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Linn e Analice conversam sobre a declaração de mirajo

Fandom: mundo torajo

Criado: 08/10/2026

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RomanceFatias de VidaHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemLinguagem Explícita
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Acordes Dissonantes e Cabeças Quentes

O som ritmado dos passos de Analice parecia prestes a perfurar o assoalho de madeira da sala. Ela andava de um lado para o outro, os braços cruzados com tanta força sobre o peito que as pontas dos dedos já estavam dormentes. Para piorar o quadro de pura inquietação, ela soltava pequenos murmúrios afinados, vocalises nervosos que iam do grave ao agudo em frações de segundo, transformando a própria frustração em uma escala musical tortuosa.

Linn, jogado preguiçosamente no sofá com um copo de suco em mãos, acompanhava a trajetória dela apenas com os olhos, sem mover um único músculo do pescoço.

— Se você continuar cantando em ré sustenido enquanto marcha desse jeito, o lustre vai cair — comentou Linn, com a voz tão plana e serena quanto a superfície de uma poça d'água num dia sem vento.

Analice parou bruscamente, girando nos calcanhares e encarando Linn com um olhar que poderia ter derretido chumbo.

— Eu não estou em ré sustenido, Linn! Era claramente um mi bemol! — disparou ela, cerrando os dentes. — E o problema aqui não é a acústica deplorável da sua sala, nem a minha afinação perfeita. O problema é que o mundo enlouqueceu de vez. Completamente. Não sobrou um pingo de sanidade na cabeça de ninguém.

— Você está falando do fato de que o Morajo praticamente gritou que te ama no meio do corredor hoje cedo, né? — Linn deu um gole lento no suco, sem piscar. — Porque, se for isso, acho que ele não enlouqueceu hoje. Ele só finalmente botou para fora antes que a cabeça dele explodisse de raiva.

— Linn! — Analice jogou as mãos para o alto, exasperada com a frieza cirúrgica do amigo. — Ele não "gritou que me ama". Aquilo não foi uma declaração de amor, foi quase uma ameaça de morte! Você estava lá? Não, você não estava!

— Eu não estava lá fisicamente — admitiu Linn, recostando a cabeça na almofada —, mas ouvi a voz dele daqui de dentro. O Torajo também ouviu. O carteiro provavelmente ouviu. O Morajo não tem volume médio, Analice. Ele só opera no mudo e no modo britadeira.

— Ele parecia um pimentão prestes a sofrer combustão espontânea! — Ela recomeçou a andar, gesticulando dramaticamente. — Nós estávamos discutindo sobre quem ia terminar a edição do vídeo, o que é um assunto absolutamente normal. Ele começou a bufar, bater o pé no chão como uma criança mimada de dois anos e, do nada, soltou os cachorros!

Linn ergueu uma sobrancelha, curioso daquele jeito calmo que só ele conseguia ter.

— E quais foram exatamente as doces palavras daquele coração apaixonado?

Analice soltou um riso anasalado, repleto de puro sarcasmo, imitando a postura tensa e a voz estridente de Morajo de forma assustadoramente precisa.

— "Você é insuportável, sabia?! Não dá para conversar cinco minutos sem você querer corrigir o tom da minha voz ou me olhar com essa cara de deboche! Mas eu gosto de você, tá legal?! Eu gosto de você pra caramba, sua idiota, e isso está arruinando a minha vida! Agora me dá essa droga de fita e cala a boca!" — Analice desfez a imitação, ofegante de indignação. — Foram essas as palavras. Com direito a chute na lixeira e tudo.

Linn assentiu devagar, parecendo refletir com profunda seriedade sobre o monólogo.

— Poético. Bem shakespeariano, só que com mais risco de tétano por causa da lixeira.

— Poético?! Linn, ele me chamou de idiota no mesmo fôlego em que admitiu sentimentos humanos! — Analice levou as mãos às têmporas, sentindo uma pontada de dor de cabeça se aproximar. — Ele é um estúpido, impaciente, que não sabe lidar com as próprias emoções e desconta tudo na primeira pessoa que vê pela frente! Eu devia ter mandado ele engolir aquela fita métrica!

— Mas você não mandou — observou Linn, pontual como um relógio suíço. — Pelo que eu soube, você travou. Ficou quieta.

O rosto de Analice ardeu. Ela odiava ser previsível, e odiava mais ainda quando Linn notava as coisas sem fazer o menor esforço.

— Eu não travei! — rebateu ela, a voz subindo uma oitava inteira de puro estresse. — Eu fui pega de surpresa! Há uma enorme diferença entre ficar sem palavras e apenas economizar cordas vocais diante do absurdo! Quem é que se declara berrando como se estivesse declarando guerra contra um país vizinho?!

— Alguém que é baixo, invocado e que tem o mesmo temperamento de um fósforo riscado em palha seca — respondeu Linn, bebericando mais um pouco do copo. — Ou seja, o Morajo. E, se formos totalmente honestos, você não é muito diferente dele nesse quesito.

— O quê?! — Analice quase engasgou com a própria saliva. — Repete isso se tiver coragem!

— É verdade — continuou Linn, impassível, enquanto encarava o teto. — Vocês dois são duas bombas-relógio. A única diferença é que você canta enquanto espera o pavio queimar, e ele chuta uma porta. Vocês são tão teimosos e estressados que parecem duas cabras brigando no topo de uma montanha. Era óbvio que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

— Não era óbvio coisa nenhuma! — Ela se jogou na poltrona diante dele, afundando no estofado e bufando com tanto vigor que sua franja subiu. — Nós nos odiamos, Linn. Nós competimos por tudo. Se eu digo que o dia está bonito, ele diz que o sol está muito brilhante e que a luz queima a retina dele. Se ele tenta fazer uma piada, eu desmonto a lógica dele em dois segundos. Isso não é romance. Isso é inimizade declarada de utilidade pública!

— A linha entre o ódio e a paixão é muito tênue, Analice — disse Linn, sem um pingo de ironia, o que tornava a frase ainda mais irritante. — Principalmente para pessoas que têm a paciência do tamanho de uma ervilha.

— Eu tenho muita paciência! — garantiu ela, fechando as mãos em punhos sobre os joelhos.

— Você está socando o ar com os olhos há quarenta minutos — apontou ele, suave. — E ainda não me respondeu a parte mais importante.

Analice franziu a testa, na defensiva.

— Que parte importante? Não tem parte importante. O caso está encerrado. Ele vai fingir que nada aconteceu, eu vou fingir que ele é invisível, e tudo vai voltar a ser a nossa paz armada habitual.

— Você gosta dele.

Não foi uma pergunta. Foi uma constatação límpida, proferida no tom monótono característico de Linn, como se ele estivesse apenas informando a previsão do tempo para a tarde de quinta-feira.

O silêncio que caiu sobre a sala foi tão repentino que o zumbido da geladeira na cozinha pareceu ensurdecedor. Analice abriu a boca para soltar uma resposta afiada, uma daquelas tiradas irônicas que desarmavam qualquer um em apresentações de palco ou debates casuais, mas o ar simplesmente não encontrou o som certo. Suas cordas vocais falharam miseravelmente.

— Não seja ridículo — murmurou ela, finalmente, mas o tom saiu tão baixo e vacilante que ela própria se envergonhou.

— Eu nunca sou ridículo, dá muito trabalho — retrucou Linn, ajeitando a postura no sofá pela primeira vez. — Você está surtando porque não sabe o que fazer com o fato de que aquele tampinha esquentadinho mexeu com você. Se fosse qualquer outra pessoa que você realmente desprezasse, você já teria feito uma paródia musical de três minutos humilhando a declaração dele para todo mundo rir. Mas você não fez isso. Você veio aqui, andou em círculos, afinou em três tons diferentes e está quase arrancando os cabelos.

Analice cobriu o rosto com as duas mãos, soltando um gemido abafado de frustração genuína.

— Ele é tão irritante, Linn... — murmurou ela por entre os dedos, a carcaça de superioridade desmoronando aos poucos. — Ele é ranzinza, reclama da comida, reclama do calor, reclama quando eu canto, reclama quando eu fico quieta! Como é que alguém pode gostar de uma criatura que parece ter sido criada dentro de um limoeiro?!

— Você acabou de se descrever em cinquenta por cento das suas terças-feiras — comentou Linn, sem dó nem piedade.

— Não ajude tanto, Linn, sua solidariedade me comove — respondeu ela, sarcástica, afastando as mãos do rosto e encarando o amigo com olhos cansados. — Eu odeio admitir isso, mas... quando ele disse aquilo... ele estava tremendo. Ele estava berrando com aquela cara vermelha ridícula, mas a mão dele estava tremendo na fita.

— Porque ele estava apavorado — deduziu Linn, dando de ombros. — Morajo prefere enfrentar um urso com as próprias mãos a admitir que tem sentimentos por alguém. Ele deve ter achado que você ia rir na cara dele.

— Eu quase ri! — mentiu Analice, cruzando os braços novamente, tentando resgatar o orgulho ferido. — Mas aí eu vi a cara de desespero dele e... sei lá. Meu estômago deu um nó esquisito. Como se eu tivesse engolido um metrônomo quebrado.

— Isso é o que as pessoas normais chamam de borboletas no estômago — ensinou Linn, terminando o suco com um barulho ruidoso do canudo no fundo do copo. — Só que na sua versão é mais caótico, porque tudo em você precisa ser meio musical e meio histérico.

Antes que Analice pudesse atirar uma almofada contra a cabeça de Linn, a porta da frente foi escancarada com um estrondo violento que fez a madeira chiar nos gonzos.

— Quem foi o imbecil que deixou a tranca emperrada?! — gritou uma voz aguda e carregada de fúria antes mesmo do dono dela terminar de entrar.

Morajo surgiu no batente da porta, parecendo exatamente uma tempestade compactada em tamanho pequeno. Ele usava a jaqueta de sempre, os braços cruzados de forma agressiva, o cenho franzido tão profundamente que suas sobrancelhas quase formavam uma linha contínua. Ele bateu a porta atrás de si com o calcanhar, bufando alto.

— Linn, você precisa trocar essa droga de maçaneta antes que eu arranque ela com um alicate! — rosnou Morajo, dando passos duros em direção ao centro da sala.

Foi então que ele parou.

Seus olhos encontraram Analice sentada na poltrona.

Instantaneamente, todo o corpo de Morajo pareceu entrar em curto-circuito. A cor sumiu do rosto dele por meio segundo, apenas para retornar como uma labareda escarlate que subiu do pescoço até as pontas das orelhas. Ele travou no lugar, os braços caindo rígidos ao lado do corpo antes de cruzarem novamente de um jeito desajeitado.

Analice, por sua vez, sentou-se ereta como se tivesse levado uma descarga elétrica, o coração disparando a uma velocidade que nenhum compasso conseguiria acompanhar.

Linn apenas virou a cabeça devagar, olhando de um para o outro com a calma imperturbável de um monge budista.

— Olá, Morajo — disse Linn, quebrando o silêncio congelante. — A Analice estava justamente falando sobre a sua serenidade e doçura ao expressar suas emoções hoje cedo.

— Linn, cala a boca! — berraram Analice e Morajo ao mesmo tempo, em uníssono perfeito.

— Viu? — comentou Linn para ninguém em especial. — Harmonia perfeita.

Morajo deu meio passo para trás, a mão indo instintivamente para a nuca, coçando os cabelos com violência. Ele não conseguia sustentar o olhar em Analice por mais de dois segundos seguidos, desviando para o chão, para a parede, para o lustre, para qualquer lugar do universo que não fossem aqueles olhos zangados e expressivos.

— Eu... eu só vim buscar a minha mochila que deixei aqui ontem — disparou Morajo, a voz saindo rápida demais, áspera demais, tentando desesperadamente soar ameaçadora para mascarar a vergonha colossal que o devorava. — Não sabia que a sala tinha virado auditório pra você ficar fofocando da vida dos outros!

Analice levantou-se da poltrona de um salto, o estresse habitual mascarando o pânico adorável que se instalara em seu peito.

— Ninguém estava fofocando de você, seu paranoico! — rebateu ela, dando um passo à frente, as mãos na cintura. — O Linn só estava me impedindo de ter um colapso nervoso tentando entender que tipo de animal selvagem se declara gritando como se estivesse num leilão de gado!

— Eu não gritei como se estivesse num leilão de gado! — gritou Morajo, dando outro passo em direção a ela, diminuindo a distância até estarem a menos de um metro um do outro, faíscas praticamente visíveis entre seus olhares. — Eu falei em alto e bom som pra você não fingir que não ouviu! Você sempre faz isso! Finge que tudo que eu falo é piada!

— Talvez porque a maioria das coisas que você fala seja uma piada sem graça! — disparou ela, dando mais um passo, empinando o queixo. — Mas aquilo não parecia piada, parecia uma crise de asma combinada com um ataque de fúria! Você não sabe ser civilizado nem para dizer uma coisa bonita?!

— Eu não queria dizer uma coisa bonita! — berrou ele, a voz quebrando ligeiramente na ponta, a frustração transbordando pelos poros. — Eu só queria que você soubesse, tá legal?! Porque é insuportável ficar perto de você sem poder falar nada, e agora que eu falei, você fica me olhando como se eu fosse um bicho estranho! Se não gostou, esquece! Finge que não aconteceu e me deixa em paz!

Ele girou nos calcanhares, pronto para marchar em direção à porta e fugir daquela humilhação pública. Mas antes que ele desse o segundo passo, Analice esticou o braço e agarrou a manga da jaqueta dele.

O puxão foi forte o suficiente para fazê-lo parar bruscamente. Morajo olhou para o braço dela preso ao seu, e depois subiu os olhos devagar até o rosto dela. Ele estava ofegante, com os punhos cerrados, esperando pelo deboche final que iria destruir qualquer resquício de sua dignidade.

Analice sentiu o tecido áspero da jaqueta entre os dedos e a respiração quente e entrecortada dele. O estresse estava ali, vibrando nas têmporas dela, mas a urgência musical que sempre a guiava de repente encontrou um compasso inesperado. Ela engoliu em seco, sentindo as bochechas queimarem na mesma intensidade que as dele.

— Você é um idiota, Morajo — disse ela, a voz bem mais baixa agora, embora ainda afiada como uma lâmina de barbear. — Um idiota completo, precipitado, que chuta lixeiras e não sabe usar palavras normais.

Morajo franziu o cenho, puxando o braço de leve, embora sem força real para se soltar.

— É, eu já entendi, não precisa repetir...

— Mas você é o único idiota aqui que consegue me tirar do sério desse jeito — interrompeu ela, puxando a manga dele um milímetro para mais perto, impedindo-o de desviar o olhar. — E se você acha que pode simplesmente gritar no meio do corredor que gosta de mim e depois sair correndo feito um covarde sem ouvir o que eu tenho pra dizer, você está muito enganado. Eu tenho mais ritmo do que isso.

Morajo piscou, chocado. A postura defensiva dele vacilou de forma evidente, os ombros caindo ligeiramente.

— O que... o que você quer dizer com isso? — perguntou ele, a voz perdendo o tom áspero e ficando perigosamente hesitante.

Analice soltou um suspiro pesado, revirando os olhos com toda a impaciência dramática de que era capaz, embora o rubor em suas bochechas a traísse por completo.

— Quero dizer que da próxima vez que você quiser falar uma coisa dessas, não faça isso parecendo que vai me morder — murmurou ela, soltando a jaqueta dele, mas sem recuar um centímetro sequer. — E que... talvez, só talvez... a fita métrica não fosse a única coisa que eu não queria que você engolisse hoje.

Morajo ficou ali, parado como uma estátua de sal, tentando processar as palavras da garota com o cérebro fervendo em fogo brando. A boca dele abriu e fechou duas vezes sem emitir nenhum som inteligível.

Do sofá, Linn largou o copo vazio sobre a mesinha de centro com um clique suave, cruzou as pernas e apoiou o queixo na palma da mão.

— Bom — disse Linn, na voz mais neutra do planeta —, agora que vocês dois já confessaram o amor mútuo através de ameaças verbais e agressividade passiva, alguém vai querer pizza ou eu posso pedir só pra mim?

Analice e Morajo viraram a cabeça para Linn na mesma velocidade assustadora, os rostos em chamas.

— Fica quieto, Linn! — berraram os dois, no mesmo tom, na mesma nota, sincronizados até o fim.

Linn apenas sorriu de canto, fechando os olhos para relaxar, sabendo que, apesar da barulheira infernal que viria a seguir, aquele desastre todo finalmente tinha encontrado a sua própria e estranha harmonia.

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