
Gelo e Cinzas
O som abafado dos graves da música eletrônica fazia as tábuas do assoalho tremerem sob os pés de Tatsuyo. A casa de Hidan, um dos veteranos mais populares do terceiro ano, parecia prestes a explodir com tanta gente. Para Tatsuyo, no entanto, aquele lugar era apenas uma extensão do pesadelo diário do colégio.
Com sua pele parda, os longos cabelos pretos e ondulados caindo até a cintura e seu jeito retraído, ela sempre fora o alvo preferido das piadas cruéis nos corredores. O rótulo de "esquisita" colara nela como uma sombra. Pior do que os risos dos outros era a indiferença calculada de Nico. Desde que os pais faleceram, eram apenas os dois contra o mundo naquele pequeno apartamento, mas entre as pessoas da escola, Nico agia como se ela fosse um fantasma vergonhoso. O garoto de dezesseis anos, com seus olhos escuros e cabelos curtos, queria desesperadamente se encaixar no time de hóquei. Para isso, fingia que Tatsuyo não existia.
Ela só estava ali porque Nico ainda não tinha idade para dirigir e a festa se estenderia até a madrugada. A ideia inicial era apenas deixá-lo e voltar para buscá-lo, mas Nico insistira — quase num tom de súplica envergonhada — para que ela ficasse na cozinha ou em algum canto discreto, para não dar na cara que ele dependia de carona da irmã mais velha.
Tatsuyo estava perto do balcão da cozinha, mexendo distraidamente no canudo de um copo de água, quando a tela do celular acendeu. Era uma mensagem de Nico:
Sobe no quarto do Hidan no segundo andar, última porta à esquerda. Preciso falar com você rápido, esqueci um negócio lá.
Franzindo o cenho, ela guardou o aparelho no bolso dos shorts jeans. Ela não queria subir, odiava a ideia de circular por aquela casa, mas o medo de que o irmão estivesse em apuros falou mais alto. Subiu os degraus de madeira desviando de casais aos beijos e pessoas cambaleando com copos vermelhos nas mãos.
O corredor superior era mais escuro e abafado. Tatsuyo encontrou a última porta à esquerda e deu duas batidas tímidas. Não houve resposta. Ela empurrou a maçaneta devagar.
— Nico?
O quarto estava iluminado apenas por uma fita de LED avermelhada. Antes que pudesse dar outro passo, uma mão pesada puxou seu pulso com força, trazendo-a para dentro. O clique da porta se fechando em suas costas soou como uma sentença. Ela não ouviu o trinco trancar, mas a presença maciça de Hidan bloqueando a saída fez o ar sumir de seus pulmões.
— Ora, ora... Olha quem resolveu dar o ar da graça — disse Hidan, com um sorriso carregado de malícia e hálito forte de vodca.
— O Nico... ele me mandou vir aqui — gaguejou Tatsuyo, recuando até sentir a quina da cama de casal bater atrás de seus joelhos. — Onde ele está?
— O moleque tá lá embaixo se achando o máximo por andar com os veteranos — desdenhou Hidan, avançando um passo. Ele arrancou a camisa dela com um puxão brusco, rasgando o tecido fino e deixando-a apenas de sutiã. — Ele só te mandou subir porque eu pedi pra ele te pregar uma pecinha. Mas a brincadeira agora é outra, gracinha.
O pânico paralisou Tatsuyo por um segundo antes de explodir em desespero puro. Ela tentou se esquivar para o lado, mas Hidan a empurrou com brutalidade sobre o colchão, subindo por cima dela com o peso do próprio corpo.
— Não! Me solta! — gritou ela, mas a boca de Hidan caiu sobre a sua de forma violenta, roubando-lhe o fôlego e o som, esmagando seus lábios com força asquerosa.
Lágrimas ardentes desceram pelas têmporas de Tatsuyo, sumindo entre seus cabelos negros espalhados na cama. Ela se debatia freneticamente, chutando com as pernas trêmulas enquanto Hidan prendia os dois pulsos dela com uma única mão de ferro acima de sua cabeça.
— Cala a boca, porra! Fica quieta! — rosnou ele contra a pele dela.
A outra mão de Hidan desceu com pressa e tentou forçar a entrada por dentro do cós dos shorts dela, mas Tatsuyo retorcia os quadris com toda a energia que lhe restava, impedindo o tecido rígido de ceder. Frustrado, Hidan deslizou a boca úmida pelo pescoço dela, beijando o colo com voracidade, aproximando os lábios do mamilo coberto pela renda do sutiã para lambê-lo.
Tatsuyo fechou os olhos, soluçando alto, o terror consumindo cada fibra de sua alma ao perceber que não conseguiria aguentar por muito mais tempo.
A porta rangeu e bateu contra a parede.
O som seco cortou a penumbra do quarto. Hidan estacou a milímetros de sua pele.
Na soleira, banhado pela luz fria do corredor, estava Kuro.
Ele segurava um copo plástico com refrigerante em uma das mãos, o semblante inacreditavelmente plácido. O atacante titular do colégio era imponente: um metro e oitenta de pura compleição física esculpida pelo gelo, a pele clara contrastando com os cabelos brancos repicados e os olhos castanhos escuros que pareciam analisar a cena sem pressa, mas com uma frieza cortante.
— Hidan — a voz de Kuro saiu em um tom baixo, firme, sem qualquer hesitação. — Tem gente lá embaixo te chamando. É urgente.
Hidan virou a cabeça, bufando de ódio, mas não soltou os pulsos de Tatsuyo. Pelo contrário, apertou-os com tanta força que os ossos da garota estalaram sob a pressão. Ela engoliu o choro, ficando imóvel como uma estátua, o choque e a vergonha travando seus pulmões.
— Agora não, Kuro. Dá o fora — rosnou o dono da casa, tentando disfarçar a irritação.
Kuro deu meio passo para dentro, os olhos descendo por um segundo para Tatsuyo na cama e voltando imediatamente para o veterano. Não havia um pingo de dúvida em sua postura.
— Eu não perguntei se você quer descer — disse Kuro, a voz perigosamente mansa. — É o cara que trouxe as bebidas lá dos fundos. Deu merda feia lá na frente com o carro dele e a polícia tá passando no quarteirão. Se você não for agora, vai sobrar pra você responder pela casa. Vai logo.
A menção à polícia e a firmeza inabalável de Kuro desarmaram a arrogância ébria de Hidan. Ele xingou entredentes, soltando os braços de Tatsuyo com desdém. Ficou de pé, ajeitando as calças, e lançou um olhar ameaçador para a garota encolhida na cama.
— Fica aí. Eu já volto — ordenou ele, antes de passar por Kuro e sumir corredor afora.
A porta se fechou novamente.
O silêncio caiu como um martelo pesado sobre o quarto. Sozinha, Tatsuyo desabou. Sentou-se no colchão, puxou os travesseiros contra o peito seminu e encolheu as pernas, abraçando o próprio corpo em um acesso de tremores incontroláveis. As lágrimas desciam aos borbotões, quentes e dolorosas, enquanto soluços sufocados escapavam de sua garganta. Ela estava imunda, aterrorizada, completamente perdida.
Menos de um minuto depois, a maçaneta girou de novo.
O pavor congelou seu sangue. Ela apertou ainda mais o travesseiro, certa de que Hidan havia percebido o truque e retornado para terminar o que começara. Mas não era Hidan.
Era Kuro.
Ele estava encostado no batente, o copo de refrigerante já deixado em algum lugar. Os olhos escuros encontraram os dela.
— Vem — disse ele, simples e direto.
Tatsuyo ergueu o rosto banhado de lágrimas, os olhos negros arregalados, sem conseguir assimilar o comando. O cérebro dela parecia ter entrado em pane.
— Vem comigo antes que ele volte — insistiu Kuro, mantendo a voz calma, mas firme. — Ou você prefere ficar aí?
Aquelas palavras quebraram o transe. Com as pernas fracas como gelatina, Tatsuyo soltou o travesseiro e se levantou com dificuldade, os passos incertos e desconfiados. Cada músculo do seu corpo gritava perigo. Quando ela alcançou a porta, Kuro já deslizava os braços para fora da própria jaqueta pesada do time.
Sem dizer uma palavra, ele estendeu a peça aberta para ela. Tatsuyo percebeu então o quão exposta estava, apenas com o sutiã escuro e os shorts curtos. Puxou a jaqueta apressadamente, vestindo-a. A peça era enorme nela, descendo quase até suas coxas e cheirando a hortelã e ao couro limpo do garoto.
— Por trás — murmurou Kuro, fazendo um sinal com a cabeça.
Ele a guiou em silêncio por um lance de escadas secundário que levava à lavanderia dos fundos. Evitaram a sala principal, onde a música continuava ensurdecedora e os alunos dançavam alheios a qualquer tragédia. Saíram pela porta dos fundos, cortando o gramado escuro e orvalhado até o portão lateral, onde o carro de Kuro estava estacionado sob a sombra de um poste com a lâmpada queimada.
Kuro destravou o veículo, abriu a porta do passageiro e esperou. Tatsuyo entrou quase caindo sobre o banco de couro, tremendo tanto que o tecido da jaqueta balançava. Ele bateu a porta com suavidade, contornou a frente do veículo e assumiu o lugar do motorista.
O clique das travas elétricas ecoou no interior silencioso do automóvel.
Tatsuyo estava colapsando. Suas unhas cravavam-se nas palmas das próprias mãos, arranhando a pele até deixar marcas vermelhas. Com a outra mão, puxava o zíper da jaqueta dele até o limite do pescoço, segurando a gola com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se aquela camada de tecido fosse a única coisa mantendo seus pedaços unidos.
Kuro observou o tique nervoso dela em silêncio por alguns instantes, apoiando um dos braços sobre o volante.
— Nossa, você nem pensa mesmo, né? — soltou ele, a voz ríspida pela frustração contida. — Se eu quisesse, poderia ter te estuprado aqui e agora.
O mundo de Tatsuyo parou.
Ela travou imediatamente. O ar sumiu de sua garganta, e ela olhou para Kuro com os olhos transbordando um terror novo, paralisante. As mãos que arranhavam a própria pele congelaram no ar. Todo o alívio de ter saído daquela casa ruiu em um segundo; o corpo inteiro voltou a tremer de forma violenta, esperando o pior vindo de alguém que ela sempre admirara em segredo.
Ao ver a reação desmedida dela, o rosto de Kuro mudou. A carranca dura se desfez em um vislumbre genuíno de culpa. Ele passou a mão pelos cabelos brancos repicados, praguejando baixinho contra a própria idiotice.
— Ei... calma — disse ele, a voz descendo várias oitavas, tornando-se muito mais suave. — Eu falei merda. Falei muito mal. Desculpa.
Tatsuyo continuava encolhida contra a porta do passageiro, a respiração curta e entrecortada.
— Olha pra mim, Tatsuyo — pediu ele, esperando pacientemente até que os olhos marejados dela encontrassem os seus. — Eu nunca tocaria em você. Eu não encosto a mão em ninguém que não queira. E, sinceramente, eu não preciso forçar mulher nenhuma a ficar comigo.
Ele respirou fundo, apoiando as duas mãos no volante novamente para dar espaço a ela, sem fazer nenhum movimento brusco.
— Eu só fiquei puto porque você é ingênua demais. Entrou num quarto sozinha com aquele desgraçado. Queria que você prestasse atenção, só isso. Mas fui um idiota falando daquele jeito. Você tá segura aqui. Ninguém vai encostar em você.
O tom sincero e a postura recuada de Kuro aos poucos desarmaram o gatilho de pânico de Tatsuyo. O ar voltou aos seus pulmões, ainda que pesado. Ela engoliu o choro, assentindo de leve com a cabeça, os cabelos compridos caindo sobre os ombros cobertos pela jaqueta dele. O aroma que vinha do tecido a acalmava de um jeito estranho, algo que ela jamais admitiria em voz alta. Kuro era a estrela do time, um atleta impecável, enquanto ela era a garota esquisita que todos evitavam. Ter a atenção dele ali já parecia um delírio.
Depois de alguns minutos em que apenas o motor do carro roncava baixo e o ar-condicionado amenizava o calor, Kuro quebrou o silêncio:
— Como diabos você foi parar lá em cima? E onde é que tá o Nico?
Tatsuyo baixou o olhar para o próprio colo, os dedos ainda inquietos sobre o tecido da jaqueta.
— O Nico... ele me mandou uma mensagem — murmurou ela, com a voz rouca pelo esforço de não chorar de novo. — Disse que tinha esquecido uma coisa no quarto do Hidan e me pediu pra buscar rápido.
A mandíbula de Kuro se contraiu visivelmente. O castanho escuro de seus olhos pareceu queimar de cólera.
— O Nico? — repetiu ele, com o tom carregado de um veneno frio. — O seu próprio irmão te mandou pra lá?
— Ele... ele não sabia o que o Hidan ia fazer — defendeu ela depressa, a lealdade fraterna falando mais alto, mesmo depois de tudo. — O Hidan disse que o Nico achava que era só uma brincadeira. Uma pegadinha pra me zoar. O Nico só... ele tem vergonha de mim perto do time. Ele queria parecer descolado, o cara que não liga pra irmã. Ele não sabia, Kuro. Tenho certeza de que não sabia.
Kuro apertou o volante com tanta força que o couro rangeu. A fúria dele não era moderada; era absoluta. Ele admirava o esforço de Nico nos treinos, via potencial no garoto de dezesseis anos, mas a covardia e a imbecilidade de rifar a própria irmã — a única família que o garoto tinha — para ganhar pontos com veteranos de bosta como Hidan fez o sangue de Kuro ferver nas veias.
— Liga pra ele — ordenou Kuro, a voz cortante.
Tatsuyo piscou, assustada com a dureza repentina.
— O quê? Não... não quero incomodar o Nico agora. Ele tá se divertindo e...
— Liga pro Nico, Tatsuyo. Agora — repetiu ele, olhando diretamente nos olhos dela, sem deixar margem para discussões.
Com as mãos trêmulas, ela tirou o telefone do bolso e discou o número do irmão. O aparelho chamou três vezes antes de Nico atender, o som da música alta vazando pelo fone.
— O que foi, Tatsuyo? — a voz de Nico soou impaciente e irritada do outro lado da linha. — Eu tô ocupado aqui embaixo com a galera.
— Nico... — ela tentou falar, mas a voz falhou. — Nico, por favor, vem aqui fora. Eu não tô bem. Aconteceu uma coisa... você precisa vir.
— Ah, não começa com drama — retrucou o garoto, sem paciência. — Eu não vou embora agora. A festa acabou de começar. Espera no carro ou vai pra casa se quiser, não enche meu saco.
Tatsuyo engoliu em seco, sentindo as lágrimas arderem novamente diante do desprezo do irmão mais novo.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, a mão grande e firme de Kuro surgiu diante de seu rosto, aberta em um pedido mudo.
Tatsuyo hesitou apenas por uma fração de segundo antes de entregar o aparelho a ele.
Kuro levou o telefone ao ouvido. Sua postura relaxada havia desaparecido por completo; ele agora parecia uma fera prestes a atacar no rinque de gelo, implacável e gélido.
— Nico — disse Kuro, sem elevar o tom, mas com uma autoridade sombria que calaria qualquer um.
A linha do outro lado pareceu congelar.
— K-Kuro? — a voz de Nico perdeu toda a empáfia em um milésimo de segundo, assumindo um tom vacilante e surpreso. — Por que você tá com o telefone da...
— Escuta muito bem o que eu vou te dizer — cortou Kuro, pausadamente. — Sai porra dessa casa agora. Você tem cinco minutos pra estar aqui no meu carro, na rua lateral. Se você demorar um segundo a mais do que isso, eu entro aí, te arrasto pelos cabelos na frente de todo mundo e quebro a sua cara no meio daquela sala. Entendeu?
Não houve resposta, apenas o som da respiração assustada do garoto do outro lado.
Kuro afastou o telefone do ouvido e encerrou a chamada sem esperar réplica. Jogou o celular de Tatsuyo sobre o painel com um movimento seco e voltou a olhar para a frente, encarando a escuridão da rua através do para-brisa.
O silêncio voltou a reinar no veículo. Ao lado dele, Tatsuyo permanecia encolhida na jaqueta oversized, o peito subindo e descendo devagar, dividida entre o choque, o medo do que aconteceria quando Nico chegasse e o turbilhão confuso de calor que a presença protetora de Kuro despertava em seu peito ferido.
Kuro não disse mais nada. Apenas cruzou os braços contra o peito musculoso e fixou os olhos no espelho retrovisor, esperando os minutos passarem.
