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ATE VOCES (fanfic supernatural)

Fandom: supernatural

Criado: 03/10/2026

Tags

AventuraHorrorDramaAngústiaRomanceDor/ConfortoCenário CanônicoMorte de Personagem
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A Dama de Branco e as Sombras do Passado

O vento cortava gélido pelas ruas quase desertas daquela madrugada cinzenta. Dean Winchester tamborilava os dedos impacientes contra o volante do Impala 67, enquanto o telefone pressionado contra o ouvido chamava pela terceira vez. Ele soltou um suspiro pesado, fitando o asfalto úmido antes de finalmente ouvir a linha estalar.

— Beka, ele não voltou desde a última vez que te liguei — disse Dean, com a voz rouca e direta, sem rodeios.

— O que, Dean?! Não brinca com isso, panaca — respondeu Rebekah, a voz embargada de sono e evidente irritação.

Acreditando ser apenas mais uma das piadas sem graça de Dean, ela simplesmente desligou na cara dele.

Dean franziu a testa, balançou a cabeça e discou novamente. O celular dela tocou apenas duas vezes antes de ser atendido com um suspiro audível de pura frustração.

— Dean, você pode parar? Eu tenho prova amanhã de manhã.

— Ele sumiu mesmo, Beka. Não estou brincando.

O silêncio do outro lado da linha pesou de repente. Rebekah se sentou na cama, o coração acelerando em uma pontada familiar de ansiedade que fazia suas mãos começarem a tremer de leve.

— O quê? Sério? Mas já faz quase um mês desde a última vez que a gente se falou...

— Ele não retorna nenhuma das minhas ligações faz dias — insistiu Dean, a urgência transparecendo pelas frestas de sua armadura durona.

— Tá... mas onde ele foi caçar, afinal?

— Jericho.

— Eca... não tem nada naquele buraco, nem a porcaria de um shopping decente — rebateu ela, tentando disfarçar o nervosismo crescente sob uma camada de deboche. — Mas tá bom. Passa logo aqui para me buscar. Você vai chamar o Sam?

Um silêncio gélido e desconfortável se instalou entre os dois. Dean hesitou, a respiração presa na garganta. Rebekah percebeu a tensão no ato e apressou-se em quebrar o clima:

— Ele precisa saber, eu acho. Mas tá... beijos.

Dean baixou o telefone, fitando a tela que se apagava.

— Será que ele vai querer ir? — murmurou para si mesmo, engatando a primeira marcha.

Cerca de quarenta minutos depois, o ronco grave e inconfundível do motor V8 ecoou pelo bairro arborizado, acompanhado por um toque breve da buzina estridente do Baby.

— Rebekah, vem logo, cara! — gritou Dean pela janela aberta.

A porta da frente se abriu e ela surgiu sob a luz fraca da varanda. Rebekah trajava jeans justos, botas pretas e uma jaqueta de couro masculina visivelmente gasta, surrada pelo tempo e grande demais para seus ombros delicados. Seus longos cabelos loiros balançavam com o vento frio enquanto ela descia os degraus segurando uma pequena bolsa de couro.

— O que foi? Virou moda usar jaqueta de defunto agora? — debochou Dean com seu sorriso sarcástico típico, embora os olhos verdes examinassem cada detalhe dela com atenção.

Rebekah parou junto à janela do motorista antes de puxar o ar, sentindo o estômago dar um nó. Suas crises de nervosismo vinham em ondas desde a perda da mulher que a acolheu, e o peso daquela peça de roupa era sua âncora e sua ferida.

— Era do John... — murmurou ela, apertando as lapelas de couro áspero. — Quando vocês me acharam, aos doze anos, ele me deu essa jaqueta para me cobrir. Minha mãe... quer dizer, Susan... tinha acabado de ser morta por aquele metamorfo desgraçado.

Dean suavizou a expressão por uma fração de segundo, tocando a lateral do braço dela com gentileza quase imperceptível.

— Ei. Mesmo você sendo essa princesinha cheia de frescura, ela te amou de verdade. Susan foi sua mãe, Beka. Não diminui isso.

Os olhos de Rebekah marejaram de imediato, a dor da lembrança arranhando sua garganta. Ela piscou rápido, engolindo o choro e desviando o olhar para a calçada molhada para recompor a postura.

— Tá, cadê o Sam? Dean, você já falou com ele?

— Não... o pai apagou o número dele do meu celular faz tempo.

O silêncio que se seguiu pesou como chumbo. Rebekah não disse mais nada; abriu a porta traseira e deslizou para dentro do banco de couro do Impala. Sentar-se ali trazia uma sensação estranha de lar. Como herdeira de uma vasta fortuna em antiguidades deixada por sua linhagem de caçadores, ela poderia estar em qualquer hotel de luxo, mas aquele banco traseiro manchado de sal e pólvora era onde praticamente havia crescido.

Enquanto o carro rasgava a rodovia escura em direção a Palo Alto, Rebekah fitava a nuca de Dean pelo retrovisor.

O Dean tá com medo de falar com o próprio irmão?, pensava ela, apoiando o queixo na mão. Bom... vindo dele, nunca vou arrancar a verdade mesmo.

Dean, por sua vez, mantinha a mandíbula travada, encarando os faróis contrários e repassando mentalmente todas as brigas que culminaram no afastamento de Sam.

Quando o Impala finalmente encostou próximo ao dormitório universitário de Stanford, Rebekah encostou a cabeça na janela e fechou os olhos, fingindo pegar no sono profundo. Não queria ser a mediadora do primeiro impacto. Dean a encarou de relance pelo retrovisor, soltou um muxoxo irritado ao perceber o plano dela e saiu do veículo pisando duro.

Dean invadiu o apartamento com o silêncio de um predador, como se fosse o dono do lugar. O confronto físico foi inevitável e rápido no escuro até que Sam, atordoado e desgrenhado no corredor, percebeu quem o atacava. Logo atrás dele surgiu Jessica, vestindo uma camiseta curta e olhando a cena com choque genuíno.

— O papai tá caçando e não dá as caras há dias — disparou Dean, sem qualquer preâmbulo cerimonioso.

Jessica puxou a barra da camiseta para baixo, fitando o namorado.

— Sam... quem é esse?

— É meu irmão — respondeu Sam, recuperando o fôlego com uma careta irritada.

Dean cruzou os braços e abriu um sorriso ladino, correndo os olhos pelo corpo da garota sem a menor vergonha.

— Você não acha que é muita areia pro caminhãozinho do meu irmão, não?

— Acho que vou trocar de roupa — murmurou Jessica, visivelmente desconfortável sob o olhar predatório do cunhado.

— Não precisa, de verdade — soltou Dean com uma piscadela cafajeste —, eu adoro os Smurfs.

Minutos depois, Dean descia as escadas em direção ao carro. Rebekah já havia pulado para o banco da frente, ajeitando as mechas douradas com os dedos diante do pequeno espelho do quebra-sol.

— E aí... ele vem? — perguntou ela, virando-se para ele.

Dean evitou o contato visual de imediato, fixando a atenção nas chaves entre os dedos.

— Vai.

Rebekah ergueu uma sobrancelha perfeitamente delineada, sentindo a faísca da provocação subir.

— Dean, por que raios você não quer olhar pra minha cara?

Ele tentou encarar a rua deserta, pigarreando, mas a proximidade do perfume floral dela dentro da cabine fechada tornava tudo difícil. Ela soltou uma risadinha sem humor.

— Nossa... então vou me calar. Porque se eu disser que você tá adorando isso, que tá morrendo de saudade do Sam, você vai ter um chilique. Sem contar que veio me visitar inúmeras vezes nos últimos meses, mas nunca teve coragem de dirigir quinze minutos para falar com ele. Mas tudo bem... não vou pisar no seu calo, bebê.

Dean trincou os dentes, os nós dos dedos ficando brancos contra o volante como se quisesse amassar a estrutura de metal. O estrondo distante da porta do prédio se fechando quebrou a tensão momentaneamente, mas o ar dentro do carro permaneceu rarefeito.

Sam abriu a porta de trás, jogou a mochila no chão e inclinou-se para a frente, envolvendo Rebekah em um abraço caloroso e apertado. Ela retribuiu aliviada, sentindo a familiaridade protetora que sempre emanava dele.

Dean ligou o motor e tentou manter o tom casual, encarando o irmão pelo retrovisor:

— Oi, Sammy... não deu pra conversar direito lá em cima por causa daquela gata.

Sam cerrou a mandíbula, a irritação transbordando na voz:

— Aquela garota é a minha namorada, e você a chamou de gostosa na minha cara!

Rebekah virou-se no banco, chocada, soltando uma exclamação muito mais aguda e trêmula do que pretendia:

— O quê?!

Sam parou por um segundo, os olhos atentos caindo sobre a expressão desestabilizada da loira. A sensibilidade dela sempre fora fácil de ler para ele.

— Espera aí... você tá com ciúmes do Dean, Beka?

O peito de Rebekah congelou. O sangue fugiu de seu rosto e as pontas dos dedos começaram a formigar, um prenúncio nítido de uma crise iminente.

— Merda — resmungou Dean, sentindo as bochechas queimarem de embaraço.

Incapaz de suportar o aperto sufocante que tomava seus pulmões, Rebekah puxou a maçaneta com o carro ainda desacelerando próximo a um cruzamento, saltou para a calçada e marchou em passos rápidos rumo à loja de conveniência de um posto de gasolina logo atrás.

— Rebekah, espera aí! — gritou Dean, abrindo a porta para segui-la, mas Sam agiu com mais rapidez, interceptando o irmão mais velho com uma mão firme no peito dele.

— Deixa que eu vou, Dean. Você só faz besteira.

Sam seguiu os passos apressados dela, o som de seus tênis batendo no asfalto molhado. Ao cruzar as portas automáticas da loja, encontrou Rebekah encostada no balcão de guloseimas. Ela segurava pacotes variados de chocolate com os dedos trêmulos, a respiração visivelmente descompassada e os olhos brilhando com lágrimas não derramadas que ameaçavam borrar o rímel recém-aplicado.

Sem dizer uma palavra, Sam a puxou para outro abraço firme, apoiando o queixo no topo da cabeça dela até sentir o ritmo cardíaco dela desacelerar.

— É verdade? — sussurrou ele, a voz misturando mágoa e um receio genuíno. — Vocês dois... estão juntos?

Rebekah puxou o ar com força, apoiando a testa no ombro largo do rapaz.

— Não... quer dizer, eu acho que não — confessou ela, as palavras atropeladas pela vergonha. — Há cerca de um mês, o Dean foi ao meu apartamento. Ele tava estranho, Sam... me olhando de um jeito diferente. A gente bebeu, conversou e... nós dormimos juntos.

Sam soltou uma expiração pesada, mas não a interrompeu.

— Depois daquela noite, ele sumiu — continuou ela, apertando os doces contra o peito como um escudo infantil. — Quando fui atrás do seu pai na oficina, Dean inventou que ia comprar cerveja... e sumiu por duas horas. Eu entendi o recado bem rápido. Parei de ligar.

O silêncio na loja só era quebrado pelo zumbido dos refrigeradores. Do lado de fora, o som dos pneus do Impala estacionando indicou que Dean havia se aproximado.

Sam, com seu instinto paternal e protetor — apesar de ela ser a mais velha por alguns meses —, segurou as mãos frias dela com delicadeza.

— Beka... se você não quiser ir nessa caçada, você não precisa. Nós dois já somos grandinhos, nos viramos. O meu pai sempre dá um jeito de voltar vivo. Você não tem que passar por isso.

Rebekah ergueu o queixo, a chama teimosa de caçadora faiscando em seus olhos claros.

— Eu vou, Sam. Com certeza eu vou. Quero estar lá quando encontrarmos o John só pra dar uma bronca nele por sumir assim. E olha... eu conheço vocês desde os meus doze anos. Não vai ser uma noite idiota com o Dean que vai me afastar de vocês dois.

Sam deu um meio sorriso orgulhoso, embora a preocupação ainda pesasse em seus olhos. A porta de vidro se abriu e Dean entrou, enfiando as mãos nos bolsos com o semblante tenso.

— Rebekah, olha só, sobre o que aconteceu...

— Dean, poupe o seu fôlego — cortou ela, a voz fria e inabalável enquanto caminhava até o caixa. — Eu entendi perfeitamente o meu lugar. Eu sou a garota órfã e rica que vocês salvaram, que você achou bonitinha o suficiente pra dar uns beijos e nada mais. Fim de assunto.

Ela largou o dinheiro no balcão sem esperar o troco, passou por ele feito um furacão e marchou de volta para o banco traseiro do carro, cercada por seus doces preferidos.

Sam fitou Dean com um olhar gélido de repreensão e julgamento puro. Dean, desconcertado e tentando a todo custo proteger o próprio ego ferido, abriu um sorriso canhestro:

— Qual é... eu não tenho culpa de ter esse charme todo. É o efeito natural que eu causo no público feminino.

Sam revirou os olhos com desprezo e caminhou até a porta.

— Você vai pagar os doces que ela comprou, idiota.

A viagem seguiu sob uma redoma de gelo durante a primeira hora, até que Dean, incomodado com a frieza mórbida, começou a desenterrar velhas memórias de caçadas conjuntas para tentar amaciar o ambiente.

— Ei, vocês lembram daquela vez que o papai praticamente sequestrou a Rebekah da mansão do tio dela sem avisar a babá, só pra ajudar a gente a salgar e queimar o fantasma de um mineiro? — soltou ele, rindo pelo nariz.

Sam não resistiu e soltou uma gargalhada genuína.

— Cara, eu tinha esquecido totalmente que você ainda tinha babá aos dezesseis anos!

Rebekah, no banco de trás, não aguentou a provocação e deixou escapar um sorriso, a tensão se dissipando aos poucos.

— Eu tinha quinze, Sam! E meu tio era um paranoico sufocante que achava que todo mundo queria roubar o acervo de antiguidades da família.

— E teve aquela noite que eu entrei escondido na sua janela às dez da noite — completou Dean, piscando pelo retrovisor —, e o seu tio me deu uma gorjeta achando que eu era o entregador de pizza.

As risadas ecoaram pela cabine e a névoa pesada finalmente se dissipou. Conforme os quilômetros passavam e a madrugada avançava, o cansaço cobrou seu preço. Rebekah adormeceu encolhida no banco de trás, abraçada à jaqueta de John. Pouco depois, Sam também cochilava no assento do passageiro.

Três cidades antes de Jericho, a exaustão pesou nas pálpebras de Dean. Ele avistou os neons tremeluzentes de um motel barato à beira da estrada e estacionou.

— Sammy... acorda aí — chamou em voz baixa, cutucando o irmão.

— Hum? O que foi?

— Parei pra gente dormir um pouco.

— Beleza... vou acordar a Beka.

— Não precisa — atalhou Dean rapidamente.

Antes que o irmão mais novo pudesse questionar, Dean desceu, abriu a porta traseira com cuidado e passou os braços por baixo do corpo leve de Rebekah. Ela resmungou baixinho, ainda inconsciente, aninhando o rosto instintivamente contra a curva do pescoço dele. Dean respirou fundo o aroma suave de baunilha dela, sentindo um puxão desconcertante no peito.

Sam desceu do carro, cruzando os braços ao ver a cena.

Na recepção empoeirada, Dean bateu o cartão na bancada:

— Dois quartos, por favor.

Sam ergueu as sobrancelhas, surpreso:

— Dois quartos? Nós sempre dividimos um só pra economizar.

Dean virou-se com ela nos braços, a expressão dura mas revelando o receio interno.

— Ela vai tentar me esfaquear enquanto eu durmo se eu deitar no mesmo quarto que ela. Você sabe muito bem o temperamento que ela tem quando acorda brava. Fiquem vocês dois juntos. Quando o dia clarear, eu chamo.

Dean levou Rebekah até o quarto designado, deitou-a sobre o colchão desgastado e puxou o cobertor até os ombros dela com uma delicadeza incomum para seu jeito bruto. Ficou ali por longos segundos, apenas observando a serenidade dos traços dela sem a máscara de cinismo ou a tensão do pânico. Suspirou, virou as costas e foi para o quarto vizinho, onde caiu na cama sem nem tirar os sapatos.

Poucas horas depois, com os primeiros raios de sol invadindo as frestas das cortinas, Dean bateu com força na porta de Sam e Rebekah, equilibrando sacos de papel gordurosos.

— Bora, cambada! Apenas algumas milhas até Jericho! — gritou ele, atirando uma caixa de salada murcha para Sam e dois hambúrgueres fartos com bacon para Rebekah.

Rebekah ainda piscava atordoada, tentando entender como havia saído do banco do carro e ido parar na cama. Ao se levantar para buscar sua bolsa no porta-malas, precisou espremer-se ao lado de Dean na soleira estreita da porta. Os corpos se roçaram com intensidade e seus olhares se cruzaram em silêncio por um segundo longo demais para ser casual. Dean desviou os olhos primeiro, engolindo em seco.

— Já vai se rebocar toda de novo? — zombou Sam, vendo-a retirar a nécessaire da bolsa.

— Claro, meu querido — retrucou ela, piscando com elegância. — Você acha que eu acordo bonita assim naturalmente? Nem com feitiçaria pesada eu ficaria apresentável sem corretivo depois de dormir num banco de couro.

Quando finalmente pegaram a estrada rumo a Jericho, o tráfego fluía tranquilo até cruzarem uma velha ponte de concreto. Viaturas policiais e pedestres aglomerados chamaram a atenção dos três. Dean desacelerou e estacionou no acostamento.

Um senhor visivelmente embriagado e em choque falava alto perto da mureta danificada:

— Eu juro pelo que há de mais sagrado! Não foi um acidente comum... foi um fantasma!

Sam, Dean e Rebekah trocaram o olhar cúmplice e treinado que marcava o início de uma caçada. Sacando suas identidades falsas de agentes federais, eles se aproximaram.

— O que exatamente o senhor presenciou? — perguntou Sam, com voz polida.

O homem gesticulou, exasperado:

— Uma mulher de branco... ela fez o carro despencar lá embaixo! Ela tinha uma força descomunal!

Rebekah cruzou os braços, semicerrando os olhos enquanto analisava os sinais corporais do velho. A falta de prática em campo a deixava insegura, mas sua intuição afiada compensava.

— Ela derrubou o veículo com as próprias mãos? Pense bem, senhor. O senhor tem certeza do que viu?

— Eu... eu acho que sim! Talvez ela tenha pulado junto com o carro... não sei mais!

Um policial local se aproximou a passos largos, encarando o trio de cima a baixo com evidente desconfiança.

— Posso saber quem são vocês?

— Agentes federais — respondeu Dean na lata, estalando o falso distintivo de couro na frente do oficial.

O policial franziu o cenho:

— Vocês não são meio jovens demais para serem federais?

— Muito obrigado pelo elogio — rebateu Dean com seu sarcasmo habitual. — Enfim, esse velho não é exatamente uma testemunha confiável. Todo mundo sabe que é só um bebum abandonado pela mulher que vê coisas.

— Ei! — protestou o senhor Terni, magoado.

Rebekah sentiu o estômago queimar de revolta pela grosseria gratuita de Dean e interveio com firmeza, a postura elegante e impositiva herdada de sua família:

— Tenha mais cuidado com suas palavras, senhor. Não cabe a ninguém julgar as dores pessoais de um cidadão idoso no meio de uma tragédia. Mais respeito.

O xerife encarou Rebekah, surpreso pela compostura dela, e acabou cedendo, mostrando os rastros de derrapagem no asfalto e os fragmentos de vidro antes de dispensá-los.

Com os dados preliminares em mãos, o trio rumou para o motel mais decadente da cidade. Enquanto Rebekah e Sam aguardavam na recepção, a atendente comentou sobre outro homem que estivera ali recentemente usando o mesmo sobrenome falso que Dean apresentara.

— Dean — chamou ela, puxando a manga da jaqueta dele enquanto Sam ia até a cafeteria ao lado. — Seu pai esteve hospedado aqui.

Dean assentiu com gravidade. Eles invadiram o quarto que havia sido de John Winchester. O cheiro de comida estragada empesteava o ar e recortes de jornal cobriam as paredes com fotos de homens desaparecidos na mesma ponte ao longo de décadas.

— Olha isso... — sussurrou Rebekah, analisando um recorte amarelado sobre uma mesa bamba. — É uma Mulher de Branco clássica. John estava caçando ela.

— O velho não dá um passo sem o diário — disse Dean, revirando gavetas freneticamente. — Se ele deixou para trás, é porque quer que a gente termine o serviço.

— Achei! — exclamou Rebekah ao puxar o caderno de couro gasto de baixo do colchão.

Antes que pudessem comemorar, giroscópios azuis e vermelhos iluminaram as cortinas sujas, acompanhados pelo uivo agudo de sirenes.

— Merda, a polícia nos achou — praguejou Dean. Ele empurrou o diário nas mãos dela. — Pega o Impala, encontra o Sam na cafeteria e saiam daqui. Agora!

— Dean, não! — Rebekah segurou o braço dele, as mãos tremendo violentamente pelo pico súbito de pânico.

— Vai, Beka! Confia em mim.

Num impulso que surpreendeu a ambos, Rebekah o puxou pela gola da jaqueta e cravou seus lábios nos dele em um beijo urgente, desesperado e ardente. Dean correspondeu com força antes de quebrar o contato, os olhos fixos nos dela.

— Toma cuidado — sussurrou ela, antes de disparar pelos fundos.

Dean foi rendido no corredor pelo mesmo xerife da ponte.

— Falsos agentes federais... — ironizou o oficial, algemando-o com grosseria. — Onde estão seus amiguinhos, espertinho?

— Me deram um bolo — rebateu Dean, mantendo a audácia.

— Me diga uma coisa... tem alguma coisa de verdade em você?

Dean abriu um sorriso provocador:

— Meus seios.

Enquanto Dean era conduzido à delegacia, Rebekah alcançou a cafeteria, arfando e pálida, encontrando Sam em uma mesa de canto.

— Sam... pegaram ele! O Dean foi preso!

Sam colocou as mãos firmes sobre os ombros dela, ancorando sua ansiedade.

— Calma, Beka. Respira. Você conhece meu irmão melhor do que ninguém. Ele vai sair de lá.

E Dean realmente saiu. Aproveitando-se de uma distração dos policiais enquanto questionavam o conteúdo misterioso do diário de John, Dean surrupiou um clipe de papel, destrancou as algemas, desarmou um dos oficiais com maestria marcial e fugiu pelos becos escuros da cidadezinha.

Menos de uma hora depois, ele entrava na cafeteria pelos fundos, suado e com o sorriso convencido estampado no rosto. Ao ver Rebekah, caminhou direto até ela, puxando-a para um abraço apertado e sussurrando contra seus cabelos:

— Eu disse que voltava, loira.

Eles mudaram imediatamente para outro motel nos limites da cidade para evitar a ronda policial. Analisando as notas de John e os arquivos locais, descobriram a verdade: a assombração era Constance Welch. E o homem que haviam interrogado na ponte, o senhor Terni, era na verdade o marido infiel que a levara à loucura, fazendo-a afogar os próprios filhos e se jogar da ponte logo em seguida.

Com o plano traçado para a manhã seguinte, Dean e Rebekah dividiram o mesmo quarto por pura necessidade tática — ou assim Dean justificou para Sam.

A tensão reprimida entre os dois finalmente ruiu entre quatro paredes. As mágoas acumuladas deram lugar a toques febris e sussurros no escuro. Naquela noite, a intensidade física foi acompanhada por uma entrega emocional que nenhum dos dois jamais havia experimentado em suas vidas errantes. Deitados na cama desarrumada, o calor dos corpos contrastando com o frio do quarto, eles conversaram durante horas sobre medos antigos, sobre a morte de Susan e sobre o peso de carregar armas em vez de sonhos normais.

Rebekah deslizava os dedos pelo peito nu de Dean, sentindo a respiração compassada dele.

— Dean... — chamou ela baixinho.

— Fala, Beka.

— Por que você fugiu de mim daquela vez? Eu fui tão horrível assim? — perguntou ela, rindo com leveza para disfarçar o traço de insegurança que ainda persistia em sua alma.

Dean apoiou-se em um cotovelo, fitando o rosto dela com uma solenidade rara.

— Você é perfeita, Rebekah. Em tudo. E é exatamente esse o problema... você não pertence a esse mundo podre de sangue e monstros. Eu entrei em pânico porque você merece mais do que um cara que dorme com uma espingarda debaixo do travesseiro.

Antes que ela pudesse retrucar, Dean cobriu a boca dela com a sua em um beijo profundo e carinhoso, desarmando qualquer barreira restante.

— Amanhã temos que mandar aquela Mulher de Branco para o inferno — murmurou ela entre os beijos, sorrindo contra a pele dele.

Dean sorriu de lado:

— E daí? Ela já tá morta... e nós estamos bem vivos aqui.

Na manhã seguinte, quando Dean saiu do quarto para chamar o irmão, Sam o encarava encostado na parede externa com os braços cruzados e uma expressão séria.

— A noite foi boa pelo visto — disparou Sam, com a voz baixa.

Dean quase se engasgou com o próprio ar:

— O que você quer dizer com isso?

— Dean, eu conheço a Beka desde que éramos crianças — continuou Sam, num tom protetor e grave. — Ela já perdeu muita coisa e tem feridas que não cicatrizam fácil. Não machuca ela. Se você brincar com os sentimentos da garota mais legal e corajosa que a gente conhece, eu juro que quebro a sua cara.

Dean engoliu as provocações sarcásticas ao notar o peso das palavras do irmão. Apenas acenou com a cabeça em silêncio.

Rebekah passou a manhã na biblioteca municipal cavando registros e certidões de óbito, enquanto os irmãos confirmavam os detalhes com o viúvo. Pelo celular, ela ligou com a revelação crucial:

— O corpo dela foi cremado! Mas se a assombração continua ativa, ela tá presa ao local onde o trauma aconteceu: a antiga casa da família!

O plano foi colocado em prática ao cair da noite. Sam usou o Impala para atrair a aparição pela estrada deserta. A Mulher de Branco materializou-se no banco do passageiro com seu vestido fúnebre flutuando, drenando a energia vital de Sam enquanto sussurrava sobre traição e culpa. Lutando contra a asfixia sobrenatural, Sam pisou fundo no acelerador e arrebentou a parede da antiga residência abandonada com o carro, invadindo a sala em ruínas onde Dean e Rebekah já estavam posicionados.

O impacto foi devastador. Tábuas e poeira voaram enquanto o fantasma se erguia, furiosa, arremessando Dean e Rebekah contra os escombros. Contudo, a armadilha estava completa: a presença da assombração dentro do próprio lar despertou as almas das crianças que ela havia afogado no passado.

Os espíritos dos filhos surgiram nas sombras, segurando a mãe com um abraço espectral e implacável. Chamas ectoplásmicas irromperam do chão de madeira, iluminando o ambiente com uma luz azulada e ensurdecedora. Com um grito gutural que rasgou a noite, Constance Welch e as crianças foram consumidas pelo fogo espiritual, desaparecendo para sempre no éter.

A poeira assentou sobre o motor fumegante do Impala. Dean tossiu, ajudando Rebekah a se levantar do chão antes de conferir o estado de Sam.

Mais um caso encerrado.

Horas depois, de volta ao motel para buscar os pertences, Rebekah folheava atentamente o diário de John enquanto organizava suas coisas na cama. Seus olhos bateram em um conjunto de coordenadas geográficas rabiscadas às pressas na última página.

Dean se aproximou por trás, envolvendo a cintura dela com os braços e beijando a curva do pescoço macio, fazendo-a estremecer de prazer e ruborizar instantaneamente.

— Dean... — ela virou o rosto para encará-lo, apontando para o caderno. — São coordenadas. Seu pai deixou isso pra trás de propósito. Eu quero ir com você. A faculdade de história da arte tá um tédio, e meu lugar não é trancada em uma mansão com relíquias de família. Além do mais... não tem nenhum Dean Winchester por lá.

Dean sorriu, aquele sorriso aberto e sem defesas que reservava apenas para ela, e puxou-a para um beijo apaixonado, selando o pacto silencioso de que não se separariam mais.

A tristeza veio com a decisão de Sam. Ao retornarem para Palo Alto, o caçula reiterou com firmeza que não continuaria naquela vida. Seu destino era a faculdade de direito, uma carreira comum e um futuro ao lado de Jessica. Rebekah e Dean aceitaram a escolha, deixando-o diante do prédio.

— Te vejo por aí, maninho — despediu-se Dean com um nó na garganta.

Minutos depois, quando voltaram ao quarteirão para que Rebekah pudesse se despedir de Jessica com um abraço antes de partirem de vez rumo às coordenadas de John, o horror os paralisou.

O apartamento do segundo andar estava em chamas vorazes.

Na calçada oposta, iluminado pelo clarão alaranjado do fogo que consumia a estrutura, Sam Winchester estava sentado no meio-fio. Ele vestia apenas calças jeans e uma toalha enrolada nos ombros largos, o olhar completamente vazio, vidrado no inferno que devorava seu mundo.

Rebekah correu até ele, caindo de joelhos no asfalto e segurando o rosto pálido do rapaz entre as mãos trêmulas:

— Sam! Meu Deus, Sam, o que aconteceu?!

Sam ergueu os olhos vermelhos, marejados por uma dor que Rebekah conhecia profundamente. A voz dele saiu em um fiapo quebrado e rouco de desespero:

— Eu vou com vocês... Jessica morreu. No teto... foi igual ao que aconteceu com a nossa mãe.

Dean parou ao lado dos dois, a respiração presa, encarando as chamas que dançavam contra o céu escuro. Ele estendeu a mão para o irmão, enquanto Rebekah apertava o ombro de Sam, oferecendo a única âncora possível em meio à tempestade de cinzas.

A caçada de suas vidas havia acabado de começar.

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