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Fandom: The Late Night Urban Legend LNUL
Criado: 06/10/2026
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Silêncio de Vidro e Sombras de Couro
A noite em North City Enigma nunca era verdadeiramente escura. Havia sempre um brilho neon pulsante, uma névoa elétrica que parecia subir do asfalto úmido e se misturar ao ar pesado da metrópole. Para Daniel F. Barrel, no entanto, aquele brilho era apenas o pano de fundo de mais um dia exaustivo de serviço na P.P.F. Seus passos ecoavam pelo corredor do prédio residencial, um som rítmico que geralmente era acompanhado pela expectativa doce de encontrar o conforto de seu lar.
Ele parou diante da porta familiar. O metal frio da maçaneta parecia o mesmo de sempre, mas havia algo na atmosfera que fez os instintos de Daniel, moldados por anos de operações de campo, entrarem em alerta máximo. O silêncio que vinha de dentro do apartamento não era o silêncio acolhedor de uma casa em repouso; era um silêncio denso, artificial, como se o próprio ar estivesse prendendo a respiração.
Daniel levantou a mão e bateu levemente na madeira.
— Marshall? — chamou ele, sua voz soando estranhamente alta no corredor vazio. — Marshall, querido, cheguei mais cedo.
Não houve resposta. Nem o som dos passos leves de Marshall, nem o tilintar dos anéis prateados em seus chifres negros, nem o balançar familiar daquela cauda canina que sempre batia contra os móveis quando ele estava animado. Apenas o vazio.
— Marshall Hotchkiss, se você estiver tentando me dar um susto, saiba que meu coração não é mais o mesmo de quando éramos recrutas — brincou Daniel, embora seu sorriso não alcançasse seus olhos.
Ele girou a chave. A porta se abriu com um clique seco.
O interior do apartamento estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pela luz da lua que filtrava pelas persianas. Daniel deu um passo para dentro, os sentidos aguçados. O cheiro de chá de camomila e cola de artesanato — o perfume natural de Marshall — ainda pairava no ar, mas estava misturado com algo metálico, algo que cheirava a medo.
Ele caminhou em direção à sala de estar. Seus olhos se ajustaram à escuridão e, no centro do cômodo, a cena que se revelou fez o sangue de Daniel congelar nas veias.
— Marshall! — o grito de Daniel foi um sussurro chocado.
Ali, sentado em uma das cadeiras de madeira da mesa de jantar, estava seu marido. Marshall ainda vestia o uniforme da loja de artesanato: a camisa azul-clara, o avental branco com o logotipo do envelope e o coração, e aquela bota de salto fino no pé direito que ele tanto adorava. Mas a imagem de serenidade que Marshall costumava projetar fora brutalmente despedaçada.
Cordas grossas prendiam seus pulsos atrás do encosto da cadeira e circulavam seu peito e pernas, prendendo-o firmemente à estrutura de madeira. O monitor hexagonal sobre seu olho direito piscava erraticamente, exibindo padrões de ruído estático e pontos de exclamação vermelhos que denunciavam seu pânico absoluto.
O que mais chocou Daniel, porém, foi a mordaça. Uma bola vermelha e brilhante estava forçada entre os lábios de Marshall, mantida no lugar por tiras de couro preto que se apertavam contra suas bochechas pálidas e se prendiam na nuca, logo abaixo de onde seus longos cabelos escarlates e pretos caíam em desordem.
Marshall começou a se debater freneticamente assim que viu Daniel. Seus olhos negros, geralmente calmos e amendoados, estavam arregalados e transbordando de lágrimas. Ele tentava gritar, mas tudo o que saía era um som abafado e desesperado contra o plástico da mordaça.
— Calma, calma! Eu estou aqui! — Daniel correu até ele, caindo de joelhos à frente da cadeira. — Marshall, olhe para mim. Respire. Eu vou te tirar disso.
As mãos de Daniel tremiam enquanto ele alcançava as tiras de couro. Marshall estava em um estado de choque tão profundo que seus chifres negros pareciam vibrar, e sua cauda estava encolhida entre as pernas da cadeira, tensa.
— Quem fez isso com você? — perguntou Daniel, a voz carregada de uma fúria fria que ele tentava esconder para não assustar ainda mais o marido. — Eles ainda estão aqui?
Marshall balançou a cabeça negativamente de forma violenta, o monitor em seu rosto mudando para um símbolo de "X" trêmulo. Ele continuava a emitir sons guturais, implorando silenciosamente pela libertação.
Daniel desembaraçou os cabelos de Marshall das fivelas da mordaça com cuidado cirúrgico. Com um clique, a pressão cedeu. Ele removeu a bola vermelha da boca de Marshall, que imediatamente soltou um soluço doloroso, sua mandíbula tremendo pelo esforço de ter sido mantida aberta por tanto tempo.
— Daniel... Daniel, por favor... — a voz de Marshall saiu rouca, quase um sussurro quebrado. — Eles... eles entraram por trás... eu não vi...
— Shh, não fale agora. Deixe-me soltar o resto — Daniel disse, movendo-se para trás da cadeira para desatar os nós das cordas.
Enquanto trabalhava, Daniel notou os detalhes do uniforme de Marshall. A tesoura vermelha e os lápis de artesanato ainda estavam no bolso do avental, intocados, o que sugeria que o agressor não queria roubá-lo, mas sim imobilizá-lo. Era uma mensagem. Alguém da P.P.F. ou de North City Enigma sabia exatamente onde eles moravam e quem Marshall era para Daniel.
Assim que a última corda caiu no chão, Marshall desabou para a frente. Daniel o segurou antes que ele atingisse o tapete, envolvendo-o em um abraço protetor. O corpo esguio de Marshall tremia incontrolavelmente, e ele escondeu o rosto no ombro de Daniel, soluçando abertamente agora.
— Está tudo bem, eu te peguei — murmurou Daniel, acariciando os cabelos escarlates do marido, sentindo as manchas pretas sedosas sob seus dedos. — Você está seguro agora. Ninguém vai tocar em você de novo.
— Eu estava com tanto medo — Marshall disse entre soluços, suas mãos agarrando a jaqueta de Daniel com uma força surpreendente. — Eu ouvi a porta abrir e achei que fossem eles voltando... achei que...
— Eu sei, eu sei. Mas sou eu. — Daniel o afastou um pouco para olhar em seu rosto. O monitor hexagonal de Marshall agora exibia um pequeno coração partido, pulsando em um tom de azul melancólico. — Você está ferido? Alguma coisa dói?
Marshall balançou a cabeça, limpando as lágrimas com as costas da mão pálida.
— Só meus pulsos... e minha mandíbula. Eles foram rápidos, Daniel. Eu estava apenas organizando as encomendas de papelaria no balcão da cozinha e, de repente, tudo ficou escuro.
Daniel olhou para os pulsos de Marshall. As marcas vermelhas das cordas se destacavam contra sua pele clara, um lembrete vívido da violência que ocorrera naquela sala. A raiva de Daniel borbulhava sob a superfície, mas ele a manteve sob controle. Marshall precisava de seu marido agora, não do agente da P.P.F.
— Vamos sair da sala — sugeriu Daniel suavemente. — Vamos para o quarto. Eu vou preparar um chá e cuidar desses pulsos.
— Não me deixe sozinho — Marshall pediu, seus olhos negros fixos nos de Daniel com uma vulnerabilidade que partia o coração do agente.
— Nunca — prometeu Daniel.
Ele ajudou Marshall a se levantar. O marido ainda vacilou um pouco sobre o salto da bota preta, sua constituição esguia parecendo mais frágil do que o normal sob o avental manchado de suor frio. Daniel o guiou até o quarto, sentando-o na beira da cama larga.
Enquanto Daniel buscava o kit de primeiros socorros e água, ele não conseguia parar de pensar no logotipo no avental de Marshall. O envelope aberto com o coração saindo de dentro. Era um símbolo de carinho, de comunicação, de amor. Ver aquele símbolo associado a cordas e mordaças era uma profanação que Daniel não perdoaria.
Ao retornar, ele encontrou Marshall tentando tirar o avental com as mãos trêmulas. Daniel se aproximou e o ajudou, desfazendo o laço nas costas e colocando a peça de lado. Sem o avental e a camisa de mangas curtas, as marcas nos braços de Marshall ficaram ainda mais evidentes.
— Eles não disseram nada? — perguntou Daniel enquanto aplicava uma pomada suave nos pulsos do marido.
— Apenas que era um aviso — Marshall respondeu, sua voz recuperando um pouco da estabilidade. — Disseram que a P.P.F. está se metendo onde não deve em North City. Que você deveria parar de cavar.
Daniel parou o movimento das mãos por um segundo. Então era isso. O caso dos desaparecimentos no Distrito das Sombras. Ele estava chegando perto demais da verdade e, como não podiam detê-lo diretamente sem atrair a atenção de toda a corporação, decidiram atingi-lo onde ele era mais humano.
— Marshall, eu sinto muito — disse Daniel, a voz carregada de culpa. — Isso é por minha causa. Eles usaram você para me atingir.
Marshall usou sua mão agora livre para tocar o rosto de Daniel. O monitor sobre seu olho brilhou com uma luz suave e amarela, formando um pequeno círculo, o símbolo de compreensão e calma.
— Daniel, olhe para mim — pediu Marshall. — Eu sabia com quem estava me casando. Eu sou um agente da P.P.F. também, mesmo que eu prefira minhas tesouras e papéis coloridos hoje em dia. Nós somos uma equipe.
— Mas eles te machucaram. Eles te amarraram como se você fosse um... — Daniel não conseguiu terminar a frase, a imagem da mordaça de bola vermelha voltando à sua mente.
— Eles tentaram me quebrar — Marshall o corrigiu, um lampejo da antiga determinação brilhando em seus olhos amendoados. — Mas você chegou. Você sempre chega.
Daniel suspirou, encostando sua testa na de Marshall. O contato com os chifres negros e frios de Marshall sempre o acalmava.
— Eu vou dobrar a segurança aqui. E vou terminar esse caso, Marshall. Vou terminar de um jeito que eles nunca mais ousem olhar para esta porta.
— Eu sei que vai — Marshall sorriu fracamente, sua cauda dando um pequeno e hesitante balanço sobre a colcha da cama. — Mas, por enquanto... apenas fique aqui. O chá pode esperar. A P.P.F. pode esperar.
Daniel concordou, puxando Marshall para seus braços e deitando-se com ele sobre a cama. O silêncio de North City Enigma lá fora continuava, mas aqui dentro, o som da respiração de Marshall, embora ainda um pouco curta, era a única coisa que importava.
— Eu te amo, Marshall Hotchkiss — sussurrou Daniel contra os cabelos escarlates.
— Eu também te amo, Mister Barrel — respondeu Marshall, fechando os olhos enquanto o monitor em seu rosto finalmente se apagava, permitindo que ele descansasse na segurança dos braços de seu marido.
A noite ainda era longa e os perigos de North City Enigma não haviam desaparecido, mas, naquela pequena bolha de espaço e tempo, a escuridão não tinha poder. Daniel permaneceria vigilante, uma sentinela silenciosa sobre o homem que era seu mundo, enquanto a promessa de justiça queimava em seu peito como uma chama que nenhuma sombra poderia apagar.
