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Fandom: It a coisa

Criado: 09/10/2026

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O Peso do Amor de um Monstro

A madeira rangia sob o peso de passos pesados e furiosos, e Clara sabia exatamente o que aquele som significava.

Ela encolheu os ombros redondos contra o colchão fino, puxando o suéter de lã folgado sobre o corpo. Suas curvas, fartas e macias, sempre foram o alvo favorito da língua ferina de seu pai. "Um desperdício de espaço", ele costumava gritar quando a garrafa de uísque barato chegava à metade. "Nenhum homem de verdade olharia para uma montanha de carne inútil como você."

Antes, aquelas palavras doíam, mas Clara tinha um refúgio. Ela tinha Bill.

Ou pelo menos achava que tinha.

Bill não se importava com as medidas dela. Ele costumava puxá-la para o colo com uma facilidade desconcertante, enterrando os dedos longos e gélidos na carne macia de sua cintura, descansando o queixo afiado na curva do pescoço dela. Para Bill, Clara parecia perfeita. Ele sussurrava elogios estranhos, poéticos e quase famintos em seu ouvido, dizendo que ela cheirava a açúcar refinado e medo adocicado. Bill tinha a pele pálida como mármore, cabelos que pareciam queimar como cobre sob a luz do sol e olhos azuis tão intensos que às vezes pareciam queimar em um tom amarelado quando ele a fitava com muita atenção.

Ele sempre fora humano para ela. Um homem misterioso, impecavelmente vestido com ternos antiquados e coletes cinzentos, que aparecia nos becos sombrios de Derry ou na beira do canal para resgatá-la do próprio inferno.

Mas há três semanas, Bill havia terminado tudo.

Ele não gritara. Ele apenas a encarara na penumbra das ruínas da velha fábrica, com uma frieza que quase congelou o ar ao redor. “Você é frágil demais, minha Clara. Sangra fácil demais”, dissera ele, com a voz vibrando num tom gutural e antinatural antes de desaparecer nas sombras úmidas de Derry.

Desde então, o pai de Clara parecia ter percebido a ausência do "protetor fantasma". As agressões, que antes se limitavam a palavras cruéis, haviam se tornado hematomas roxos e dolorosos que ela cobria com maquiagem barata. A casa cheirava a mofo, podridão e cinzas de cigarro. Clara sentia que Derry estava se fechando sobre ela como a mandíbula de uma armadilha enferrujada.

Com a respiração presa, ela esperou que o pai desabasse no sofá da sala, roncando ruidosamente, antes de calçar as botas gastas e esgueirar-se pela porta dos fundos. O ar da tarde em Derry era pesado, úmido, carregado daquele cheiro característico de esgoto e ferro que parecia emanar de cada bueiro daquela cidade maldita.

Ela caminhou sem rumo pelas ruas arborizadas, mantendo os olhos baixos. Seu corpo doía — uma costela latejava pelo chute da noite anterior —, mas o que mais doía era o vazio no peito. Bill a havia abandonado. O único ser que parecia enxergá-la no mundo simplesmente havia ido embora, e tudo o que restava eram sombras.

— Clara? — Uma voz suave, mas hesitante, cortou o silêncio da rua deserta perto da biblioteca pública.

Clara ergueu a cabeça bruscamente, assustada, ajeitando as mangas compridas para cobrir os nós dos dedos escoriados.

Havia um grupo de pessoas paradas sob a sombra de um carvalho imenso. Eram jovens, ou quase isso, com semblantes exaustos e olhos assombrados. Uma mulher ruiva de olhar penetrante deu um passo à frente, acompanhada por um homem alto e negro com um bloco de notas de couro sob o braço, e um terceiro com óculos grossos e uma postura tensa.

— Quem são vocês? — perguntou Clara, recuando um passo, o instinto de defesa ativado após anos de abusos. — Como sabem meu nome?

— Por favor, não se assuste — pediu a ruiva, erguendo as palmas das mãos em um gesto pacífico. — Meu nome é Beverly. Este é o Mike, e aquele é o Richie. Nós… nós estávamos procurando por você, Clara.

— Procurando por mim? — Clara soltou uma risada amarga, balançando a cabeça. — Devem ter me confundido. Ninguém procura por mim nesta cidade.

— N-não é engano — disse uma nova voz, vinda de trás do tronco da árvore. Um homem alto, de cabelos castanhos e olhar determinado, aproximou-se. Ele gaguejava de forma sutil, mas sua voz carregava uma autoridade pesada. — Nós sabemos q-quem você é. E sabemos com quem você esteve se encontrando.

O coração de Clara deu um salto contra as costelas.

— O quê?

— O homem que você chama de Bill — disse Mike Hanlon, dando passos calmos na direção dela, mantendo a voz tão neutra quanto possível. — O homem alto, pálido, com roupas antigas. O homem que desaparece como névoa.

— Deixem ele em paz! — disparou ela, o sangue subindo-lhe ao rosto. Uma onda de vergonha e proteção a atingiu. — Nós nem estamos mais juntos. Ele terminou comigo, se é isso que vocês querem saber. Vão embora. Eu não tenho nada que interesse a vocês.

— Clara, você não entende — interveio Beverly, aproximando-se com cuidado, os olhos caindo no corte mal cicatrizado perto da sobrancelha de Clara e na marca roxa que despontava na gola do seu suéter. A expressão de Beverly amoleceu com uma dor familiar. — Nós sabemos o que você passa em casa. Nós vemos o que seu pai faz. Mas você precisa nos ouvir. O homem com quem você estava… ele não é um homem.

Clara franziu a testa, a respiração acelerando.

— O que você está dizendo? Bill é… ele é um pouco excêntrico, só isso! Ele tem problemas, mas…

— Ele não é uma pessoa, Clara! — Richie Tozier quase gritou, ajeitando os óculos com a mão trêmula, o humor habitual completamente varrido pelo terror. — Pelo amor de Deus, garota, você estava transando ou sei lá o que com a encarnação do pesadelo desta cidade!

— Richie, cala a boca! — sibilou Beverly, fuzilando-o com o olhar, antes de voltar-se para Clara. — Ele é um monstro. Literalmente. Uma entidade antiga que dorme e acorda sob as ruas de Derry. Ele se alimenta de crianças. Ele se alimenta do medo das pessoas. É ele quem faz coisas horríveis acontecerem aqui há séculos.

Clara recuou até bater as costas no tronco áspero de uma árvore. Sua mente rodopiava, tentando repelir as palavras como se fossem veneno puro.

— Vocês estão loucos… Todos vocês são loucos de manicômio.

— Mike descobriu tudo nos arquivos — insistiu o outro Bill, Denbrough, apontando para o caderno. — Toda vez que a criatura ressurge, há um rastro de carnificina. Mas nas últimas semanas, houve algo errado com o padrão. Ele começou a caçar menos em certas áreas. Ele estava rondando você. Mike viu ele com você no parque, Clara. Ele parecia… diferente.

— Ele se veste de palhaço, Clara — sussurrou Mike, com a voz carregada de gravidade. — Pennywise, o Palhaço Dançarino. Essa é a forma que ele usa para aterrorizar as crianças antes de devorá-las. Mas para você… ele colocou uma máscara humana. Ele se escondeu atrás do rosto de um homem.

Um arrepio glacial desceu pela espinha de Clara. Imagens vieram à sua mente em lampejos caóticos: os olhos de Bill brilhando como brasas incandescentes no escuro do cinema abandonado; a temperatura do corpo dele, que nunca aumentava, permanecendo sempre tão fria quanto a geada; a força absurda com que ele segurava coisas, como se pudesse dobrar vigas de aço sem esforço. E aquele sorriso… aquele sorriso que, por frações de segundo, parecia esticar-se além do que qualquer boca humana deveria permitir.

— Não… — Clara balançou a cabeça, sentindo lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas gordinhas. — Não, ele não faria mal a mim. Ele nunca me machucou. Nem uma única vez!

— Ainda não! — retrucou Bill Denbrough, aproximando-se mais, o desespero tingindo seu tom. — É um predador, Clara. Ele brinca com a comida antes de estraçalhar! Ele odeia tudo o que é vivo. Odeia o mundo inteiro! Ele só estava mantendo você por perto para engordar o próprio apetite. Ele é uma abominação que vai te rasgar em pedaços no segundo em que se cansar de fingir!

— Cale a boca! — soluçou ela, cobrindo os ouvidos. — Ele me amava! Ele dizia que eu era bonita quando todo mundo me chamava de gorda nojenta! Ele segurava a minha mão!

— Ele estava usando você! — gritou Richie. — E agora nós precisamos que você nos ajude a atrair essa coisa para o poço. Você é a única que pode chegar perto dele sem que ele arranque a sua cabeça na hora! Nós precisamos de você para matá-lo, Clara!

As palavras ecoaram pela rua deserta. O silêncio que se seguiu foi quase palpável, interrompido apenas pelos soluços pesados de Clara. Ela estava curvada, as mãos pressionadas contra o rosto, sentindo-se mais despedaçada do que nunca. Seu porto seguro, o único homem a quem entregara seus segredos e seu corpo, era apontado como um monstro devorador de crianças. E agora aquele grupo de estranhos queria usá-la como isca.

Nenhum deles notou a mudança no vento.

O ar quente do fim de tarde congelou instantaneamente. As folhas secas no asfalto começaram a rodopiar em círculos apertados e furiosos, e um cheiro rançoso e sufocante de pipoca queimada, algodão-doce podre e esgoto saturou o ambiente.

Abaixo de seus pés, sob a grade de ferro de uma boca de lobo a apenas três metros de distância, dois pontos de luz prateada e doentia se acenderam na escuridão profunda.

Luzes da Morte.

A Coisa estava ouvindo.

Em sua forma primordial, no abismo de ódio que compunha sua existência de milhares de anos, a entidade desprezava os humanos. Odiava a respiração deles, o sangue quente, a estupidez frágil de suas vidas ridículas. Odiava o Clube dos Otários com cada fibra de sua malevolência cósmica. Ele queria esmagar os ossos de Bill Denbrough e arrancar os dentes de Beverly Marsh um por um.

Mas havia algo novo. Uma fúria que a criatura nunca havia experimentado em milênios de terror.

Eles haviam tocado nela. Haviam feito Clara chorar. E, pior de tudo, haviam ousado insinuar que ele a machucaria.

“Ele vai te rasgar em pedaços…”

A frase ecoou na mente cósmica do monstro como ácido fervente. Como aqueles vermes insignificantes ousavam proferir tal mentira para sua criatura macia, para a única coisa em toda aquela dimensão podre que ele havia escolhido preservar? Ele odiava a humanidade inteira, odiava a existência, mas acima de todas as coisas sob as estrelas, ele odiava qualquer um que dissesse a Clara que ela estava em perigo ao lado dele.

As lâmpadas dos postes da rua começaram a piscar violently, estalando em uma sinfonia elétrica descompassada.

— P-pessoal… — gaguejou Eddie Kaspbrak, que havia permanecido quieto nas sombras, puxando a bombinha de asma com os olhos arregalados. — O ar… o ar tá fedendo. Tá muito frio!

— Ele está aqui — sussurrou Beverly, puxando Mike para trás. — Ele nos achou.

Clara ainda chorava, de cabeça baixa, alheia à escuridão que se adensava ao seu redor.

Do bueiro, a escuridão pareceu vomitar uma silhueta. Não era o palhaço com sua gola vitoriana e maquiagem rachada. Não diante de Clara. Nunca diante dela.

A matéria escura se condensou, dobrando a luz e o espaço, até que um homem de sobretudo preto e cabelos acobreados emergiu calmamente da penumbra projetada pelo carvalho. Os sapatos de couro engraxados tocaram o chão sem emitir o menor som. Ele era alto, imponente, com feições aristocráticas esculpidas em mármore gélido.

Seus olhos azuis repousavam sobre Clara, brilhando com uma intensidade voraz e possessiva. Mas quando o olhar de Bill se deslocou para os quatro membros do Clube dos Otários, as pupilas dilataram-se tanto que o azul quase desapareceu, tomado por poços sem fundo de ódio puro.

Um sorriso fino, afiado como uma navalha cirúrgica, cortou o rosto do homem.

— Vocês falam demais, pequenos pedaços de carne — murmurou ele. A voz humana de Bill ressoou, mas por baixo dela, como um eco subaquático, rugiam vozes de centenas de almas moribundas.

Os Otários deram três passos largos para trás, em pânico. Bill Denbrough cerrou os punhos, mas o terror paralisou seus músculos.

— B-Bill… — soluçou Clara, erguendo o rosto banhado de lágrimas ao ouvir aquela voz inconfundível.

Ao vê-lo ali, impecável, com a mesma postura que a fazia suspirar nos dias de solidão, o peito dela se apertou. Mas então ela notou a rigidez dos outros, o pavor visceral nos olhos de Beverly, a forma como as sombras pareciam rastejar aos pés dele como cobras vivas.

O homem deu um passo na direção de Clara, ignorando completamente os homens que o cercavam. Ele se ajoelhou na calçada empoeirada, sujando o tecido caro de suas calças sem se importar, ficando exatamente na altura dos olhos dela.

— Clara — disse ele, a voz descendo para um tom macio, hipnótico, quase carinhoso. — Minha doce, tola Clara.

Ele ergueu uma das mãos de dedos longos e tocou o queixo dela. O contato era frio como gelo de inverno, mas Clara não se afastou. Ela tremeu, dividida entre as revelações aterrorizantes dos Otários e o conforto que aquele toque sempre lhe dera.

Os olhos de Bill, no entanto, pousaram na marca roxa que despontava em sua bochecha — a marca deixada pelos anéis do pai dela na noite anterior. Por um breve microssegundo, a ilusão humana falhou: o rosto dele tremeu, a mandíbula pareceu se alargar e dezenas de fileiras de dentes pontiagudos e translúcidos reluziram na escuridão de sua boca, antes de voltarem ao disfarce suave.

Bill virou o pescoço em um ângulo assustadoramente mecânico, fitando os Otários com um veneno tão denso que parecia capaz de queimar o concreto.

— Vocês disseram a ela que eu a devoraria? — perguntou ele, a voz rastejando pelo chão como vidro quebrado. — Disseram que eu rasgaria essa pele macia? Que eu apagaria o medo delicioso e puro que ela guarda no peito?

— Nós s-sabemos o que você é! — gritou Bill Denbrough, a voz quebrando. — Deixe ela em paz!

O monstro sob a pele de homem ergueu-se lentamente. A ilusão tremeluzia nas bordas de seu sobretudo, onde tufos de tecido de cetim prateado e pompons alaranjados pareciam querer escapar para o mundo real. Ele deu um riso baixo, rouco, que fez os tímpanos de todos zumbirem de dor.

— Vocês não sabem de nada — sibilou ele, os olhos agora completamente dourados, fixos em Denbrough. — Eu odiei este mundo antes mesmo que os seus antepassados rastejassem para fora da lama. Eu odeio cada suspiro patético que vocês dão. Eu queimei cidades inteiras e transformei os gritos dos seus filhos em música.

Ele deu um passo à frente, e o asfalto sob sua bota estalou, rachando em uma teia perfeita.

— Mas vocês… — rosnou o ser, o ódio vazando por seus poros como fumaça negra —, vocês ousaram dizer que eu a destruiria. Vocês tentaram roubar dela a única certeza de que há algo neste esgoto que nunca a machucará.

Clara puxou o ar com força, olhando para as costas largas de Bill.

— Bill… por favor… — murmurou ela, assustada com a atmosfera infernal que o cercava, mas incapaz de negar o modo como ele a olhava. Não havia nojo nos olhos dele, como havia nos do pai dela. Não havia desprezo por suas curvas, por seu choro, por sua dor.

Havia adoração. Uma adoração profana, grotesca e distorcida, mas ainda assim, uma adoração eterna.

O homem virou-se ligeiramente para ela, o sorriso se suavizando apenas o suficiente para acalmar seu coração aos tropeços.

— Vá para casa, Clara — ordenou ele, sua voz humana retornando, aveludada e persuasiva. — Espere por mim no seu quarto. Eu vou resolver o problema com o seu pai esta noite. Ele nunca mais vai levantar a mão para você. Nunca mais.

— O que você vai fazer? — sussurrou ela, lágrimas novas brotando.

— O que deveria ter feito desde o momento em que a vi pela primeira vez — respondeu ele, antes de virar-se inteiramente para o Clube dos Otários. As luzes da rua explodiram em uma chuva de faíscas brilhantes, mergulhando a calçada na mais completa escuridão.

E, na penumbra total que se seguiu, o riso histérico e infantil de um palhaço ecoou por cada cano de esgoto de Derry, prometendo um banho de sangue para qualquer um que ousasse se colocar entre o monstro e sua garota.

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