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Com amor, Abel

Fandom: Dawnies

Criado: 02/10/2026

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RomanceDramaEstudo de PersonagemNoirRealismoCenário CanônicoPhotofic
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Fora do Enquadramento

O zumbido dos refletores de tungstênio diminuindo de intensidade era o único som capaz de competir com a batida abafada que ainda ecoava por trás das portas duplas do Estúdio B. Em Los Angeles, a noite nunca dormia de verdade; apenas trocava de turno, substituindo o trânsito causticante da Sunset Boulevard por uma névoa densa e carros pretos deslizando sem pressa sob as luzes de neon.

Geise ajustou a alça da câmera sobre o ombro esquerdo, soltando um suspiro longo que fez um cacho rebelde escapar do coque frouxo e roçar em sua têmpora. Ela estava há quase doze horas de pé, analisando paletas de cores, enquadramentos e texturas para a nova identidade visual daquele projeto misterioso. Ao contrário da metade da equipe de produção — que parecia andar sobre cascas de ovos polidas a cada vez que uma certa silhueta aparecia no corredor —, ela estava apenas exausta e focada em fazer o trabalho pelo qual tinha sido contratada.

Mudar-se do Brasil para os Estados Unidos com a ambição de comandar a própria direção criativa não vinha com garantias. E a sua maior regra de sobrevivência até então era simples: tratar o trabalho como trabalho. Não havia espaço para deslumbramento. Quem vive correndo atrás do brilho dos outros acaba esquecendo a própria luz.

— Essa última sequência não funciona — disse ela para ninguém em especial, enquanto folheava as impressões de contato térmico espalhadas sobre a mesa de madeira rústica do lounge.

— E por que exatamente não funcionaria?

A voz veio de trás, baixa, arrastada, com uma rouquidão aveludada que qualquer pessoa no planeta reconheceria em um segundo.

Geise não deu um salto, embora a nuca tenha formigado de imediato. Ela se virou lentamente, segurando a prancheta contra o peito. Abel estava parado sob o arco da porta, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta escura de corte impecável. Os cabelos pretos de curvatura crespa perfeitamente estilizados, a barba desenhada com precisão e aqueles olhos castanho-escuros que pareciam calcular o peso de cada sombra ao redor. Ele usava um relógio fino de ouro com pulseira de couro, discreto demais para o padrão de ostentação habitual da indústria, mas caro o suficiente para comprar um quarteirão inteiro.

E havia o cheiro: couro amadeirado, especiarias raras e um toque quase imperceptível de fumaça. Uma presença que preenchia a sala sem que ele precisasse erguer a voz.

— O excesso de carmesim — respondeu Geise, mantendo os olhos grandes e castanhos fixos nos dele, sem desviar. — Você pediu uma estética que lembrasse o cinema noir dos anos oitenta misturado com solidão urbana. Mas se você banhar o enquadramento inteiro em luz vermelha saturada, perde o contraste do rosto. Vira um videoclipe genérico de boate. O mistério morre antes da primeira estrofe.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Dois assistentes de iluminação que recolhiam cabos no canto congelaram no lugar, claramente temendo pela integridade física ou pelo emprego da garota. Afinal, ninguém dizia a The Weeknd que a visão dele parecia "genérica".

Abel não se moveu por alguns segundos. Apenas inclinou a cabeça levemente para o lado, as sobrancelhas escuras se erguendo em um gesto de avaliação meticulosa. Havia um brilho perigoso e divertido no fundo de suas pupilas.

Ele deu três passos lentos em direção à mesa, os sapatos quase não fazendo ruído no chão de madeira escura. Parou a menos de um metro dela. De perto, ele era mais alto do que parecia nos palcos, e a postura elegante carregava uma segurança tranquila, desprovida de qualquer afobação.

— Genérico? — repetiu ele, a voz descendo meio tom, carregada de uma ironia mordaz. — Acho que ninguém usou essa palavra para falar da minha estética nos últimos sete anos.

— Talvez as pessoas ao seu redor tenham medo de você — retrucou ela com naturalidade, dando de ombros sob a camisa de linho azul-marinho. — Ou talvez elas achem que concordar com tudo garante um contrato mais longo. Eu prefiro que o resultado final fique incrível. E, para ficar incrível, a sombra precisa trabalhar a seu favor, não contra você.

Abel apoiou uma das mãos na borda da mesa de madeira, inclinando o tronco ligeiramente para a frente. O perfume dele avançou sobre o dela — uma mistura sutil e persistente de flores frescas que parecia não pertencer ao ambiente fechado e refrigerado de um estúdio.

— Você sempre fala assim com todo mundo? — perguntou ele, o canto dos lábios curvando-se em um meio sorriso discreto, quase imperceptível para quem não estivesse prestando atenção absoluta.

— Só com quem merece — respondeu Geise, sustentando o olhar com um sarcasmo afiado e um brilho provocador nos olhos.

Abel soltou uma risada curta, pelo nariz, genuinamente surpreso. Ele passou a língua pelos dentes inferiores, pensativo, fitando as fotos espalhadas entre eles. Seus dedos longos e bem cuidados tamborilaram no tampo da mesa em um ritmo sincopado.

— Deixe-me ver isso — murmurou ele, estendendo a mão.

Ela entregou a prancheta. Abel pegou o material, e por um instante fugaz a ponta dos dedos dele encostou nos dela. A pele dele estava quente contra a frieza do ar-condicionado. Nenhum dos dois comentou o toque, mas Geise sentiu um arrepio involuntário descer pela espinha, um reflexo traiçoeiro que ela fez questão de enterrar sob uma expressão profissional.

Abel folheou as páginas, os olhos atentos varrendo cada anotação manuscrita em inglês — com ocasionais rabiscos impacientes em português nas margens. Ele lia devagar, absorvendo referências cinematográficas obscuras de diretores franceses e italianos que poucos jovens diretores em Hollywood conheciam de verdade.

— Dario Argento — disse ele de repente, apontando para uma anotação em vermelho no canto de um esboço. — Você tirou a paleta de sombras de Suspiria.

— E você claramente reconheceu — devolveu Geise, erguendo o queixo com um sorriso levemente triunfante. — O que prova que eu estou certa sobre a luz. A penumbra precisa respirar. Se você entregar tudo de bandeja, o público não precisa se esforçar para decifrar você.

Abel levantou os olhos da prancheta, encarando-a com uma intensidade que desarmaria a maioria das pessoas. Havia algo nele naquele momento — despido dos óculos escuros, das jaquetas extravagantes de premiações e da persona calculada para as massas — que era cru e desconcertante. Era apenas Abel. Um homem obcecado pelo perfeccionismo de sua arte, com o peso de noites sem dormir desenhado sutilmente sob os olhos castanhos.

— Você não é daqui — afirmou ele, devolvendo o papel sobre a mesa com calma.

— Los Angeles é feita de pessoas que não são daqui.

— Eu quis dizer do país. O sotaque é sutil, mas a cadência é diferente.

— Brasil — explicou ela de forma simples. — Rio de Janeiro, especificamente. Mas já faz dois anos que tento fazer o caos desta cidade cooperar com a minha câmera.

— O Brasil tem uma relação diferente com a luz — comentou ele, cruzando os braços sobre o peito e recostando-se na borda da mesa, como se não tivesse nenhum outro lugar para ir, ignorando completamente os assistentes que terminavam de fechar os cases de equipamentos. — É tudo muito aberto. Solar. Como alguém que cresceu nisso prefere sombras tão pesadas?

— Porque a luz solar é óbvia demais — ela respondeu sem hesitar, apoiando o peso em uma das pernas e ajeitando a alça de couro de sua bolsa. — O sol queima, expõe tudo, não deixa segredos. A noite exige que você preste atenção aos detalhes. É nas sombras que as pessoas mostram quem realmente são, quando acham que ninguém está olhando.

Abel permaneceu em silêncio por um longo momento. O olhar dele desceu pelos cabelos cacheados dela, volumosos e brilhantes, caindo em cascatas desalinhadas ao redor de traços delicados, antes de pousar novamente em seus olhos expressivos. Ele parecia estar lendo um roteiro que ainda não havia sido escrito.

— Uma filósofa atrás da lente — zombou ele em tom baixo, embora o sarcasmo não carregasse malícia, apenas um jogo deliberado de provocações. — Perigoso.

— Não sou filósofa, Abel. Sou apenas uma profissional que não quer ver o próprio nome nos créditos de algo que parece ter sido iluminado por uma lâmpada fluorescente de posto de gasolina.

O uso do nome de batismo dele sem qualquer hesitação pareceu ecoar na sala como uma corda de violão estalada com força. Quase todo mundo o chamava de "The Weeknd" no estúdio, ou usava pronomes reverentes, mantendo a mística intocável. Chamar-lhe de Abel era puxá-lo para a terra, desarmando o mito com quatro letras.

Ele descruzou os braços, deu um passo à frente e reduziu a distância entre eles a meio metro. Geise sentiu o ar rarear, mas forçou os pés a continuarem colados ao chão. A sua mente disparava os alertas de emergência que ela mesma havia programado: Nunca se envolva com alguém cuja vida pertence aos holofotes. Homens assim consomem tudo o que tocam.

Mas o magnetismo dele era uma força física, densa e inescapável.

— O que você acha de testarmos a sua teoria? — propôs ele, as palavras saindo lentas, num sussurro quase íntimo que fez o estúdio parecer deserto.

— Que teoria?

— A da luz. A de que a sombra trabalha a meu favor.

— A equipe já está desmontando o set principal, e são quase duas da manhã — ela lembrou, embora a curiosidade estivesse prestes a vencer o bom senso.

— Eu sou o dono do estúdio hoje — retrucou Abel, abrindo um sorriso pequeno, indolente e extremamente seguro de si. — E a minha noite está apenas começando. Pegue a sua câmera.

Geise hesitou por uma fração de segundo, os lábios entreabertos. Ela sabia que estava entrando em um território onde as regras começavam a desmoronar. Abel Tesfaye era conhecido por ser impenetrável; um homem que transformava dor, prazer e excessos em poesia sombria, mas que mantinha a própria alma trancada a sete chaves longe da imprensa e dos curiosos. Por que diabos ele estava perdendo tempo com uma diretora visual recém-chegada?

— Se eu pegar a câmera — disse ela, semicerrando os olhos —, nós fazemos do meu jeito. Sem iluminação direta. Só a lâmpada de fundo âmbar e o reflexo do vidro de controle.

— Feito — concordou ele sem hesitar, os olhos faiscando com um desafio que ele claramente não recebia há muito tempo. — Mostre-me o que você vê, brasileira.

Dez minutos depois, o estúdio estava em penumbra total, exceto por uma única luz âmbar suave que se projetava através do vidro da cabine de mixagem. O restante da equipe havia sido dispensado com um aceno silencioso de Abel, restando apenas o silêncio cavernoso do espaço e o som abafado de suas próprias respirações.

Geise ergueu a câmera diante do rosto, ajustando a abertura da lente manualmente. Pelo visor de cristal, ela o enquadrou.

Abel estava sentado em um banco alto de couro, uma perna esticada e a outra dobrada no apoio. A penumbra cortava o rosto dele pela metade: a mandíbula forte, a textura da barba e o contorno escuro dos lábios delineados pelo reflexo suave, enquanto o resto se perdia na escuridão profunda. Ele não posava como uma estrela pop; não havia o olhar treinado para capas de revista. Havia apenas uma vulnerabilidade silenciosa, quase taciturna, a postura de um homem acostumado a carregar o próprio universo nas costas durante as madrugadas.

O clique do obturador soou limpo e metálico no silêncio.

Click.

— Não se mexa — instruiu ela em voz baixa, dando dois passos laterais para capturar o ângulo em que a luz tocava a curva de suas sobrancelhas marcadas.

— Você dá muitas ordens para quem acabou de ser contratada — murmurou ele, sem mover o rosto, os olhos fixos na lente como se pudesse enxergar a íris dela através do vidro óptico.

— Você prefere que eu minta e diga que você fica bem de qualquer jeito?

— Eu fico bem de qualquer jeito — devolveu ele com uma arrogância tão suave e despretensiosa que soou mais como uma piada interna entre dois cúmplices.

Click.

Geise baixou a câmera por um instante, olhando por cima do visor com uma sobrancelha arqueada.

— Confiante, não é?

— Realista — corrigiu ele, o olhar descendo lentamente pelos lábios dela antes de retornar aos seus olhos. — Mas estou curioso para ver se a sua lente concorda comigo.

Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, deu mais um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que o perfume dele voltasse a envolver os seus sentidos. Ela girou o pequeno dial na parte traseira da câmera, selecionou a imagem capturada e virou a tela digital na direção dele.

A fotografia era crua, cinematográfica e visceral. O contraste dramático engolia metade do rosto de Abel, mas destacava a intensidade feroz e pensativa de seu olhar de uma forma que nenhuma das fotos promocionais anteriores havia conseguido. Não era The Weeknd vendendo um disco de platina. Era Abel, despido de artifícios.

Ele olhou para a imagem na pequena tela por vários segundos. O silêncio que se seguiu foi longo, quase denso demais para suportar. Geise, que costumava falar compulsivamente quando sentia a tensão subir, teve que morder a parte interna da bochecha para não quebrar a atmosfera com uma piada defensiva.

Quando Abel finalmente ergueu o rosto, a expressão irônica havia desaparecido. Seus olhos castanhos estavam mais escuros, quase abissais, e ele a encarava com uma seriedade que fez o ar parecer subitamente escasso.

— É isso — disse ele, a voz tão baixa que mal ultrapassou a barreira do som ambiente. — É exatamente isso o que eu ouço na minha cabeça quando escrevo.

— Eu disse que a sombra funcionava — comentou ela, tentando disfarçar o impacto daquelas palavras com um tom leve, embora as mãos segurando a câmera estivessem ligeiramente tensas.

Abel desceu do banco de couro, a elegância de seus movimentos quase felina, e parou a centímetros dela. Ele não tentou tocá-la, não ultrapassou os limites do espaço pessoal de maneira invasiva, mas sua mera proximidade irradiava um calor magnético que ela não conseguia ignorar.

— Como você sabia? — perguntou ele, o tom carregado de uma curiosidade genuína, despida de defesas. — As pessoas costumam tentar me colocar no centro de tudo. Querem que eu brilhe o tempo todo. Ficam desconfortáveis com o que é quieto.

Geise respirou fundo, sentindo o aroma amadeirado dele se mesclar ao seu próprio perfume floral. Ela ergueu a cabeça para sustentar o contato visual, recusando-se a recuar um único milímetro.

— Porque ninguém brilha o tempo todo, Abel. E quem tenta fazer isso o tempo todo geralmente está tentando esconder que está queimando por dentro.

O silêncio voltou a se instalar, mas agora não era mais feito de desafio profissional. Era um espaço carregado de eletricidade estática, daquele tipo perigoso que anuncia a aproximação de uma tempestade inevitável. Abel a observava como se ela fosse um enigma que ele não havia colocado no roteiro, uma variável imprevisível no meio de um mundo onde tudo era controlado, coreografado e vendido.

— Você é um problema, Geise — sussurrou ele, o sotaque americano arrastando o som do nome dela de um jeito que a fez engolir em seco. Havia uma promessa disfarçada de advertência naquela frase.

— Eu sou uma profissional — corrigiu ela, recompondo-se com rapidez e dando um passo para trás com um sorriso sarcástico que servia como seu melhor escudo. — E você ainda tem um álbum inteiro para terminar.

Abel soltou uma risada rouca, balançando a cabeça em negação divertida, mas os olhos não a abandonaram por um único instante enquanto ela começava a guardar a lente na bolsa acolchoada.

— Amanhã à noite — disse ele, a voz firme assumindo o controle novamente, mas com uma nota de cumplicidade que não existia algumas horas atrás. — Quero você na sala de mixagem. Preciso de alguém para me dizer o que está horrível antes que eu perca a paciência com os outros.

Geise fechou o zíper da mochila e jogou a alça sobre o ombro, caminhando em direção à saída do estúdio. Ao alcançar a porta dupla, parou com a mão na maçaneta de metal frio e olhou para trás por cima do ombro.

Abel ainda estava lá, parado no meio da penumbra âmbar, as mãos nos bolsos da jaqueta escura, observando-a partir como quem já sabia o desfecho de uma história que mal tinha começado.

— Às nove — disse ela. — E não se atrase. Eu cobro por hora.

Sem esperar pela resposta, Geise empurrou a porta e saiu para o ar fresco da madrugada de Los Angeles. As luzes da cidade cintilavam no horizonte como um aviso silencioso: ela tinha quebrado a sua primeira regra ao enxergar o homem por trás da persona, e ele certamente quebraria a dele ao permitir que ela se aproximasse um pouco mais na noite seguinte.

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