
Homem aranha e Deadpool
Fandom: Marvel
Criado: 03/10/2026
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Entre Fórmulas e Frequências Cardíacas
A luz do sol matinal atravessava as janelas da biblioteca da Universidade Empire State com uma agressividade que Peter Parker considerava pessoal. Ele estava sentado em uma mesa de canto, cercado por livros de física quântica e anotações que pareciam hieróglifos para qualquer pessoa normal, mas que para ele eram apenas o lembrete constante de que sua vida estava desmoronando em câmera lenta.
Peter apertou a ponte do nariz, sentindo o peso da falta de sono. Ele não tinha dormido. Como ele poderia dormir?
— Peter, você está encarando essa página há dez minutos sem piscar. Ou você atingiu o nirvana científico ou seu cérebro finalmente derreteu — disse MJ, sentando-se à frente dele com um café na mão e aquele olhar de "eu sei que você está escondendo algo" que sempre o deixava em pânico.
— Eu só... estou processando a teoria das cordas — mentiu Peter, a voz saindo um pouco mais aguda do que o pretendido.
— A gente está estudando termodinâmica, cara — Ned sussurrou ao lado dele, sem tirar os olhos do laptop, onde tentava simultaneamente hackear um servidor de jogos e terminar um relatório.
Peter fechou o livro com um estrondo abafado.
— Exato. A termodinâmica da... minha exaustão.
A verdade era muito mais complicada. A verdade envolvia um terraço na Stark Industries, o luar refletido no Rio Hudson e um beijo que Peter não deveria ter dado. Como Homem-Aranha, ele tinha uma confiança que Peter Parker só podia sonhar em ter. Sob a máscara, ele era o herói, o piadista, o cara que conseguia flertar com o filho do Homem de Ferro sem gaguejar. Mas agora, sem o traje, ele era apenas Peter, o estagiário/amigo que estava prestes a ver Mozart Stark a qualquer momento.
E, como se o universo tivesse um senso de humor sádico, a porta da biblioteca se abriu.
Alexander Mozart Stark entrou no recinto como se o lugar pertencesse a ele — o que, tecnicamente, dada a doação anual da Stark Industries para a faculdade, não era uma mentira total. O cabelo preto comprido estava preso em um coque bagunçado, ele usava uma camiseta desbotada de uma banda de rock progressivo e carregava uma mochila que parecia conter mais eletrônicos do que livros.
Peter sentiu seu coração martelar contra as costelas. Tum-tum. Tum-tum. O sentido aranha não estava apitando para o perigo, mas Peter sentia que deveria estar.
— Bom dia, plebeus e gênios em ascensão — Mozart disse, jogando-se na cadeira vaga ao lado de Peter. Ele exalava um cheiro suave de café, solda e algo que Peter identificava como o perfume caro da Pepper Potts. — Alguém tem um chiclete? Eu sinto que minha boca tem o gosto de um circuito queimado.
— No bolso lateral da minha mochila — respondeu Ned, sem hesitar.
Mozart pegou o chiclete, mas seus olhos, intensos e curiosos, fixaram-se em Peter.
— E aí, Parker? Você parece que foi atropelado por um caminhão de lixo. E depois o caminhão deu ré.
Peter forçou um sorriso, sentindo o suor frio na nuca.
— Só... muita lição de casa, Moz. Sabe como é.
— "Moz"? — MJ levantou uma sobrancelha, captando a intimidade incomum no apelido.
Peter congelou. Na noite anterior, no terraço, ele tinha chamado Mozart de "Mozie". O apelido tinha escapado entre um comentário sobre a vista e o momento em que ele finalmente cedeu ao impulso de puxar a máscara até o nariz.
Mozart inclinou a cabeça, observando Peter com uma intensidade que fazia o garoto querer se esconder atrás do livro de termodinâmica.
— É, "Moz". Gostei. Tem um toque clássico com um desleixo moderno — Mozart sorriu, mas o sorriso não atingiu totalmente seus olhos. Havia algo ali. Uma análise. — Mas você está estranho, Peter. Mais estranho que o normal. E olha que seu "normal" já é um nível alto de esquisitice social.
— Eu estou ótimo! — Peter exclamou, alto demais. Algumas pessoas na biblioteca fizeram "shh". — Perfeito. Nunca estive melhor. Por que eu não estaria ótimo?
— Talvez porque suas mãos estão tremendo tanto que você vai criar um terremoto local se não soltar essa caneta — observou Mozart, estendendo a mão e, por um segundo, tocando os dedos de Peter para estabilizá-los.
O toque enviou uma descarga elétrica pelo braço de Peter que não tinha nada a ver com eletromagnetismo. Ele recolheu a mão rapidamente.
— Café! Eu só tomei muito café.
Mozart estreitou os olhos.
— Engraçado. Eu tive uma noite bem interessante ontem. Encontrei um certo escalador de paredes no terraço de casa.
Ned engasgou com a própria saliva. MJ inclinou-se para frente, subitamente muito interessada.
— O Homem-Aranha? — perguntou MJ, com um tom de voz casual que Peter sabia ser uma armadilha. — O que ele queria?
— Ah, você sabe — Mozart deu de ombros, recostando-se na cadeira com uma confiança irritante. — Conversar sobre a vida, salvar a cidade, as coisas de sempre. Mas ele estava... diferente. Mais audacioso.
Peter sentiu que ia desmaiar.
— Audacioso como? — Ned perguntou, a curiosidade superando o instinto de preservação do segredo do amigo.
— Ele me deu um beijo — disparou Mozart, observando a reação de Peter como um cientista observa uma reação química volátil.
O silêncio na mesa foi absoluto. Peter sentiu o rosto esquentar tanto que teve certeza de que poderia fritar um ovo na própria testa.
— Ele o quê? — MJ perguntou, os olhos brilhando.
— É. Foi... inesperado — continuou Mozart, a voz baixando um tom, tornando-se mais séria. — E o mais louco é que, por um momento, eu tive a sensação de que já conhecia aquele beijo. Ou a pessoa por trás dele. É uma sensação de déjà vu constante, sabe, Parker?
— Não... não faço ideia — gaguejou Peter, levantando-se bruscamente e derrubando sua caneta no processo. — Eu preciso ir. Tenho uma... aula de... coisas.
— Peter, a próxima aula é só daqui a uma hora — Ned tentou avisar, mas Peter já estava guardando suas coisas freneticamente.
— É uma aula extra! Opcional! Muito importante! Vejo vocês depois!
Peter praticamente fugiu da biblioteca, deixando para trás três olhares distintos: o de Ned (confuso), o de MJ (suspeito) e o de Mozart (profundamente intrigado).
Horas mais tarde, Mozart estava em seu laboratório particular na Stark Tower. A música alta — um rock pesado que faria os ouvidos de Steve Rogers sangrarem — ecoava pelas paredes de vidro. Ele estava mexendo em uma das braçadeiras de seu traje, mas sua mente não estava na engenharia.
Ele se afastou da mesa de trabalho e olhou para o traje vermelho e preto pendurado em um suporte escondido atrás de uma parede falsa.
— O que você acha, Wade? — ele perguntou para o vazio, ou melhor, para a voz que ele sentia que o observava de fora. — O Parker está agindo como se tivesse visto um fantasma, ou como se tivesse beijado um. E o Aranha... ah, o Aranha. Aquele beijo teve gosto de laboratório de química e ansiedade adolescente.
Ele soltou uma risada seca e girou em sua cadeira de rodinhas.
— Se o Peter for o Aranha, eu sou o gênio mais burro do mundo por não ter notado antes. E se ele for... bem, isso torna as coisas muito mais divertidas. E muito mais complicadas.
Mozart pegou sua guitarra preta e dedilhou alguns acordes agressivos. A dualidade de sua vida estava começando a pesar. Como Mozart Stark, ele sentia uma afeição genuína e protetora por Peter Parker, o garoto brilhante que parecia carregar o mundo nas costas. Como Deadpool, ele sentia uma obsessão caótica pelo Homem-Aranha, o herói que tentava ser moralmente superior enquanto trocava socos com ele.
— O problema — Mozart murmurou para si mesmo, parando de tocar — é que eu gosto dos dois. E o Aranha odeia o Deadpool. Mas o Aranha beijou o Mozart. E o Peter... o Peter está fugindo de mim.
Ele se levantou, a energia inquieta correndo por suas veias. Ele precisava sair. Precisava de ação.
A noite em Nova York nunca era silenciosa. O Homem-Aranha balançava entre os prédios, usando o esforço físico para tentar silenciar os pensamentos em sua cabeça.
Por que eu fiz aquilo? Por que eu beijei o Mozart?
— Porque você é um idiota, Parker — ele disse em voz alta, sua voz abafada pela máscara.
Ele pousou no topo de um reservatório de água, observando as luzes da cidade. Ele se sentia dividido em dois. Peter Parker queria apenas sentar com Mozart, ouvir música e talvez, se tivesse coragem, segurar a mão dele. O Homem-Aranha queria... bem, o Homem-Aranha tinha feito o que Peter não podia.
— Falando sozinho de novo, teioso? Isso é sinal de início de demência ou apenas falta de amigos?
Peter deu um salto, girando no ar e caindo em posição de combate. Parado na borda do reservatório, em uma pose dramaticamente relaxada, estava o Deadpool.
— Você! — exclamou o Homem-Aranha, os olhos da máscara se estreitando. — O que você está fazendo aqui? Eu já disse que não quero sua ajuda na patrulha.
— Ajuda? Quem disse que eu vim ajudar? — Deadpool deu um passo à frente, gesticulando com as mãos enluvadas. — Eu estava passando, vi esse bumbum maravilhoso balançando no horizonte e pensei: "Wade, você precisa ir lá dizer oi para o seu aracnídeo favorito".
— Vá embora, Deadpool. Eu não estou com paciência hoje.
— Ui, que agressividade! O que foi? O encontro de ontem não foi bom? — Deadpool inclinou a cabeça, e por um segundo, Peter sentiu um calafrio. — Ouvi dizer que você anda distribuindo beijos por aí. Fiquei com ciúmes, sabia? Eu achei que a gente tinha algo especial.
— A gente não tem nada! — Peter disparou, a irritação crescendo. — E como você... esquece. Você é um mercenário maluco. Como você sabe de qualquer coisa?
— Eu tenho meus contatos. E eu sei que você gosta de loiros... ou ex-loiros. Garotos com nomes de compositores famosos.
O coração de Peter parou por um microssegundo.
— Eu não sei do que você está falando.
— Sabe sim — Deadpool deu um passo rápido, aproximando-se mais do que Peter gostaria. — Você está confuso, Aranha. Sua cabeça está uma bagunça. Peter... digo, perder o controle é ruim, não é?
Peter recuou, lançando uma teia em um prédio vizinho.
— Fica longe de mim, Deadpool. E fica longe do terraço da Stark.
— Ou o quê? Você vai me beijar também para eu calar a boca? Porque, olha, eu aceito!
O Homem-Aranha não respondeu. Ele saltou no vazio, balançando-se para longe o mais rápido que podia. Ele precisava de distância. Precisava de ar.
Do topo do reservatório, Mozart, sob a máscara de Deadpool, observava o herói se afastar. Ele riu baixinho, uma risada que vibrou em seu peito.
— Ele está tão na minha — Mozart disse, quebrando a quarta parede com um olhar direcionado ao nada. — Vocês viram isso? Ele gaguejou através da máscara. O Peter é um péssimo mentiroso. Mas, cara... aquele beijo foi realmente bom.
Ele suspirou, sentando-se na borda do reservatório e deixando as pernas balançarem sobre o abismo.
— O único problema é que, se eu contar para ele quem eu sou, ele provavelmente vai me jogar do topo do Empire State. E eu não posso morrer, o que tornaria a queda apenas... muito chata e dolorosa.
Na manhã seguinte, Peter chegou à faculdade com olheiras ainda mais profundas. Ele entrou na sala de aula e viu Mozart sentado no lugar de sempre, com um fone de ouvido em um dos ouvidos e um caderno de esboços aberto.
Peter tentou passar direto, mas Mozart esticou a perna, bloqueando o caminho de forma brincalhona.
— Fugindo de novo, Parker? — Mozart perguntou, tirando o fone.
— Eu não estou fugindo. Estou... atrasado para sentar.
— Senta aqui — Mozart indicou a cadeira ao lado dele.
Peter obedeceu, sentindo-se como um condenado à morte.
— Escuta — Mozart disse, inclinando-se para perto, sua voz agora baixa e séria, desprovida do sarcasmo habitual. — Eu sei que as coisas ficaram estranhas depois do que eu disse ontem sobre o Aranha.
— Não ficaram estranhas — Peter mentiu, olhando para qualquer lugar, menos para os olhos de Mozart.
— Peter. Olha para mim.
Peter virou o rosto lentamente. Mozart estava perto, perto o suficiente para que Peter pudesse ver as pequenas manchas de tinta de caneta em seus dedos e a cicatriz quase imperceptível em seu queixo.
— Eu não me importo com o que o Homem-Aranha faz ou deixa de fazer — Mozart mentiu com uma perfeição que só um Stark conseguiria. — Mas eu me importo com você. Você é meu amigo. E você está agindo como se eu fosse um vilão de quadrinhos.
Peter sentiu uma pontada de culpa tão forte que quase confessou tudo ali mesmo.
— Eu só... ando estressado, Moz. Com o estágio, com as aulas... com tudo.
— Eu sei — Mozart sorriu, e desta vez o sorriso foi gentil. Ele estendeu a mão e bagunçou o cabelo de Peter. — Só não esquece que você pode falar comigo. Sobre qualquer coisa. Mesmo que seja sobre o fato de você estar secretamente apaixonado pelo Homem-Aranha.
Peter tossiu, engasgando com o ar.
— O quê?! Não! Eu não... eu não estou apaixonado pelo Homem-Aranha!
— Todo mundo está um pouco apaixonado pelo Homem-Aranha, Peter. É parte do currículo de morar em Nova York — Mozart piscou para ele. — Mas relaxa. Seu segredo está guardado comigo.
Mozart voltou a colocar o fone de ouvido, deixando Peter em um estado de confusão absoluta.
Ele sabe? Não, ele não pode saber. Se ele soubesse, ele não estaria brincando assim. Ou estaria?
Peter olhou para o perfil de Mozart, para o jeito que ele batucava o lápis no ritmo da música que ouvia. Mozart Stark era um mistério que Peter não conseguia resolver, uma equação com variáveis demais.
E, do outro lado da sala, MJ observava os dois com um sorrisinho de lado, anotando algo em seu caderno que parecia muito com um diagrama de "identidades secretas vs. idiotice adolescente".
A teia estava ficando cada vez mais apertada, e Peter Parker tinha a sensação de que, muito em breve, ele não seria o único a ficar pendurado por um fio.
