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I only want you| Daryl Dixon E Violet Sullivan

Fandom: The walking Dead

Criado: 30/09/2026

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O Eco do Asfalto Quente

O mundo não terminou com um estrondo, nem com o fogo purificador de que as profecias bíblicas tanto falavam. Ele terminou com um suspiro sufocado em uma tarde úmida de agosto de 2010. O calor da Geórgia sempre fora implacável, mas naquele verão, o ar parecia carregar algo mais pesado do que a umidade: o cheiro metálico de sangue seco e a estática constante de rádios que, um a um, silenciavam-se para sempre.

Rick Grimes ajustou o chapéu de xerife, sentindo o suor escorrer pelas têmporas. O asfalto da rodovia que levava a Atlanta estava tão quente que ele juraria ver o ar ondulando sobre os carros abandonados. Havia uma fila interminável de veículos, portas abertas, malas reviradas e o silêncio — aquele silêncio antinatural que devorava qualquer resquício da civilização que ele conhecera.

Ele caminhava entre as carcaças de metal, a mão instintivamente próxima ao coldre do Colt Python. Cada estalo de metal esfriando ou cada farrapo de jornal levado pelo vento o fazia parar. A paranoia era a única coisa que ainda parecia fazer sentido.

— Shane? — chamou ele, a voz saindo rouca, mal ultrapassando a barreira dos dentes.

Não houve resposta. Apenas o som distante de um corvo grasnando em cima de um outdoor descascado que prometia um paraíso de férias que não existia mais.

Rick parou diante de um sedã azul. No banco do motorista, uma figura imóvel pendia sobre o volante. O vidro estava quebrado. Ele não precisou chegar perto para saber que o que quer que estivesse ali dentro não era mais humano, ou pelo menos, não da forma que ele entendia a humanidade há apenas algumas semanas.

Ele desviou o olhar, focando no horizonte. As árvores altas que ladeavam a estrada pareciam observá-lo. O verde era vibrante demais, ofensivo em sua vitalidade enquanto tudo o mais apodrecia. Agosto deveria ser o mês do retorno às aulas, das feiras de condado e das noites longas na varanda. Em vez disso, tornou-se o marco zero da extinção.

Longe dali, escondido sob a sombra de um viaduto, Daryl Dixon limpava a lâmina de sua faca na calça jeans imunda. Ele não olhava para o horizonte em busca de salvação; ele olhava para o chão, rastreando o que importava. Pegadas. Sangue fresco. O mundo podia ter acabado para os engravatados e para as pessoas que dependiam de eletricidade para saber quem eram, mas para Daryl, o mundo apenas tinha ficado um pouco mais silencioso.

— Merle? — murmurou ele, a voz áspera como lixa.

— Tô aqui, caipira. Para de ganir. — A voz de Merle veio de cima, onde ele estava agachado sobre uma viga de concreto, observando a estrada com um rifle atravessado nos joelhos.

Daryl cuspiu no chão, guardando a faca.

— A gente precisa sair debaixo dessa ponte. O cheiro tá atraindo aquelas coisas.

Merle soltou uma risada seca, um som sem alegria que ecoou nas paredes de concreto.

— O cheiro tá em todo lugar, maninho. O mundo virou um grande churrasco estragado. Você sentiu o bafo daquele bicho lá atrás? Agosto de 2010... o ano em que Deus resolveu tirar férias e deixou a porta do inferno aberta.

Daryl não respondeu. Ele pegou sua besta, verificando a tensão da corda.

— Não foi Deus — disse Daryl, finalmente levantando os olhos para o irmão. — Foi a gente. A gente só demorou pra perceber que já tava morto.

Merle desceu da viga com uma agilidade surpreendente para o seu tamanho, aterrissando pesadamente no cascalho. Ele deu um tapa no ombro de Daryl, um gesto que era metade afeto, metade agressão.

— Então vamos aproveitar o velório, Daryl. Tem um acampamento subindo a colina. Vi fumaça. Se tiverem comida, a gente pega. Se tiverem problemas, a gente dá o fora.

Enquanto os irmãos Dixon se moviam como sombras pela mata, a quilômetros dali, em um pequeno acampamento improvisado na pedreira, a tensão era quase palpável. Lori Grimes abraçava Carl, sentada na borda de um trailer que parecia ser a única fortaleza em um mundo de papelão.

— Ele vai voltar, não vai? — perguntou Carl, a voz pequena, os olhos grandes e cheios de uma sabedoria que nenhuma criança de sua idade deveria ter.

Lori olhou para Shane, que estava a poucos metros dali, limpando uma espingarda com movimentos mecânicos e obsessivos. Shane sentiu o olhar dela e desviou o dele. O peso da mentira — ou da meia verdade — era uma âncora em seu peito.

— O seu pai é um lutador, Carl — disse Shane, levantando-se e caminhando até eles. — Mas agora, a gente tem que focar em manter esse lugar seguro. O sol tá baixando e o calor de agosto não vai embora nem à noite.

— Tá quente demais — reclamou Carl, limpando o suor da testa.

— É — concordou Shane, olhando para a floresta escura que cercava a pedreira. — E o silêncio é o que mais assusta.

O grupo no acampamento era uma colcha de retalhos de sobreviventes. Andrea e Amy tentavam lavar roupas em baldes, Dale vigiava do topo do trailer com seu chapéu de pescador, e Carol tentava manter a filha, Sophia, longe das conversas sussurradas sobre o fim dos tempos.

Todos eles se lembravam de onde estavam quando as notícias começaram. Onde estavam quando as transmissões de emergência substituíram as novelas e os jogos de beisebol. Agosto de 2010 ficaria gravado em suas memórias como o mês em que o calendário parou de importar.

De volta à rodovia, Rick Grimes encontrou uma motocicleta abandonada com o tanque ainda pela metade. Ele subiu nela, sentindo o couro quente queimar suas coxas através da calça. Ele não sabia para onde estava indo, apenas que não podia ficar parado. O movimento era a única prova de que ele ainda estava vivo.

Ele acelerou, o ronco do motor quebrando a quietude mortal da tarde. Por um momento, ele se permitiu fechar os olhos e imaginar que estava apenas patrulhando King County, que Lori o esperava com o jantar pronto e que Carl estava reclamando dos deveres de casa.

Mas o cheiro de podridão que o vento trazia logo dissipou a fantasia.

Ele passou por um outdoor de uma igreja local. "O fim está próximo", diziam as letras garrafais. Alguém tinha pichado por cima, em tinta vermelha: "O fim já passou. Nós sobramos".

Rick apertou o guidão. Ele precisava encontrar sua família. Se o mundo tinha decidido morrer naquele agosto escaldante, ele se recusava a cair sem lutar.

— Eu vou encontrar vocês — sussurrou ele para o vento, enquanto a moto ganhava velocidade.

Na floresta, Daryl parou bruscamente. Ele ergueu a mão, sinalizando para Merle parar.

— O que foi? — sussurrou Merle, a mão já no cabo da faca.

— Ouviu isso? — Daryl inclinou a cabeça.

Ao longe, o som de um motor ecoava fracamente. Era um som de civilização, de tecnologia, de vida. Mas naquele novo mundo, o som também era um farol para a morte.

— Alguém tá com pressa de morrer — comentou Merle, com um sorriso torto.

— Ou alguém tá procurando alguma coisa — rebateu Daryl.

Os dois se esconderam atrás de um carvalho centenário enquanto o som da motocicleta passava pela estrada próxima, escondida pela folhagem densa. Daryl observou a poeira subir e se dissipar no ar quente.

— A gente segue o barulho? — perguntou Merle.

Daryl olhou para a besta, depois para a direção de onde o som vinha.

— A gente segue o rastro. Quem quer que seja, tem gasolina. E gasolina vale mais que ouro agora.

Eles começaram a se mover, dois predadores em um mundo que agora pertencia aos mortos. O sol de agosto começava a mergulhar no horizonte, pintando o céu de um laranja sangrento, uma cor que combinava perfeitamente com o estado das coisas.

No acampamento da pedreira, Dale avistou algo com seus binóculos.

— Shane! — gritou ele lá de cima. — Tem movimento na estrada secundária. Alguém tá vindo rápido.

Shane correu para a borda da encosta, o coração batendo forte. Ele olhou para Lori, que já estava de pé, a esperança brilhando nos olhos de uma forma que o fazia sentir um nó na garganta.

— Pode ser ele? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Não sabemos, Lori. Fica atrás de mim.

O mundo tinha acabado em agosto de 2010, mas para aquelas pessoas, a verdadeira história estava apenas começando a ser escrita nas cinzas do que restou. O calor não diminuía, a sede era constante e o perigo espreitava em cada sombra longa que o entardecer projetava.

Rick Grimes viu a entrada de uma trilha que subia em direção às montanhas. Algo em seu instinto, algo que ele não conseguia explicar, o fez virar o guidão. Ele deixou a rodovia principal para trás, mergulhando no desconhecido.

A poeira levantada pela motocicleta formava uma cortina atrás dele, obscurecendo o caminho percorrido. À frente, apenas o incerto.

— Se você estiver aí, Lori... se você estiver aí, Carl... — Rick falava sozinho, a sanidade mantida por um fio de esperança.

Ele desligou o motor ao chegar a uma clareira, deixando o silêncio retornar. O calor ainda era opressivo, mas havia um cheiro diferente ali. Não era apenas morte. Havia o cheiro de fumaça de lenha. Havia o cheiro de gente.

Ele desceu da moto, as pernas bambas pelo esforço e pela tensão. Ele sacou a arma, não por agressão, mas por hábito.

— Tem alguém aí? — gritou ele, sua voz ecoando pelas paredes de pedra da pedreira.

Lá no alto, Shane travou a arma. Lori prendeu a respiração. Carl deu um passo à frente.

O destino de todos eles, traçado pelo fim do mundo naquele agosto fatídico, estava prestes a colidir. E enquanto o sol finalmente se punha, deixando a Geórgia mergulhada em uma escuridão perigosa, eles entenderam que sobreviver ao fim era apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio seria sobreviver uns aos outros e ao que o mundo tinha se tornado.

— Rick? — A voz de Shane saiu em um sussurro incrédulo.

Abaixo, na penumbra, o homem de chapéu de xerife olhou para cima. O suor limpava trilhas na poeira de seu rosto. Ele parecia um fantasma, um resquício de um tempo que não existia mais.

— Shane? É você?

O reencontro não teve música, não teve aplausos. Teve apenas o som do vento soprando entre as árvores e o lamento distante de algo que já foi humano, vagando pela estrada em busca de carne.

Agosto de 2010 tinha mudado tudo. As leis, a moral, as fronteiras. Mas enquanto Rick Grimes subia a encosta em direção à sua família, ele percebeu que, embora o mundo tivesse acabado, a vontade de viver era uma chama que nem mesmo o verão mais cruel da Geórgia conseguiria apagar.

Daryl e Merle, observando da mata fechada a poucos metros dali, trocaram um olhar. Eles tinham encontrado o grupo. O jogo tinha mudado novamente.

— Parece que a festa vai ficar cheia, maninho — sussurrou Merle.

Daryl apenas assentiu, ajustando a besta no ombro. O mundo era um lugar novo, brutal e impiedoso. E eles estavam prontos para ele.

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