
Oliver
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 03/10/2026
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O Aroma do Mistério no Quarto Andar
Oliver caminhava pelos corredores de papel da Paper School com a confiança de quem era o dono do lugar. Seus longos cabelos brancos, presos naquele rabo de cavalo baixo que quase tocava o chão, balançavam levemente conforme ele dava passos largos e despreocupados. No topo de sua cabeça, a mecha rebelde de cabelo parecia ter vida própria, apontando para o teto como uma antena.
Ele levou a mão ao bolso e tirou uma barra de sabonete Lux, ainda com um pouco de espuma seca nas bordas. Sem hesitar, deu uma mordida generosa, ouvindo o estalo seco da massa perfumada entre seus dentes. O gosto de lavanda e produtos químicos era, para ele, a melhor iguaria que aquela escola poderia oferecer.
— Nada como um café da manhã refrescante — murmurou Oliver para si mesmo, limpando um pouco de bolha que se formou no canto da boca.
Ele estava sozinho naquele momento. Zip e Edward provavelmente estavam ocupados colando tachinhas na cadeira de algum aluno do primeiro ano ou sabotando o laboratório de ciências, mas Oliver tinha decidido explorar o último andar. Aquele lugar era cercado de boatos: alguns diziam que era onde a Senhorita Circle guardava os restos mortais dos alunos que tiravam F, outros diziam que era apenas um depósito de papel velho.
Oliver, com sua marca de "A+" brilhando orgulhosamente no cabelo, não tinha medo de notas baixas, nem de professores com braços de bússola. Ele subiu o último lance de escadas, o som de suas botas pretas ecoando no silêncio sepulcral do corredor superior.
O ar ali em cima era diferente. Era mais denso, com cheiro de mofo e... algo doce. Algo que não era sabonete.
Ele parou diante de uma porta de madeira escura, diferente das portas brancas e minimalistas do restante da escola. Não havia placa, nem número. Apenas uma fechadura enferrujada que parecia implorar para ser forçada.
— Bom, se está fechado, é porque tem algo bom lá dentro — disse ele, abrindo um sorriso travesso que revelava seus dentes afiados.
Oliver deu um chute certeiro na maçaneta. Com um rangido de protesto, a porta cedeu, revelando uma sala mergulhada em penumbra. Ele entrou, mastigando o último pedaço do sabonete de lavanda, e seus olhos demoraram um pouco para se ajustar à falta de luz.
A sala era ampla, mas cheia de prateleiras que chegavam até o teto. O que Oliver encontrou ali, no entanto, não eram pilhas de provas ou materiais escolares.
— Mas o que é isso? — perguntou ele em voz alta, a curiosidade superando sua habitual postura de valentão indiferente.
No centro da sala, sobre uma mesa circular, havia um globo terrestre que não mostrava países, mas sim diferentes tipos de texturas de papel. Ao redor do globo, centenas de pequenos frascos de vidro continham líquidos coloridos que brilhavam suavemente no escuro.
Oliver se aproximou, seus chifres pretos quase batendo em um lustre baixo feito de dobraduras de origami. Ele pegou um dos frascos. O líquido lá dentro era de um azul elétrico e parecia efervescer sozinho.
— Será que tem gosto de sabão líquido? — ponderou ele, levando o frasco ao nariz.
Antes que pudesse abrir a tampa, um barulho veio do fundo da sala. Um som de algo arrastando no chão de madeira. Oliver congelou, sua mecha de cabelo arrepiada tremendo levemente.
— Quem está aí? — perguntou ele, recuperando a voz firme. — Se for o Edward tentando me dar um susto, saiba que eu vou enfiar esse frasco no seu nariz.
Não houve resposta imediata, apenas o som de respiração pesada. De trás de uma das prateleiras, uma figura começou a emergir. Não era um dos seus amigos, e certamente não era nenhum dos professores que ele conhecia.
Era uma criatura feita inteiramente de rascunhos amassados e fita adesiva, com olhos que pareciam buracos feitos por um perfurador de papel. Ela segurava um compasso gigante, mas, ao contrário da Senhorita Circle, este compasso estava coberto de tinta preta que pingava no chão.
— Você... não deveria... estar aqui — a criatura sibilou, sua voz soando como papel sendo rasgado lentamente.
Oliver deu um passo atrás, mas não por medo. Ele estava intrigado.
— E você não deveria ser tão feio, mas aqui estamos nós — retrucou Oliver, cruzando os braços e exibindo o relógio no pulso direito. — O que é este lugar? Uma oficina de reciclagem que deu errado?
A criatura avançou um passo, a tinta preta manchando o chão de madeira.
— Este é o Arquivo das Falhas — disse o ser de papel. — Tudo o que é descartado, tudo o que não atinge a perfeição do "A+", acaba vindo para cá. Inclusive as memórias que a escola quer apagar.
Oliver olhou para a marca de "A+" em seu próprio cabelo. Ele sempre se sentira superior, o exemplo de sucesso (mesmo que fosse através do medo e da intimidação). A ideia de que existia um lugar para as "falhas" logo acima de sua cabeça era quase ofensiva.
— Memórias, hein? — Oliver caminhou lateralmente, mantendo os olhos na criatura. — E o que esses frasquinhos fazem? São suco de fracasso?
— São essências — explicou a criatura, girando o compasso com uma agilidade surpreendente. — Cada uma contém a emoção de um aluno no momento em que ele percebeu que nunca seria bom o suficiente.
Oliver soltou uma risada curta e seca.
— Que dramático. Eu prefiro meu sabonete. Tem um gosto mais limpo.
— Você ri, Oliver — a criatura disse o nome dele com um peso sinistro —, mas você é apenas uma peça nesse tabuleiro de papel. O que aconteceria se a sua marca de "A+" fosse apagada? Se você se tornasse apenas... um rascunho?
A criatura saltou em direção a ele com uma velocidade desumana. Oliver, acostumado a brigas de corredor, desviou por pouco, sentindo a ponta fria do compasso rasgar o ar onde sua cabeça estava um segundo antes.
— Ei! Cuidado com o cabelo! — gritou Oliver, irritado. — Sabe quanto tempo leva para pentear isso?
Ele pegou um dos frascos da mesa — um de cor vermelha intensa — e o arremessou contra a criatura. O vidro se quebrou no peito de papel do monstro, e uma fumaça densa começou a subir. A criatura soltou um guincho agudo, recuando enquanto a tinta preta em seu corpo começava a ferver.
— Isso! — Oliver comemorou, já pegando outro frasco, desta vez um verde limão. — Vamos ver o que o sabor de "inveja" faz com você!
— Pare! — gritou a criatura, tentando se recompor. — Você vai destruir o equilíbrio! Se esses sentimentos se misturarem sem controle, a escola inteira vai se rasgar!
Oliver parou com o frasco no ar. Ele gostava de causar caos, mas ele precisava da escola. Onde mais ele encontraria sabonetes gratuitos nos banheiros e pessoas para atormentar?
— Então sugira algo melhor antes que eu transforme você em confete — disse Oliver, girando o frasco entre os dedos.
A criatura se encolheu, a fumaça vermelha ainda saindo de suas feridas de papel.
— Existe um segredo no fundo desta sala — sussurrou o ser. — Algo que a Senhorita Circle e os outros diretores escondem de todos, até de você, o "aluno perfeito".
Oliver semicerrou os olhos. A curiosidade era sua maior fraqueza, depois de sabonete de frutas vermelhas.
— Continue. Estou ouvindo.
A criatura apontou para uma cortina pesada de veludo preto no fundo da sala, atrás da mesa com o globo.
— Atrás daquela cortina está a matriz original da Paper School. O papel de onde todos vocês foram recortados. Se você tocar nele, verá a verdade sobre a sua origem. Verá que a sua marca de "A+" não foi conquistada... foi desenhada por outra pessoa.
Oliver sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com o ar condicionado da escola. Ele sempre se orgulhou de sua marca, de sua posição. A ideia de que ele era apenas um desenho, uma criação controlada, o irritava profundamente.
Ele caminhou em direção à cortina, ignorando os avisos mentais de que aquilo poderia ser uma armadilha. Suas botas faziam um som abafado agora. Ele estendeu a mão enluvada e puxou o tecido pesado.
O que ele viu não foi um papel gigante ou uma caneta mágica.
Era um espelho. Mas não um espelho comum. O reflexo de Oliver no espelho não tinha a marca de "A+". Em vez disso, o reflexo mostrava Oliver com um grande "F" vermelho na testa, e seus olhos não eram pretos e travessos, mas sim cheios de uma tristeza profunda. O Oliver do espelho segurava um sabonete, mas não o comia; ele o apertava até que o sabonete se despedaçasse em suas mãos.
— O que é isso? — a voz de Oliver falhou pela primeira vez. — Que tipo de truque é esse?
— Não é um truque — disse a criatura, aproximando-se lentamente pelas costas. — É a sua essência original. Antes de você ser moldado para ser o valentão, antes de ser forçado a ser "perfeito" para sobreviver nesta escola de horrores. Você era apenas um garoto que falhou. E para não ser descartado, você aceitou a máscara do "A+".
Oliver olhou para o próprio reflexo, sentindo uma dor de cabeça latejante atrás de seus chifres. Ele levou a mão à marca no cabelo, sentindo o relevo da tinta.
— Eu não sou um fracasso — rosnou ele, seus dentes afiados aparecendo. — Eu sou Oliver. Eu como sabonete, eu mando nesta escola e eu não recebo ordens de um monte de papel velho!
Com um grito de raiva, Oliver deu um soco no espelho. O vidro não quebrou; em vez disso, a superfície ondulou como água e puxou o braço de Oliver para dentro.
— O quê?! — ele tentou puxar o braço de volta, mas a força era imensa.
— O Arquivo das Falhas sempre recupera o que lhe pertence, Oliver — disse a criatura, agora com uma voz que soava como a da própria Senhorita Circle, mas distorcida.
De repente, a porta da sala se escancarou.
— Oliver? Você está aí? — era a voz de Zip.
— Cara, a gente achou um estoque de giz colorido no segundo andar, você tem que ver... — Edward parou na porta, seus olhos se arregalando ao ver a cena.
Oliver estava com metade do corpo sendo sugado pelo espelho, enquanto uma criatura bizarra de papel o segurava pelas costas.
— Zip! Edward! Me tirem daqui! — gritou Oliver, lutando contra a atração do espelho.
Zip reagiu rápido. Ela correu pela sala, saltando sobre a mesa do globo, e agarrou o rabo de cavalo longo de Oliver.
— Puxa, Edward! — ordenou ela.
Edward agarrou a cintura de Oliver, e os dois começaram um cabo de guerra desesperado contra o espelho. A criatura de papel tentou intervir, mas Zip, com sua mão livre, pegou o frasco de líquido azul e o jogou na cara do monstro.
— Toma essa, seu esquisito! — gritou Zip.
A explosão de líquido azul criou uma reação em cadeia com a tinta preta, gerando uma luz ofuscante. A força de sucção do espelho cessou por um instante, o suficiente para que Zip e Edward puxassem Oliver com toda a força, fazendo os três caírem no chão em uma pilha de pernas e cabelos brancos.
A sala começou a tremer. As prateleiras estavam desmoronando e os frascos explodiam um a um.
— Vamos sair daqui! Agora! — gritou Edward, levantando-se e puxando Oliver pelo braço.
Eles correram pelo corredor do último andar enquanto a sala atrás deles parecia implodir em um turbilhão de papel e tinta. Eles não pararam de correr até chegarem ao pátio principal, onde a luz do sol (ou o que quer que passasse por sol naquele mundo de papel) brilhava intensamente.
Ofegantes, os três se encostaram na parede da entrada. Oliver estava com a camisa amassada e seu rabo de cavalo estava completamente despenteado, mas ele ainda tinha o frasco verde limão em sua mão, que ele havia agarrado inconscientemente durante a fuga.
— Cara... o que foi aquilo? — perguntou Zip, tentando arrumar o próprio cabelo.
— Aquele lugar... era estranho — disse Edward, olhando para Oliver. — Você está bem, cara? Você parece que viu um fantasma. Ou uma prova de matemática.
Oliver passou a mão pelo cabelo, sentindo a marca de "A+". Ela ainda estava lá. Ele olhou para o frasco em sua mão e depois para os amigos.
— Foi apenas... um depósito de lixo — disse Oliver, recuperando sua postura arrogante, embora sua voz ainda estivesse um pouco trêmula. — Nada que eu não pudesse lidar.
— Você estava sendo engolido por um espelho, Oliver — lembrou Zip, cruzando os braços. — A gente salvou sua pele.
Oliver deu um sorriso de lado e abriu o frasco verde. O cheiro de inveja e limão subiu. Ele deu um gole pequeno, sentindo um formigamento ácido na língua.
— É, talvez. Mas eu consegui um suco novo. Querem um pouco?
Zip e Edward se entreolharam e riram.
— Nem pensar, isso parece ter gosto de detergente barato — disse Edward.
— E tem — confirmou Oliver, fechando o frasco e guardando-o no bolso. — É maravilhoso.
Enquanto os três caminhavam em direção ao refeitório, Oliver olhou uma última vez para o topo da escadaria do último andar. Ele sabia que o que vira no espelho não era apenas um truque. Havia algo de errado com a Paper School, algo mais profundo do que professores assassinos e notas baixas.
Mas, por enquanto, ele tinha amigos, tinha seu "A+" e, o mais importante, tinha um estoque novo de sabores para experimentar.
— Ei, Zip — chamou Oliver, enquanto entravam no refeitório.
— Fala.
— Se algum dia eu começar a agir de forma... triste... me dá um soco na cara, tá?
Zip riu e deu um tapinha no ombro dele.
— Pode deixar, chefe. Eu faço isso até de graça.
Oliver sorriu, tirou uma nova barra de sabonete de mel do bolso e deu uma mordida. O mundo podia ser feito de papel, mas ele pretendia deixar sua marca, fosse com tinta de "A+" ou com bolhas de sabão. E ninguém, nem mesmo um espelho mágico ou uma criatura de rascunhos, iria tirar isso dele.
