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Rangshi

Fandom: Avatar o último mestre do ar

Criado: 06/10/2026

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Sombras e Correntes no Mercado de Prata

O ar no Mercado de Prata era espesso, saturado com o cheiro de suor, ferrugem e desespero. Localizado nas profundezas das Terras Baixas de Ba Sing Se, o leilão não vendia apenas antiguidades ou tecidos raros; ele vendia vidas. Rangi caminhava entre as barracas com uma elegância predatória que fazia a multidão se afastar instintivamente. Seus olhos amarelos, brilhando com uma intensidade lupina sob a luz das tochas, escaneavam o ambiente com desdém.

Aos dezoito anos, Rangi carregava a postura de uma aristocrata da Nação do Fogo, embora sua natureza fosse algo muito mais antigo e sombrio. Sua pele clara parecia quase translúcida sob o luar que se infiltrava pelas frestas do teto de madeira, e seu cabelo negro estava preso em um coque impecável. Ela não estava ali por prazer, mas por necessidade. Sua mansão nas colinas era vasta e silenciosa, e ela precisava de alguém que pudesse servir sem questionar, alguém que não temesse as sombras que habitavam sua linhagem vampírica.

— Próximo lote! — gritou o leiloeiro, um homem gordo com dentes manchados de tabaco. — Uma raridade das tribos da terra. Híbrida, jovem e domada!

Rangi parou. O termo "híbrida" despertou sua curiosidade. No palco central, uma figura pequena foi empurrada para frente. As correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos tilintaram rudemente contra a madeira.

Era uma menina. Não devia ter mais de doze anos. Sua pele era de um tom terroso e quente, salpicada por sardas que lembravam constelações sobre o nariz e as bochechas. O que a tornava única, no entanto, eram as orelhas pontudas e peludas que emergiam de seu cabelo castanho bagunçado, e uma cauda longa que pendia inerte, sem o vigor que um animal saudável demonstraria. Os pelos eram castanhos, mas as pontas brilhavam em um tom esverdeado estranho, como musgo crescendo em uma árvore antiga.

Rangi sentiu um aperto desconfortável no peito ao observar o estado da criança. A menina estava coberta de hematomas roxos e amarelados. Suas roupas eram trapos rasgados que mal escondiam a magreza extrema. Mas o que fez o sangue de Rangi ferver — um feito raro para uma vampira — foi a forma como o leiloeiro a tratava.

— Ela é resistente — disse o homem, puxando a menina pelos cabelos para exibir seu rosto ao público. — Já foi usada para entretenimento dos guardas e não quebrou. Ideal para trabalhos pesados ou... outros tipos de serviço.

O riso baixo e sujo que percorreu a plateia fez Rangi rosnar, um som gutural que vibrou em sua garganta. Ela viu a menina fechar os olhos com força, o corpo tremendo tanto que o metal das correntes não parava de ressoar. A criança parecia querer desaparecer dentro de si mesma.

— Cem peças de ouro — a voz de Rangi cortou o ar como uma lâmina fria.

O leiloeiro parou, surpreso pela oferta inicial tão alta.

— Cento e cinquenta! — gritou um mercador de aparência decadente na primeira fila, olhando para a menina com uma lascívia que fez a mão de Rangi se fechar em um punho.

— Quinhentas peças de ouro — disse Rangi, dando um passo à frente. A luz das tochas refletiu em suas presas levemente alongadas. — E se alguém ousar cobrir a oferta, eu considerarei um insulto pessoal à minha casa.

O silêncio caiu sobre o mercado. Ninguém em sã consciência desafiaria uma vampira daquela linhagem por uma escrava moribunda. O leiloeiro bateu o martelo rapidamente, ansioso para encerrar a transação.

Rangi subiu ao palco. O cheiro que emanava da menina era uma mistura dolorosa de medo, sangue seco e algo muito mais sinistro que denunciava os abusos recentes. Quando Rangi se aproximou, a menina se encolheu, escondendo o rosto entre os joelhos, soluçando sem emitir som.

— Levante-se — ordenou Rangi, tentando manter a voz neutra, embora a visão das marcas de mãos nos braços da pequena a fizesse querer queimar o lugar inteiro.

A menina não se moveu. Rangi suspirou e se inclinou, pegando a chave das mãos do leiloeiro trêmulo. Com movimentos precisos, ela soltou as correntes pesadas. A criança caiu para o lado, fraca demais para se sustentar. Rangi a segurou antes que ela atingisse o chão.

— Qual é o seu nome? — perguntou Rangi, enquanto a envolvia em sua própria capa de veludo negro.

A menina abriu um dos olhos, uma íris cinzenta e nublada pelo terror.

— Kyoshi... — sussurrou ela, a voz falhando.

— Venha, Kyoshi. Você não pertence mais a este lugar.

O trajeto até a mansão foi feito em silêncio. Rangi carregou a menina nos braços durante todo o caminho, ignorando o fato de que a pequena lobisomem tentava se afastar a cada toque. Kyoshi estava em estado de choque, seu corpo reagindo a qualquer movimento brusco como se esperasse um golpe.

Ao chegarem à residência, Rangi levou-a diretamente para uma ala isolada, longe dos olhos dos poucos servos que mantinha. Ela colocou Kyoshi sobre uma cama macia, mas a menina imediatamente rolou para o chão, escondendo-se no canto escuro entre o guarda-roupa e a parede.

— Não vou machucar você — disse Rangi, mantendo uma distância segura. — Você está segura aqui.

Kyoshi abraçou as próprias pernas, a cauda enrolada protetoramente em volta do corpo. Suas orelhas estavam baixas, coladas à cabeça.

— Você vai... você vai me usar também? — A voz de Kyoshi era um fio de angústia. — Os homens... eles disseram que eu ia ter um filhote deles. Que eu ia carregar a semente deles porque sou um animal.

Rangi sentiu uma náusea gelada. A brutalidade do que aquela criança passara era difícil de processar, mesmo para alguém que já vira séculos de história. Ela se ajoelhou, mantendo as mãos visíveis.

— Ninguém vai encostar em você, Kyoshi. Eu comprei você para ser minha empregada, mas, no estado em que está, sua única tarefa agora é sobreviver e se recuperar. Eu sou Rangi. E nesta casa, minha palavra é a única lei.

Kyoshi olhou para a mulher alta e pálida. Havia algo na frieza de Rangi que, paradoxalmente, parecia sólido. Não havia a luxúria caótica dos homens do mercado, apenas uma determinação gélida.

— Eu estou doente por dentro — soluçou Kyoshi, as lágrimas limpando trilhas na sujeira de seu rosto. — Eu sinto dor na barriga. Eu acho que... acho que o que eles disseram aconteceu. Eu não quero ter um monstro dentro de mim.

Rangi fechou os olhos por um momento, controlando a fúria que ameaçava transbordar. Ela sabia que, fisiologicamente, a menina ainda era uma criança. A puberdade nem sequer havia começado para aquela pequena lobisomem, mas o trauma era tão profundo que Kyoshi não conseguia distinguir a dor do abuso da possibilidade biológica.

— Você não vai ter filho nenhum, pequena — afirmou Rangi com firmeza. — Você é jovem demais para isso. O que você sente é o seu corpo tentando se curar de feridas que nunca deveriam ter sido abertas.

— Mas eles disseram...

— Eles mentiram para assustar você — interrompeu Rangi. — Eu vou chamar um médico de minha confiança. Alguém que saiba lidar com a sua espécie. Até lá, você vai tomar um banho e comer.

Rangi se levantou e caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— Há roupas limpas em cima da cama. E comida na bandeja. Não force seus limites, Kyoshi. O medo leva tempo para passar.

Nos dias que se seguiram, a mansão tornou-se um refúgio silencioso. Kyoshi passava a maior parte do tempo escondida em seu quarto. Ela comia apenas quando Rangi não estava presente, mas a vampira notava que os pratos eram esvaziados com uma voracidade que falava de anos de fome.

Rangi, por sua vez, observava de longe. Ela via a menina tentar limpar o quarto com mãos trêmulas, tentando ser útil para não ser descartada. Kyoshi ainda usava a capa de Rangi como um cobertor de segurança, o cheiro de sândalo e frio da vampira parecendo acalmá-la de alguma forma primitiva.

Certa noite, Rangi ouviu um grito abafado vindo do quarto de Kyoshi. Ela atravessou o corredor em segundos, a velocidade vampírica tornando-a um borrão. Ao abrir a porta, encontrou a menina encolhida no chão, as mãos pressionando o ventre, o rosto banhado em suor.

— Kyoshi! O que houve?

— Dói... — gemeu a menina. — Está acontecendo, Rangi. Eu estou morrendo. Tem... tem sangue.

Rangi se aproximou e viu a mancha avermelhada no lençol onde a menina estivera sentada. Por um momento, o instinto de predadora de Rangi reagiu ao cheiro de sangue fresco, mas ela o esmagou imediatamente. Ela percebeu o que estava acontecendo. O estresse, o trauma e a mudança de ambiente haviam desencadeado o ciclo biológico de Kyoshi precocemente, ou talvez fosse apenas o tempo agindo, apesar de tudo.

— Você não está morrendo — disse Rangi, sentando-se no chão ao lado dela, ignorando a etiqueta. — E não é um bebê.

Kyoshi olhou para ela, os olhos arregalados, o terror estampado em cada sarda.

— Então o que é? Por que eu estou sangrando?

Rangi hesitou. Ela não era uma figura materna, nunca pretendera ser. Mas ali, diante da fragilidade absoluta daquela criatura que fora tão quebrada pelo mundo, algo em seu peito morto pareceu pulsar.

— É o seu corpo se tornando o corpo de uma mulher, Kyoshi. É natural, embora o momento seja difícil. Chama-se menstruação.

Kyoshi soluçou, escondendo o rosto no ombro de Rangi. Foi a primeira vez que a menina buscou o contato físico voluntariamente. O corpo da pequena lobisomem era quente, um contraste vibrante com a pele gélida da vampira.

— Eu achei que eles tinham me estragado para sempre — sussurrou Kyoshi entre soluços.

Rangi passou os braços ao redor dela, sentindo as orelhas de Kyoshi roçarem em seu pescoço. A cauda da menina, pela primeira vez, envolveu o pulso de Rangi, um gesto de confiança instintivo.

— Eles tentaram — disse Rangi, sua voz soando como um juramento sombrio. — Mas você é mais forte do que a maldade deles. Eu vou cuidar de você, Kyoshi. Ninguém mais vai tocar em um fio de cabelo seu enquanto eu respirar.

Kyoshi não respondeu com palavras, apenas apertou mais o abraço. O medo ainda estava lá, uma sombra longa que demoraria anos para encolher, mas, naquele momento, entre o frio da vampira e o calor da loba, um pacto silencioso foi selado. Kyoshi não era mais um lote de leilão. Ela era alguém. E Rangi, pela primeira vez em décadas, tinha algo pelo qual valia a pena manter sua humanidade preservada.

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