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Fandom: Desenfreados Dark Romance/ Devil’s Night

Criado: 04/10/2026

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Vitrines de Mármore

O tecido das cortinas pesadas deslizou pelos trilhos de bronze com um farfalhar abafado, revelando a claridade acinzentada que cobria a cidade naquela manhã. Abri os olhos no exato instante em que o trinco da janela estalou.

Helena já estava de pé junto ao aparador, com as mãos postas à frente do avental impecável. Seus passos no assoalho encerado eram tão silenciosos que, não fosse o feixe de luz cortando o quarto, eu quase acreditaria que ainda estava sozinha.

— Bom dia, Mikaela — disse ela, com a voz baixa e constante de sempre. — O banho está pronto. A senhora Bennett pediu para lembrar que a reunião com a diretoria da Fundação começa às nove em ponto.

— Bom dia, Helena. — Sentei-me devagar na cama, afastando o edredom de plumas.

Olhei para a poltrona ao lado do armário. O cabide já repousava ali, sustentando uma calça de alfaiataria em tom areia e uma camisa de seda crua, cujos punhos tinham botões de madrepérola minúsculos. Minha mãe não precisava dizer pessoalmente o que eu deveria vestir; o gosto dela se materializava antes que eu sequer tocasse o chão com os pés descalços.

Vinte minutos depois, eu descia a escada principal. O corrimão de mogno estava frio sob os meus dedos. No térreo, o silêncio da casa tinha aquele peso característico, onde cada objeto de prata e cada tela a óleo pareciam exigir respeito absoluto ao espaço que ocupavam.

Na sala de jantar, minha mãe já estava à mesa. A xícara de porcelana repousava sobre o pires sem produzir o menor ruído. Eleanor Bennett não lia o jornal físico; preferia o tablet fino apoiado em um suporte de couro, onde deslizava o indicador com precisão cirúrgica. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque milimetricamente alinhado, sem um único fio fora de lugar.

— Bom dia, mãe — falei, puxando a cadeira à sua frente.

Ela ergueu os olhos apenas o suficiente para me inspecionar dos pés à cabeça, antes de pousar o tablet.

— O corte dessa calça caiu muito bem em você — comentou, a voz polida e impassível. — Mas prenda o cabelo. O vento no centro da cidade vai deixá-la desgrenhada antes mesmo de entrar no prédio.

— Eu posso prender no carro — respondi, servindo-me de café preto.

— Prefiro que saia pronta daqui. A secretária de eventos estará no saguão e não há razão para parecer que você se arrumou às pressas. — Ela levou a xícara aos lábios, tomou um gole minúsculo e voltou a atenção para a tela. — Seu pai foi cedo para o escritório. Temos um dia longo pela frente, Mikaela. Cumpra a pauta da manhã com a Fundação e volte direto. Nada de estender conversas desnecessárias com a coordenação.

— Clara precisa revisar os relatórios de doação comigo — pontuei com calma, passando manteiga em uma torrada. — Isso leva tempo.

— O tempo necessário para assinar, não para confraternizar — rebateu ela, sem erguer os olhos. — Esteja pronta para o restante dos compromissos às quatro da tarde.

Mastiguei a torrada em silêncio. Aprendi cedo que discutir o conceito de tempo com Eleanor Bennett era um desperdício de energia. Limpei os cantos da boca com o guardanapo de linho, tomei o café de uma só vez e me levantei, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

— Até mais tarde, mãe.

— Cuidado com os degraus da entrada, Mikaela. A umidade da manhã os deixou escorregadios.

A porta pesada da mansão se fechou atrás de mim com um clique metálico. O ar lá fora era fresco, tingido pelo cheiro de asfalto úmido e terra molhada dos jardins podados com régua e esquadro. No segundo em que entrei no banco traseiro do carro e o motorista deu a partida, soltei o ar que nem percebera estar prendendo nos pulmões. Desabotoei o primeiro botão da gola de seda e puxei o elástico do pulso para prender o cabelo em um rabo de cavalo alto e frouxo, exatamente o oposto do que Eleanor aprovaria.

O trajeto até a zona leste levou meia hora. Conforme os quarteirões aristocráticos ficavam para trás, a arquitetura da cidade ganhava vida: muros com grafites desbotados, pessoas apressadas atravessando fora da faixa, o som de buzinas e o aroma de pão recém-assado das padarias de esquina.

Quando o carro estacionou em frente à Fundação Infantil Bennett, o contraste não podia ser maior. O prédio antigo de tijolos aparentes tinha janelas amplas e um pátio cheio de desenhos a giz no chão. Era o único lugar que levava o sobrenome da minha família onde eu não sentia vontade de checar se minha postura estava perfeitamente ereta a cada cinco segundos.

Empurrei a porta de vidro duplo e fui recebida pelo eco de risadas e o som de blocos de montar batendo contra o linóleo.

— Olha só quem resolveu honrar os meros mortais com sua presença de seda italiana — disse uma voz zombeteira vinda do balcão de recepção.

Clara estava encostada na bancada, segurando uma caneca de cerâmica lascada e um maço de pastas amarelas sob o braço. Seus cachos volumosos estavam presos por uma caneta azul enfiada no alto da cabeça.

— Se você falar do meu tecido mais uma vez, eu derramo café frio na sua blusa favorita — retruquei, abrindo um sorriso largo enquanto caminhava até ela.

— Você não teria coragem, Bennett. Essa blusa me custou três horas garimpando em um brechó e um cotovelo roxo. — Clara me deu um abraço apertado, quebrando de vez qualquer resquício da formalidade que havia me acompanhado desde a mansão. — Como foi o café com a Dama de Ferro?

— O de sempre. Ela criticou meu cabelo, me mandou não fazer amigos e lembrou que às quatro eu viro abóbora.

Clara revirou os olhos com gosto.

— Um dia eu vou te sequestrar para um festival de música indie no interior, você vai dormir em uma barraca mofada e beber cerveja quente só para ver a cara dela quando descobrir.

— Não me tente. Uma barraca parece incrivelmente tentadora comparada a um jantar com a comissão fiscal. — Apoiei os cotovelos no balcão, observando o movimento do corredor. — O que temos para hoje antes dos relatórios chatos?

— A sala de artes está um caos glorioso. As crianças de quatro anos estão descobrindo o conceito de tinta guache e três delas decidiram que as paredes precisam de uma intervenção moderna.

— Perfeito. É exatamente disso que eu preciso.

Deixei minha bolsa e o casaco na sala de Clara. Dobrei as mangas da camisa de seda crua até os cotovelos sem a menor cerimônia, ignorando mentalmente o quanto Eleanor desaprovaria o amassado no tecido caro.

A sala de artes era uma explosão de cores primárias. O cheiro de tinta têmpera e papel molhado preenchia o ar. Assim que entrei, um garotinho de cabelos escuros e bochechas redondas, vestindo um avental plástico que ia até os tornozelos, parou com o pincel no ar e me encarou com olhos arregalados.

— Mika! — gritou ele, largando o pincel na mesa com um baque molhado de tinta azul.

— Oi, Theo. O que você está aprontando aí? — Ajoelhei-me no tatame de borracha, ficando da altura dele.

— Eu tô fazendo um dragão — explicou ele com seriedade mortal, apontando para uma mancha disforme que parecia mais um caminhão capotado do que qualquer criatura mítica. — Mas ele não tem dentes. Ele precisa de dentes afiados, senão os monstros da floresta vão rir dele.

— Não podemos deixar os monstros rirem do seu dragão — concordei, pegando um pincel mais fino no pote de água. — O que você acha se a gente fizer dentes verdes? Dragões que comem espinafre têm dentes muito mais perigosos.

Theo franziu o nariz, ponderando a lógica infantil.

— Verdade! Eles mordem melhor.

Passei os quarenta minutos seguintes concentrada naquela folha de cartolina. Theo ria a cada traço exagerado que eu desenhava, apontando onde deveriam ficar as escamas e as asas pontudas. Em dado momento, ele tentou me mostrar como o dragão cuspia fogo, imitou um rugido e esbarrou a mãozinha suja de tinta amarela direto na dobra da minha calça de alfaiataria.

— Opa — sussurrou o menino, congelando no lugar com os olhos esbugalhados. — Ficou amarelo.

Olhei para a mancha úmida na minha perna e depois para a expressão aterrorizada de Theo. Uma risada involuntária escapou da minha garganta.

— Tudo bem, Theo. O dragão precisava deixar uma marca registrada, não é? Ficou muito mais moderno assim.

Ele relaxou, abrindo um sorriso banguela e voltando a bater o pincel na cartolina. Clara apareceu na soleira da porta, com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, apontando com o queixo para a minha calça arruinada.

— A sua mãe vai ter uma síncope — murmurou ela em tom confidencial.

— A calça vai para a lavanderia antes que ela veja — dei de ombros, levantando-me do chão com a ajuda da mesa. — E se ela vir, digo que foi um acidente com marcadores de texto da Fundação. Falta de foco em relatórios é um pecado menor do que tinta guache infantil.

O almoço aconteceu no refeitório dos fundos, longe do protocolo dos restaurantes que meus pais frequentavam. Dividimos uma mesa de fórmica com dois professores e a assistente social. Havia marmitas requentadas no micro-ondas, garrafas de suco de maracujá compartilhadas e uma conversa barulhenta sobre os perrengues do transporte público e as últimas fofocas do bairro.

Ali, ninguém me chamava de "senhorita Bennett" ou media o peso do meu sobrenome. Eu comia a torta de frango que Clara havia comprado na esquina, ria das histórias exageradas do professor de educação física e me sentia, por breves instantes, uma garota comum de vinte anos que não precisava justificar sua existência a cada respiração.

— Você devia vir na sexta à noite — disse Clara, enquanto mastigava uma azeitona. — O pessoal vai se reunir naquele barzinho perto da estação. Nada chique. Só batata frita e música ao vivo ruim.

— Sexta? — Suspirei, apoiando o queixo na mão. — Minha mãe marcou um jantar beneficente em homenagem ao centenário de alguma coisa que eu nem lembro o nome. Tenho que estar engessada num vestido longo até a meia-noite.

— Uma tragédia em três atos — lamentou Clara, balançando a cabeça. — Vou beber uma cerveja barata em sua memória.

— Agradeço o sacrifício.

Eu ia retrucar com alguma piada sobre as preferências musicais duvidosas dela quando meu celular vibrou sobre a mesa. O aparelho deu dois solavancos curtos contra o plástico gasto.

O nome Mãe brilhava na tela.

Deslizei o dedo para abrir a notificação.

“O motorista estará na Fundação às 15h30. Não se atrase. A estilista precisa fazer os ajustes finais e seu pai quer conversar com você antes do jantar de negócios. Seja pontual.”

O ar ao meu redor pareceu perder um pouco da temperatura. Olhei para a mensagem por alguns segundos a mais do que o necessário, observando as palavras secas e desprovidas de qualquer vestígio de afeto ou casualidade. Era uma ordem de marcha, pura e simples.

Bloqueei a tela e guardei o aparelho no bolso.

— Hora de voltar para a torre? — perguntou Clara, notando a mudança na minha postura.

— Hora de voltar para a torre — confirmei, forçando um sorriso leve enquanto recolhia os guardanapos de papel da mesa. — Pelo menos consegui salvar o dragão do Theo antes de ser recolhida.

Quando o sedã preto parou novamente em frente aos portões de ferro forjado da mansão Bennett, o relógio marcava exatamente quinze para as quatro. A troca de mundos acontecia sempre de forma abrupta. Desci do carro, alisei a camisa amassada e tentei disfarçar a mancha amarela na perna, caminhando pelo piso de mármore do hall de entrada como se estivesse entrando em um museu onde qualquer movimento brusco pudesse quebrar uma relíquia.

O eco dos meus passos foi interrompido pela voz da minha mãe, vinda da sala de estar ampla.

— Mikaela. Venha até aqui, por favor.

Respirei fundo e entrei na sala. Eleanor estava sentada no sofá de veludo azul-marinho, acompanhada de duas pastas grossas de capa de couro sobre a mesinha de centro. Meu pai não estava presente, mas o aroma do tabaco fino do seu cachimbo ainda pairava de forma sutil no ar.

— Boa tarde — cumprimentei, parando a uma distância prudente para não evidenciar a tinta na calça.

Eleanor correu os olhos por mim. Ela notou o cabelo solto e a camisa amarrotada, apertando levemente os lábios em desaprovação silenciosa, mas, para minha surpresa, não comentou nada sobre isso. O assunto daquela tarde era obviamente mais importante do que minhas pequenas infrações estéticas.

— Sente-se — indicou ela, gesticulando para a poltrona em frente.

Acomodei-me na borda do estofado.

— Como foram as coisas na Fundação? — perguntou ela, quase mecanicamente.

— Produtivas. Os balanços estão em ordem e Clara vai enviar os comprovantes das doações até o fim da tarde.

— Ótimo. Porque sua atenção precisará estar concentrada em outro lugar nos próximos dias. — Ela puxou uma das pastas e a abriu, revelando relatórios financeiros e algumas fotografias impressas em alta resolução. — Receberemos convidados muito importantes para um jantar na próxima quinta-feira.

— Outro evento beneficente?

— Negócios — corrigiu ela com firmeza. — Estamos finalizando uma parceria de grande porte para a expansão logística dos negócios do seu pai na costa leste. A família Carter estará aqui.

O sobrenome bateu contra a minha memória como algo distante, lido em colunas sociais de revistas de negócios ou ouvido nas conversas sussurradas do meu pai ao telefone.

— Os Carter de Miami? — perguntei, cruzando as pernas.

— Exatamente. O senhor e a senhora Carter são extremamente seletivos quanto a com quem se associam. Eles valorizam tradição, estabilidade e, acima de tudo, a solidez familiar. Por isso, a presença deles na nossa casa é um passo decisivo.

— Entendi. Vou avisar a Helena sobre a organização dos quartos de hóspedes, se eles forem passar a noite.

— Não precisa se preocupar com a logística da casa, eu já cuidei de tudo — Eleanor ergueu a mão, interrompendo-me. — O que você precisa fazer é garantir que sua presença seja impecável. O filho deles também virá.

Pisquei devagar, assimilando a informação sem demonstrar surpresa. Esse tipo de jantar raramente envolvia apenas velhos executivos trocando apertos de mão; os herdeiros eram sempre exibidos como peças adicionais de uma garantia silenciosa de futuro.

— Ele também faz parte dos negócios? — perguntei com tom neutro.

— Ele está sendo integrado às operações principais — respondeu minha mãe, fechando a pasta com um estalo suave. — O nome dele é Damon. Damon Carter.

Repeti o nome mentalmente. Damon Carter. Não evocava nenhum rosto específico, nenhuma lembrança vívida além de um eco vago dos noticiários financeiros sobre a influência quase intocável da família dele na Flórida. Para mim, soava apenas como mais um rapaz engravatado, educado nas melhores universidades do país, treinado para sorrir polidamente entre uma taça de vinho e outra e fingir interesse por tópicos que não lhe diziam respeito.

— A estilista trará três opções de vestidos amanhã pela manhã — continuou Eleanor, já se levantando do sofá, dando a conversa por encerrada. — Quero que você escolha algo sóbrio, mas marcante. A primeira impressão é fundamental, Mikaela. Não se esqueça disso.

— Não vou esquecer — respondi, mantendo o tom sereno e a voz baixa.

Ela assentiu, satisfeita com a minha resposta dócil, e saiu da sala com seus passos silenciosos, deixando apenas o rastro do seu perfume caro no ar.

Fiquei sozinha na sala ampla por alguns minutos, observando o reflexo distorcido da minha própria silhueta no vidro escuro da janela que dava para o jardim. Suspirei, puxando o elástico do rabo de cavalo e deixando o cabelo cair sobre os ombros.

Mais um jantar. Mais um papel a desempenhar.

Levantei-me da poltrona e subi para o meu quarto, pensando apenas em tomar um banho demorado e tirar a mancha de tinta amarela antes que alguém a notasse. Quinta-feira ainda estava longe, e Damon Carter não passava de mais um nome na longa lista de pessoas que eu precisava cumprimentar com um sorriso ensaiado antes de poder voltar para a minha própria vida.

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