
Avalon
Fandom: Enhypen
Criado: 30/09/2026
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Máscaras de Vidro em Avalon Heights
O sol da manhã em Avalon Heights nunca parecia aquecer de verdade, apesar do brilho intenso que refletia nas janelas espelhadas dos arranha-céus e nas mansões de mármore. Para Heeseung, a cidade era um labirinto de aparências. Aos dezoito anos, ele já carregava o peso de uma vida inteira nas costas. Sentado à mesa da cozinha de seu apartamento — um lugar modesto, mas impecável, longe da opulência da casa de seus pais — ele observava a pequena Yunah, de apenas um ano, brincando com blocos de montar no tapete.
Heeseung sentiu um leve desconforto no abdômen e levou a mão à barriga, ainda discreta sob o suéter folgado. O segredo de sua segunda gravidez queimava como brasa. Apenas Jake sabia. Apenas Jake tinha permissão para tocar ali e sentir a vida que crescia, fruto de um amor que sobreviveu à expulsão de Heeseung de casa aos dezesseis anos e ao julgamento implacável da elite local.
O som da campainha interrompeu seus pensamentos. Era Jake.
— Bom dia, meu amor. — Jake entrou, trazendo consigo o cheiro de café fresco e a energia reconfortante que sempre acalmava Heeseung. Ele se inclinou e deixou um beijo demorado na testa do namorado, antes de se abaixar para pegar Yunah no colo. — Oi, pequena. Como está a princesa do papai hoje?
Heeseung sorriu, um sorriso genuíno que raramente mostrava ao mundo exterior.
— Ela acordou cedo. Acho que sentiu que você estava vindo. — Heeseung se levantou com cuidado, sentindo uma leve tontura. — Você conseguiu falar com o Sunghoon hoje?
Jake suspirou, a expressão suavizando-se em preocupação.
— Liguei para ele. Ele está animado com o treino de patinação, mas disse que o clima na casa dos seus pais continua... pesado.
Heeseung desviou o olhar. A relação com o irmão mais novo, Sunghoon, era uma ferida aberta. Ele amava o garoto, mas a distância imposta pelos pais e o trauma da própria expulsão criaram um abismo emocional. Sunghoon era o "filho perfeito", o protegido, enquanto Heeseung era a lição de moral que os pais usavam para manter o caçula na linha.
— Eu me sinto um covarde por deixá-lo lá, Jake. — A voz de Heeseung falhou. — Mas se eu me aproximar demais, eles cortam o pouco de liberdade que ele tem. Deixar que ele namore o Jay foi a única coisa que consegui negociar com meu pai antes de sair definitivamente daquela empresa.
— Você faz o que pode, Hee. — Jake caminhou até ele, abraçando-o por trás, as mãos repousando sobre o ventre ainda plano. — Sunghoon sabe que você o ama. E o Jay... bem, o Jay morreria por ele. Você sabe disso.
Enquanto isso, no centro da cidade, o clima era outro. Em um loft luxuoso pertencente à família de Sunoo, o "trio dinâmico" de Avalon Heights desfrutava de um café da manhã tardio. Jungwon, com sua postura de líder natural e olhar analítico, observava Niki e Sunoo discutirem sobre qual carro levariam para a festa do fim de semana.
Niki, o mais novo do grupo principal, estava esparramado no sofá de couro branco, enquanto Sunoo retocava o protetor labial diante de um espelho ornamentado.
— Eu já disse, Niki, o conversível é melhor para a entrada. — Sunoo sorriu, aquele sorriso que escondia mais do que revelava. — Precisamos manter a imagem. Se as pessoas começarem a notar que estamos tensos, elas vão começar a fazer perguntas.
Niki bufou, jogando uma almofada em Sunoo.
— Ninguém vai fazer perguntas, Sunoo. Já faz tempo. Todo mundo seguiu em frente.
Jungwon, que até então estava em silêncio, interveio com uma voz fria e cortante.
— Ninguém seguiu em frente, Niki. Nós apenas aprendemos a mentir melhor. — Ele se levantou, caminhando até a janela que dava para a praça central. — O segredo está lá, enterrado. E é nossa obrigação garantir que continue assim.
Sunoo parou de se olhar no espelho e encarou Jungwon.
— Você está estranho hoje, Won. Aconteceu alguma coisa?
— Nada que você precise saber agora. — Jungwon deu de ombros, mas seus dedos tamborilavam nervosamente no parapeito. — Só... fiquem alertas. Avalon Heights é pequena demais para segredos tão grandes.
A tensão no loft era quase palpável, uma característica comum entre eles desde aquela noite. A noite que mudou tudo, mas da qual ninguém ousava falar em voz alta. O grupo se mantinha unido não apenas pela amizade, mas pela necessidade mútua de silêncio.
Do outro lado da cidade, em uma pista de gelo privada, Sunghoon deslizava com a elegância de um cisne. Aos dezesseis anos, ele era a personificação da pureza e do talento. Alheio às tramas sombrias que envolviam seu irmão e os amigos dele, Sunghoon vivia em uma bolha de proteção e expectativas.
Jay o observava da lateral, apoiado na barreira de proteção. Seus olhos brilhavam com uma mistura de adoração e posse. Para Jay, Sunghoon era a única coisa real em um mundo de falsidades.
Sunghoon freou bruscamente, levantando uma nuvem de gelo, e deslizou até o namorado com um sorriso radiante.
— Você viu aquele salto, Jay? Eu quase consegui a rotação completa!
Jay esticou o braço e puxou Sunghoon pela cintura, selando seus lábios em um beijo rápido, mas intenso.
— Você foi perfeito, Hoonie. Como sempre. — Jay afastou uma mecha de cabelo suado da testa do mais novo. — Heeseung ligou para o Jake. Ele está preocupado com você.
O sorriso de Sunghoon vacilou levemente.
— O Heeseung sempre se preocupa. Eu queria que ele soubesse que eu estou bem. Eu não sou mais o garotinho que ele precisa esconder.
— Ele te ama, Hoonie. Do jeito dele. — Jay suspirou. — E eu também. Por isso, me prometa que vai me ligar se sentir qualquer coisa estranha. Seus pais estão pegando no seu pé de novo?
— O de sempre. — Sunghoon deu de ombros, tentando parecer indiferente. — Eles querem que eu seja o sucessor perfeito, já que o Heeseung "falhou" na visão deles. É cansativo, mas eu aguento.
Jay apertou a mão de Sunghoon. Ele sabia que a vida do namorado não era tão simples quanto parecia. A pressão dos pais de Sunghoon era esmagadora, e Jay muitas vezes se sentia como o único refúgio do garoto.
Horas depois, o grupo se reuniu em um restaurante exclusivo, reservado apenas para os membros da elite. Heeseung e Jake chegaram por último, Heeseung tentando disfarçar o cansaço da gravidez e a náusea persistente.
A mesa estava posta, mas o apetite era escasso. O clima entre os seis amigos — Sunoo, Jungwon, Niki, Jake, Heeseung e Jay — era uma coreografia ensaiada de risadas forçadas e conversas triviais sobre negócios e faculdade.
— Então, Heeseung, como vai o trabalho na empresa? — perguntou Sunoo, cortando delicadamente um pedaço de carne. — Ouvi dizer que você fechou um contrato enorme esta semana.
— Sim, as coisas estão indo bem. — Heeseung respondeu, forçando um tom neutro. — É bom ter independência financeira. Recomendo.
A alfinetada não passou despercebida. Sunoo apenas sorriu, enquanto Niki revirava os olhos.
— Sempre o exemplo de superação, não é, Hee? — Niki comentou, embora houvesse um traço de admiração em sua voz. — Mas vamos falar de coisas melhores. A festa na casa do Jake vai ser a melhor do ano.
Jake assentiu, tentando aliviar a tensão.
— Vai ser algo discreto. Só nós e alguns convidados selecionados.
Jungwon, que estava observando o celular, franziu a testa.
— O Sunghoon vem?
Jay respondeu antes que Heeseung pudesse.
— Ele vai tentar escapar. Meus sogros não gostam muito da ideia de ele sair à noite sem segurança.
— Ele deveria vir. — Sunoo disse, seus olhos brilhando com uma intensidade estranha. — Ele é o nosso talismã. O único de nós que ainda é... puro.
Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. A palavra "puro" ecoou como um insulto velado. Todos ali sabiam que a pureza deles havia morrido naquela noite fatal, deixando apenas cascas vazias cobertas de luxo.
— Não fale dele como se fosse um objeto, Sunoo. — Heeseung disse, a voz subindo um tom. — Ele é meu irmão. E ele não tem nada a ver com os nossos problemas.
— Claro que não, Hee. Ninguém disse isso. — Sunoo levantou as mãos em sinal de paz, mas o sorriso não abandonou seus lábios.
Após o jantar, Jake e Heeseung caminharam até o carro. A noite estava fria e o vento soprava forte, uivando entre os prédios.
— Você está bem? — Jake perguntou, abrindo a porta para o namorado.
— Só estou cansado, Jake. E enjoado. — Heeseung sentou-se, suspirando fundo. — Às vezes eu sinto que estamos vivendo em uma corda bamba. Um movimento errado e tudo desmorona.
Jake contornou o carro e sentou-se no banco do motorista, pegando a mão de Heeseung e beijando os nós dos dedos.
— Nós vamos ficar bem. A Yunah está segura, o bebê está crescendo e nós temos um ao outro. Nada vai acontecer.
Mas, enquanto o carro se afastava, uma figura observava das sombras do estacionamento. Alguém que conhecia cada segredo, cada mentira e cada medo daqueles seis amigos. Alguém que via em Sunghoon não apenas um irmão ou um namorado, mas a ferramenta perfeita para a destruição de Avalon Heights.
O jogo ainda não havia começado oficialmente. As peças estavam sendo posicionadas, as máscaras estavam sendo polidas e a culpa, aquele monstro silencioso, estava apenas esperando o momento certo para dar o bote.
Naquela noite, Heeseung dormiu inquieto. Ele sonhou com água escura, com risadas que se transformavam em gritos e com uma mão pálida desaparecendo sob a superfície. Ele acordou suando frio, a mão instintivamente protegendo o ventre.
Ao seu lado, Jake dormia profundamente, o rosto sereno. Heeseung levantou-se e foi até o quarto de Yunah. A pequena dormia tranquilamente em seu berço. Ele a observou por longos minutos, sentindo uma necessidade desesperada de protegê-la de um mundo que ela ainda não conhecia.
Ele voltou para a sala e olhou pela janela. Avalon Heights brilhava lá embaixo, uma joia cravada na escuridão. Mas Heeseung sabia a verdade. Por baixo daquele brilho, havia podridão. E ele temia que, não importava o quanto tentasse fugir, o passado sempre encontraria um jeito de bater à sua porta.
O que ele não sabia era que o passado já estava batendo. E ele não vinha sozinho. Ele vinha com sede de vingança, armado com a verdade que todos tentavam esquecer. E o primeiro alvo seria justamente aquele que eles mais amavam.
Sunghoon, o garoto de gelo, estava prestes a descobrir que, em Avalon Heights, nem mesmo o gelo era sólido o suficiente para impedir uma queda.
A manhã seguinte trouxe uma nova rotina. Heeseung se preparou para o trabalho na grande empresa onde, apesar de jovem, já ocupava um cargo de destaque devido à sua inteligência e ética de trabalho impecável. Ele era o orgulho silencioso do departamento, o homem que nunca falhava. Mas, por dentro, ele era apenas um pai aterrorizado e um irmão ausente.
Jay, por sua vez, levou Sunghoon para a escola. O trajeto foi repleto de risadas e planos para o futuro, um futuro que Sunghoon via com otimismo e Jay com uma esperança cautelosa.
— Eu te amo, Jay. — Sunghoon disse, antes de sair do carro.
— Eu também te amo, Hoonie. Mais do que tudo.
Jay assistiu Sunghoon entrar no prédio da escola, cercado por outros jovens da elite. Ele suspirou, sentindo um aperto estranho no peito, uma premonição que ele não conseguia explicar. Ele ligou o carro e partiu, sem perceber o carro preto estacionado a poucos metros de distância, cujos vidros escuros impediam ver quem estava lá dentro.
O observador anotou algo em um caderno. O nome de Sunghoon foi circulado em vermelho.
O capítulo piloto de Avalon Heights encerrava-se com a falsa sensação de segurança. O sol continuava a brilhar, as contas bancárias continuavam cheias e os segredos continuavam guardados. Mas o relógio estava correndo. E a primeira mensagem de "A" estava apenas a alguns capítulos de distância, esperando o momento em que a guarda de todos estivesse baixa o suficiente para que o golpe fosse fatal.
A vingança é um prato que se come frio, e em Avalon Heights, o inverno estava apenas começando.
