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Deleite flamejante

Fandom: House of the dragon

Criado: 01/10/2026

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Entre o Sangue e o Dever

O sol de Porto Real raramente parecia aquecer os ossos de Vaelarya Targaryen, apesar do calor escaldante que subia do Fosso dos Dragões. Para ela, o fogo era uma herança interna, algo que queimava silenciosamente sob a pele pálida e o vestido de seda preta que ela insistia em usar, mesmo quando o restante da corte se cobria com as cores vibrantes da primavera.

Vaelarya era a irmã do meio, o ponto de equilíbrio precário entre a benevolência quase cega de Viserys e a fúria indomável de Daemon. Enquanto Viserys governava com palavras e Daemon com aço, Vaelarya observava. Seus olhos roxos, profundos como ametistas polidas, captavam cada sussurro nos corredores da Fortaleza Vermelha.

Naquele dia, ela estava sentada em um banco de pedra no pátio, um livro de história valiriana fechado sobre o colo. Ela observava Rhaenyra, sua sobrinha apenas dois anos mais nova, rindo enquanto descia das costas de Syrax. Rhaenyra era o sol, radiante e impetuosa. Mas era a figura que esperava por Rhaenyra que prendia o olhar de Vaelarya.

Alicent Hightower.

A filha da Mão do Rei estava lá, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo, um hábito que Vaelarya sabia ser um sinal de ansiedade, embora Alicent o mascarasse com um sorriso gracioso.

— Vossa Graça — disse Alicent, aproximando-se de Vaelarya após Rhaenyra ter se afastado para falar com os guardiões dos dragões. — Não esperava encontrá-la aqui fora tão cedo.

Vaelarya ergueu o olhar, mantendo a expressão serena que lhe rendera a reputação de ser "a silenciosa".

— O ar no castelo está pesado hoje, Alicent — respondeu Vaelarya, sua voz suave, mas carregada de uma autoridade natural. — Aqui, pelo menos, o cheiro de enxofre disfarça as intenções dos homens.

Alicent soltou uma risada curta, quase nervosa, e sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas sentindo o calor que emanava da princesa.

— A senhora fala como se o Conselho estivesse conspirando — comentou Alicent, seus dedos cutucando a pele ao redor das unhas.

Vaelarya notou o movimento. Sem dizer uma palavra, ela estendeu a mão e tocou gentilmente o pulso de Alicent, interrompendo o gesto autodestrutivo. O toque foi breve, mas a eletricidade que passou entre elas fez Alicent prender a respiração por um segundo.

— O Conselho está sempre conspirando, querida — disse Vaelarya, retirando a mão, mas mantendo o olhar fixo no dela. — Especialmente agora que a Rainha Aemma está perto de dar à luz. Meu irmão está desesperado por um herdeiro homem. E o desespero é uma doença contagiosa.

— O Rei terá seu filho — afirmou Alicent, embora houvesse uma incerteza em seus olhos. — E a sucessão será garantida.

— E onde isso deixa Rhaenyra? — Vaelarya inclinou a cabeça. — Ou a mim? Ou até mesmo você, Alicent? Somos peças em um tabuleiro que Viserys mal consegue enxergar, e que Daemon adoraria chutar.

Alicent baixou o olhar para o livro no colo de Vaelarya.

— A senhora é sempre tão determinada a ver o lado sombrio das coisas, princesa.

— Eu chamo isso de realismo. — Vaelarya levantou-se, alisando o tecido preto de seu vestido. — Venha. Rhaenyra vai querer ir ao Septo, e Viserys espera que eu o acompanhe no banquete desta noite.


O torneio em honra ao herdeiro que ainda não havia nascido estava em pleno vigor. O som de metal colidindo e o grito da multidão preenchiam o ar. Vaelarya estava sentada no camarote real, logo atrás de Viserys e Aemma. Ela sentia a tensão no ar, um presságio que a fazia apertar os braços da cadeira.

Daemon estava no campo, provocando, derrubando cavaleiros com uma arrogância que só um Targaryen poderia sustentar. Quando ele pediu o favor de Lady Alicent, Vaelarya sentiu uma pontada estranha no peito. Não era ciúme, ela disse a si mesma. Era proteção. Ela conhecia o irmão; ele não via Alicent como uma mulher, mas como uma ferramenta para irritar Otto Hightower.

Alicent, com o rosto corado, entregou o favor. Seus olhos, no entanto, desviaram-se por um breve momento para o camarote, encontrando os de Vaelarya. Houve um pedido silencioso ali, uma dúvida que Vaelarya não soube como responder.

— Ele é imprudente — sussurrou Vaelarya, inclinando-se para frente.

Viserys, ao seu lado, suspirou.

— Ele é Daemon, irmã. O sangue do dragão corre quente nele.

— Às vezes quente demais para o próprio bem — retrucou ela.

O torneio continuou, mas a atmosfera mudou drasticamente quando a notícia chegou do Grande Salão. O parto de Aemma não estava indo bem. Vaelarya sentiu o sangue esfriar. Ela viu a cor fugir do rosto de Viserys e, sem pensar, levantou-se.

Enquanto Viserys corria para os aposentos da rainha, Vaelarya ficou para trás por um momento, observando o caos controlado da corte. Alicent aproximou-se dela, o rosto pálido de preocupação.

— Princesa, o que está acontecendo? — perguntou Alicent, a voz trêmula.

Vaelarya olhou para a jovem à sua frente. O mundo estava prestes a mudar, e ela sabia que Alicent seria arrastada para o olho do furacão pelo pai.

— O destino está cobrando seu preço, Alicent — disse Vaelarya, sua determinação brilhando nos olhos roxos. — Fique perto de Rhaenyra. Ela vai precisar de você.

— E a senhora? — Alicent perguntou, ousando tocar a manga do vestido de Vaelarya.

— Eu vou fazer o que os Targaryen fazem de melhor — respondeu ela, cobrindo a mão de Alicent com a sua por um segundo a mais do que o protocolo exigia. — Vou garantir que o fogo não consuma tudo o que restou.


O funeral foi uma ferida aberta sob o céu de Pedra do Dragão. O vento soprava forte, agitando os cabelos prateados de Vaelarya e Rhaenyra. O caixão de Aemma e do pequeno Baelon estavam diante deles.

Vaelarya permanecia imóvel, uma estátua de luto em seda preta. Ela sentia a dor de Rhaenyra como se fosse sua, mas sua mente já estava trabalhando. Ela viu Otto Hightower observando a cena, o olhar calculista nunca descansando, mesmo em face da tragédia. E viu Alicent, parada um pouco atrás, as mãos escondidas nas mangas, os olhos vermelhos de tanto chorar.

Após o "Dracarys" de Rhaenyra, após as chamas consumirem o que restava da rainha, a corte retornou a Porto Real. O silêncio na Fortaleza Vermelha era ensurdecedor.

Naquela noite, Vaelarya caminhava pelos jardins quando encontrou Alicent sozinha, sentada perto da árvore-coração. A luz da lua banhava a jovem Hightower, dando-lhe uma aura quase etérea.

— Não é seguro para uma dama estar aqui fora sozinha a esta hora — disse Vaelarya, aproximando-se silenciosamente.

Alicent deu um sobressalto, mas relaxou ao reconhecer a voz.

— Eu não conseguia dormir, princesa. Toda vez que fecho os olhos, vejo... vejo as chamas.

Vaelarya sentou-se ao lado dela na grama, ignorando o fato de que seu vestido caro seria manchado.

— O fogo é nossa bênção e nossa maldição — disse Vaelarya suavemente. — Para o resto do mundo, é destruição. Para nós, é o começo e o fim.

— Como a senhora consegue ser tão calma? — Alicent olhou para ela, a admiração brilhando através da tristeza. — Sua cunhada morreu, seu sobrinho morreu... e a senhora parece uma rocha.

Vaelarya virou-se para ela, a proximidade permitindo que sentisse o perfume de flores de laranjeira que Alicent usava.

— Porque se eu desmoronar, quem segurará a mão de Rhaenyra? Quem dirá a Viserys que ele precisa ser um rei antes de ser um homem enlutado? — Vaelarya suspirou, sua fachada de gelo trincando apenas um pouco. — Ser determinada não significa não sentir, Alicent. Significa escolher o que fazer com o que se sente.

Alicent hesitou, então, movida por um impulso que nem ela mesma entendia, aproximou-se e encostou a cabeça no ombro de Vaelarya.

— Meu pai quer que eu vá aos aposentos do Rei — sussurrou Alicent, a voz tão baixa que quase se perdeu no vento. — Para "confortá-lo".

Vaelarya sentiu uma onda de fúria gelada percorrer sua espinha. Ela sabia exatamente o que Otto estava fazendo. Ele estava jogando sua própria filha aos lobos — ou melhor, aos dragões — para garantir sua linhagem no trono.

— E você quer ir? — perguntou Vaelarya, sua voz ficando mais profunda.

— Eu não tenho escolha — respondeu Alicent, uma lágrima solitária descendo por seu rosto. — Sou a filha dele.

Vaelarya segurou o queixo de Alicent, forçando-a a olhar em seus olhos. A intensidade do olhar da princesa fez o coração de Alicent disparar.

— Você sempre tem uma escolha, Alicent. Pode ser difícil, pode ser perigosa, mas ela existe. Se você for até ele, faça-o com os olhos abertos. Não deixe que eles a transformem em apenas um receptáculo para ambições alheias.

— A senhora me protegeria? — perguntou Alicent, a vulnerabilidade exposta.

Vaelarya sentiu um aperto no peito que não sentia há anos. Ela era uma Targaryen, e Targaryens protegiam o que era deles. E, naquele momento, sob a luz da lua e o peso da tragédia, ela percebeu que Alicent Hightower estava se tornando algo que ela não estava disposta a perder.

— Com fogo e sangue, se necessário — prometeu Vaelarya.

Ela inclinou a testa contra a de Alicent, um gesto de intimidade valiriana que a outra garota não compreendia totalmente, mas que sentia no fundo da alma. O slowburn de sua relação estava apenas começando, uma faísca em meio a um barril de pólvora política.


Semanas depois, o anúncio foi feito. Viserys se casaria novamente. Quando ele pronunciou o nome de Alicent Hightower, o salão caiu em um silêncio mortal. Rhaenyra saiu apressada, a traição estampada em seu rosto.

Vaelarya permaneceu onde estava, ao lado do trono. Seu rosto era uma máscara de indiferença, mas seus olhos roxos encontraram os de Alicent. A nova rainha prometida estava pálida, tremendo levemente em seu vestido verde — a cor da guerra de sua casa.

Mais tarde, Vaelarya interceptou Alicent no corredor que levava aos aposentos reais. Os guardas recuaram diante da princesa.

— Você aceitou — disse Vaelarya, não como uma acusação, mas como uma constatação.

— O que mais eu poderia fazer, Vaelarya? — Alicent usou o nome dela sem o título pela primeira vez, a voz cheia de desespero. — Meu pai... o Rei...

— Eu não a culpo — interrompeu Vaelarya, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Alicent. — Mas saiba disso: a partir de hoje, você entra em um ninho de víboras. Rhaenyra nunca a perdoará. Daemon a verá como uma intrusa.

— E a senhora? — Alicent perguntou, seus dedos agarrando o tecido do vestido de Vaelarya. — Como a senhora me vê?

Vaelarya levou a mão ao rosto de Alicent, o polegar acariciando a maçã do rosto da jovem.

— Eu a vejo como a mulher que terá que carregar o peso de uma coroa que nunca pediu. E a vejo como a única pessoa nesta corte que me faz desejar que eu não fosse uma princesa, para que pudéssemos simplesmente desaparecer nas sombras.

Alicent fechou os olhos, inclinando-se para o toque.

— Não me deixe sozinha nisso — implorou ela.

— Nunca — sussurrou Vaelarya. — Mas lembre-se, Alicent... na dança que está por vir, eu sou um dragão. E dragões não se curvam. Se você quer estar ao meu lado, terá que aprender a voar, ou se queimará.

Vaelarya inclinou-se e depositou um beijo suave no canto da boca de Alicent — uma promessa, um aviso e um selo de lealdade que ia além dos votos de casamento ou laços de sangue.

— Vá — disse Vaelarya, afastando-se. — O Rei a espera. Mas saiba que meus olhos estarão sobre você. Sempre.

Enquanto Alicent se afastava, Vaelarya Targaryen permaneceu nas sombras do corredor. Ela sabia que a guerra estava chegando. Ela sentia o cheiro no ar, mais forte que o enxofre do Fosso dos Dragões. E, enquanto Viserys buscava um herdeiro e Otto buscava poder, Vaelarya buscaria o controle do próprio destino, não importa quantas cinzas tivesse que atravessar.

Ela era a determinação silenciosa da Casa do Dragão, e o jogo de tronos acabara de ganhar uma jogadora que ninguém viu chegar.

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