
sombras e espinhos
Fandom: Percy Jackson e Bts
Criado: 01/10/2026
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O Peso Dourado da Vitória
O apartamento na Quinta Avenida ainda cheirava a tinta fresca e caixas de mogno recém-abertas. Para qualquer observador comum, os York pareciam a típica família da alta sociedade francesa que decidira transferir seus negócios para Manhattan: Charlotte, a matriarca impecável com seu gosto refinado para alta-costura e arte contemporânea, e seus três filhos adotivos, todos compartilhando os mesmos cabelos ruivos como labaredas e uma beleza quase inacessível.
Lilly York ajeitou a gola de sua camisa de seda marfim em frente ao espelho do corredor. Seus fios acobreados caíam em ondas suaves pelas costas, perfeitamente alinhados, enquanto os pequenos brincos de pérola captavam a luz do fim de tarde nova-iorquino. Ela acabara de retornar de um período de estudos em Florença. Havia planejado um jantar calmo, talvez repassar seu italiano ou planejar as leituras do próximo semestre.
O destino, no entanto, tinha um senso de humor repugnante.
O estrondo que estilhaçou a janela panorâmica do trigésimo andar não foi causado pelo vento. Foi um rugido gutural, misturado ao cheiro sufocante de enxofre e carniça.
— Mas que diabos é isso?! — gritou Kely da sala de estar, a voz aguda ecoando entre o som de porcelana caríssima quebrando.
Lilly correu até a sala e estancou. O que se erguia sobre a mesa de centro não era humano. Tinha o corpo atarracado e musculoso de um felino monstruoso, asas coriáceas de morcego e uma cauda espinhosa que gotejava um líquido cinzento e corrosivo. Uma mantícora.
Alex já estava na frente de Kely, os braços abertos, uma expressão que Lilly nunca tinha visto no rosto do irmão mais velho — não de surpresa, mas de reconhecimento sombrio.
— Charlotte! — berrou Alex.
A mãe deles apareceu na porta da biblioteca, segurando um crucifixo de prata antigo que brilhava fracamente. Ela não parecia surpresa. E foi esse olhar — o olhar de quem sabia exatamente o que estava acontecendo — que fez o estômago de Lilly afundar.
— Saiam agora! — ordenou Charlotte, com uma autoridade que calou qualquer protesto imediato. — Alexsander, pegue suas irmãs e vá para Long Island. O Acampamento. Agora!
— Mãe, não vou deixar você aqui com essa coisa! — protestou Lilly, dando um passo à frente, a voz controlada apesar da adrenalina que começava a queimar em suas veias.
— Lilly, por favor, me escute uma vez na vida — suplicou Charlotte, olhando nos olhos dela. Havia lágrimas ali, mas também um peso antigo. — Vocês não são normais. Vocês têm o sangue dela. A mãe de vocês... ela não é humana. Vão! Eu sei como me esconder deles!
A confusão era uma lâmina afiada na mente de Lilly. Não somos normais? O sangue dela? Mas não havia tempo para questionar. A mantícora disparou espinhos da cauda. Alex puxou as duas irmãs para o chão, os espinhos cravando-se profundamente na madeira onde antes estava a cabeça de Kely.
— Vamos! — Alex puxou Lilly pelo braço com uma força desesperada.
O que se seguiu foi um borrão cinzento de asfalto, chuva torrencial e o rugido furioso do Audi de Alex cortando o trânsito da ponte em direção ao leste de Long Island. Kely chorava e falava sem parar no banco de trás, misturando explicações desconexas sobre deuses gregos, um lugar chamado Acampamento Meio-Sangue e como ela e Alex já haviam passado um verão lá quando Lilly estava no exterior.
Lilly não disse uma única palavra durante todo o trajeto.
Ela olhava para suas mãos pálidas, onde anéis finos de ouro reluziam sob os postes de luz. Uma deusa. Nike. A deusa da vitória. Era isso que eles diziam ser a mãe biológica deles. A mesma mulher — se é que podia ser chamada assim — que os jogara em um orfanato francês decrépito para apodrecerem até que Charlotte os encontrasse e lhes desse dignidade. Seus irmãos pareciam fascinados pelo panteão, mas Lilly sentia apenas um amargor gélido. Como alguém podia idolatrar pais que só apareciam quando monstros vinham cobrar o sangue de seus filhos?
Ela não queria aquele mundo. Não queria espadas, não queria profecias e, acima de tudo, não queria deuses.
O carro engasgou e morreu no sopé de uma colina escura, na zona rural de Long Island, sob uma tempestade furiosa.
— Acabou a gasolina — praguejou Alex, batendo no volante. — A barreira fica logo ali em cima. No topo do pinheiro. Corram!
O som de asas batendo contra a chuva cortou o ar. A mantícora não havia desistido. Ela despencou do céu nublado, caindo pesadamente sobre o capô do carro, amassando o metal como se fosse papel.
— Saiam! — gritou Alex, empurrando a porta.
Eles correram pela lama íngreme. O vestido de linho de Lilly estava arruinado, ensopado e pesado, mas seus passos eram surpreendentemente ágeis. Havia algo estranho acontecendo em seu corpo; o cansaço não a vencia. Cada músculo respondia com uma precisão matemática, calculando o terreno, a inclinação e a velocidade do vento. O dom de sua mãe divina começava a despertar, quer ela quisesse ou não.
Atrás deles, Alex tentou atrasar o monstro com um pedaço de ferro enferrujado que pegara no acostamento. A fera desferiu uma patada lateral, lançando o rapaz de vinte anos contra o tronco de uma macieira. Ele soltou um gemido abafado, a mão apertando as costelas quebradas.
— Alex! — gritou Kely, virando-se para ajudar o irmão.
A garota deu um passo em falso na terra lamacenta e rolou encosta abaixo. O monstro rosnou, farejando a presa fácil, e começou a descer em direção a Kely, as garras estendidas para estraçalhar a mais nova.
Lilly já estava quase no topo. Ela podia ver uma luz dourada bruxuleante no horizonte, além de um pinheiro colossal. Era a barreira. Ela estava a poucos metros da segurança absoluta.
Do outro lado da fronteira invisível, três figuras observavam a cena que se desenrolava.
Um rapaz loiro segurava uma espada de bronze celestial ao lado de uma garota de cabelos cacheados cor de mel com olhar analítico — Percy Jackson e Annabeth Chase, em alerta máximo. Mas um pouco mais afastado, sob a sombra pesada de uma árvore, havia um terceiro jovem.
Ele vestia uma jaqueta preta de couro surrada e calças escuras. O cabelo negro caía desgrenhado sobre a testa, molhado pela névoa. Seus traços eram marcadamente coreanos, com uma mandíbula esculpida e olhos amendoados tão escuros e profundos que pareciam absorver a pouca luz da noite. Em sua mão direita, ele segurava frouxamente um gládio curto, feito de um metal negro e opaco que parecia sugar o próprio calor do ar: Ferro Estígio.
O ar ao redor dele era pesado, quase gélido. Uma aura de silêncio e terra revirada o acompanhava. Jeon Jungkook, o único filho de Hades no acampamento.
Lilly parou na linha invisível da fronteira. Seus olhos verdes cruzaram com os dele por uma fração de segundo. Não houve tempo para apresentações, nem para o choque daquele olhar penetrante e indiferente.
Kely gritou lá embaixo. A mantícora estava a um salto de distância de sua irmã.
O cérebro de Lilly calculou a trajetória em um milésimo de segundo. A velocidade do monstro, a distância de Kely, o peso do corpo do animal. Havia uma única variável que garantiria o triunfo. Uma arma.
Com a rapidez de uma serpente e a elegância de uma bailarina de esgrima, Lilly deu um passo para o lado de dentro da barreira, estendeu o braço e arrancou o gládio de Ferro Estígio dos dedos de Jungkook antes mesmo que o garoto pudesse registrar o movimento.
Os olhos escuros do filho de Hades se arregalaram em choque genuíno. Ninguém — absolutamente ninguém — ousava tocá-lo, muito menos desarmá-lo com tanta facilidade. A lâmina de seu pai queimava com a morte fria do Submundo, um peso que destruiria a mente de qualquer mortal comum.
Mas Lilly mal pareceu notar.
Ela deu meia-volta, girando sobre os calcanhares na lama, e desceu a colina em uma velocidade assombrosa. Seus cabelos ruivos esvoaçavam contra a tempestade como um estandarte de guerra. Quem estava por perto sentiu uma onda invisível de determinação varrer a colina; o próprio ar pareceu pulsar com uma certeza quase arrogante de triunfo.
— Fique longe dela! — a voz de Lilly soou clara, musical e implacável, cortando o rugido do trovão.
A mantícora saltou sobre Kely. Lilly deslizou de joelhos pela grama molhada, passando por baixo das garras dianteiras da fera. Com um movimento preciso, treinado pelo instinto ancestral da própria Vitória personificada, ela empurrou o gládio negro com as duas mãos, mirando diretamente na órbita ocular esquerda do monstro.
A lâmina de Ferro Estígio afundou até o punho, perfurando o crânio da mantícora.
O monstro soltou um uivo que fez a terra vibrar, contorceu-se no ar e, em uma fração de segundo, dissolveu-se em uma nuvem de pó dourado e fumaça sulfurosa, deixando apenas os espinhos caídos na lama.
O silêncio desceu sobre a colina, quebrado apenas pela respiração ofegante de Kely e o barulho ritmado da chuva.
Lilly permaneceu de pé por um breve momento. Suas mãos tremiam, cobertas de cinzas douradas. O peso daquela espada sombria, a tensão da fuga e o choque da revelação de que toda a sua vida era uma mentira divina caíram sobre seus ombros de uma só vez. A elegância intocável vacilou. A visão dela escureceu pelas bordas, o mundo girando em um vórtice de sombras e luzes frias.
O gládio escorregou de seus dedos dormentes, cravando-se no chão.
Os joelhos de Lilly cederam. Ela começou a cair para trás, em direção à terra encharcada.
Antes que seu corpo tocasse a lama, dois braços fortes e firmes a ampararam no ar.
Jungkook havia descido a colina como uma sombra silenciosa. Ele a segurou contra o peito, uma das mãos apoiando delicadamente a curva de suas costas e a outra sustentando sua cabeça, impedindo que os fios ruivos tocassem o chão imundo.
Por um instante, o filho de Hades ficou paralisado. Ele não era afeito ao toque; as pessoas geralmente se afastavam dele, repelidas pela frieza quase cadavérica que emanava de sua pele. Mas, quando Lilly tombou em seus braços, nada aconteceu. Não houve a repulsa usual, nem o calafrio de morte.
Pelo contrário. A pele dela parecia morna contra a dele, e, no instante em que se tocaram, uma sensação bizarra — como um choque estático sutil, uma linha invisível puxada entre as profundezas da terra e a luz ardente da vitória — percorreu as veias de Jungkook. Suas sombras pareceram se aquietar, recolhendo-se aos seus pés como cães bem treinados.
Ele olhou para o rosto sereno e pálido da garota desacordada. Mesmo coberta de fuligem e chuva, havia nela uma beleza quase irreal, etérea e refinada.
— Ela está viva? — perguntou Kely, rastejando pela lama, a voz embargada de pânico.
Alex se aproximou mancando, respirando com dificuldade enquanto segurava o peito, mas suspirou de alívio ao ver Jungkook segurando sua irmã.
— Cara... você pegou ela — disse Alex, a voz rouca, pousando uma mão trêmula no ombro do amigo. — Obrigado.
Jungkook desviou os olhos do rosto de Lilly com certa relutância, encarando Alex com sua habitual expressão fechada, embora seus olhos guardassem uma faísca de perplexidade.
— Ela roubou minha espada — disse Jungkook, a voz grave e áspera, ligeiramente mais rouca que o normal. Não havia raiva no tom, apenas uma incompreensão quase juvenil. — E matou uma mantícora no primeiro golpe. Quem é ela, Alex?
Alex soltou uma risada fraca e dolorida, limpando a chuva do rosto.
— Essa é a Lilly. Minha irmã. E eu sugiro que você não mexa com ela quando ela acordar.
Percy e Annabeth chegaram logo em seguida, a filha de Atena já avaliando os ferimentos de Alex e o estado de Kely com olhar clínico.
— Precisamos levá-la para a Casa Grande — disse Annabeth, encarando Lilly com uma curiosidade evidente. — O uso de Ferro Estígio por alguém que não seja do Submundo drena a energia vital em segundos. É um milagre que ela ainda esteja respirando.
— Ela não é do Submundo — murmurou Jungkook, ajustando o corpo leve de Lilly em seus braços com um cuidado que ele mesmo desconhecia possuir.
Ele a ergueu contra o peito com facilidade, sentindo a respiração suave dela contra a curva de seu pescoço. Era estranho. Para alguém que passara os últimos anos cercado por fantasmas e pela frieza dos mortos, aquele calor tênue era a coisa mais vívida que já havia tocado.
— Vamos — ordenou Percy, gesticulando em direção à barreira mágica. — Quíron já deve estar preparando o néctar.
Enquanto o grupo subia a colina em direção às luzes calorosas do acampamento, Lilly repousava inerte nos braços do guerreiro mais temido daquele lugar. Ela odiava aquele mundo, odiava os deuses que a haviam abandonado e odiava o fato de ter sido arrastada para uma guerra ancestral que não era sua.
Mas, enquanto atravessava os limites do acampamento nos braços do filho da morte, a linha que os unia acabara de ser traçada na terra. E, quer quisessem ou não, nem mesmo os deuses do Olimpo conseguiriam desfazê-la.
