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Rangshi 2

Fandom: Avatar o último mestre do ar

Criado: 07/10/2026

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O Preço do Silêncio

As luzes da arena ainda latejavam sob as pálpebras de Rangi. O rugido da multidão, o cheiro metálico de sangue e o aroma forte de suor eram elementos que ela chamava de lar. Naquela noite, em Ba Sing Se, ela havia derrubado um oponente que tinha o dobro do seu tamanho com uma sequência de chutes que deixaria qualquer mestre de dobra de fogo orgulhoso, se dobras fossem permitidas no octógono de MMA extremo. Vestida em seu icônico traje carmesim, Rangi era a personificação da fúria da Nação do Fogo.

Mas, fora do ringue, a fera adormecia.

Enquanto caminhava para a saída dos fundos, ignorando a dor em seus nós dos dedos, uma pequena figura a interceptou. Era uma menina. Rangi parou, a expressão suavizando-se instantaneamente. A criança era alta para a idade, talvez uns doze anos, com uma pele escura salpicada de sardas que pareciam constelações e olhos de um verde tão profundo que lembravam as florestas do Reino da Terra.

— Rangi... você foi incrível — sussurrou a menina, estendendo um caderno surrado.

A lutadora sorriu, pegando a caneta.

— Qual o seu nome, pequena?

— Kyoshi — respondeu ela, os olhos brilhando com uma adoração pura.

Rangi assinou com um floreio, devolvendo o caderno.

— Treine duro, Kyoshi. Talvez um dia você esteja lá em cima comigo.

Aquele encontro breve ficou gravado na mente de Rangi enquanto ela caminhava pelas ruas úmidas do Distrito Inferior horas depois. Ela precisava de ar, de silêncio, de algo que não fosse a adulação ensurdecedora dos fãs. No entanto, o destino tinha planos mais sombrios. Ao dobrar uma esquina mal iluminada, ela notou um fluxo incomum de homens bem vestidos entrando em um armazém aparentemente abandonado. Guardas corpulentos vigiavam a entrada.

Curiosidade e um instinto protetor que ela não conseguia explicar a fizeram seguir o fluxo. Usando o capuz de seu casaco para esconder o rosto famoso, ela entrou. O interior era um contraste luxuoso e doentio com o exterior. Um leilão. Mas não de antiguidades ou terras.

Eram pessoas.

O estômago de Rangi revirou. Ela queria quebrar o pescoço de cada indivíduo naquela sala, mas sabia que, sozinha e desarmada, precisaria de estratégia. Ela se sentou nas sombras do fundo, observando com horror enquanto "lotes" eram apresentados.

— E agora, senhores, o ponto alto da nossa noite — anunciou o leiloeiro, um homem de voz oleosa e sorriso predatório. — O Lote 27. Uma raridade do Reino da Terra. Jovem, resiliente e, como alguns de nossos guardas podem atestar nos bastidores... excepcionalmente silenciosa.

O coração de Rangi parou quando a figura foi arrastada para o palco.

Não era mais a menina radiante com o caderno de autógrafos. Kyoshi estava irreconhecível. Suas roupas eram trapos manchados de sujeira e fluidos que Rangi se recusava a identificar para não perder a sanidade. O rosto da menina estava inchado, e um rastro de sangue fresco escorria pelo canto de sua boca, que estava costurada com fios grosseiros, impedindo-a de gritar ou falar. Seus olhos verdes, antes cheios de vida, eram agora poços vazios de trauma e choque. Ela mal conseguia ficar de pé, as pernas tremendo violentamente.

Rangi sentiu uma labareda de puro ódio incendiar seu peito. A menina que a olhara com tanta esperança horas atrás estava sendo vendida como carne estragada.

— Ela é um prodígio físico, embora agora esteja um pouco... desgastada — continuou o leiloeiro, rindo. — Vamos começar o lance em dez mil peças de ouro.

Antes que qualquer um pudesse abrir a boca, Rangi se levantou. Sua voz saiu como um trovão, cortando a atmosfera densa do lugar.

— Cinquenta mil!

A sala ficou em silêncio. Rangi caminhou para a luz, removendo o capuz. O leiloeiro empalideceu ao reconhecer a campeã mundial de MMA, mas o brilho da ganância falou mais alto.

— A grande Rangi... deseja a garota? Cinquenta mil é um lance formidável. Alguém dá mais?

Ninguém ousou. A aura de violência que Rangi emanava era física, sufocante.

— Vendida para a Senhora Rangi — martelou o homem. — Por favor, dirija-se aos fundos para o pagamento e a retirada da... mercadoria.

Rangi caminhou em direção aos bastidores, cada passo pesando como chumbo. Ela precisava tirar Kyoshi dali. Agora. Mas, ao chegar perto da área de contenção, um som a fez parar. Um som amplificado por um sistema de som mal desligado, vindo de uma sala lateral.

Eram gemidos abafados. O som de carne batendo contra carne. Risadas ásperas de homens.

— Vamos lá, boneca, mostre para a gente como você não faz barulho mesmo quando dói — disse uma voz masculina nojenta.

Rangi não pensou. Ela chutou a porta de metal com tanta força que a dobradiça cedeu. O que ela viu foi um cenário de pesadelo. Kyoshi estava jogada sobre uma mesa imunda, dois guardas a seguravam enquanto um terceiro se ajustava. A menina não gritava — ela não conseguia —, mas lágrimas de sangue e dor escorriam por suas bochechas, e seu corpo tinha espasmos rítmicos de agonia. Havia um microfone posicionado perto de sua cabeça, transmitindo para uma pequena sala de observação privada o som de sua respiração entrecortada e do sofrimento mudo.

— Saiam. De perto. Dela — a voz de Rangi era um sussurro letal.

Os guardas riram, sem reconhecê-la de imediato na penumbra da sala de tortura.

— Calma, madame, você já comprou, só estamos dando o "test drive" final...

Rangi não esperou. Ela se moveu como um borrão vermelho. O primeiro guarda sentiu o osso da mandíbula estilhaçar sob o punho dela. O segundo foi atingido por um chute circular que o lançou contra a parede, desacordado antes de tocar o chão. O terceiro, o que estava sobre a menina, tentou puxar uma faca, mas Rangi agarrou seu braço e o quebrou em três lugares diferentes com uma eficiência fria e mecânica.

O silêncio caiu sobre a sala, quebrado apenas pelo choro sufocado de Kyoshi.

Rangi se aproximou da mesa. Suas mãos, que costumavam causar destruição, tremiam.

— Kyoshi... — sussurrou ela, a voz embargada. — Sou eu. A Rangi.

A menina não reagiu. Seus olhos estavam fixos no teto, as pupilas dilatadas, a mente claramente em outro lugar, um lugar onde a dor não pudesse alcançá-la. Ela era uma casca.

Rangi tirou seu próprio casaco e envolveu o corpo pequeno e ferido da menina. Com uma delicadeza infinita, ela a pegou no colo. Kyoshi era leve demais, como se seus ossos fossem feitos de vidro.

— Eu vou tirar você daqui — prometeu Rangi, encostando a testa na da menina. — Eu juro pela minha vida que ninguém nunca mais vai tocar em você.

Ao sair pelo corredor, o leiloeiro tentou interceptá-la, exigindo o pagamento. Rangi parou e o olhou com tal promessa de morte que o homem recuou, tropeçando nos próprios pés.

— Mande a conta para o meu empresário — disse ela, a voz rouca de ódio. — E reze para que eu nunca mais veja o seu rosto. Se eu vir, não haverá ringue ou juiz para me impedir de terminar o que comecei aqui.

Rangi caminhou pela noite de Ba Sing Se carregando o fardo mais pesado de sua vida. Nos seus braços, a menina que um dia sonhou em ser como ela estava quebrada em pedaços que pareciam impossíveis de colar.

Ao chegar em seu hotel de luxo, Rangi não permitiu que ninguém a ajudasse. Ela levou Kyoshi para o banheiro, preparando uma banheira morna. Com as mãos trêmulas, ela pegou um kit de primeiros socorros. O pior era a boca. Aqueles pontos... quem quer que tivesse feito aquilo queria garantir que ela não pudesse sequer soltar um lamento.

— Vai doer, pequena — murmurou Rangi, as lágrimas finalmente caindo de seus olhos amarelos. — Mas eu preciso tirar isso. Por favor, tente aguentar.

Kyoshi não emitiu som. Ela apenas olhou para Rangi, e por um breve segundo, houve um lampejo de reconhecimento naqueles olhos verdes. Um lampejo de terror absoluto. Ela começou a hiperventilar, encolhendo-se contra a porcelana da banheira, tentando se cobrir, tentando desaparecer.

— Não, não, eu não vou machucar você — Rangi recuou, mostrando as mãos abertas. — Eu sou a Rangi, lembra? Você me pediu um autógrafo. Eu sou sua fã agora, Kyoshi.

A menina parou de se debater, mas o tremor não passou. Ela permitiu, em um estado de dissociação profunda, que Rangi cortasse os fios. Quando o último ponto foi removido, Kyoshi abriu a boca e o que saiu não foi um grito, mas um som rouco, um arfar de ar que parecia rasgar seus pulmões.

Rangi a limpou, lavando o sangue e a sujeira com uma esponja macia, tratando cada hematoma e corte como se fossem feridas em sua própria alma. Ela vestiu a menina com uma de suas camisetas de treino — que ficou enorme em Kyoshi — e a deitou na cama imensa.

A lutadora sentou-se no chão, ao lado da cama, vigiando. Ela não dormiu. Ela observou Kyoshi encarar o vazio por horas, o corpo da criança tendo espasmos ocasionais durante o sono superficial e atormentado.

Rangi sabia que a luta que viria a seguir seria a mais difícil de sua carreira. Não seria decidida em rounds ou por nocaute. Seria uma luta contra o silêncio, contra o medo e contra as marcas invisíveis que eram muito mais profundas que as cicatrizes na pele de Kyoshi.

— Eles não sabem quem você é — sussurrou Rangi para a escuridão do quarto. — Eles acham que quebraram você. Mas eu vi o fogo naqueles olhos hoje cedo. E eu vou ajudar você a incendiar o mundo deles.

Kyoshi não respondeu. Mas, pela primeira vez naquela noite, ela fechou os olhos e não acordou gritando. Era o começo de um longo e doloroso caminho. E Rangi estaria lá, cada passo do trajeto, pronta para ser o escudo daquela que o destino havia destinado a ser muito mais do que uma vítima.

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