
Amor
Fandom: Avatar o caminho da água
Criado: 03/10/2026
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O Despertar da Flor de Coral
A brisa salgada de Awa'atlu era diferente de tudo o que os Omatikaya já haviam sentido. O ar não carregava o cheiro de terra úmida e musgo das florestas altas, mas sim o frescor pungente do oceano e o aroma de algas secas ao sol. Para Kuro, aquela mudança era ainda mais drástica.
Kuro caminhava um pouco atrás de Neteyam e Lo’ak, sentindo a areia fina ceder sob seus pés de cinco dedos. Ele era alto, mesmo para os padrões Na'vi, com a pele de um azul profundo e vibrante que contrastava fortemente com seu cabelo branco, cortado curto e repicado — uma lembrança estética de seus dias como humano. Aos treze anos, ele havia deixado seu corpo frágil para trás, tornando-se um Avatar de forma definitiva. Agora, aos dezesseis, ele carregava a confiança de um guerreiro e um olhar que, muitas vezes, era interpretado como audacioso demais.
À frente deles, os filhos do Olo'eyktan Tonowari guiavam o grupo com uma mistura de cortesia e desdém. Tsireya, com sua doçura natural, tentava explicar as dinâmicas da enseada, mas Aonung e seu amigo Rotxo não escondiam as risadinhas e os olhares tortos para as caudas finas e os braços "fracos" dos recém-chegados.
— Olhem para isso — cochichou Rotxo, alto o suficiente para ser ouvido —, eles têm mãos de demônio. Como esperam nadar com isso?
Lo’ak parou abruptamente, os olhos faiscando.
— O que você disse? — rosnou o filho mais novo de Jake, fechando os punhos.
— Eu disse que vocês parecem desajeitados — Aonung deu um passo à frente, encarando Neteyam, que se colocou entre o irmão e o Metkayina. — O mar não tem piedade de quem não pertence a ele.
Kuro, que até então estava apenas observando com um sorriso de canto, deu um passo à frente, cruzando os braços. Seus olhos amarelos brilharam com uma malícia perigosa.
— Engraçado — disse Kuro, a voz grave ecoando —. Na floresta, a gente aprende a calar a boca antes que a presa perceba que estamos lá. Talvez vocês devessem aprender a fazer o mesmo antes que a gente decida mostrar como um "demônio" luta.
A tensão era palpável. Neteyam segurou o ombro de Kuro, enquanto Tsireya se colocava entre os grupos, as mãos estendidas em um gesto de paz.
— Parem! Por favor — pediu ela, olhando suplicante para o irmão. — Eles são nossos convidados. O pai deu permissão para ficarem. Aonung, comporte-se!
Aonung bufou, mas deu um passo atrás, desviando o olhar. O grupo continuou a caminhada pela orla da enseada, o silêncio sendo quebrado apenas pelo som das ondas quebrando suavemente nos pilares das maruis.
Eles contornaram uma formação rochosa coberta de musgo marinho quando, de repente, o grupo parou. A alguns metros de distância, onde a água cristalina batia na altura da cintura de quem estivesse em pé, uma figura solitária estava ajoelhada na areia submersa.
Era Tatsuyo.
A irmã mais nova de Aonung e Tsireya parecia alheia ao mundo ao seu redor. Seu cabelo preto, longo e ondulado, flutuava na superfície da água como algas escuras e sedosas. A pele ciana, característica dos Metkayina, brilhava sob o sol da tarde. Ela segurava flores de coral coloridas nas mãos e ria baixinho enquanto pequenos peixes-neon nadavam entre seus dedos, atraídos pela sua energia calma.
Kuro sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ele já tinha visto muitas coisas bonitas em Pandora, mas nada se comparava àquela visão. Havia uma pureza nela, uma conexão espiritual tão profunda que parecia que a própria Eywa a estava abraçando naquele momento.
— Quem é ela? — perguntou Kuro, a voz saindo quase como um sussurro, desprovida de qualquer provocação.
— É minha irmã caçula, Tatsuyo — respondeu Tsireya, com um sorriso orgulhoso. — Ela é a futura Tsahìk. Nossa mãe diz que Eywa a escolheu desde o primeiro fôlego.
Aonung suavizou a expressão imediatamente ao ver a irmã.
— Tatsu! — chamou ele, o tom de voz mudando de arrogante para protetor em um segundo.
A menina se virou lentamente. Seus olhos eram grandes e curiosos, transbordando uma inocência que parecia deslocada em um mundo de guerreiros. Ela se levantou devagar, a água escorrendo pelo seu corpo esguio e pelas joias de conchas que adornavam seu peito. Ela caminhou até eles com passos leves, segurando uma flor amarela vibrante.
— Aonung, veja — disse ela, a voz doce e melódica. — As flores dizem que hoje o mar está feliz com as visitas.
Ela parou diante do grupo de estranhos. Seus olhos percorreram Neteyam, Lo’ak e Kiri, mas pararam em Kuro. Ela inclinou a cabeça para o lado, observando o cabelo branco dele e os cinco dedos em suas mãos.
— Você é diferente — comentou ela, aproximando-se sem medo algum. — Suas mãos carregam as histórias das estrelas, mas seu coração bate como o nosso.
Kuro, que geralmente tinha uma resposta rápida ou um comentário atrevido para tudo, sentiu o rosto esquentar. Ele se inclinou levemente, ficando na altura dela.
— E você — disse ele, recuperando um pouco de sua audácia, embora com uma suavidade incomum —, parece um sonho que o mar cuspiu na areia para me deixar sem fala.
Tatsuyo piscou, confusa. Ela olhou para Tsireya.
— O que é um sonho cuspido, irmã? O mar está doente?
Tsireya soltou uma risadinha nervosa e puxou Tatsuyo para perto, lançando um olhar de advertência para Kuro.
— Não dê ouvidos a ele, Tatsu. Ele só está tentando ser... galanteador.
— Galante... o quê? — Tatsuyo franziu a testa, genuinamente perdida.
— Significa que ele te acha bonita, pequena — explicou Kiri, sorrindo para a menina.
Tatsuyo abriu um sorriso radiante, as bochechas ganhando um tom levemente mais escuro de ciano.
— Oh! Obrigada. Você também é muito bonita. Tem cheiro de floresta e de mistério.
Kuro não conseguia desviar o olhar. A inocência dela era como um ímã. Ele deu um passo à frente, ignorando o olhar mortal que Aonung lhe lançava.
— Eu sou Kuro — apresentou-se. — E prometo que, se você me ensinar a nadar, eu te conto todas as histórias das estrelas que minhas mãos carregam.
Tatsuyo estendeu a mão e, com delicadeza, tocou os dedos de Kuro. Ela contou um por um.
— Um, dois, três, quatro... cinco. Você tem mais um para segurar a vida, Kuro. Eu gosto disso.
— Ei, já chega de conversa — interrompeu Aonung, colocando-se entre os dois. — Tatsuyo, a mãe está te procurando para as orações na Árvore das Almas. Vá.
— Mas eu queria mostrar os peixes para o menino de cabelo de nuvem — protestou ela, fazendo um biquinho adorável que quase fez o coração de Kuro parar.
— Outra hora, Tatsu — disse Tsireya, gentilmente a direcionando para longe.
Tatsuyo começou a se afastar, mas parou e olhou para trás por cima do ombro. Ela acenou para Kuro, a flor amarela ainda em sua mão.
— Não se perca nas águas, Kuro! O mar é fundo, mas Eywa guia quem sabe ouvir!
Kuro ficou parado, observando-a desaparecer entre as tendas de tecido e as palmeiras.
— Cara, fecha a boca, vai entrar mosca — zombou Lo’ak, dando um tapa no ombro do amigo.
— Ela é... — Kuro começou, mas perdeu a palavra.
— Intocável para você — rosnou Rotxo, passando por ele. — Ela é a futura Tsahìk. E Aonung vai te matar se você chegar a um metro dela de novo.
Kuro deu um sorriso de lado, o brilho de desafio voltando aos seus olhos.
— O mar pode ser fundo — murmurou ele para si mesmo —, mas eu sempre fui um ótimo mergulhador.
Neteyam suspirou, percebendo que os dias em Awa'atlu seriam muito mais complicados do que o esperado.
— Vamos logo, Kuro. Temos que aprender a montar aqueles Ilus antes que você tente conquistar a filha do chefe e acabe virando comida de Akula.
Kuro seguiu os outros, mas sua mente ainda estava na enseada, na menina que falava com as flores e cujos olhos tinham a cor do oceano mais puro. Ele sabia que Pandora era um lugar de guerra e sobrevivência, mas, naquele momento, sob o sol quente dos Metkayina, ele sentiu que tinha encontrado algo pelo qual valia a pena lutar — ou, no mínimo, algo que o faria perder o juízo completamente.
