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O primeiro beijo

Fandom: mundo torajo

Criado: 07/10/2026

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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemHistória DomésticaCenário CanônicoCiúmes
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Fios Desencapados

Morajo odiava esperar. Odiava a sensação viscosa do silêncio que se acumulava em cômodos vazios, odiava o barulho constante do relógio na parede da sala e, acima de tudo, odiava a maneira como seus próprios pensamentos pareciam uma fiação desencapada, soltando faíscas a cada batimento cardíaco. Ele batia o pé freneticamente contra o piso de madeira, os braços cruzados com tanta força sobre o peito que as pontas dos dedos começavam a ficar dormentes.

Por fora, parecia apenas o mesmo Morajo de sempre: de cara fechada, sobrancelhas franzidas em uma linha perpétua de irritação, pronto para mandar qualquer um calar a boca no primeiro sinal de ingenuidade. Mas por dentro, havia um dique prestes a se romper.

Ele tinha essa mania detestável de engolir tudo. Guardava as frustrações com o irmão, guardava a raiva das situações idiotas em que se metiam, guardava a sensação constante de inadequação e, mais recentemente, guardava algo muito pior, algo quente e sufocante que não tinha a menor permissão de estar ali.

E a causa de todo aquele tumulto estava sentada no chão da sala, a menos de dois metros dele.

Analice terminava de organizar algumas folhas soltas, concentrada, cantarolando uma melodia sem sentido que só servia para deixar os nervos de Morajo ainda mais à flor da pele. Havia uma calma nela que o desconcertava. Enquanto o mundo parecia girar em um turbilhão caótico de cores berrantes e gritarias infantis — grande parte cortesia de Torajo —, Analice parecia existir em um ritmo completamente diferente, suave e desarmante.

— Dá pra você parar com esse barulho? — disparou Morajo de repente, a voz saindo mais áspera do que pretendia.

Ela ergueu os olhos escuros, surpresa, piscando algumas vezes antes de abrir um meio sorriso paciente. Era sempre assim. Ele rosnava e ela não recuava; apenas esperava a tempestade passar. Aquilo o enfurecia ainda mais.

— O cantarolar ou o barulho do papel? — perguntou ela, inclinando a cabeça de lado.

— Tudo. A sua existência inteira fazendo barulho nessa sala — resmungou ele, virando o rosto e encarando a janela. O céu do fim de tarde tingia o horizonte com tons alaranjados e violetas, cores que ele secretamente achava bonitas demais para admitir em voz alta.

— Você está mais inquieto do que o normal hoje, Morajo — observou Analice com serenidade, deixando as folhas sobre a mesinha de centro. — Parece que vai explodir a qualquer segundo.

— Eu não vou explodir. Eu estou perfeitamente normal.

— Você está batendo o pé há quarenta minutos seguidos. O chão já deve ter afundado um centímetro.

Morajo parou a perna no mesmo instante, enfiando as mãos nos bolsos do casaco para disfarçar o tremor sutil nos dedos. Ele sentia o peso do olhar dela sobre si, e aquele olhar queimava. Analice tinha essa habilidade aterrorizante de enxergar através das camadas grossas de cinismo que ele passava semanas construindo.

— Não enche — murmurou ele, sem nenhuma convicção real.

Ela soltou uma risadinha baixa, quase inaudível, mas que ressoou diretamente na espinha dele. Levantou-se do chão com uma facilidade invejável, sacudindo as roupas, e deu dois passos em direção ao sofá onde ele estava apoiado. Morajo imediatamente retesou os ombros, colocando-se na defensiva.

— O Torajo já deve estar voltando com as coisas da padaria — disse ela, parando ao lado dele, perto o suficiente para que Morajo sentisse o perfume leve de baunilha que parecia segui-la por toda parte. — Se você quiser, nós podemos terminar isso amanhã. Você parece exausto.

— Eu não estou exausto! — rebateu ele, virando-se bruscamente para encará-la. A proximidade o pegou desprevenido. Seus olhos se chocaram com os dela, e por um segundo miserável, a mente de Morajo deu um curto-circuito. — Eu só quero acabar logo com isso pra não ter que ficar preso aqui o dia inteiro.

— Ninguém está te obrigando a ficar aqui comigo, sabia? — O tom dela não era maldoso, apenas genuíno. E aquilo, de alguma forma bizarra, doeu. — Se você preferir ir para o seu quarto, eu posso organizar o resto sozinha.

Morajo apertou os maxilares com tanta força que os dentes rangeram.

— E deixar você fazendo tudo enquanto o idiota do meu irmão provavelmente vai esquecer metade das coisas na rua? Nem pensar. Você é boazinha demais, esse é o seu problema. As pessoas montam em você e você ainda pede desculpas pelo peso.

Analice piscou, momentaneamente desarmada pela intensidade dele. Havia uma ruga tênue de preocupação entre as sobrancelhas dela.

— Morajo, por que você sempre acha que tudo é uma guerra?

— Porque é! — exclamou ele, gesticulando no ar com impaciência, os braços se movendo antes que seu cérebro pudesse filtrar a ação. — O mundo é uma porcaria, as pessoas são egoístas, e se você não levantar uma muralha, elas passam por cima de você como se você fosse nada!

— Nem todo mundo quer te machucar — rebateu ela em um sussurro, dando mais meio passo à frente.

— Você não sabe disso.

— Eu sei. Eu conheço você.

Aquelas palavras simples caíram sobre Morajo como um balde de água fervendo. "Eu conheço você". Uma mentira. Ela não o conhecia. Ninguém conhecia. Ninguém via as noites em que ele ficava acordado no teto escuro do quarto, sentindo o peito apertado com sentimentos que ele não sabia como nomear, com o medo constante de ser sempre a sombra azeda, o cara amargo que afasta todo mundo. Ninguém via como a garganta dele fechava toda vez que Analice sorria para ele daquele jeito cúmplice, como se compartilhassem um segredo que ele nunca teve coragem de colocar em palavras.

— Você não sabe nada sobre mim, Analice — disse ele, a voz caindo para um tom perigosamente baixo, rouco pelo esforço de conter a si mesmo.

— Sei mais do que você pensa.

— Ah, é? — Ele soltou uma risada sarcástica e fria, dando um passo à frente, diminuindo ainda mais o espaço entre eles. O impulso cego começava a tomar o controle de suas faculdades mentais. Quando Morajo ficava encurralado emocionalmente, ele atacava. Era seu mecanismo de defesa mais antigo: queimar as pontes antes que alguém pudesse atravessá-las. — Então me diz. O que é que você sabe?

Analice não recuou. Ela ergueu a cabeça para sustentar o olhar tempestuoso dele. Havia uma sombra de hesitação em seus olhos, mas ela não arredou o pé.

— Eu sei que você se importa mais do que deixa transparecer — começou ela, a voz firme, embora calma. — Sei que você reclama do Torajo o dia inteiro, mas não hesitaria em pular na frente de um caminhão por ele. Sei que você faz questão de parecer insensível porque morre de medo de que alguém perceba o quanto você se machuca com qualquer besteira. E sei... que você está guardando alguma coisa há semanas. Algo que está te consumindo por dentro.

Morajo congelou.

O ar pareceu evaporar da sala. A sala de estar, a luz do entardecer, os papéis espalhados, o som distante dos carros na rua — tudo desapareceu, reduzido apenas aos olhos de Analice fixos nos dele, despindo todas as suas defesas com uma precisão cirúrgica.

O coração dele deu um salto violento contra as costelas. Era como se ela tivesse enfiado a mão dentro do seu peito e tocado a ferida aberta que ele passava dias tentando ignorar. A impaciência crônica que sempre o perseguia se transformou em uma urgência cega, desesperada. Ele não aguentava mais. Aquele peso era grande demais para carregar calado, e a impulsividade de Morajo, sua pior e mais perigosa característica, assumiu o volante.

— Quer saber o que tá me consumindo? — perguntou ele, a respiração agora entrecortada, dando mais um passo incisivo até que estivessem a poucos centímetros de distância. Ele conseguia ver o reflexo alaranjado da janela brilhando nos olhos dela. — Quer mesmo saber, Analice?

— Morajo... — ela começou, talvez percebendo pela primeira vez o perigo no tom dele, a intensidade crua e desmedida que transbordava de sua postura.

— É você! — explodiu ele, as palavras saindo rasgadas, sem freio, sem filtro, tropeçando umas nas outras. — É essa sua mania de agir como se tudo fosse ficar bem! É você ficar aqui do meu lado, aguentando o meu mau humor quando qualquer pessoa sã já teria ido embora! É o jeito que você me olha, como se eu fosse alguém que vale a pena tentar entender!

Analice entreabriu os lábios, surpresa, mas ele não parou. Ele não conseguia parar. A represa havia quebrado e a correnteza o arrastava sem qualquer misericórdia.

— Eu não consigo pensar direito quando você tá por perto! — continuou ele, dando um passo trôpego, as mãos tremendo visivelmente ao lado do corpo. — Eu tento odiar essa porcaria de sentimento, tento fingir que você é só... só mais uma pessoa insuportável no meio de todas as outras, mas não dá! Nada do que eu faço adianta! Eu passo a porcaria do dia inteiro esperando você chegar e depois passo a porcaria da tarde inteira com raiva de mim mesmo por querer que você não vá embora!

Os olhos de Analice se arregalaram em choque absoluto. Ela deu um passo involuntário para trás, mas suas costas encontraram a borda da estante de livros. Ela parecia ter esquecido como respirar.

— Morajo, o que... o que você tá dizendo? — murmurou ela, a voz falhando, as bochechas subitamente coradas em um tom escarlate que contrastava com sua expressão perplexa.

Ele estava tão perto que conseguia sentir o calor da pele dela. Sua visão estava turva pela adrenalina, pelo terror puro de ter aberto o peito daquela maneira vergonhosa. O silêncio que se seguiu à sua explosão foi ensurdecedor. Morajo sentiu o gosto amargo do pânico subir pela garganta, mas o impulso ainda não havia terminado de cobrá-lo. Havia uma última frase, a confissão final que mudaria absolutamente tudo para sempre, pendurada na ponta da sua língua como uma sentença de morte.

Ele fechou os punhos com tanta força que as unhas se cravaram nas palmas das mãos.

— Eu tô dizendo que... — Ele engoliu em seco, sentindo a garganta raspar, os olhos grudados nos dela. — Eu tô dizendo que eu não ligo pra droga nenhuma no mundo, mas eu... eu não consigo parar de... de gostar de—

O estrondo da porta da frente se abrindo com violência cortou o ar como um machado caindo sobre a madeira.

— CHEGUEI, CAMBADA! — A voz estridente e alegre de Torajo ecoou pelo corredor de entrada, acompanhada pelo barulho de sacolas plásticas farfalhando e sapatos chutados sem cuidado pelo chão. — Trouxe os pães de queijo e aqueles doces esquisitos que a Analice gosta! Morajo, você não vai acreditar no cachorro que eu vi na rua, ele era do tamanho de um...

A frase morreu na garganta de Torajo assim que ele dobrou a esquina do corredor e pisou na sala de estar.

O cenário era paralisante. Morajo estava colado em Analice, a respiração ofegante, os punhos cerrados e o rosto tomado por um misto aterrorizante de choque, fúria e vergonha pura. Analice estava encostada na estante, as mãos espalmadas contra a madeira atrás de si, os olhos arregalados e o rosto em chamas, olhando para Morajo como se ele tivesse acabado de se materializar do nada.

O silêncio caiu como uma tonelada de chumbo.

Torajo olhou de um para o outro, as sobrancelhas erguidas até quase a raiz do cabelo. Ele segurava uma sacola de papel engordurada em uma mão e um refrigerante na outra.

— ...Eu perdi alguma coisa? — perguntou Torajo, piscando devagar, o tom oscilando entre a confusão genuína e a suspeita. — Vocês estavam... brigando de novo?

A realidade atingiu Morajo como um soco no estômago. O feitiço quebrou. A névoa de adrenalina e impulso evaporou em uma fração de segundo, deixando para trás apenas a vergonha gélida e paralisante.

Ele quase tinha dito.

Ele tinha chegado a um centímetro, a uma única sílaba de admitir tudo. De se colocar de joelhos, emocionalmente desarmado, na frente da única garota capaz de destruí-lo com uma palavra.

Instintivamente, Morajo deu dois passos largos para trás, tropeçando na própria sombra antes de se recompor com uma rigidez artificial. O rosto dele ardia tanto que ele tinha certeza de que sua pele estava da cor de um tomate maduro.

— Nada — rosnou ele, a voz saindo esganiçada antes de ele forçar um tom mais grave, tossindo secamente para disfarçar. — Não era nada.

Analice continuava imóvel, olhando para ele. Ela não desviava o olhar por nada. Havia tantas perguntas não feitas naquele silêncio, tanta surpresa misturada com algo indefinível que Morajo sentiu que ia vomitar de tanto nervosismo.

— Bom... — Torajo coçou a nuca com a mão livre, visivelmente desconfortável com a atmosfera tensa e quase elétrica que pesava entre os dois. — O pão de queijo ainda tá quente. Se vocês quiserem...

— Eu não quero nada — cortou Morajo bruscamente, sem olhar para nenhum dos dois. Ele não conseguia encarar Analice. Não agora. Provavelmente nunca mais na vida, se dependesse de sua vontade imediata de cavar um buraco no chão e desaparecer para sempre. — Perdi a fome. E perdi a paciência.

— Morajo, espera — pediu Analice, a voz dela saindo como um apelo suave, quase quebrado. Ela deu um passo em direção a ele, erguendo a mão como se quisesse tocá-lo no ombro.

O gesto assustou Morajo mais do que qualquer ameaça física. Ele recuou como se tivesse sido queimado, desviando o corpo e disparando em direção ao corredor dos quartos com passadas pesadas e desajeitadas.

— Fica aí com o seu lanche — gritou ele por cima do ombro, a voz trêmula de frustração reprimida e puro desespero. — Eu tenho mais o que fazer!

Ele entrou no próprio quarto e bateu a porta com tanta força que o quadro pendurado na parede balançou perigosamente. No mesmo segundo, girou a chave na fechadura, trancando-se naquele espaço fechado e seguro.

Morajo encostou as costas contra a porta de madeira e deslizou lentamente até o chão, sentando-se com os joelhos dobrados contra o peito. Ele enterrou o rosto nas mãos, sentindo a própria respiração descompassada queimar contra as palmas. Seu coração parecia um pássaro em pânico batendo contra as costelas.

Ele tinha sido um idiota. Um completo, impulsivo e descontrolado idiota.

Por anos ele tinha se orgulhado de guardar tudo para si, de ser impenetrável, de não dar a ninguém as ferramentas necessárias para machucá-lo. E em menos de cinco minutos de provocação e proximidade, ele havia jogado tudo pelos ares, derramando as entranhas dos seus sentimentos diante dela como um amador.

Do outro lado da porta, o som abafado da sala chegava até ele. Ele ouviu a voz confusa de Torajo murmurar algo indistinto, seguido pelo silêncio prolongado de Analice. Ela não respondeu imediatamente.

Morajo puxou os próprios cabelos com as mãos, soltando um gemido abafado de frustração. Ele sabia que as coisas não voltariam ao normal. O que quer que existisse entre eles antes — as brincadeiras sutis, a coexistência confortável disfarçada de tolerância mútua — tinha sido irremediavelmente alterado.

Ele quase dissera. E a pior parte, a que mais doía no fundo do seu peito apertado, era saber que, se Torajo tivesse demorado apenas mais três segundos para abrir aquela porta... ele teria dito tudo.

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