
C×P
Fandom: Jogadores de Futebol
Criado: 03/10/2026
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Marcas de Sangue e Amor
O silêncio do escritório de Erick Pulgar no coração do Rio de Janeiro tinha o peso sufocante de uma sentença de morte.
Sentado atrás de sua imensa mesa de mogno escuro, o alfa lupus chileno mantinha os olhos fixos na lâmina polida de sua adaga. Suas mãos, cobertas por tatuagens intricadas que se estendiam pelos nós dos dedos e subiam pelos pulsos — onde repousava o inseparável fio vermelho —, moviam-se com precisão milimétrica. No rosto esculpido e severo, a palavra perseverance gravada acima da sobrancelha direita e as marcas sutis sob as maçãs do rosto davam-lhe a aura temida de um pitbull indomável da máfia.
A porta de carvalho maciço foi arrombada sem cerimônia, quebrando a tranquilidade fria do ambiente. Erick sequer ergueu a cabeça de imediato; seus homens de confiança sabiam que ninguém entrava sem autorização, a menos que o mundo estivesse desabando.
— Erick! — A voz de Guillermo Varela saiu esbaforida, entrecortada pelo desespero.
Erick levantou o olhar penetrante. Os fios escuros caíam despretensiosos sobre sua testa enquanto ele apoiava os antebraços tatuados sobre o tampo de madeira.
— Varela. Você tem dez segundos para justificar a falta de bater na minha porta — rosnou o chileno, a voz rouca e autoritária reverberando pelas paredes.
— Não tenho tempo para as suas merdas de protocolo, Pulgar! — Varela avançou, apoiando as duas mãos na mesa. — Sequestraram o Santino.
O nome fez algo estalar na mente de Erick. A imagem do garotinho de sete anos, visto semanas atrás no casamento luxuoso de Luiz Araújo e Pedro, invadiu seus pensamentos. Naquela festa, cercado por aliados como Arrascaeta e Wallace Yan, Erick havia cruzado o olhar com a criança e sentido uma estranha e inexplicável pontada no peito. Santino estava ao lado de Jorge Carrascal, o ômega que outrora fora seu maior segredo e que agora comandava o cartel rival com um sorriso provocador e lábios letais.
— E o que eu tenho a ver com os problemas do seu protegido? — Erick estreitou os olhos, a indiferença mascarando o sobressalto que seu lobo interior acabara de dar. — Carrascal escolheu a guerra sozinho quando nos separamos anos atrás. Se ele não sabe proteger as próprias costas, não sou eu quem vai mandar meus soldados morrerem por ele.
— O Jorge está louco, Erick! Ele armou os próprios homens e vai invadir a favela sozinho, nem que morra no processo! — Varela gritou, os olhos vermelhos de angústia. — Você não entende porra nenhuma!
— Então deixe que ele morra como o chefe orgulhoso que insiste em ser — rebateu Pulgar friamente, embora a menção à morte do colombiano fizesse seu estômago arder em chamas.
— O Santino é seu filho, caralho! — explodiu Varela, quebrando o último resquício de segredo mantido a sete chaves.
O ar sumiu dos pulmões de Erick. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
O alfa lupus levantou-se com uma lentidão aterrorizante. Sua presença dominante preencheu a sala, pesada e predatória. Ele deu a volta na mesa, a pequena cruz de prata balançando contra o peito coberto de tinta preta.
— O que você disse? — A voz de Erick baixou a um sussurro perigoso.
— O Jorge engravidou antes de vocês terminarem. Ele descobriu quando vocês já tinham jurado guerra um ao outro — explicou Varela, a voz trêmula mas firme. — Ele escondeu porque é um ômega lupus tentando sobreviver numa máfia que come fracos no café da manhã. Ele teve medo, Erick. Mas aquele garoto tem o seu sangue. A porra do lobo dele carrega o seu cheiro!
A mente de Erick girou em um turbilhão caótico. As lembranças do casamento se encaixaram com a violência de um tiro: o menino correndo pelo salão, os traços decididos, os olhos escuros e a forma como o próprio lobo de Erick se agitara ao vê-lo. Não era curiosidade. Era reconhecimento.
Um rugido primitivo rasgou a garganta do chileno. Sem perder mais um segundo, Erick sacou sua pistola automática da cintura e puxou o rádio comunicador do colete tático.
— Arrascaeta, mande reunir Paquetá, Bruno Henrique e todos os homens do primeiro escalão no pátio agora. Código preto. Nós vamos caçar.
— Quem pegou ele, Erick? — perguntou Varela, correndo atrás dos passos largos do alfa.
— Aquele desgraçado do Navarro — cuspiu Pulgar, os olhos faiscando em fúria cega. — O mesmo rato que tentou roubar minhas cargas no porto na semana passada. Ele está morto. E qualquer um que tenha encostado a mão no meu filho vai implorar para ir para o inferno.
A chuva fina começava a cair sobre um galpão abandonado no subúrbio carioca, misturando-se à lama e à fuligem.
Jorge Carrascal estava agachado atrás de um contêiner enferrujado, respirando com dificuldade. Seu colete estava manchado de fuligem, os reflexos loiros do cabelo impecável agora desgrenhados e colados à testa pelo suor frio. As tatuagens no pescoço — a palavra familia em letras garrafais e a marca de beijo — pulsavam com o sangue fervendo de adrenalina e puro desespero de ômega.
— Chefe, eles estão em maior número. Se avançarmos pela entrada principal, seremos massacrados — avisou Samuel Lino, empunhando um fuzil, acompanhado de perto por Léo Ortiz e Richard Ríos.
— Eu não dou a mínima! Meu filho está lá dentro! — esbravejou Jorge, a voz embargada pelo pânico, o instinto materno suprimindo qualquer resquício de racionalidade mafiosa. — Se eu tiver que derrubar esse galpão com as minhas próprias mãos, eu vou!
Antes que Jorge pudesse se levantar para correr em direção ao fogo cruzado, uma mão firme, calejada e pesada como chumbo agarrou seu braço, puxando-o para trás com autoridade inquestionável.
— Você não vai a lugar nenhum feito um suicida, Carrascal.
O colombiano travou ao ouvir aquela voz rouca. Quando ergueu os olhos amendoados e encontrou os de Erick Pulgar, o choque o paralisou. O chileno estava vestido de preto da cabeça aos pés, o olhar faiscando um ódio ancestral que Jorge conhecia bem demais.
— O que você... o que você tá fazendo aqui? — gaguejou Jorge, a respiração curta.
Erick não respondeu de imediato. Aproximou o rosto do dele, o cheiro de cedro e pólvora do alfa dominando completamente os sentidos de Jorge, acalmando à força a tempestade interna do ômega.
— Depois nós vamos acertar as contas sobre você ter escondido o meu filho por sete anos — sibilou Erick, a frieza cortante como gelo. — Mas agora, nós vamos resgatar o que é nosso. E vamos queimar esse lugar até as cinzas.
Jorge engoliu em seco, os olhos marejando ao perceber que seu maior segredo havia ruído. Mas não havia tempo para culpas. O aceno breve de cabeça entre os dois líderes selou a aliança mais perigosa que o submundo do Rio já havia testemunhado.
— Ortiz, Lino, cubram a ala leste! — comandou Jorge, recuperando a postura letal.
— Pedro, Paquetá, derrubem os atiradores do mezanino! — ordenou Erick, apontando o fuzil para a entrada.
O ataque foi implacável. O poder combinado das duas maiores forças da máfia transformou o galpão em uma zona de extermínio. Erick avançava como um verdadeiro pitbull, preciso, brutal e impiedoso, descarregando tiros certeiros em qualquer homem que se colocasse entre ele e a criança. Ao seu lado, a malandragem e a ginga colombiana de Jorge tornavam seus movimentos imprevisíveis; ele desviava de disparos com agilidade felina, abatendo os capangas de Navarro sem piscar.
Quando o líder do sequestro finalmente apareceu no fundo do galpão, usando o pequeno Santino como escudo humano, o tempo pareceu desacelerar.
O menino chorava baixinho, amarrado, com um hematoma leve no pulso. Ver o filho naquele estado fez com que os lobos de Erick e Jorge uivassem em uníssono dentro de seus peitos.
— Solta a arma, Pulgar, ou eu estouro os miolos desse bastardo! — berrou Navarro, apontando o revólver para a têmpora de Santino.
Santino abriu os olhos marejados e encontrou os de Erick.
— Moço das tatuagens...? — murmurou a criança, a voz miúda cortando o tiroteio cessado.
Erick não hesitou. Em uma fração de segundo, ele deu um passo à frente, servindo de distração para o sequestrador, enquanto Jorge, deslizando pelo piso molhado com sua habitual agilidade, disparou certeiro no joelho de Navarro. O criminoso gritou, caindo para trás e soltando o garoto.
Antes que Navarro pudesse atingir o chão, Erick já havia atravessado a distância. Com um único movimento violento e visceral, o chileno quebrou o pescoço do inimigo, encerrando a ameaça de forma definitiva.
O galpão caiu em silêncio absoluto, quebrado apenas pela chuva no teto de zinco.
Erick soltou a arma no chão. Seu peito subia e descia pesadamente. Lentamente, ele se ajoelhou na frente do menino assustado e cortou as cordas que prendiam suas mãos.
— Acabou, pequeno. Você tá seguro agora — murmurou o alfa, a voz antes tão temida agora soando trêmula e surpreendentemente doce.
Santino jogou-se nos braços tatuados de Erick sem pensar duas vezes, enterrando o rostinho ensopado de lágrimas no ombro largo do chileno. Ao sentir o corpo frágil do menino contra o seu, algo duro e impenetrável dentro de Pulgar se despedaçou para sempre. Seus braços envolveram o garoto com um fervor protetor e desesperado, e uma lágrima solitária escorreu pelo rosto severo do alfa, limpando a fuligem da bochecha.
Jorge caiu de joelhos ao lado deles, puxando ambos para um abraço caótico, chorando de alívio puro enquanto beijava os cabelos do filho. Seu lobo finalmente podia respirar.
Horas mais tarde, a mansão de Jorge estava sob vigilância pesada, mas o interior da casa repousava na mais completa calmaria. Santino já havia sido examinado pelo médico da família, alimentado e adormecido profundamente em sua cama, exausto de todo o pesadelo.
No andar de baixo, a porta do escritório particular de Jorge bateu com força.
Erick estava parado no meio da sala, sem camisa, deixando à mostra o tronco inteiramente desenhado com as memórias de sua linhagem e as costelas marcadas pela vida que levava. Ele fitava Jorge com uma fúria contida que ameaçava explodir as janelas de vidro.
— Sete anos, Jorge! — explodiu o chileno, quebrando o silêncio com a violência de um trovão. — Sete caralhos de anos! Você tinha o direito de me odiar, de querer me matar pelos negócios, mas esconder meu próprio filho de mim?!
Jorge, vestindo apenas uma camisa de linho aberta que revelava as tatuagens do peito e o colar de ouro reluzente, não recuou. O colombiano cruzou os braços, a postura defensiva e os olhos faiscando.
— E você queria que eu fizesse o quê, porra?! — retrucou Jorge, elevando a voz no mesmo tom agressivo. — Você era a porra de um líder em ascensão, eu tava assumindo a porra do meu território! Você acha que é fácil ser um ômega nesse mundo de merda? Se descobrissem que eu tinha parido um filho do meu maior rival, teriam me estraçalhado e usado o Santino como moeda de troca antes do primeiro aniversário dele!
— Eu teria protegido vocês dois! — gritou Erick, dando dois passos largos até encurralar Jorge contra a beirada da mesa de trabalho. Seus rostos estavam a centímetros de distância, as respirações entrecortadas colidindo no ar tenso. — Eu teria movido o mundo, Carrascal! Eu nunca... nunca teria deixado nada acontecer com você ou com ele!
— Eu não sabia disso, caralho! — Os olhos de Jorge se encheram de lágrimas de frustração, sua máscara de malandro e intocável caindo por terra. — Eu era jovem, eu tava apavorado! Eu perdi o homem que eu amava pro orgulho da máfia e tive que criar meu filho sozinho! Eu errei, tá legal? Eu errei pra caralho! Mas foi por medo de perder a única coisa pura que você me deixou!
A revelação pairou no ar como uma granada desarmada.
Erick travou. As palavras de Jorge ricochetearam em seu peito com mais força do que qualquer bala.
— O homem que você amava...? — sussurrou o chileno, a rigidez de seu corpo vacilando diante da vulnerabilidade exposta do colombiano.
Jorge respirou fundo, fungando baixinho enquanto limpava uma lágrima com as costas da mão tatuada, fitando o crucifixo no pescoço de Erick.
— Eu nunca deixei de amar você, seu idiota marrento. Nem por um segundo sequer. Eu te via nas reuniões da máfia, te via no casamento do Pedro, e tudo o que eu queria era largar essa merda toda e voltar pro tempo em que éramos só nós dois. Me perdoa... por favor, Erick. Me perdoa por ter tirado esse tempo de vocês.
Erick não disse uma única palavra. Em vez disso, suas mãos grandes e calejadas seguraram o rosto bronzeado de Jorge com uma urgência quase dolorosa. Ele puxou o colombiano para si e colou suas bocas em um beijo profundo, desesperado e faminto.
Jorge soltou um gemido abafado contra os lábios de Erick, abrindo espaço para a língua do alfa, enlaçando os braços no pescoço tatuado do chileno. Era um beijo carregado de anos de saudade acumulada, mágoa dissipada e uma paixão que o tempo e a guerra nunca conseguiram apagar.
— Eu também sempre amei você, mi vida — murmurou Erick contra os lábios avermelhados de Jorge, as testas coladas, a respiração de ambos descompassada. — Sempre foi você.
Ali mesmo, sobre a mesa do escritório iluminado apenas pela luz tênue da lua, a reconciliação foi selada na pele. Os toques eram ao mesmo tempo ferozes e reverentes, onde as marcas do passado finalmente encontravam redenção na entrega absoluta de duas almas que nunca deveriam ter se separado.
Na manhã seguinte, a luz dourada do sol invadia o quarto de Santino. O menino abriu os olhos devagar e encontrou duas figuras sentadas ao lado de sua cama.
Jorge estava com um sorriso doce e relaxado, o topete loiro bagunçado e uma xícara de chocolate quente nas mãos. Ao lado dele, Erick, vestindo uma camisa preta casual e com a expressão mais serena que já tivera na vida, segurava a mão pequena do garoto.
— Bom dia, campeão — disse Jorge carinhosamente.
— Papai... — Santino sorriu sonolento, mas logo virou os olhinhos curiosos para o homem grande ao lado. — O senhor é o moço das tatuagens do casamento, né? Aquele que me salvou ontem.
Erick deu uma risada baixa e rouca, um som tão raro que fez o coração de Jorge derreter.
— Sou eu mesmo, garoto — respondeu Pulgar, acariciando os cabelos escuros do menino.
Jorge trocou um olhar cúmplice com Erick antes de se inclinar para o filho.
— Santino, amor... lembra quando você sempre perguntava sobre o seu outro pai? Aquele que viajava muito e que um dia ia voltar pra cuidar da gente?
Os olhos de Santino se arregalaram, brilhando com uma esperança pura. Ele olhou de Jorge para Erick e depois fixou a atenção no crucifixo e nos desenhos gravados na pele do chileno.
— É você? — perguntou a criança, a voz carregada de encanto. — Meu outro papai é o cara mais forte do mundo?
Erick sentiu a garganta dar um nó. O pitbull da máfia, o homem temido por governadores e chefões do crime, desarmou-se por completo diante do filho.
— Sou eu, meu filho — disse Erick, a voz embargada, puxando o menino para o colo e abraçando-o com todo o amor que guardara durante sete anos. — E eu nunca mais vou sair do seu lado. De nenhum de vocês dois.
Santino deu uma gargalhada gostosa, passando as mãozinhas curiosas pelas tatuagens do braço de Erick, fascinado por cada traço.
Naquela noite, a cobertura de Erick na orla carioca estava tomada por risos, taças de champanhe e o som animado de música latina.
O jantar, organizado às pressas mas com a pompa digna dos reis do submundo, reunia todos aqueles que eram a verdadeira família dos dois líderes.
De um lado da imensa mesa, Varela ria alto, abraçado a Arrascaeta, comemorando que o plano de abrir a boca havia salvo a vida de todos. Pedro e Luiz Araújo brindavam com Bruno Henrique, Jorginho e Lucas Paquetá, enquanto Samuel Lino, Richard Ríos e Bergvall disputavam uma partida barulhenta de videogame com o pequeno Santino, que corria pela sala gargalhando alto, completamente recuperado do susto.
Apoiado na varanda, observando a vista deslumbrante do mar sob o céu estrelado, Erick bebia um gole de uísque. Ele sentiu o perfume inconfundível se aproximar antes mesmo dos braços finos e bronzeados envolverem sua cintura por trás.
Jorge encostou o queixo no ombro de Erick, assistindo à cena da sala com um sorriso malandro e apaixonado nos lábios.
— Quem diria, hein, Pulgar? — sussurrou o ômega, deixando um beijo carinhoso na tatuagem do pescoço do alfa. — O temido chefe chileno domado por um colombiano e um moleque de sete anos.
Erick virou-se dentro do abraço de Jorge, passando o braço pela cintura dele e puxando-o para mais perto, sorrindo de lado com a marra que nunca o abandonaria por completo.
— Não confunda as coisas, Carrascal. Pro resto do mundo, eu continuo sendo o mesmo desgraçado que não hesita em puxar o gatilho — respondeu Erick, o olhar transbordando uma devoção serena enquanto roçava os lábios nos de Jorge. — Mas pra você e pro nosso filho... eu sou apenas o Erick. E não existe outro lugar no mundo onde eu preferiria estar.
Sob os aplausos e as provocações que subitamente explodiram dos amigos na sala ao verem o beijo apaixonado dos dois líderes mafiosos, a guerra finalmente deu lugar à paz, e a família Pulgar-Carrascal estava, enfim, completa.
