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Os primeiros beijos

Fandom: Morajo de mundo torajo

Criado: 08/10/2026

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RomanceDramaFatias de VidaHumorHistória DomésticaCiúmesLinguagem Explícita
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Frequências Desafinadas

O ar na sala de estar estava tão denso que quase dava para cortar com uma faca de manteiga.

No canto do sofá de tecido desgastado, Analice batucava as unhas compridas contra o braço de madeira, produzindo um ritmo entrecortado que claramente desafiava as leis da harmonia. Ela cantarolava uma melodia rápida, mudando de tom toda vez que respirava, ora subindo para um agudo quase inaudível, ora descendo para um murmúrio rouco. Era o seu refúgio habitual quando o estresse ameaçava explodir por seus poros, mas, para quem estava por perto, soava como uma provocação metódica.

A poucos passos de distância, encostado na estante de jogos com os braços cruzados e o capuz puxado até a altura dos olhos, Morajo parecia prestes a entrar em combustão espontânea.

Seus lábios, no entanto, guardavam uma história bem diferente da postura impassível que ele insistia em exibir. Estavam ligeiramente inchados, avermelhados pelo atrito impetuoso de apenas meia hora atrás. No corredor escuro, longe das vistas de qualquer um, o que começara como uma discussão aos berros sobre quem havia mexido nas anotações do outro terminara em um empurrão contra a parede, dentes raspando em dentes e um beijo sôfrego, desesperado, seguido de outro ainda mais faminto quando ela puxou a gola de sua jaqueta com raiva.

Eles brigavam. Era o que faziam. Brigavam até ficarem sem fôlego e, em seguida, usavam a falta de fôlego como desculpa para colar as bocas e calar as palavras que nenhum dos dois tinha coragem de admitir.

— Dá para parar com esse barulho infernal? — rosnou Morajo, sem tirar os olhos do chão. Sua voz saiu mais rouca do que ele gostaria, carregada de um sarcasmo afiado. — Parece um gato engasgado com uma bola de pelos.

Analice interrompeu o cantarolar no mesmo instante, fuzilando-o com os olhos faiscantes.

— O que você disse? — rebateu ela, a paciência evaporando com a velocidade da pólvora acesa. — Se o meu "barulho" te incomoda tanto, a porta da rua é serventia da casa, Morajo! Ninguém te amarrou nessa estante!

— Ah, claro, porque o mundo gira ao redor das suas cordas vocais desafinadas — ironizou ele, descruzando os braços apenas para gesticular com desdém teatral. — Talvez eu só não queira que meus tímpanos sangrem antes do almoço. É pedir muito uma concessão básica de paz auditiva?

— Desafinada é a sua cara amassada de sono! — disparou ela, levantando-se de um salto.

No centro da sala, Torajo parou no meio do caminho com uma pilha de pastas nas mãos, soltando um suspiro pesado que sacudiu sua franja.

— Pelo amor de Deus, vocês dois não conseguem passar quinze minutos no mesmo metro quadrado sem tentar se assassinar? — implorou Torajo, olhando para o teto como se buscasse paciência divina. — A gente tem trabalho para gravar. Se começarem agora, não vamos terminar nem antes da meia-noite!

Sentado no chão, encostado na mesa de centro com um caderno de desenho aberto, Linn apenas ergueu os olhos verdes por cima da lapiseira. Ele deu um sorriso de lado, divertido, observando a tensão elétrica que crepitava entre os dois.

— Deixa eles, Torajo — comentou Linn em tom calmo, quase zombeteiro. — É o ritual de acasalamento das espécies primitivas. O macho finge que odeia, a fêmea ameaça arrancar os olhos dele, e no final o universo segue girando.

— Cala a boca, Linn! — disseram Analice e Morajo em uníssono, virando os rostos furiosos na direção dele.

Linn apenas deu de ombros, voltando a rabiscar com toda a tranquilidade do mundo, plenamente satisfeito por ter atiçado ainda mais a fogueira.

Analice soltou um riso curto pelo nariz. Apesar da raiva evidente, o comentário ridículo de Linn fez com que o canto de sua boca tremesse. Ela tinha o riso terrivelmente frouxo, e a combinação do absurdo com a adrenalina sempre encontrava uma brecha para escapar. Quando Morajo percebeu aquele meio sorriso brotando no rosto dela, estreitou os olhos, sentindo um calor incômodo subir pelo pescoço.

— Tá rindo de quê? — questionou ele, dando um passo à frente, a postura agressiva disfarçando a urgência quase dolorosa que sentia em aproximar-se dela outra vez. — Acha bonito passar vergonha na frente de todo mundo?

— Eu rio do que eu quiser! — exclamou Analice, o riso morrendo tão rápido quanto nascera, substituído por pura irritação diante da petulância dele. — E quem está passando vergonha aqui é você, com essa pose de durão de desenho animado barato! Qual é o seu problema, afinal? Quinze minutos atrás você não estava reclamando tanto assim!

A frase escapou de sua garganta antes que seu cérebro pudesse filtrar as consequências.

O silêncio que se abateu sobre o cômodo foi instantâneo e cortante.

Torajo congelou, as pastas paradas a meio caminho de uma mesa. Ele piscou uma, duas vezes, alternando o olhar perplexo entre Analice e Morajo.

— Como é que é? — perguntou Torajo, franzindo a testa. — Quinze minutos atrás? O que aconteceu quinze minutos atrás?

Morajo sentiu a respiração travar por uma fração de segundo. Seus olhos se cravaram nos de Analice, brilhando com um misto perigoso de choque e fúria. A garota percebeu o deslize no mesmo instante, arregalando os olhos e mordendo o lábio inferior — o mesmo lábio que ele havia mordido com tanta força momentos antes, na penumbra daquele corredor.

— Nada! — apressou-se ela em dizer, a voz subindo uma oitava inteira de puro nervosismo. — Não aconteceu absolutamente nada! Ele só... ele só estava enchendo a minha paciência lá fora também!

— Ah, claro — pontuou Linn, sem levantar o rosto do papel, mas com um tom carregado de pura malícia. — E pelo visto ela estava quase cedendo, considerando que a maquiagem dela está borrada e a gola da jaqueta do Morajo está toda amarrotada.

— Linn, eu vou te jogar pela janela — sibilou Morajo, os dentes cerrados.

— Não muda de assunto! — interveio Torajo, cruzando os braços e encarando o irmão com seriedade. — Vocês dois estão esquisitos a semana inteira. Ficam se alfinetando o dia todo, parecem duas bombas-relógio prontas para explodir, e agora isso? Se vocês se odeiam tanto assim, por que simplesmente não admitem de uma vez e ficam longe um do outro? Morajo, custa você deixar ela em paz? Para de agir feito uma criança mimada!

Aquilo foi a gota d'água.

O limite de paciência de Morajo, que por natureza já era microscópico, rompeu-se com a violência de uma barragem arrebentada. Ele já estava farto dos sussurros, farto dos olhares furtivos, farto da raiva que o corroía por dentro sempre que tentava fingir que tudo aquilo era apenas um jogo de conveniência ou uma fraqueza passageira. Ele estava cansado de parecer o vilão irracional da história quando a verdade era que Analice o desestabilizava de um modo que beirava a insanidade.

— Deixar ela em paz? — repetiu Morajo, a voz baixa, fria e cortante como vidro quebrado.

Ele deu mais dois passos largos em direção a Analice. Ela recuou meio palmo por puro reflexo, mas parou ao bater as costas contra o encosto do sofá, levantando o queixo em um gesto teimoso de desafio. Ela não iria fugir. Nunca fugia.

— Morajo, calma aí... — tentou ponderar Torajo, assustado com a intensidade súbita do outro.

— Cala a boca, Torajo! — gritou Morajo, virando-se apenas o suficiente para lançar um olhar abrasador ao irmão, antes de voltar toda a sua atenção para Analice. — Você quer que eu admita que odeio ela? É isso o que vocês querem ouvir? Que a gente se odeia e que isso aqui é só implicância boba?

Analice sentiu o peito arfar rápido, o coração martelando contra as costelas com tanta força que parecia ecoar pela sala.

— Pois fiquem sabendo que eu adoraria odiar você, Analice — continuou ele, apontando o dedo indicador na direção dela, a voz carregada de uma urgência áspera, quase desesperada. — Eu daria tudo para que você fosse só uma chata qualquer que eu pudesse simplesmente ignorar e mandar para o inferno! Mas eu não consigo! Porque você é a criatura mais irritante, barulhenta e insuportável que já pisou nesta terra, e a porcaria da minha cabeça não para de pensar em você por um único segundo!

Linn parou a lapiseira no ar. A ponta de grafite quebrou com um estalo seco.

Torajo abriu a boca, mas som algum saiu de sua garganta.

Analice sentiu as bochechas queimarem em um tom escarlate vívido, a garganta travada pelo choque.

— O que você... — começou ela, a voz fraca, desarmada pela primeira vez.

— Eu estou cansado dessa palhaçada! — cortou Morajo, diminuindo ainda mais o espaço entre eles, até que as pontas de seus sapatos tocassem os dela. Seus olhos castanhos queimavam, desnudando uma vulnerabilidade furiosa que ele nunca havia mostrado a ninguém. — Eu passei a droga das últimas semanas tentando achar um motivo real para te detestar, e tudo o que eu consegui foi a certeza de que eu fico completamente louco se você passar um dia sem falar comigo, mesmo que seja para me xingar!

Ele respirou fundo, puxando o ar como se estivesse se afogando, as mãos tremendo ligeiramente antes de se fecharem em punhos.

— Eu sou completamente apaixonado por você, sua idiota teimosa — disparou ele, cuspindo as palavras não com delicadeza, mas como quem confessa um crime imperdoável diante de um tribunal. — Pronto. Falei. Tá todo mundo feliz agora? Eu amo essa garota mimada que canta mal e não tem um pingo de paciência para nada. Satisfeito, Torajo? Conseguiu arrancar a verdade?

O silêncio seguinte pareceu durar um milênio.

Torajo soltou as pastas. Os papéis se espalharam pelo chão da sala em um leque branco caótico, mas nenhum par de olhos se desviou para olhar a bagunça. Torajo olhava para Morajo com os olhos esbugalhados, as mãos suspensas no ar, parecendo ter presenciado um milagre ou uma catástrofe nuclear.

Linn, sentado no chão, virou a cabeça devagar, olhando de Morajo para Analice e depois para Torajo, abrindo um sorriso gigantesco e embasbacado.

— Caramba — murmurou Linn, quebrando o silêncio com reverência sincera. — Eu pagaria ingresso para assistir isso de novo.

Analice continuava paralisada. As palavras flutuavam ao seu redor, densas e avassaladoras. "Apaixonado por você." "Amo essa garota." O calor em seu rosto se espalhou até as pontas das orelhas, seu temperamento explosivo completamente desmantelado pela crueza daquela declaração.

E então, para piorar a situação de Morajo, os lábios dela começaram a tremer.

Uma lufada de ar escapou pelo nariz de Analice. Os olhos dela se arregalaram ainda mais enquanto ela tentava, desesperadamente, conter a reação incontrolável de seu corpo diante de situações de estresse e choque absolutos.

Ela soltou uma risadinha abafada.

Morajo arregalou os olhos, o orgulho estraçalhado no chão.

— Você... você está rindo? — perguntou ele, o tom oscilando perigosamente entre a mágoa profunda e uma fúria renovada. — Eu acabei de colocar a minha dignidade no lixo na frente do meu irmão e do Linn, e você está rindo da minha cara?

— Não! — exclamou ela, cobrindo a boca com as duas mãos, mas seus ombros já sacudiam no ritmo de um riso frouxo e incontrolável que transbordava por entre seus dedos. Seus olhos marejaram de tanto conter o riso. — Eu não estou... quer dizer, eu estou, mas não é porque... Ai, meu Deus, Morajo!

— Sua ingrata, insensível, desmiolada... — começou ele, dando um passo para trás com o rosto em chamas, pronto para dar meia-volta e sumir daquele apartamento para sempre.

Antes que ele pudesse se afastar, no entanto, Analice avançou.

Suas mãos deixaram o próprio rosto e agarraram a jaqueta dele, os nós dos dedos ficando brancos com a força do aperto. Ela o puxou para frente com uma firmeza que o desequilibrou, calando sua torrente de insultos. O riso dela ainda vibrava em seu peito, mas seus olhos agora guardavam uma chama intensa, teimosa e completamente desarmada.

— Cala essa boca suja, Morajo — ordenou ela, com a voz embargada.

E, sem se importar com a presença de Torajo ou de Linn, puxou o rosto dele para baixo e colou seus lábios nos dele.

Foi um beijo faminto, urgente, que começou com a aspereza de suas defesas colidindo e rapidamente se transformou em uma rendição mútua. Morajo soltou um suspiro abafado contra a boca dela, sua mão subindo instintivamente para a nuca de Analice, os dedos embaraçando-se nos cabelos dela para aprofundar o contato. Ele a beijou com todo o ressentimento e toda a adoração que vinha guardando no peito, prensando-a de volta contra a beirada do sofá, esquecendo completamente que não estavam sozinhos.

Analice soltou um gemido baixo de surpresa com a intensidade do beijo, mas não recuou. Pelo contrário: suas mãos subiram para os ombros dele, puxando-o para mais perto, beijando-o de volta com o mesmo fervor desmedido que sempre usava para discutir com ele.

— Ei, ei, ei! — a voz de Torajo finalmente ressoou, subindo três oitavas de puro pânico moral. — Na minha frente não! No chão da minha sala não! Que pouca vergonha é essa?!

Eles se separaram apenas o suficiente para respirar, testas coladas, as respirações entrecortadas misturando-se no ar morno. Morajo mantinha os olhos fixos nos lábios dela, os próprios lábios entreabertos e brilhantes, enquanto um meio sorriso torto e triunfante começava a nascer no canto de sua boca.

— Você fala demais — sussurrou Analice contra a pele dele, ainda com um vestígio de riso nos olhos, antes de puxá-lo pela gola outra vez.

— E você beija muito melhor do que canta — retrucou Morajo em tom de puro sarcasmo, mas seus lábios já procuravam os dela novamente.

O segundo beijo foi mais demorado, quase indolente, um selo definitivo e público para algo que nenhum dos dois conseguiria mais fingir que não existia. Morajo a segurava pela cintura com uma posse tranquila, ignorando solenemente os protestos ao redor.

— Linn, pega um balde de água fria — pediu Torajo, cobrindo os olhos com uma das mãos e apontando cegamente na direção do casal com a outra. — Ou um exorcista. Eu não sei qual dos dois é mais apropriado agora.

Linn continuava sentado no chão, apoiando o queixo nas mãos, com a expressão mais radiante do mundo.

— Nem pensar — respondeu Linn, soltando uma risada preguiçosa. — O roteiro de hoje acabou de ficar cem vezes mais interessante. Deixa os pombinhos brigarem em paz.

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