
Via de mão dupla
Fandom: Alien stage
Criado: 07/10/2026
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Ruído de Corredor e Outras Distrações
O sol da manhã batia nas janelas do terceiro ano com uma insistência irritante, iluminando a poeira que dançava no ar e o desleixo generalizado de quem já não aguentava mais o ensino médio. Para Mizi, aquele era apenas mais um dia sendo o centro gravitacional de qualquer ambiente em que pisasse. Ela caminhava pelo corredor com a confiança de quem era dona do prédio, a saia curta balançando e a gravata frouxa pendurada no pescoço como um acessório opcional.
— Eu juro, se o professor de física falar de vetores mais uma vez, eu vou ter um colapso nervoso ali mesmo, no meio da sala — Nari comentava, gesticulando com um entusiasmo que claramente não combinava com o tédio da matéria. Seus cabelos pretos com mechas roxas brilhavam sob as lâmpadas fluorescentes. — Mizi, você ouviu o que eu disse?
Mizi tirou os olhos do celular, dando um sorriso de canto, carregado daquela ironia habitual que fazia metade da escola suspirar e a outra metade ter medo.
— Ouvi, Nari. Mas relaxa, você já é um vetor de burrice, não precisa estudar mais nada — Mizi soltou, a voz suave, mas a língua afiada.
Nari parou, fingindo uma ofensa mortal, enquanto Arin, que caminhava ao lado delas com o uniforme impecavelmente alinhado, soltou um riso baixo e contido.
— Ela não mentiu, Nari — Arin pontuou, ajeitando a alça da mochila. — Mas falando sério, a prova é semana que vem.
— Ah, calem a boca, as duas — Nari resmungou, embora logo voltasse a sorrir quando um grupo de garotos do segundo ano passou por elas, encarando Mizi como se tivessem acabado de ver uma divindade.
Mizi nem sequer olhou de volta. Ela sabia que era bonita. Sabia que o cabelo rosa com pontas azuis e aqueles olhos dourados eram o que mantinha o ego de muitos ali em frangalhos. Mas, honestamente? Era tudo tão... entediante. Os garotos eram previsíveis, as cantadas eram péssimas e a atenção, embora constante, parecia não preencher nada de verdade.
Enquanto o trio das garotas populares dobrava o corredor em direção ao pátio, elas passaram por um canto mais silencioso, perto da biblioteca. Ali, o clima mudava drasticamente.
Sua estava sentada em um banco de pedra, com as pernas cruzadas e um livro de capa dura apoiado nos joelhos. Seus olhos roxos percorriam as linhas com uma velocidade metódica, alheia ao caos do intervalo. Ao lado dela, Luka estava quase em uma pose de estátua. O uniforme dele era tão perfeito que chegava a ser desconfortável de olhar; o blazer engomado, os óculos perfeitamente ajustados no rosto pálido. Ele revisava algumas anotações em um tablet, o cenho levemente franzido.
— Esse capítulo sobre a Revolução Industrial é mal escrito — Luka comentou, a voz baixa e monótona. — O autor ignora variáveis econômicas cruciais do período pré-conflito.
Sua não tirou os olhos do livro, mas virou a página com delicadeza.
— A maioria dos livros escolares ignora o que é interessante em favor do que é funcional, Luka. Você sabe disso.
— Ainda assim, é ineficiente — ele rebateu.
Os dois mergulharam no silêncio novamente. Não era um silêncio constrangedor. Era o código deles. Eles não precisavam de barulho, de gírias ou de validação externa. Sua gostava da melancolia do seu próprio mundo interno, e Luka... bem, Luka gostava da lógica. E de observar, de longe, algo que a lógica não explicava.
Luka levantou o olhar por um breve segundo, ajustando os óculos. Do outro lado do pátio, a figura de Hyuna surgiu, rindo alto de alguma coisa que o irmão de Sua tinha dito. O coração de Luka deu um solavanco imperceptível, mas sua expressão permaneceu gélida. Hyuna era o oposto dele: solar, morena, cheia de uma energia que parecia transbordar. Ele voltou a olhar para o tablet, sentindo aquela pontada familiar de algo que ele preferia chamar de "distração biológica".
Longe da paz da biblioteca, o grupo 3 era o epicentro do caos.
— Ai, caralho, Ivan! Me devolve essa porra agora! — Till gritou, avançando sobre o moreno mais alto.
Ivan deu um passo para trás com uma agilidade irritante, erguendo o braço para manter o fone de ouvido de Till fora do alcance do garoto de cabelos cinzas. Ivan tinha um pirulito na boca, movendo-o de um lado para o outro enquanto exibia aquele sorriso cínico que mostrava sua presa característica.
— O que foi, Till? Ficou estressadinho porque eu interrompi seu rock deprê? — Ivan provocou, os olhos pretos brilhando de diversão maligna. — Deixa eu ver... o que você estava ouvindo? "Ninguém me entende, a vida é uma dor"?
— Vai tomar no seu cu! — Till rosnou, o rosto ficando vermelho de raiva. Ele tentou pular para pegar o fone, mas Ivan era mais alto e muito mais rápido. — Eu vou quebrar a sua cara, eu tô falando sério!
Hyuna, que estava encostada em uma mureta observando a cena, soltou uma gargalhada genuína, jogando o cabelo longo para trás.
— Deixa ele, Ivan. Você sabe que o Till não funciona sem a dose diária de barulho no ouvido — disse ela, embora não fizesse nenhum esforço real para intervir. Ela adorava a dinâmica caótica dos dois.
— Ele é muito fácil de irritar, Hyuna. É tentação demais — Ivan disse, finalmente jogando o fone de volta para Till.
Till pegou o objeto no ar, bufando e ajeitando a camisa do uniforme que estava toda amarrotada e com uma mancha suspeita de café perto da gola.
— Você é um moleque insuportável, sabia? — Till resmungou, colocando os fones de volta e aumentando o volume até que o som da guitarra distorcida pudesse ser ouvido por quem estivesse a um metro de distância.
Ivan deu de ombros, tirando o pirulito da boca e olhando para Till com uma intensidade que o garoto estressado nunca notaria. Ele adorava quando Till ficava assim, com os olhos verdes faiscando de ódio direcionado a ele. Era a única forma que Ivan conhecia de garantir que Till estivesse olhando apenas para ele, mesmo que fosse com raiva. O segredo queimava na garganta de Ivan, mas ele o engolia com o açúcar do pirulito, transformando desejo em deboche.
Nesse momento, o grupo de Mizi passou por eles para entrar no refeitório. Mizi caminhava na frente, alheia à confusão de Ivan e Till, mas sentiu o olhar de Hyuna sobre seu grupo.
Hyuna acenou brevemente. Ela conhecia Sua, a irmã de Ivan, e por tabela sabia quem eram as pessoas que orbitavam aquele círculo, mas não tinha intimidade com o "trio de ferro" das garotas bonitas.
— Aquela ali não é a irmã do Ivan? — Nari perguntou baixinho para Mizi, apontando discretamente para onde Sua e Luka estavam sentados, agora mais próximos do caminho do refeitório.
Mizi olhou de relance. Viu a garota baixa de cabelos pretos e olhos roxos. Sua parecia um fantasma, tão quieta e contida. Por um segundo, os olhos de Mizi se demoraram no rosto de Sua. Havia algo na expressão melancólica da outra garota que a fez sentir um estranho desconforto no estômago, uma curiosidade que ela não soube nomear.
— É a esquisita e o nerd — Mizi respondeu, recuperando o tom sarcástico rapidamente. — Vamos logo, eu tô com fome e não quero ficar aqui fora pegando sol.
— Credo, Mizi, que mau humor — Nari riu, seguindo a amiga.
Arin, no entanto, percebeu o olhar demorado de Mizi. Ela não disse nada, apenas guardou a observação. Arin sempre guardava tudo.
Enquanto entravam, cruzaram com Ivan, que vinha saindo com Till e Hyuna. O corredor era estreito. Till, em seu mundo de música e revolta, quase esbarrou em Mizi.
— Ei, olha por onde anda, projeto de punk — Mizi soltou, parando e encarando Till com um olhar de superioridade.
Till tirou um dos lados do fone, franzindo a testa.
— O corredor é público, não é? Se quer espaço, compra uma mansão — ele rebateu, sem paciência para a hierarquia social da escola.
Nari arregalou os olhos. Ninguém falava assim com a Mizi.
Mizi deu um passo à frente, ficando bem próxima de Till. Ela era mais alta que ele, o que tornava a intimidade da provocação ainda mais evidente.
— Caralho, tu é burro assim mesmo ou fez curso? — ela perguntou, a voz baixa e perigosa. — Se encostar em mim de novo, eu garanto que esse seu fone vai parar em um lugar bem desconfortável.
Ivan soltou um assobio baixo, achando a cena hilária.
— Uuuuh, Till, acho que ela te jantou agora — Ivan provocou, colocando a mão no ombro do amigo, apenas para ter a mão afastada bruscamente.
— Vai se ferrar, Ivan! E você também, boneca de luxo — Till resmungou para Mizi, saindo pisando fundo.
Hyuna deu um sorriso amarelo para Mizi, um pedido silencioso de desculpas pelo amigo, e seguiu os dois.
Mizi ficou parada por um momento, observando o grupo se afastar. Ela sentia a adrenalina da pequena discussão, mas algo estava diferente. Seu olhar não seguiu Till, nem Ivan. Seus olhos voltaram para o banco de pedra lá fora, onde Sua ainda lia, alheia a todo o drama.
— Mizi? Terra chamando Mizi — Nari estalou os dedos na frente do rosto da amiga.
— O que foi? — Mizi perguntou, irritada.
— Você ficou encarando o nada. Vamos comer.
Mizi assentiu, mas enquanto caminhava, a imagem da garota de olhos roxos e silêncio profundo não saía de sua mente. Ela sempre soube que os garotos da escola eram idiotas — o episódio com Till só provava isso —, mas ela nunca tinha parado para pensar por que, exatamente, a atenção deles a deixava tão indiferente. E por que, de repente, o silêncio de uma garota que ela mal conhecia parecia muito mais interessante do que qualquer elogio que já recebera.
Naquele mesmo instante, na mesa do refeitório, Ivan abria um novo pirulito, observando Till socar a mesa por causa de um jogo no celular.
— Você é um idiota, Till — Ivan disse, a voz suave, escondendo a vontade de simplesmente dizer outra coisa. — Mas é o meu idiota preferido.
— Morre, Ivan — Till respondeu, sem olhar para cima.
Ivan sorriu. Ele podia esperar. Ele era bom em esperar, em provocar e em esconder quem realmente era sob camadas de açúcar e deboche.
A escola era um ecossistema de segredos bem guardados, de grupos que se cruzavam sem se tocar, e de sentimentos que, como a poeira sob o sol, estavam apenas esperando o vento certo para começarem a dançar. O terceiro ano estava apenas começando, e as linhas que separavam aqueles seis estavam prestes a se tornar muito mais borradas do que qualquer um deles poderia prever.
