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A revelação

Fandom: Mundo torajo

Criado: 09/10/2026

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Fatias de VidaHumorDramaCrack / Humor ParódicoGravidez na AdolescênciaGravidez Não Planejada/IndesejadaEstudo de Personagem
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Dois Traços e Um Colapso

O som dos passos firmes de Analice ecoava pelo piso de madeira da sala, num ritmo rápido e descompassado que já estava deixando todos no recinto à beira de um ataque de nervos. Ela caminhava de uma parede a outra, cruzando os braços, descruzando, mexendo nos cabelos e cantarolando baixinho. Não era uma melodia tranquila; era uma sequência desconexa de notas agudas, uma mania que ela tinha sempre que seu cérebro parecia prestes a explodir de ansiedade.

— Lá, lá, lá, se tudo der errado eu sumo desse mapa, lá, lá, lá... — cantarolou ela, desafinando de propósito no final com um grunhido exasperado.

— Analice, pelo amor de tudo o que é sagrado, você pode parar de rodar feito um pião da casa própria? — pediu Zulmi, que estava esparramada na ponta do sofá, massageando as têmporas. — Você chamou todo mundo aqui em tom de vida ou morte e agora só fica desfilando e cantando ópera fúnebre!

— É, baixinha, senta aí um pouco — comentou Jay, encostado no batente da porta com um copo de suco na mão. — Você tá gastando o chão. Se continuar nesse ritmo, vai abrir um buraco até o núcleo da Terra.

— Cala a boca, Jay! Dá para vocês dois calarem a boca por dois minutos?! — rebateu Analice, virando-se com os olhos faiscando de pura irritação. A paciência dela, que já costumava ser do tamanho de um grão de areia, havia evaporado completamente nas últimas quarenta e oito horas. — Vocês acham que é fácil? Acham que eu queria estar aqui passando por esse estresse cósmico? Eu não queria nem ter acordado hoje, para início de conversa!

Torajo, sentado no meio do sofá entre Zulmi e Linn, ergueu as mãos em sinal de paz.

— Calma, calma! Ninguém tá te atacando, Analice. Mas você mandou uma mensagem no grupo dizendo "Venham agora ou eu queimo a casa com todo mundo dentro". É compreensível que a gente esteja um pouco tenso, né?

— O Torajo tem razão — murmurou Linn, ajustando a postura e olhando para ela com uma expressão analítica, embora um tanto apreensiva. — A energia dessa sala tá oscilando entre uma reunião de condomínio e um julgamento de tribunal. O que aconteceu afinal?

No outro canto, sentado na poltrona individual com as pernas jogadas por cima do braço do móvel, Morajo revirou os olhos. Ele parecia ser o único que ainda tentava manter a pose de desinteresse absoluto, embora tamborilasse os dedos na própria perna de um jeito que traía sua inquietação.

— Deixa ela, gente. Vocês sabem como a Analice é dramática — disse Morajo, soltando uma risadinha provocadora enquanto olhava para as unhas. — Deve ter quebrado a caneca favorita de novo ou descobriu que cancelaram a série boba dela. Não é nada de mais. Ela só gosta de fazer tempestade em copo de refrigerante.

Analice parou no meio da sala. Ela olhou para Morajo. Os olhos dela se estreitaram de uma forma tão perigosa que Linn instintivamente se encolheu no sofá.

— O que você disse, Morajo? — a voz dela saiu perigosamente calma, o prenúncio de uma erupção vulcânica.

— Eu disse que você é dramática — repetiu ele, erguendo o queixo com um sorrisinho de lado, totalmente inconsciente de que estava pisando em dinamite com fósforo aceso. — Você se estressa por qualquer bobagem. Lembra daquela vez que você quase bateu no entregador de pizza só porque ele esqueceu o sachê de maionese? Pois é. Então fala logo o que é, antes que eu durma aqui.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

Analice apertou as mãos em punhos. Ela abriu a boca para berrar. Puxou todo o ar da sala, pronta para arremessar Morajo pela janela do segundo andar. A veia da sua testa pulsava violentamente. Ela parecia prestes a liberar uma saraivada de xingamentos nunca antes ouvida na história do grupo.

Mas então, de repente, algo quebrou no cérebro de Analice.

A tensão insustentável colidiu de frente com a cara cínica de Morajo, e o mecanismo de defesa mais incontrolável dela disparou.

Ela começou a rir.

Não foi uma risada comum. Foi uma risada histérica, entrecortada por um arquejo de falta de ar, que fez seus ombros tremerem sem parar.

— Pfff... hahahaha! — Analice cobriu o rosto com as duas mãos, dobrando o corpo ao meio. — Hahahaha! Meu Deus... hahahaha!

Os outros cinco trocaram olhares apavorados.

— Pronto, corrompeu o arquivo — sussurrou Jay para Torajo. — Ela enlouqueceu de vez.

— Analice? — chamou Zulmi, inclinando-se para a frente, preocupada. — Você tá rindo ou tá tendo um ataque de asma? Amiga, você tá me assustando.

— É que... hahahaha! — Analice tentava falar, mas as lágrimas de riso já escorriam pelas suas bochechas. O seu riso frouxo era lendário, e quando começava no pior momento possível, não tinha força humana que a fizesse parar. — É que você... ai, Morajo, você é tão idiota que chega a ser poético! Hahahaha!

Morajo franziu o cenho, descendo as pernas da poltrona e se ajeitando, visivelmente desconfortável com a reação dela.

— Ei! Não sou idiota, não! Do que você tá rindo, sua maluca? Dá pra falar sério?

Num estalo súbito, a risada parou. Tão rápido quanto começou, Analice secou as lágrimas com as costas da mão, respirou fundo e fechou a expressão numa seriedade mortal. A mudança de humor abrupta fez até Torajo segurar a respiração.

— Você quer seriedade, Morajo? — perguntou ela, a voz firme, embora a respiração ainda estivesse ofegante. — Você quer que eu seja rápida e pare de ser dramática? Ótimo. Excelente. Maravilhoso. Eu vou direto ao ponto porque eu não aguento mais passar nervoso nessa vida.

Ela enfiou a mão no bolso do casaco grande que estava usando.

— Eu tô com dor de cabeça faz três dias — começou ela, gesticulando no ar impacientemente. — Eu não durmo direito, meu humor tá uma porcaria, tudo que eu como tem gosto de sabão, e eu tive que gastar o dinheiro do meu almoço na farmácia hoje de manhã por causa da sua irresponsabilidade crônica!

— Minha?! — Morajo apontou para o próprio peito, indignado. — O que diabos eu tenho a ver com você acordar de ovo virado e comprar remédio na farmácia?!

— Cala a boca e olha isso aqui! — gritou ela, puxando a mão do bolso e estendendo um pequeno objeto de plástico branco na direção do centro da sala, jogando-o na mesinha de centro com um estalo seco.

O objeto deslizou pelo vidro e parou bem no meio de todos.

Dois traços vermelhos, perfeitamente nítidos, reluziam na janelinha de exibição.

Um silêncio absoluto caiu sobre a sala.

Se um alfinete caísse no chão naquele momento, soaria como uma bomba. Torajo piscou uma vez. Duas vezes. Inclinou-se devagar para olhar mais de perto. Jay arregalou os olhos a ponto de quase saltarem da cara. Zulmi cobriu a boca com as duas mãos, soltando um arquejo mudo. Linn simplesmente travou, os olhos fixos naqueles dois riscos minúsculos.

E Morajo... Morajo apenas olhou.

— Um... termômetro quebrado? — arriscou Morajo, a voz subindo duas oitavas, soando tão fina quanto a de uma criança assustada. Ele deu um sorriso amarelo, esperando pateticamente que fosse uma pegadinha. — Você tá com febre? É isso? Chamou todo mundo aqui pra dizer que pegou gripe?

Analice fechou os olhos, respirando tão fundo que seus pulmões pareceram apitar. Ela juntou as mãos na altura do peito, como se estivesse rezando para não cometer um crime hediondo bem ali.

— Morajo... seu pedaço de anta desprovido de neurônios — sussurrou ela, num tom que fez as espinhas de todos gelarem. Ela abriu os olhos, encarando-o com todo o peso do universo. — Isso não é um termômetro. Eu tô grávida.

As palavras pairaram no ar.

— Grávida — repetiu Zulmi, o choque finalmente quebrando sua paralisia. Ela pulou do sofá, olhando de Analice para o teste e depois para Morajo. — GRÁVIDA?!

— E O PAI É VOCÊ, SEU IDIOTA! — berrou Analice, apontando o dedo acusador diretamente para o nariz de Morajo. — VOCÊ E ESSA SUA CABEÇA OCA!

O impacto da revelação acertou a sala como um meteoro.

— EITA PREGO! — gritou Jay, engasgando com a própria saliva e deixando o copo de suco entornar um pouco na própria camisa. — CARAMBA! O Morajo vai ter um mini-Morajo! O mundo tá condenado! O apocalipse começou e tem formato de bebê!

— Cala a boca, Jay! — gritaram Analice e Zulmi em uníssono.

Torajo parecia estar tentando reiniciar o próprio sistema operacional. Ele olhava para Analice, depois olhava para o irmão.

— Pera... o quê? Como assim? Mas... vocês...? — Torajo balbuciava, completamente atordoado. — Espera, eu vou ser tio?! Eu tenho cara de quem tem idade pra ser tio?! Morajo, você tem dezessete anos, você não sabe nem dobrar um lençol de elástico!

— Ninguém sabe dobrar um lençol de elástico, Torajo! Isso não é parâmetro! — retrucou Linn, embora sua própria voz estivesse trêmula enquanto ele encarava o teste. — Analice... você tem certeza absoluta disso? Esse teste é confiável? Às vezes dá falso positivo, não dá? Tipo, se você comeu muito carboidrato ou... sei lá, coisas médicas!

— Eu fiz três testes, Linn! TRÊS! — Analice começou a gesticular de forma caótica, o estresse tomando conta do corpo inteiro. Ela cantarolou uma nota aguda e desafinada de pura agonia: — Três testes com duas listrinhas, todos positivos, lá, lá, lá, eu vou enfartar antes dos vinte! — Ela parou e olhou feio para Linn. — E não existe falso positivo por causa de carboidrato, seu doido! Eu fiz o de sangue também, o resultado digital saiu meia hora atrás no aplicativo! Quer que eu projete na televisão pra você ler os hormônios?!

Linn ergueu as mãos em rendição, dando um passo cauteloso para trás.

— Não, não, tudo bem, eu acredito, eu acredito plenamente.

Enquanto a comoção explodia ao redor, Morajo continuava imóvel.

Ele não piscava. Não se mexia. Sua pele parecia ter perdido qualquer traço de pigmentação, ficando de uma cor acinzentada quase transparente. A postura desleixada de segundos atrás havia desaparecido; ele estava rígido como uma estátua de mármore barata.

Zulmi se aproximou dele e passou a mão na frente dos olhos dele.

— Morajo? Alô? Terra chamando Morajo. Você tá respirando?

— Ele faleceu — decretou Jay, assentindo solenemente. — O cérebro dele deu tela azul e desligou pra proteger a própria existência.

— Morajo! — Analice deu dois passos pesados até a frente dele, cruzando os braços e batendo o pé no chão, impaciente ao extremo. — Não ouse fingir que desmaiou! Fala alguma coisa! Eu tô aqui surtando desde ontem à noite, eu quase arranquei todos os meus fios de cabelo, eu cantei a discografia inteira de pânico no banheiro, e você vai ficar aí com cara de peixe morto?!

Morajo piscou lentamente. Ele olhou para cima, encarando Analice. O olhar dele desceu devagarzinho para a barriga dela — que continuava absolutamente normal e plana —, depois voltou para os olhos furiosos da garota.

— Um... um bebê? — a voz dele saiu como um sussurro rouco, quase inaudível.

— É, Morajo. Um bebê. Uma criança. Um ser humano minúsculo que vai nascer, chorar, usar fralda e que metade do DNA veio de você! — disparou ela, perdendo o fôlego.

— Meu? — ele perguntou, parecendo uma criança perdida no supermercado.

— Não, Morajo, do vizinho! CLARO QUE É SEU! — Analice jogou as mãos para o alto, exasperada, querendo puxar os próprios cabelos. Mas aí, ao ver a expressão completamente atordoada, vulnerável e apavorada dele — que sempre tentava agir como o cara mais durão e descolado do pedaço —, o absurdo da situação bateu nela novamente.

Ela soltou um som entre um engasgo e um espirro.

— Ai, não... — murmurou Zulmi, reconhecendo os sinais.

— Pfff... HAHAHAHAHA! — Analice caiu na gargalhada de novo, cobrindo a barriga com as mãos enquanto ria até perder as forças. — Olha a sua cara! Hahaha! Você parece que viu um fantasma que roubou sua carteira! Hahahaha!

— Analice, para de rir! Isso é sério! — gritou Torajo, puxando os cabelos, agora em pânico total pelo irmão e pela amiga. — O que a gente vai fazer?! A gente precisa comprar fraldas? Berço? Tem que ligar pros nossos pais?! Meu Deus, o que os meus pais vão dizer quando souberem que o Morajo vai ser pai antes de conseguir passar de ano sem recuperação?!

— Quem disse que ele vai ser pai antes de passar de ano? Ele vai estudar E ser pai! — declarou Zulmi, que já começava a tentar organizar o caos mentalmente. — Analice, você já foi no médico? Precisa marcar pré-natal! Tem que tomar ácido fólico! Minha tia tomava isso quando tava grávida!

— Eu não sei o que é ácido fólico, Zulmi, eu só descobri isso hoje de manhã! — Analice tentava controlar a crise de riso, limpando as lágrimas que voltavam a descer, mas a adrenalina estava a mil por hora. — E para de gritar todo mundo, a cabeça de vocês tá me dando enxaqueca! Eu já disse que me estresso fácil e agora eu tenho desculpa biológica pra ser insuportável!

Morajo finalmente se levantou da poltrona. As pernas dele vacilaram por um milésimo de segundo, mas ele conseguiu se manter em pé.

Todos pararam de falar instantaneamente. A sala silenciou outra vez, os olhos voltados para o futuro pai.

Ele caminhou devagar até a mesinha de centro. Com os dedos ligeiramente trêmulos, ele se abaixou e pegou o teste de gravidez. Ficou encarando as duas linhas vermelhas por um longo tempo, como se estivesse tentando decifrar um enigma antigo.

Analice parou de rir por completo. O nervosismo bateu de volta com força total, apertando seu estômago. Ela engoliu em seco, a impaciência dando lugar a um medo genuíno e silencioso. E se ele fugisse? E se ele dissesse que não queria saber? A garganta dela secou, e ela começou a cantarolar num tom quase inaudível, buscando qualquer fio de autocontrole.

— Por favor não diz nada horrível, por favor não me faz ter que te socar...

Morajo soltou o ar que estava prendendo. Ele olhou para Analice. A expressão de choque ainda estava lá, mas o terror paralisante começou a se transformar em algo um pouco mais consciente, mais humano.

— Dois riscos... — disse ele, a voz ainda um pouco trêmula.

— É — respondeu ela, desafiadora, apesar do medo evidente nos olhos. — Dois riscos. Vai encarar ou vai fingir que não é com você?

Morajo deu um meio sorriso torto, aquele sorriso característico dele que tentava mascarar qualquer traço de insegurança, mas seus olhos o traíam: ele estava tão apavorado quanto ela.

— Fugir pra onde? Com você cantando alto desse jeito, me acharia no fim do mundo só pelo barulho.

Analice soltou uma risada fraca, com um fungado misturado.

— Eu acharia mesmo. E quebraria suas duas pernas.

— Eu sei que quebraria — Morajo olhou para o teste mais uma vez e depois o guardou no próprio bolso, com um cuidado surpreendente. Ele cruzou os braços, tentando recuperar a compostura habitual diante dos outros, embora suas bochechas estivessem queimando de vergonha e choque. — Bom... se tem um mini-eu vindo aí... pelo menos a criança vai herdar a minha beleza e o meu carisma impecável.

— Se herdar a sua preguiça e a sua falta de noção, eu jogo vocês dois da janela — rebateu ela imediatamente, mas o canto dos seus lábios tremeu num alívio mal disfarçado.

Torajo caiu sentado no sofá, jogando a cabeça para trás na almofada.

— Eu não acredito. Eu sinceramente não acredito. Eu vou ter que aprender a cuidar de um bebê junto com esses dois malucos. Nós vamos destruir essa criança.

— Não vamos, não! — interveio Zulmi, agora sorrindo de orelha a orelha com a perspectiva, já esquecendo o pânico inicial. — Vai ser o bebê mais paparicado do universo! Analice, a gente vai escolher roupinhas! Tem tanta coisa fofa!

— Nada de roupinha rosa ou cheia de babado se for menina, eu odeio babado, me estressa só de olhar — avisou Analice prontamente, apontando o dedo para a amiga.

— Pode deixar, a gente compra coisas com estampa de caveira pra combinar com o pai — ironizou Jay, rindo e levando um tapa no braço dado por Linn.

— Dá pra calarem a boca? — pediu Morajo, a voz falhando um pouco ao olhar de novo para Analice. Ele coçou a nuca, visivelmente desconcertado. — A gente... a gente precisa conversar depois. A sós. Tipo... sobre tudo.

Analice olhou para ele. A impaciência parecia finalmente ter se esgotado, dando lugar a um cansaço imenso. Ela suspirou, balançando a cabeça.

— É. A gente precisa. Mas se você me irritar nos próximos dez minutos, Morajo, eu juro que o primeiro chute dessa criança vai ser na sua canela.

E enquanto Jay fazia piadas sobre comprar protetores de canela e Torajo ainda tentava processar a ideia de virar tio, Analice soltou mais uma risadinha frouxa e involuntária de alívio. O caos estava apenas começando, mas, pelo menos por enquanto, ninguém tinha saído voando pela janela.

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