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SEMPRE (fanfic de supernatural)

Fandom: supernatural

Criado: 03/10/2026

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AventuraHorrorDramaAngústiaAçãoMistérioCenário CanônicoViolência GráficaMorte de Personagem
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Entre Fantasmas e Segredos

O vento cortava as ruas desertas com uma frieza quase cortante, sacudindo as copas secas das árvores. Dean Winchester tamborilava os dedos impacientes contra o volante do Chevy Impala 67 antes de pegar o telefone mais uma vez. Seus olhos verdes fitavam a escuridão enquanto discava o número decorado.

Do outro lado da linha, Rebekah Damont atendeu com a voz carregada de sono e irritação.

— Rebekah, ele não voltou desde a última vez que te liguei — disse Dean, direto, sem rodeios.

— O que você tá falando, Dean? — Rebekah bufou, ajeitando o travesseiro com rispidez. — Não brinca com isso, seu panaca.

Sem esperar resposta, ela desligou na cara dele. Dean encarou o visor iluminado, bufou e ligou novamente no mesmo instante. Quando ela atendeu, o suspiro de frustração veio alto e claro.

— Dean, dá pra parar? Eu tenho prova amanhã de manhã.

— Ele sumiu de verdade, Beka — o tom de Dean perdeu o sarcasmo habitual, soando quase sombrio.

Houve uma pausa do outro lado.

— O quê? Sério? Mas já faz um mês desde a última vez que nos falamos.

— Ele não atende, não dá sinal de vida faz dias.

Rebekah se sentou na cama, o coração acelerando levemente.

— Tá… mas onde ele foi caçar, afinal?

— Jericó.

— Eca… não tem nada naquele fim de mundo, nem um shopping decente — rebateu ela, tentando esconder a preocupação crescente sob uma camada de deboche. — Mas tá bom. Passa logo aqui pra me buscar. Você… você vai chamar o Sam?

Um silêncio pesado e congelante se instalou na linha, daqueles que faziam o peito arder. Rebekah tentou quebrar o clima:

— Ele precisa saber, Dean. Eu acho, pelo menos. Mas tá… beijos. Até daqui a pouco.

Dean ficou olhando para o celular mudo, a mandíbula tensa.

— Será que aquele cabeça-dura vai querer ir? — murmurou para si mesmo.

Quarenta minutos depois, o ronco grave do motor V8 e a buzina inconfundível do Baby ecoaram na rua silenciosa de Rebekah. Ela desceu os degraus do prédio carregando uma mochila pequena, vestindo uma jaqueta de couro claramente masculina e muito maior que o seu corpo esguio. Os longos cabelos dourados balançavam ao vento noturno, reluzindo sob os postes de luz.

Dean abaixou o vidro, apoiando o cotovelo na porta:

— Rebekah, entra logo, cara! O que foi? É moda usar jaqueta de mendigo agora? — soltou ele, com um riso sarcástico.

Rebekah abriu a porta do passageiro, mas hesitou antes de entrar, encarando-o com seus olhos claros e penetrantes.

— Era do John… quando vocês me tiraram daquele galpão imundo, ele me deu ela pra me cobrir. A Susan… ela tinha acabado de ser estraçalhada pelo metamorfo.

A menção à mãe adotiva e caçadora fez os olhos dela marejarem por uma fração de segundo, trazendo de volta o pavor sufocante de quando tinha doze anos, o cheiro de sangue e a primeira de muitas crises de pânico que a acompanhariam pela vida.

Dean suavizou a expressão, algo raro nele, e tocou de leve no braço dela:

— Ei… mesmo você sendo essa chata de galocha, a Susan te amava. Ela era sua mãe. Não esquece disso.

Rebekah engoliu o nó na garganta, limpando o canto dos olhos com rapidez para não demonstrar fraqueza diante dele.

— Tá, corta o sentimentalismo. Cadê o Sam? Você falou com ele?

— Não… o pai praticamente baniu o número dele do mapa — Dean desviou o olhar para o painel.

O silêncio voltou a pesar. Rebekah decidiu não ir na frente; abriu a porta traseira e se acomodou no banco de couro do Impala. Era um dos seus lugares favoritos no mundo. Ali, entre o cheiro de gasolina, metal e pólvora, ela praticamente havia crescido.

Enquanto o carro devorava o asfalto em direção a Palo Alto, Rebekah fitava a nuca de Dean pelo retrovisor. O Dean tá com medo de falar com ele? Bom… nunca vou descobrir mesmo, pensou ela, cruzando os braços.

Quando os pneus pararam em frente ao alojamento universitário de Sam, Rebekah imediatamente se encolheu no banco, fechando os olhos e fingindo dormir pesadamente.

— Nem vem, Rapunzel — Dean resmungou, olhando para trás. — Levanta essa bunda daí.

Ela continuou imóvel, respirando fundo como se estivesse no décimo sono. Dean bufou, xingou baixinho e desceu do carro, forçado a enfrentar o irmão sozinho.

No interior do dormitório escuro, Dean entrou como se fosse o dono do pedaço. Sam, pego de surpresa, quase voou no pescoço do invasor achando que era um ladrão, até que a luz revelou o rosto zombeteiro do irmão mais velho. Atrás de Sam, uma garota loira apareceu, confusa e de shorts curtos.

— O papai tá caçando e não aparece faz dias — disse Dean, sem perder tempo.

Jessica olhou para Sam, receosa:

— Quem é esse?

— É meu irmão — respondeu Sam, visivelmente contrariado.

Dean abriu aquele sorriso presunçoso de canto de boca:

— Você não acha que é muita areia pro caminhãozinho do meu irmão, não?

Jessica, sem graça, tentou cobrir as pernas:

— Acho que vou trocar de roupa…

Dean a mediu de cima a baixo com descaramento:

— Não precisa, eu adoro os Smurfs.

Minutos depois, Dean caminhava de volta ao carro sob o ar fresco da madrugada. Ao abrir a porta da frente, encontrou Rebekah já devidamente sentada no banco do carona, ajeitando as mechas douradas com os dedos compridos, o batom impecável.

— E aí… ele vai vir? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

Dean fitou a estrada à frente, seco:

— Vai.

— Dean, por que você não quer olhar pra mim?

Ele tentou fixar a atenção no volante, mas a presença dela parecia puxar todo o ar do veículo. Rebekah soltou um riso anasalado, afiada como sempre:

— Nossa… então vou me calar. Porque se eu falar que você tá adorando isso, já que tava morrendo de saudade do Sam, você vai ter um troço. Sem contar que veio me visitar inúmeras vezes na faculdade, mas nunca foi homem de andar uns míseros quilômetros pra falar com o próprio irmão. Mas tudo bem… não vou pisar no seu calo, bebê.

Dean apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. O rangido da porta dos fundos do prédio interrompeu a tensão. Sam desceu carregando uma mochila surrada. Ao se aproximar do carro, abriu um sorriso largo ao ver a garota.

— Beka! — Sam abriu a porta de trás e a envolveu num abraço apertado, daqueles de quebrar as costelas. Apesar de ser mais novo que ela, Sam sempre a tratara como uma irmã mais nova a quem precisava proteger do mundo.

Dean pigarreou, tentando quebrar a intimidade dos dois:

— Oi, Sammy… mal deu pra falar direito lá dentro perto da sua namoradinha.

Sam fechou a cara na mesma hora, fuzilando Dean:

— Aquela que você praticamente chamou de gostosa na minha cara?

Rebekah arregalou os olhos claros, um reflexo involuntário escapando pelos lábios:

— O quê?!

Sam virou o rosto para ela, estreitando os olhos com curiosidade:

— Você tá com ciúmes do Dean, Beka?

O peito de Rebekah deu um salto violento. O ar faltou por um segundo, trazendo a sombra incômoda de uma crise de ansiedade.

— Merda — Dean murmurou baixinho, sentindo o pescoço queimar.

Incapaz de lidar com aquele bombardeio de sentimentos reprimidos, Rebekah abriu a porta com força e saiu pisando duro em direção à loja de conveniência do posto de gasolina onde haviam parado metros atrás.

Dean ameaçou descer, mas Sam colocou a mão no peito do irmão mais velho:

— Deixa que eu vou.

Sam caminhou rápido pelo pátio de cascalho. Quando entrou no posto iluminado por lâmpadas fluorescentes trêmulas, encontrou Rebekah diante do balcão, segurando um monte desordenado de pacotes de chocolates e balas, com os olhos vermelhos e a maquiagem levemente borrada pelo choque.

Sem hesitar, Sam a puxou para si, oferecendo um abraço seguro. Em seguida, falou em tom baixo:

— É verdade? Vocês dois estão juntos?

Rebekah tentou engolir o orgulho, mas sua sinceridade — aquela que usava com todos, menos consigo mesma — falou mais alto:

— Não… quer dizer, eu não sei, Sam. Há um mês o Dean apareceu no meu apartamento. Ele tava estranho, me olhando diferente… Nós bebemos, conversamos e… nós ficamos. — Ela desviou os olhos, apertando os doces contra a jaqueta grande de John. — No dia seguinte, ele agiu como se nada tivesse acontecido. Na última vez que fui encontrar o John, o Dean inventou que ia comprar cerveja e sumiu por duas horas só pra não ficar no mesmo teto que eu. Aí eu entendi o recado… e parei de me humilhar.

Sam suspirou, balançando a cabeça em reprovação ao comportamento do irmão.

— Beka… se você não quiser ir com a gente, tudo bem. Eu e o Dean damos conta. O pai sempre dá um jeito de voltar. Você não é obrigada a passar por isso.

Rebekah ergueu o queixo, a postura defensiva voltando ao lugar:

— É claro que eu vou. Quero ver se dou um sermão naquele velho pra ele parar de sumir feito um fantasma. Eu conheço vocês desde os meus doze anos, Sam. Não vai ser só porque dei uns beijos no seu irmão idiota que vou fugir agora.

Sam sorriu fraco. Naquele instante, a sineta da porta tocou. Dean entrou com as mãos nos bolsos da jaqueta, visivelmente desconfortável.

— Rebekah, olha… é que eu…

— Poupe seu latim, Dean — ela o cortou, com uma frieza cortante. — Eu já entendi. Eu sou só a garota resgatada do monstro que você achou bonitinha o suficiente pra dar uns pegas numa noite tediosa, beleza? Assunto encerrado.

Ela jogou o dinheiro no balcão sem esperar o troco, passou por ele como um furacão perfumado e marchou de volta para o carro, trancando-se no banco traseiro com sua muralha de guloseimas.

Sam encarou Dean com um olhar de puro desprezo e julgamento. Dean, tentando disfarçar o desconforto que queimava por dentro, deu de ombros com um meio sorriso forçado:

— Eu não tenho culpa de ser irresistível, Sammy. É o efeito natural que eu causo nas mulheres.

Sam revirou os olhos e deu as costas:

— Você é um idiota, Dean. E vai pagar a porcaria dos doces dela!

A viagem seguiu sob um silêncio sufocante. Dean, sentindo a culpa pesar mais do que admitiria sob tortura, tentou aliviar o clima trazendo memórias antigas à tona.

— Ei… vocês lembram daquela vez que o papai praticamente sequestrou a Beka sem avisar o babá dela e levou a gente pra caçar um espírito em Ohio?

Sam soltou uma risada baixa:

— Nossa, nem lembrava que você tinha babá com dezesseis anos, Beka.

Rebekah, mastigando um chocolate no escuro do banco de trás, não aguentou e soltou um riso relutante:

— Eu tinha quinze, seu idiota! E meu tio era um paranóico do caramba.

Dean aproveitou a brecha no retrovisor:

— E aquela vez que ele deixou eu subir no seu quarto às dez da noite achando que eu era o entregador de pizza?

— Você comeu metade da pizza antes de me entregar, Dean!

As risadas ecoaram pela cabine do Impala, dissipando a tempestade por alguns momentos. O ronco monótono do motor acabou fazendo Rebekah adormecer encolhida no couro, abraçada aos pacotes vazios. Sam também apagou no banco da frente. Dean manteve os olhos na pista escura, agradecido pelo breve alívio, até que o cansaço começou a pesar nas suas pálpebras.

Três cidades antes de Jericó, Dean encostou num motel barato de beira de estrada.

— Sam… acorda, Sammy.

— Hum? Que foi? — Sam piscou, atordoado.

— Parei pra gente dormir umas horas.

— Beleza… vou chamar a Beka.

— Deixa ela aí um minuto. Vou pegar os quartos — disse Dean, saltando do carro.

Sam o seguiu até a recepção decadente, estranhando o plural.

— Dois quartos, por favor — pediu Dean à atendente sonolenta.

Sam cruzou os braços:

— Dois quartos? Dean, a gente sempre divide o mesmo quarto pra economizar.

Dean suspirou fundo, falando baixo:

— Ela vai tentar me esganar durante o sono se eu respirar perto dela. Vão vocês dois pra um quarto, e eu fico no outro. Amanhã cedo eu chamo.

Sam riu baixo do pavor silencioso do irmão, mas aceitou a chave e foi buscar Rebekah no carro. A garota mal abriu os olhos; tropeçou pelos passos curtos até a cama, jogando-se no colchão macio e apagando antes mesmo de tirar os sapatos.

Horas depois, o sol mal havia surgido quando batidas fortes na porta acordaram Sam e Rebekah. Dean entrou trazendo sacos de papel engordurados.

— Bora, cambada! A três cidades do destino! — Dean atirou uma salada insossa no colo de Sam e entregou um hambúrguer duplo com bacon diretamente nas mãos de Rebekah.

Ela piscou, ainda meio tonta de sono, mas pegou o sanduíche.

— Dean, abre o porta-malas pra mim. Preciso das minhas coisas.

Dean estava parado no batente estreito da porta. Quando ela passou para sair, os corpos se encostaram inevitavelmente. O calor do contato fez ambos paralisarem por um segundo. Os olhos verdes dele encontraram os claros dela, faiscando aquela tensão não resolvida, até que Dean pigarreou e olhou para o chão, dando passagem.

Rebekah pegou sua bolsa e marchou para o banheiro.

— Você vai se maquiar agora, sério? — Sam bufou do quarto.

— Mas é óbvio, Sam! — ela gritou de volta através da porta. — Como você acha que fico deslumbrante às seis da manhã? Nem feitiço faria esse milagre sem uma boa base!

Quando finalmente saíram, Rebekah estava impecável: o cabelo dourado caindo em ondas perfeitas, a jaqueta de John combinando estranhamente bem com sua postura altiva, deixando um rastro de perfume doce que inundou o Impala.

Ao cruzarem a ponte nos arredores de Jericó, o cenário mudou. Dean pisou no freio. Várias viaturas e curiosos cercavam a mureta de proteção quebrada. Um carro jazia destroçado no fundo do rio.

Os três saíram do Impala, exibindo distintivos falsos de agentes federais. Um senhor idoso, pálido e trêmulo, falava pelos cotovelos com quem quisesse ouvir.

— Eu vi! Não foi acidente… foi um fantasma! Uma mulher! — berrava ele.

Dean e Sam trocaram olhares rápidos de caçadores. Rebekah se aproximou, atenta.

— O que exatamente o senhor viu? — perguntou Sam, com calma.

— Ela era branca como cera… e forte, forte demais! Ela empurrou o carro lá pra baixo!

Rebekah franziu a testa, a mente analítica trabalhando:

— Como assim ela empurrou, senhor? O carro era pesado demais pra qualquer pessoa arremessar desse jeito. Tem certeza?

— Eu vi, menina!

— Eu acredito que o senhor viu algo assustador — Rebekah interveio suavemente —, mas precisa lembrar direito pra gente poder ajudar.

— Bom… talvez ela tenha se jogado junto… não sei ao certo — gaguejou o homem, confuso.

Um policial local se aproximou, estreitando os olhos para o trio:

— Algum problema aqui, senhor Terni? Quem são vocês?

Dean ergueu a carteira falsa com a maior cara de pau do mundo:

— Federais.

O guarda riu com desdém:

— Vocês não são meio novos demais pra federais?

— Obrigado pelo elogio — rebateu Dean, sarcástico. — De qualquer forma, esse velho aí não é uma testemunha confiável. Todo mundo sabe que foi largado pela mulher e vive afogado na garrafa.

Rebekah sentiu o sangue ferver diante da insensibilidade de Dean e disparou, com firmeza:

— Cuidado com o que fala, cavalheiro. O que ele faz da vida pessoal não lhe diz respeito, e respeito aos mais velhos ainda é o básico da boa educação. Meça suas palavras antes de ofender alguém que acabou de passar por um trauma.

O policial piscou, surpreso com o sermão da jovem agente, e resolveu colaborar, mostrando marcas no asfalto e detalhes técnicos do acidente.

Seguindo a trilha, os três foram para um motel decadente da cidade. Enquanto Dean e Rebekah esperavam no saguão, a recepcionista soltou casualmente:

— Um tal de John Miller ficou hospedado aqui semana passada. É parente de vocês? Usava a mesma jaqueta que a moça.

Dean correu até o carro, onde Rebekah retocava o batom.

— Beka! Cadê o Sam?

— Foi numa lanchonete puxar o histórico da cidade na internet — respondeu ela.

— O papai esteve aqui. Quarto 5. Vamos lá agora.

O quarto de John fedia a comida estragada e poeira acumulada. Havia jornais colados nas paredes, anotações frenéticas e símbolos arcanos.

Rebekah puxou um recorte antigo:

— Olha isso… Constance Welch. Uma Mulher de Branco. Ela afogou os próprios filhos na banheira e se jogou da ponte nos anos oitenta.

— Ela pega homens infiéis na estrada — completou Dean. — O pai tava caçando ela, mas deixou tudo pra trás.

— Ele queria que a gente terminasse o serviço — concluiu Rebekah.

Enquanto reviravam os colchões, Dean encontrou o diário de couro negro do pai. Mas, antes de comemorarem, giroscópios azuis e vermelhos iluminaram as cortinas sujas. Sirenes uivavam do lado de fora.

— Droga! A polícia veio atrás dos federais falsos — praguejou Dean. Ele empurrou a chave do Impala nas mãos dela. — Rebekah, sai pelos fundos. Pega o carro, busca o Sam na lanchonete e me espera lá.

— Dean, não!

— Vai logo!

Num impulso desesperado, Rebekah o puxou pelo colarinho e o abraçou com força. Por um breve segundo, a mão de Dean desceu até a cintura dela, num toque possessivo e quente que fez o arrepio subir pela espinha de ambos. Mas a lembrança do gelo que ele havia lhe dado falou mais alto; ela se desvencilhou abruptamente, dando um passo para trás.

Dean sentiu o vazio da rejeição, mas disfarçou com uma piscadela convencida:

— Se cuida, Rapunzel.

Ele saiu pela porta da frente com os braços erguidos. O xerife arrogante o prensou contra a viatura:

— Olha só… pegamos um dos falsários. Cadê a sua Bonnie e o grandalhão, Clyde?

— Me deram um bolo — disse Dean.

O guarda revistou seus bolsos com desdém:

— O que em vocês é de verdade, afinal?

Dean deu um sorriso debochado de orelha a orelha:

— Meus seios.

Enquanto Dean era levado para a delegacia, Rebekah disparou pelo beco, entrou no Baby e acelerou cantando pneus até encontrar Sam. Não demorou muito para que Dean, usando a astúcia de sempre e aproveitando uma distração sobre o "culto satânico" do diário de John, roubasse um clipe de papel, destrancasse as algemas e pulasse a janela da delegacia. Menos de uma hora depois, ele entrava na lanchonete, suado e vitorioso.

Rebekah quase desmaiou de alívio ao vê-lo entrar, mas limitou-se a cruzar os braços enquanto Sam ria do irmão.

Instalados num novo motel, Rebekah se trancou no banheiro, colocou um roupão de cetim preto e soltou o cabelo dourado. Tentou dormir, mas as imagens da mãe morta e a adrenalina do dia faziam sua respiração ficar curta. Sentindo o peito apertar numa crise iminente, ela vestiu a jaqueta de John por cima do pijama e foi até o quarto de Dean, batendo de leve.

Quando ele abriu, sem camisa e com os cabelos despenteados, ela apenas disse:

— Hambúrguer. Agora. Não consigo dormir.

Dean não fez perguntas. Pegou a jaqueta e a levou até um diner 24 horas. Ali, entre copos de café preto, batatas fritas e piadas ácidas, a ansiedade dela finalmente recuou.

— Obrigada por ter vindo comigo, Dean — disse ela, ao voltarem para a porta do quarto dele.

Dean encostou no batente, aquele brilho perigoso nos olhos:

— Se quiser me agradecer de outro jeito, o convite tá de pé…

Ela riu, revirando os olhos:

— Nem em sonho, Winchester. Boa noite.

Na manhã seguinte, Sam encontrou Dean no corredor e não perdeu a chance:

— Você dormiu com ela de novo?

Dean arregalou os olhos:

— O quê? Claro que não! Você acha que sou tão cafajeste assim, Sammy?

— Acho. Com certeza absoluta — respondeu Sam, rindo.

Dean engoliu em seco, soltando um meio riso culpado enquanto desciam para o carro.

A caçada final foi milimetricamente calculada. Rebekah passou a manhã enfiada nos microfilmes da biblioteca pública local descobrindo que o corpo de Constance havia sido cremado, enquanto os irmãos interrogavam o viúvo, Joseph Welch. Rebekah ligou a tempo de avisá-los: o espírito não estava preso aos ossos, mas sim à culpa. Ela precisava voltar para casa.

Naquela noite, Sam serviu de isca na estrada com o Impala, enquanto Dean e Rebekah montavam guarda perto da antiga residência abandonada dos Welch. Quando o espírito vingativo materializou-se no banco do carona do Impala, tentando forçar Sam a um beijo mortal sob a acusação de infidelidade, Sam não hesitou: pisou fundo no acelerador e arrebentou a parede da casa assombrada com o carro.

Madeira, poeira e vidro voaram pelos ares. Constance se ergueu dos escombros com garras afiadas, pronta para rasgar o peito de Sam. Foi quando os espectros encharcados de seus dois filhos pequenos apareceram no topo da escada. As crianças abraçaram a mãe fantasma num suplício de culpa eterna. O chão cedeu sob labaredas etéreas, e os três desapareceram no vazio com um grito ensurdecedor.

O silêncio reinou na sala em ruínas.

— Todo mundo inteiro? — Dean gritou, abaixando a espingarda com sal.

Rebekah limpou a fuligem do rosto, respirando com dificuldade pelo susto, mas assentiu:

— Inteira. E você amassou o para-lama do Baby, Dean.

— Foi o Sam! — ele protestou na hora.

De volta ao quarto de motel temporário para empacotarem as tralhas, Dean entrou onde Rebekah dobrava suas roupas. Ficou encostado na cômoda, fitando-a com uma seriedade rara.

— O que foi, Dean? Por que tá me encarando desse jeito? — perguntou ela, desconcertada.

— Olha… sobre aquele rolo nosso… eu não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós. A gente trabalha melhor assim. Então… vamos só ignorar aquilo, beleza? Deixar pra trás.

Rebekah sentiu uma pontada aguda no estômago, como uma lâmina fria. Suas próprias barreiras emocionais se fecharam num estalo. Ela forçou seu melhor sorriso cínico:

— Claro, Dean. Como você quiser. Já até esqueci.

Ele assentiu, aliviado por não ter que lidar com sentimentos reais, e saiu. Rebekah mordeu o lábio inferior, segurando a mágoa. Foi mexendo no diário de John que ela viu o detalhe que passara despercebido: uma série de coordenadas geográficas anotadas na última página com pressa evidente.

Ela correu para avisar os rapazes. Sam, contudo, estava irredutível: queria voltar para Stanford, para a entrevista da faculdade de Direito e para a vida perfeita com Jessica.

O trato era simples: deixariam Sam em casa, e Dean levaria Rebekah de volta para o seu próprio apartamento.

Porém, o destino dos caçadores nunca é simples.

Quando o Impala parou em frente ao apartamento de Sam e o rapaz subiu as escadas, Dean e Rebekah ficaram esperando no carro. Segundos depois, um grito dilacerante rasgou a noite.

Dean e Rebekah arrombaram a porta do quarto a tempo de testemunharem o horror absoluto: Jessica estava presa ao teto, o ventre rasgado, sangrando profusamente enquanto chamas sobrenaturais explodiam ao seu redor.

Sam estava paralisado no chão, em estado de choque completo. Dean avançou como um leão, puxando o irmão caçula pela jaqueta em direção à saída enquanto o fogo consumia a estrutura. Rebekah, com as mãos trêmulas e o pânico ameaçando fechar sua garganta, segurou a porta, guiando-os para a rua sob a chuva de cinzas incandescentes.

Do lado de fora, enquanto os bombeiros uivavam ao longe e o calor da tragédia iluminava o asfalto, Sam encarou o porta-malas aberto do Impala, os olhos afogados em lágrimas e pura fúria. Ele puxou a escopeta, travando o mecanismo com um estalo metálico.

— Nós temos trabalho a fazer — disse Sam, a voz rouca e sombria. — Vamos atrás daquelas coordenadas do pai.

Rebekah ajustou a jaqueta surrada de John nos ombros, limpando a fuligem da bochecha com as costas da mão, seus olhos claros fixos na estrada sem volta que se abria à frente.

— Eu vou com vocês — sentenciou ela, com a firmeza de quem não tinha mais nada a perder. — Eu nunca pertenci à porcaria de uma vida normal mesmo.

Dean fechou o capô com força, encarando os dois. A caçada estava apenas começando.

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