segurou-a contra o peito antes que ela atingisse a grama.
— Amora? Ei, Garota-Repolho, acorda! — A voz dele falhou, perdendo todo o tom sarcástico costumeiro. — Isso não tem graça, Amora!
Ela não respondeu. Sua cabeça pendeu para o lado, e a palidez de seu rosto contrastava drasticamente com as mechas roxas de seu cabelo.
— Scorpion, leve-a daqui agora! — Sadi gritou, mantendo a calma que lhe era peculiar. A prima de Scorpion já estava posicionada, analisando a trajetória dos ataques da vilã. — Nós cuidamos dela. A carroça está logo atrás da colina. Vá!
— Mas e vocês? — Scorpion hesitou, olhando para a vilã que gargalhava enquanto lançava rajadas de energia contra o escudo de Lila.
— A gente se vira, Scorp! — Lila exclamou, o suor escorrendo pela testa. — Só cuida da minha melhor amiga!
Scorpion não esperou uma segunda ordem. Ele ajeitou Amora em seus braços, surpreso com o quão leve ela parecia, e correu. Ele correu como se sua vida dependesse disso, ignorando o som das explosões mágicas atrás de si. Cada batida do coração de Amora que ele sentia contra seu braço era um alívio, mas o silêncio dela era ensurdecedor.
Ao chegar à carroça real, que estava escondida entre os salgueiros chorões, ele a deitou cuidadosamente sobre as almofadas de veludo. O interior da carroça cheirava a pergaminho e lavanda, o cheiro típico de Amora.
— Você sempre querendo ser a heroína, não é? — sussurrou Scorpion, enquanto pegava um cantil de água e um pano limpo. — Por que não deixou que eu fosse atingido? Eu tenho a cabeça dura, você sabe disso.
Ele molhou o pano e começou a limpar uma pequena mancha de fuligem na testa da garota. Seus olhos percorreram o rosto dela, notando pela primeira vez como os cílios dela eram longos e como ela parecia pequena sem aquela postura defensiva e os cadernos sempre nos braços.
Enquanto isso, a poucos metros dali, o embate atingia seu ápice.
— Ela está ficando mais forte! — Lila avisou, recuando um passo enquanto seu escudo rachava.
— Ela se alimenta do medo — Sadi observou, os olhos semicerrados, processando a situação com sua inteligência estratégica. — Lila, pare de tentar bloquear. Precisamos redirecionar. Se usarmos a força dela contra o próprio núcleo, podemos dissipar a forma física.
— E como fazemos isso sem a Amora? Ela é quem sabe os selos! — Lila estava à beira do pânico.
— Eu tenho uma ideia — Sadi disse, aproximando-se da prima. — Confie em mim. Se eu conseguir distraí-la com uma ilusão de ótica usando os cristais da carruagem, você ataca por baixo.
Dentro da carroça, o silêncio era quebrado apenas pela respiração pesada de Scorpion e os murmúrios inconscientes de Amora.
— ... o diário... — ela balbuciou, a voz quase um suspiro. — Preciso... escrever...
— Shhh, descansa, Amora. O diário está seguro — Scorpion disse em um tom de voz que ele nunca usaria em público. Ele segurou a mão dela, sentindo a pele fria. — Se você acordar agora, eu prometo que não te chamo de desastrada por... vejamos... dois dias inteiros. Talvez três.
Amora moveu a cabeça levemente, franzindo o cenho como se estivesse lutando contra um pesadelo.
— Três dias é muito pouco — ela murmurou, os olhos ainda fechados, mas com um leve esboço de sorriso nos lábios.
Scorpion deu um pulo, quase derrubando o cantil.
— Você está acordada! Sua espertinha, me deu um susto de morte!
Amora abriu os olhos lentamente. A cor violeta de suas íris parecia mais profunda após o choque mágico. Ela tentou se sentar, mas uma tontura a fez recair sobre as almofadas.
— Onde... onde estão a Lila e a Sadi? — perguntou ela, a voz recuperando a força.
— Lutando. Sadi teve uma daquelas ideias de gênio dela e a Lila está tentando não ser explodida — Scorpion explicou, voltando ao seu tom habitual, embora não soltasse a mão dela. — Você foi atingida em cheio. O que foi aquilo?
— Magia de esquecimento — Amora sussurrou, a expressão tornando-se séria. — Ela queria apagar quem eu sou. Queria que eu esquecesse do reino, da minha mãe... de vocês.
Scorpion ficou em silêncio por um momento, a mão apertando a dela com um pouco mais de força.
— E você esqueceu?
Amora olhou nos olhos dele, vendo a preocupação genuína escondida atrás do cabelo espetado e da postura de garoto problema.
— Não. Acho que algumas coisas são impossíveis de esquecer, por mais forte que seja a magia.
De repente, um estrondo ecoou do lado de fora, seguido por um clarão dourado que iluminou as frestas da carroça. Amora e Scorpion se entreolharam.
— Esse foi o sinal da Sadi — disse Amora, tentando se levantar novamente, desta vez com mais sucesso. — Eu preciso ir. Elas não vão conseguir selar a vilã sem o encantamento final.
— Você não vai a lugar nenhum nesse estado, Amora! — Scorpion protestou, bloqueando a saída da carroça. — Você mal consegue ficar de pé.
— Eu sou a princesa deste reino, Scorpion, mesmo que ninguém saiba — ela disse, com uma autoridade que o fez recuar um passo. — E eu não vou deixar minhas amigas morrerem por minha causa.
Scorpion suspirou, passando a mão pelo cabelo, deixando-o ainda mais bagunçado.
— Tá legal, tá legal. Mas eu vou junto. E se você desmaiar de novo, eu vou te carregar como um saco de batatas na frente de todo mundo, está ouvindo?
Amora soltou uma risadinha fraca.
— Combinado.
Eles saíram da carroça e viram a cena: Lila e Sadi tinham conseguido encurralar a vilã em um círculo de energia, mas a sombra estava prestes a romper a barreira. A Rainha S. e a Rainha N. surgiram no horizonte, montadas em seus cavalos alados, descendo como trovões para auxiliar, mas elas ainda estavam longe demais.
— Agora, Amora! — gritou Sadi, percebendo a amiga se aproximando.
Amora fechou os olhos e concentrou toda a sua inteligência e o amor que sentia por seu povo. Ela começou a recitar as palavras que estavam guardadas no fundo de sua alma, palavras que ela havia escrito em seu diário tantas vezes em noites de solidão.
— Pelo poder do que é oculto e pela força do que é real, que a sombra retorne ao seu lugar de origem e o equilíbrio seja restaurado!
Uma onda de luz violeta emanou de Amora, fundindo-se com o escudo de Lila e a estratégia de Sadi. A vilã soltou um grito final antes de se dissipar em mil partículas de poeira estelar.
O silêncio voltou a reinar no campo, interrompido apenas pelo som do vento nas árvores. Lila correu e abraçou Amora com tanta força que ambas quase caíram.
— Você está viva! — exclamou a cacheada, chorando e rindo ao mesmo tempo.
— Graças ao Scorpion — disse Sadi, aproximando-se com um sorriso raro e aprovador para o primo. — Ele agiu rápido.
As duas rainhas pousaram seus cavalos logo em seguida. A Rainha S. correu para a filha, a preocupação de mãe sobrepondo-se à postura de realeza.
— Amora! Minha querida, você está bem? — Ela analisou o rosto da filha, buscando qualquer sinal de dano permanente.
— Estou bem, mamãe. O Scorpion cuidou de mim — Amora disse, lançando um olhar de soslaio para o garoto.
A Rainha N., mãe de Scorpion, cruzou os braços e olhou para o filho com uma sobrancelha erguida.
— Scorpion cuidando de alguém? Isso é uma novidade. Geralmente ele é quem causa a confusão.
— Ei! — Scorpion reclamou, ficando vermelho. — Eu só não queria que a carroça ficasse suja se ela passasse mal, só isso.
Todos riram, quebrando a tensão do momento. Amora sentiu o peso do segredo de sua identidade um pouco mais leve agora. Ela sabia que, enquanto tivesse aqueles amigos ao seu lado — a doçura de Lila, a mente brilhante de Sadi e até mesmo as provocações protetoras de Scorpion —, ela poderia enfrentar qualquer desastre que o destino lhe reservasse.
Mais tarde, enquanto o sol se punha tingindo o céu de laranja e roxo, Amora abriu seu diário em um canto calmo da carruagem.
— "Hoje eu aprendi que nem toda magia é feita de palavras", escreveu ela. "Algumas magias são feitas de braços que te seguram antes de você cair e de amigos que lutam por você quando você não tem forças."
— Escrevendo sobre como eu sou incrível de novo? — A voz de Scorpion soou atrás dela, e ela rapidamente fechou o diário.
— Nos seus sonhos, Scorpion — ela rebateu, com um sorriso brilhante.
— Sabe, Amora... — ele começou, sentando-se ao lado dela e olhando para o horizonte. — Aquele brilho roxo que você fez... foi quase tão legal quanto o meu penteado.
— Quase? — ela riu, empurrando o ombro dele.
— Tá bom, foi muito legal. Mas não conta para ninguém que eu disse isso. Eu tenho uma reputação a zelar.
Amora encostou a cabeça no ombro dele por apenas um segundo, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, apenas uma garota comum com amigos extraordinários.
— Seu segredo está a salvo comigo, Scorpion. Assim como o meu está com você.
