
Desejo proibido
Fandom: Dorama
Criado: 01/10/2026
Tags
Ecos de Seda e Paris
O silêncio na suíte do hotel em Paris era denso, quebrado apenas pela respiração suave e cadenciada que vinha do outro lado da cama. Os lençóis de linho egípcio, amarrotados pelo calor insano da madrugada, cheiravam a uma mistura desconcertante de peônias caras, perfume Chanel e a maresia intrínseca da pele suada.
Go Younjung abriu os olhos devagar, sentindo o peso suave da luz cinzenta da manhã parisiense filtrar através das pesadas cortinas entreabertas. Seu corpo inteiro doía com uma pontada deliciosa e proibida. Ela moveu os dedos com cautela, sentindo a seda do edredom, e virou o rosto com extrema lentidão para não fazer ruído.
Ao seu lado, Vitória dormia profundamente, deitada de bruços. Um dos braços bronzeados estava jogado sobre o travesseiro, e mechas de cabelos escuros e levemente ondulados cobriam parte de suas costas nuas, revelando a curva delicada da coluna.
Younjung prendeu a respiração. A visão a atingiu como um choque elétrico, reacendendo na memória cada detalhe da noite anterior.
Aos trinta anos, Younjung sempre fora o epítome do autocontrole. Construíra uma carreira sólida na Coreia do Sul tijolo por tijolo, aprendendo desde muito jovem que a vida de uma atriz em Seul era uma corda bamba sem rede de proteção. Sua imagem pública era meticulosamente lapidada: doce, discreta, etérea, imaculada. Ela conhecia as regras silenciosas, implacáveis e cruéis de sua indústria. Homossexualidade não era apenas um tabu; era um suicídio comercial, uma sentença de cancelamento sumário pelos internautas e o rompimento imediato de contratos milionários. E, no entanto, ali estava ela, em uma cama desfeita a milhares de quilômetros de casa, ao lado de uma mulher.
Pior: ao lado de uma garota dez anos mais nova, um turbilhão vindo do outro lado do oceano.
Younjung levou a mão à têmpora, fechando os olhos enquanto o pânico começava a sussurrar em sua mente. O que ela havia feito? O que aconteceria se alguém descobrisse? Os paparazzi franceses, os assessores que batiam à porta pontualmente para o café da manhã, as equipes de maquiagem... Se ao menos uma foto vazasse, seu mundo simplesmente deixaria de existir.
Tudo havia começado na noite anterior, durante o desfile de alta-costura da Chanel no Grand Palais Éphémère.
Younjung havia chegado deslumbrante em um conjunto clássico de tweed preto e branco, os cabelos pretos caindo como uma cascata lisa sobre os ombros. Como de costume, mantinha-se reservada. Sorria para os fotógrafos com a graciosidade medida que levara anos para aperfeiçoar, inclinava a cabeça educadamente para os diretores da maison e respondia às perguntas dos repórteres com a voz mansa e adorável que conquistara o público em seus doramas. Mas, por dentro, sentia a habitual exaustão de precisar ser perfeita a cada fração de segundo.
Foi quando os olhos dela cruzaram o salão.
Vitória estava encostada no parapeito de mármore do mezanino, segurando uma taça de champanhe. Ela não parecia nem um pouco preocupada em seguir a etiqueta rígida do evento. Usava um vestido Chanel ousado, que desafiava a simetria clássica da marca com fendas profundas que valorizavam sua pele dourada pelo sol tropical. Aos vinte anos, a jovem atriz brasileira irradiava uma energia quase magnética, rindo alto com uma naturalidade que contrastava violentamente com a solenidade ensaiada de Paris.
E quando Vitória olhou na direção de Younjung, o mundo pareceu desacelerar.
Não fora um olhar casual de reconhecimento entre celebridades. Havia uma intensidade crua, um magnetismo feroz que paralisou a atriz coreana no lugar. Vitória não desviou os olhos; em vez disso, sorriu de canto, ergueu discretamente a taça em um brinde silencioso e caminhou em sua direção.
— Você é Go Younjung, não é? — perguntara Vitória em um inglês com um sotaque charmoso, as vogais abertas e doces. — Eu vi sua última série. Mas a tela não faz justiça ao quanto você é inacreditavelmente linda.
Younjung ficara ruborizada no mesmo instante, sentindo o calor subir pelas maçãs do rosto. Ela estava acostumada a elogios protocolares e bajulações da indústria, mas a franqueza desarmada daquela garota a pegou completamente desprevenida. Vitória era abertamente pansexual em seu país, uma voz ativa de sua geração que vivia seus afetos sem o peso da vergonha ou do julgamento alheio. Para ela, admirar e desejar outra mulher era tão natural quanto respirar.
Naquele instante, quando os olhos amendoados e gentis de Younjung encontraram as íris castanhas e profundas de Vitória, a garota brasileira se apaixonou perdidamente. Foi instantâneo. Uma certeza visceral que ela não fez a menor questão de esconder durante toda a festa.
As taças de champanhe se acumularam, assim como as conversas roubadas pelos cantos do evento. A timidez natural de Younjung fora derretida pela insistência carinhosa e pelo riso fácil de Vitória. Quando o evento terminou e os carros começaram a levar os convidados de volta, a ideia de simplesmente se despedirem com um aperto de mãos na calçada molhada pela garoa de Paris pareceu a ambas um absurdo intolerável.
Subir para o mesmo quarto foi um impulso quase febril.
Assim que a porta da suíte se fechou, trancando o mundo lá fora, todas as barreiras desmoronaram. A doçura contida de Younjung transformou-se em uma urgência ardente que ela sequer sabia que possuía. O sexo fora avassalador, urgente e ao mesmo tempo carregado de uma ternura desconcertante. As mãos de Vitória haviam mapeado cada centímetro da pele pálida de Younjung, venerando seu corpo com beijos lentos que arrancavam suspiros que a coreana nunca imaginara ser capaz de soltar. Houve suor, gemidos abafados contra os lençóis de seda e uma entrega absoluta que fez a atriz de trinta anos se sentir viva pela primeira vez em muito tempo.
Agora, na luz fria da manhã, o peso da realidade caía sobre seus ombros.
— Você pensa demais. — A voz rouca e preguiçosa quebrou o silêncio do quarto.
Younjung estremeceu, assustada, e virou-se depressa.
Vitória estava acordada, apoiando o queixo na palma da mão, observando-a com uma suavidade devastadora. Os olhos castanhos brilhavam com um afeto tão descarado e genuíno que fez o estômago de Younjung revirar de ansiedade.
— Eu acordei você? — sussurrou Younjung, o inglês soando hesitante e formal demais para quem havia compartilhado tanta intimidade horas antes.
— Não — respondeu Vitória com um sorriso sonolento, esticando o braço para puxar com delicadeza uma mecha de cabelo do rosto de Younjung. — Eu só senti o vazio quando você se afastou.
O toque da ponta dos dedos de Vitória na bochecha de Younjung queimava. A coreana instintivamente se encolheu um pouco, puxando o lençol até o queixo.
— Vitória... nós precisamos conversar. — A voz de Younjung tremeu levemente.
Vitória percebeu a mudança de tom imediatamente. O sorriso calmo cedeu espaço a uma expressão atenta e compreensiva. Ela se sentou na cama, despreocupada com a própria nudez, puxando o cobertor para cobrir a cintura.
— O que houve? — perguntou a brasileira em voz baixa. — Você está bem? Se machucou?
— Não! Não, claro que não — apressou-se em dizer Younjung, balançando a cabeça com veemência. — Não é isso. É que... isso aqui. Nós duas. Isso foi um erro.
A palavra "erro" ecoou no quarto com a frieza de uma lâmina de gelo. Vitória franziu a testa, os olhos vacilando por uma fração de segundo, machucados pela frieza repentina.
— Um erro? — Vitória tocou o próprio peito com a mão aberta. — Younjung, a noite passada foi a coisa mais linda que já aconteceu comigo. Eu nunca olhei para ninguém como olhei para você ontem à noite. Eu me apaixonei no segundo em que vi seus olhos naquele salão. Como isso pode ser um erro?
O desespero de Younjung cresceu. Era tão fácil para aquela garota de vinte anos. O Brasil parecia um universo distante onde a paixão era celebrada, onde as pessoas podiam simplesmente ser quem eram sem pedir desculpas. Mas o mundo de Younjung não perdoava.
— Você não entende — disse Younjung, lutando para encontrar as palavras certas em inglês, a voz falhando sob a pressão do choro contido. — Você é jovem, seu país é livre. Mas na Coreia... as coisas não funcionam assim. Lá, se souberem de algo assim, minha vida acaba. Minha família é tradicional. Minha agência controla tudo. As pessoas me odiariam. O público destruiria tudo o que eu construí durante dez anos de trabalho duro.
Vitória ouvia em silêncio, a expressão se abrandando, tomada não por raiva, mas por uma profunda compaixão.
— Eu tenho trinta anos, Vitória — continuou a atriz mais velha, com os olhos marejados. — Eu deveria ser responsável. Eu deveria saber o que arrisco. Mas eu perdi a cabeça por sua causa. Se qualquer pessoa descobrir o que fizemos nesta cama, não haverá perdão para mim. É considerado errado. É sujo para eles.
— Ei, olhe para mim — pediu Vitória, aproximando-se sem fazer movimentos bruscos.
Younjung hesitou, mas acabou cedendo e ergueu o olhar. Lágrimas finas começavam a escorrer por seu rosto de traços delicados.
Vitória levou as duas mãos ao rosto de Younjung, limpando com os polegares as lágrimas mornas. A firmeza e o calor daquele toque transmitiam uma segurança que desarmava qualquer tentativa de fuga.
— Olhe bem para mim, Younjung — repetiu a garota com ternura inabalável. — Nada no que fizemos foi sujo. Nada. Nós nos olhamos, sentimos algo inexplicável e compartilhamos isso. O mundo lá fora pode ser podre, preconceituoso e assustador, mas aqui dentro? Aqui dentro foi apenas amor, carinho e respeito.
— Mas a realidade existe lá fora — murmurou Younjung, os lábios tremendo contra a pele dos dedos de Vitória. — Nós temos que sair deste quarto.
— Eu sei — admitiu Vitória, suspirando. — Eu sei que você tem sua carreira, sua cultura e pressões que eu provavelmente nunca vou compreender totalmente. Eu não sou ingênua, mesmo tendo dez anos a menos que você. Sei que o mundo é injusto. Mas eu não posso deixar você chamar o que nós vivemos de erro. Porque não foi. Se você precisa que isso fique aqui, entre essas quatro paredes... se precisa voltar para Seul e fingir que eu fui só uma garota que você conheceu em um desfile... eu aceito. Mas nunca diga que foi um erro.
O coração de Younjung deu um aperto doloroso no peito. Diante daquela generosidade desarmada, a coreana sentiu-se absurdamente pequena e ao mesmo tempo imensamente acolhida. Como alguém tão jovem podia carregar tanta coragem no peito? Uma coragem que Younjung, aos trinta anos, nunca tivera coragem de buscar dentro de si.
— Por que você é assim? — perguntou Younjung, a voz abafada pelo nó na garganta. — Por que você não tem medo?
— Porque a vida é muito curta para ter vergonha de sentir — respondeu a brasileira com um sorriso fraco, porém genuíno. — E porque você é a mulher mais fascinante que eu já conheci. Eu arriscaria tudo por você, Younjung. Mesmo sabendo que você não pode fazer o mesmo por mim.
As lágrimas de Younjung caíram mais rápido, não mais de puro pânico, mas de uma dor agridoce e avassaladora. Sem conseguir suportar a distância que tentara impor, ela se jogou para a frente, enterrando o rosto na curva do pescoço de Vitória.
Vitória a envolveu imediatamente em um abraço protetor e apertado, acariciando os longos cabelos pretos com paciência infinita. O calor do corpo jovem de Vitória ancorava Younjung, afastando temporariamente os fantasmas do julgamento, as manchetes sensacionalistas imaginadas e o medo da ruína social.
Ali, aninhada contra o peito daquela jovem mulher que mal conhecia, mas que parecia enxergar sua alma com clareza cristalina, Younjung permitiu-se fraquejar. Deixou para trás a postura de atriz perfeita, a timidez paralisante e o peso sufocante das expectativas de seu país.
— Me perdoe — murmurou Younjung contra a pele dourada de Vitória. — Me perdoe por ser covarde.
— Você não é covarde — respondeu Vitória suavemente, beijando o topo de sua cabeça. — Você só está tentando sobreviver. Eu entendo.
Ficaram abraçadas em silêncio por um longo tempo, sentindo o compasso sincronizado de seus corações enquanto a luz do dia começava a banhar o quarto parisiense com tons dourados. O relógio na parede continuava a avançar, implacável, lembrando que em poucas horas haveria malas a serem feitas, voos a serem tomados em direções opostas do globo e máscaras sociais a serem reassumidas.
No entanto, quando Younjung ergueu o rosto e encontrou os lábios de Vitória mais uma vez em um beijo lento, terno e desesperado, uma certeza silenciosa se instalou em seu íntimo. As regras de seu país continuariam rígidas, as câmeras continuariam vigilantes e o risco continuaria real. Mas, pela primeira vez em seus trinta anos de vida, Go Younjung sabia que nenhuma força em Seul seria capaz de apagar o rastro daquele fogo.
