
Entre o mar e sobras do passado..
Fandom: Percy jackson e os olimpianos
Criado: 02/10/2026
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O Brilho das Ondas nas Sombras do Ébano
O Salão de Jade do Monte Olimpo nunca pareceu tão sufocante. O teto, uma cúpula vasta pintada com as constelações que pareciam se mover conforme o ritmo da música, derramava uma luz prateada sobre a multidão de semideuses, ninfas e divindades menores. O ar estava impregnado com o cheiro de ambrosia, néctar e perfumes caros que custariam uma fortuna mortal.
Nico di Angelo sentia-se como uma mancha de tinta preta em uma tela de cores vibrantes.
Ele estava posicionado ao lado do trono de seu pai, Hades. O Rei do Mundo Inferior parecia uma sombra sólida, vestindo uma túnica tecida com as almas dos arrependidos, cujos rostos contorcidos clamavam silenciosamente no tecido escuro. Nico, por outro lado, parecia ter saído de um retrato fúnebre da era vitoriana. Ele vestia uma casaca de veludo negro com botões de prata em formato de crânios, uma camisa de seda branca com babados no pescoço que contrastavam violentamente com sua pele pálida — uma palidez que lembrava neve recém-caída sobre uma terra deprimente e sem vida. Seus cabelos pretos, revoltos e sem brilho, emolduravam um rosto de traços finos, onde as olheiras profundas sob os olhos pretos como ébano lhe conferiam a aparência de um fantasma que se recusava a descansar.
— Endireite a postura, Nico — murmurou Hades, sua voz soando como o arrastar de pedras em uma caverna profunda. — Você é o Príncipe do Submundo. Aja como tal.
— Eu não pedi por nada disso, pai — respondeu Nico, a voz baixa e rouca. — Por que estamos aqui mesmo?
Hades soltou um suspiro pesado, seus olhos escuros varrendo o salão com desdém.
— Você precisa de um consorte. Alguém para governar ao seu lado, para ancorar seu poder. Os outros deuses já apresentaram seus herdeiros. É hora de você escolher alguém que seja digno de compartilhar o trono de obsidiana.
Nico sentiu um aperto no peito. "Consorte". Era uma palavra elegante para o que ele considerava uma sentença de prisão. Quem, em sã consciência, desejaria passar a eternidade no reino do silêncio e das sombras? Quem olharia para o "Garoto Fantasma" e veria algo além de morte e má sorte? Ele não sentia que merecia ser amado. O amor era para os filhos de Apolo, com seus sorrisos solares, ou para as filhas de Afrodite, com sua beleza estonteante. Para Nico, restava apenas o frio.
— Ninguém aqui quer um pedaço do Submundo, pai — Nico disse, desviando o olhar de uma filha de Deméter que o encarava com horror indisfarçável. — Eles têm medo de mim. E com razão.
— O medo é uma forma de respeito — retrucou Hades. — Mas olhe ao redor. Nem todos aqui tremem.
Nico obedeceu, mas apenas para provar que o pai estava errado. Seus olhos vagaram pela pista de dança, onde os filhos dos Olimpianos se exibiam. Havia uma tensão palpável no ar, uma competição silenciosa. Todos os olhos, ao que parecia, estavam voltados para o centro do salão, onde a realeza de Poseidon se encontrava.
E foi então que ele o viu.
Percy Jackson estava cercado por uma pequena multidão, como sempre. Ele vestia um traje que parecia feito de escamas de peixe azul-esverdeadas que brilhavam sob a luz das estrelas, mudando de cor conforme ele se movia. Ele era o epítome do príncipe que todos desejavam. Filhos de Zeus, Ares e até caçadoras de Ártemis pareciam gravitar em sua direção, atraídos por aquele carisma natural que Nico nunca entendeu como alguém poderia possuir.
Mas, ao contrário do que Nico esperava, Percy não estava prestando atenção em seus admiradores.
Nico sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um frio que não vinha do reino de seu pai. Ele percebeu que Percy o estava encarando.
Não era um olhar de medo, nem de desprezo. Eram olhos verdes como o mar, profundos e agitados, que pareciam perfurar a névoa de isolamento que Nico construíra ao seu redor. E, para o choque absoluto de Nico, Percy sorriu.
Era um sorriso encantador, mas havia algo mais nele — uma espécie de reconhecimento silencioso, um desafio.
— Ele está vindo para cá — comentou Hades, com um tom de curiosidade que beirava a satisfação.
Nico sentiu o desejo impulsivo de viajar pelas sombras e desaparecer, mas suas pernas pareciam presas ao chão de mármore.
Percy se aproximou, abrindo caminho entre os convidados com uma facilidade irritante. Quando ele parou diante dos degraus onde Hades e Nico estavam, ele fez uma reverência casual, quase atrevida.
— Lorde Hades — disse Percy, a voz clara e vibrante. — É uma bela festa. Embora um pouco barulhenta para o meu gosto.
Hades inclinou a cabeça, um gesto de respeito mínimo.
— Jackson. Presumo que Poseidon esteja ocupado se gabando de suas últimas conquistas marítimas.
— Algo assim — Percy riu, e o som foi como o quebrar das ondas na areia. Então, ele voltou sua atenção inteiramente para Nico. — E você, Nico? Não vai me cumprimentar?
Nico apertou os punhos escondidos nas mangas de sua casaca.
— O que você quer, Percy? — A voz de Nico saiu mais fria do que ele pretendia.
— Eu queria saber se o Príncipe do Submundo sabe dançar — disse Percy, estendendo a mão. — Ou se ele prefere apenas ficar nas sombras observando os mortais se cansarem.
Um murmúrio percorreu o salão. As pessoas pararam de conversar. O filho de Poseidon estava desafiando o filho de Hades para uma dança? Era um escândalo, ou talvez o início de algo muito mais perigoso.
— Eu não danço — Nico respondeu, sentindo o rosto esquentar, o que era uma raridade para sua pele gélida. — E eu não sou um espetáculo para o seu divertimento.
— Quem disse que é para o meu divertimento? — Percy deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de sal e brisa marinha atingiu Nico, sobrepondo-se ao cheiro de incenso fúnebre. — Talvez eu só esteja cansado de todas essas pessoas olhando para mim como se eu fosse um troféu. Você é a única pessoa real nesta sala, Nico.
Nico olhou para a mão estendida de Percy e depois para os olhos verdes dele. Havia uma sinceridade ali que o desarmou. Por um momento, a muralha de autodesprezo que ele carregava como uma armadura pareceu ter uma rachadura.
— Vá, Nico — disse Hades, com um tom de voz que não aceitava discussões, embora houvesse um brilho estranho em seus olhos escuros. — Mostre a eles que o Submundo não teme o mar.
Sem ter para onde fugir, Nico desceu o primeiro degrau. Ele hesitou por um segundo antes de colocar sua mão pálida e magra sobre a palma quente e calejada de Percy. O contraste era absoluto: a morte encontrando a vida, a sombra encontrando a maré.
Percy o conduziu para o centro do salão. A música mudou para algo mais lento, uma melodia melancólica de harpas que parecia chorar e cantar ao mesmo tempo.
— Você está tenso — sussurrou Percy, colocando a mão na cintura de Nico.
— Eu me sinto um idiota — Nico rebateu, embora tenha colocado a mão no ombro de Percy, sentindo a força dos músculos sob o tecido fino. — Todo mundo está olhando. Eles acham que você enlouqueceu.
— Deixe que olhem — disse Percy, começando a se mover no ritmo da música. Ele era um dançarino surpreendentemente bom, conduzindo Nico com uma firmeza gentil. — Eles sempre olham. Mas agora, eu não estou olhando para eles.
Nico tentou manter o olhar fixo no peito de Percy, mas a gravidade daquele momento o forçou a levantar os olhos. Percy o encarava com uma intensidade que fazia Nico se sentir exposto, como se todos os seus segredos estivessem sendo revelados.
— Por que eu, Percy? — perguntou Nico, a voz falhando levemente. — Todos os filhos dos deuses estão atrás de você. Você poderia ter qualquer um. Alguém que brilhe. Alguém que não carregue o cheiro de túmulos.
Percy parou de girar por um momento, embora continuassem a se balançar suavemente.
— Eu não quero alguém que brilhe, Nico. O brilho é passageiro. Eu quero alguém que me entenda. Alguém que saiba o que é carregar o peso do mundo e ainda assim continuar de pé.
— Eu não sou um herói como você — Nico desviou o olhar. — Eu sou apenas o que sobrou.
Percy usou a mão que segurava a de Nico para trazê-lo um pouco mais para perto, até que suas testas quase se tocassem.
— Você é mais forte do que qualquer um nesta sala — disse Percy, a voz baixa e profunda, destinada apenas aos ouvidos de Nico. — E, para sua informação, eu acho que essa roupa de príncipe gótico combina muito com você. Fica muito melhor do que aquela jaqueta de aviador velha.
Nico não pôde evitar. Um pequeno e quase imperceptível sorriso surgiu em seus lábios.
— Aquela jaqueta era clássica.
— Era um desastre — corrigiu Percy, sorrindo de volta, aquele sorriso que parecia iluminar até os cantos mais escuros da alma de Nico. — Mas você... você nunca foi um desastre para mim, Nico.
A música continuou, mas para Nico, o salão havia desaparecido. Não havia mais deuses, nem expectativas, nem o peso do trono de seu pai. Havia apenas o ritmo da respiração de Percy e o calor de suas mãos.
— Meu pai quer que eu encontre um consorte — Nico admitiu, a voz mal passando de um suspiro.
— É mesmo? — Percy inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma travessura perigosa. — E o que o Príncipe do Submundo acha de um Príncipe do Mar? Acho que seria uma aliança interessante, não acha?
Nico sentiu o coração bater contra as costelas, um ritmo vivo e frenético que ele pensou ter esquecido como sentir.
— Poseidon odiaria isso — disse Nico.
— Meu pai gosta de você, Nico. Ele só tem um jeito estranho de demonstrar. E, além disso, eu nunca fui muito bom em seguir as regras dele.
Eles continuaram a dançar, uma sombra e uma onda movendo-se em perfeita sincronia sob o teto estrelado do Olimpo. Pela primeira vez em anos, Nico di Angelo não se sentiu como um fantasma. Ele se sentiu visto. Ele se sentiu desejado.
— Você é muito irritante, Jackson — murmurou Nico, encostando a cabeça no ombro de Percy por um breve segundo.
— Eu sei — Percy respondeu, apertando a mão de Nico com carinho. — Mas você vai ter que se acostumar com isso. Eu não pretendo ir a lugar nenhum.
Naquele momento, enquanto os deuses observavam em silêncio e o destino começava a tecer novos fios, Nico percebeu que, talvez, o amor não fosse apenas para aqueles que viviam na luz. Talvez, as sombras tivessem sua própria beleza, contanto que houvesse alguém corajoso o suficiente para mergulhar nelas.
E Percy Jackson sempre foi um excelente mergulhador.
