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Tatsuro

Fandom: Máfia

Criado: 10/10/2026

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O Leilão da Boneca de Vidro

O frio da Rússia não era apenas uma questão de temperatura; era uma presença física que penetrava os ossos e congelava a esperança. Para Tatsuyo Nakamura, o mundo havia se tornado um borrão de dor, terror e sons incompreensíveis. Ela estava encolhida no canto de uma cela improvisada, o concreto úmido sugando o calor de seu corpo. Seus pulsos, amarrados com uma corda áspera que já havia esfolado sua pele parda, latejavam ritmicamente. O pano apertado em sua boca impedia qualquer grito, permitindo apenas gemidos abafados que se perdiam no ar pesado do porão.

Ao lado dela, outras três meninas russas choravam baixinho, e dois homens, com rostos desfigurados por espancamentos, permaneciam em silêncio absoluto — traidores da máfia, destinados a um fim muito pior do que o dela. Tatsuyo não entendia uma palavra do que os guardas diziam. A língua russa soava como o rosnado de lobos, agressiva e cortante, nada parecida com a melodia suave de sua Tóquio natal.

A porta de ferro rangeu, e o som ecoou como um tiro. Um homem mais velho, com olhos de gelo e uma aura de autoridade absoluta, entrou no cômodo. Era o chefe da máfia Volkov. Atrás dele, dois capangas e um jovem que parecia deslocado naquele ambiente de sujeira e desespero.

Kuro Volkov tinha o cabelo branco, curto e repicado, que brilhava sob a luz fraca das lâmpadas fluorescentes. Com 1,80 m de altura e um corpo visivelmente musculoso sob a camisa de seda negra, ele observava o ambiente com uma indiferença que beirava o tédio. Seus olhos castanhos escuros, no entanto, eram intensos, carregados de uma energia predatória que fazia a espinha de Tatsuyo estremecer.

Um dos guardas aproximou-se da grade de Tatsuyo e gritou algo, chutando o metal.

— Vstвай, malen'kaya kukla! — ordenou o guarda, a voz ríspida e impaciente.

Tatsuyo encolheu-se ainda mais, escondendo o rosto entre os joelhos dobrados. Ela não sabia o que ele queria. O pânico a paralisava.

— Otvechay! — O homem insistiu, puxando-a pelos cabelos.

Tatsuyo soltou um gemido agudo por trás da mordaça, as lágrimas escorrendo por suas bochechas e molhando o tecido preto. Ela balançou a cabeça freneticamente, tentando dizer que não entendia, mas o guarda apenas se irritou mais, levantando a mão para golpeá-la.

— Dostatochno. — A voz de Kuro cortou o ar.

O guarda parou imediatamente, o braço suspenso no ar. Kuro caminhou lentamente até a cela, seus olhos fixos na garota japonesa. Ele percebeu o óbvio que os outros ignoravam: ela não estava sendo rebelde; ela estava perdida.

— Ela não fala russo, seu idiota — disse Kuro em sua língua nativa, a voz profunda e calma. — Olhe para ela. Está aterrorizada demais para entender até o próprio nome.

O pai de Kuro, o velho Volkov, aproximou-se, observando Tatsuyo com um olhar clínico, como se estivesse avaliando uma peça de gado.

— Ela é a peça central, Kuro — disse o pai, a voz rouca de anos de cigarros e ordens de execução. — Um cliente de enorme influência, alguém que lida com as raízes da família dela no Japão, a quer. Eles dizem que ela é a chave para uma dívida antiga, embora a garota pareça não ter um centavo no nome. Ele virá em duas semanas para avaliá-la. Se ela estiver marcada ou quebrada demais, o negócio cai.

— Duas semanas é muito tempo para deixá-la neste buraco — comentou Kuro, cruzando os braços e deixando os músculos do peito e do abdômen definidos marcarem o tecido da camisa.

— Exatamente. Por isso, você cuidará dela — ordenou o velho Volkov. — Tire-a daqui. Leve-a para o quarto no final do corredor leste. Mantenha-a alimentada, limpa e, acima de tudo, segura. Se ela tentar fugir, a culpa será sua.

Kuro deu um sorriso de lado, um brilho perverso e interessado surgindo em seus olhos castanhos.

— Com prazer, pai.

Kuro aproximou-se de Tatsuyo. Ele não usou de violência. Com um movimento rápido, ele pegou a chave do guarda e abriu a cela. Tatsuyo tentou se arrastar para trás, mas não havia para onde ir. Ele se inclinou, o cheiro de perfume caro e tabaco envolvendo-a, e desamarrou a mordaça de sua boca com dedos surpreendentemente ágeis.

— Daijoubu ka? — murmurou ele.

Tatsuyo arregalou os olhos. Ele falava japonês? A pronúncia era carregada de sotaque, mas ela entendeu. "Você está bem?".

— Por favor... — ela sussurrou, a voz falhando, as cordas vocais secas. — Por favor, me deixe ir...

Kuro não respondeu. Ele apenas a pegou no colo, levantando-a como se ela não pesasse nada. Tatsuyo soltou um arquejo, instintivamente agarrando-se aos ombros largos dele, sentindo a dureza dos músculos sob a pele branca. Ele a carregou para fora daquele porão úmido, subindo escadas e atravessando corredores luxuosos que pareciam pertencer a um mundo completamente diferente.

Eles chegaram a um quarto espaçoso, decorado com móveis de madeira escura e lençóis de seda. Kuro a colocou sobre a cama macia e, com uma faca pequena que tirou do bolso, cortou as cordas em seus pulsos.

Tatsuyo massageou a pele avermelhada, olhando para ele com uma mistura de gratidão e pavor. Kuro se sentou na beirada da cama, observando-a com uma intensidade que a deixava desconfortável. Ele era bonito, de uma forma perigosa e selvagem.

— Você está segura aqui, por enquanto — disse Kuro, voltando para o russo por um momento antes de se corrigir para o japonês limitado que conhecia. — Ninguém toca em você sem minha permissão.

Tatsuyo tremeu, encolhendo-se contra a cabeceira da cama.

— Por que estou aqui? Quem é esse cliente?

— Você faz perguntas demais para uma boneca — disse Kuro, um sorriso predatório brincando em seus lábios. Ele esticou a mão e tocou uma mecha do longo cabelo preto dela, que chegava até a cintura. — Seu cabelo é bonito. Macio.

Tatsuyo tentou se afastar do toque, mas Kuro foi mais rápido, segurando seu queixo com firmeza, mas sem apertar a ponto de machucar.

— Escute bem, pequena japonesa — ele disse, a voz baixando para um tom rouco. — Meu pai quer você perfeita para o leilão daqui a duas semanas. Mas eu... eu gosto de coisas bonitas. E você é a coisa mais bonita que entrou nesta casa em muito tempo.

— Eu quero ir para casa — ela soluçou, as lágrimas voltando a cair.

Kuro suspirou, um som que parecia quase genuíno de lamentação. Ele se levantou e caminhou até uma mesa lateral, pegando uma jarra de água e um copo.

— Beba — ordenou ele, entregando o copo a ela. — Você precisa de forças.

Tatsuyo aceitou o copo com mãos trêmulas, bebendo a água avidamente. Kuro a observava, seus olhos descendo pelo corpo dela, notando a forma como o tecido rasgado de sua roupa revelava a pele parda e as curvas delicadas de seus dezoito anos. Ele era um homem de apetites vorazes, e ter aquela criatura exótica sob sua guarda seria um desafio interessante para seu autocontrole — ou a falta dele.

— O que vai acontecer comigo depois das duas semanas? — perguntou ela, a voz um pouco mais firme após a água.

Kuro inclinou a cabeça, o cabelo branco caindo sobre a testa.

— Se o cliente gostar do que vir, você será dele. Se não... bem, você continuará comigo. E eu não sei qual das opções é pior para você, Tatsuyo.

Ela estremeceu ao ouvir seu nome sair da boca dele. Como ele sabia seu nome?

— Como você sabe quem eu sou?

— Eu sei tudo sobre o que entra na minha casa — respondeu ele, aproximando-se novamente. Ele se inclinou sobre ela, apoiando as mãos na cama, uma de cada lado do corpo dela, cercando-a. — Você é filha de uma linhagem que meu pai respeita, embora sua família tenha caído na pobreza. Há segredos no seu sangue que você nem imagina.

Tatsuyo sentiu o calor do corpo dele emanando contra o seu. A proximidade era intimidadora. Kuro era uma força da natureza, um predador que parecia estar brincando com sua presa antes de decidir se a devoraria ou a protegeria.

— Por que você está sendo... bom comigo? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.

Kuro soltou uma risada baixa, um som sombrio que vibrou no peito dele.

— Bom? — Ele roçou o nariz no pescoço dela, inalando o cheiro de medo e jasmim que ainda emanava de sua pele. — Eu não sou bom, Tatsuyo. Eu sou apenas paciente. E eu prefiro minhas mulheres inteiras e responsivas, não quebradas em um porão.

Ele se afastou, deixando-a respirar novamente.

— Vou mandar trazerem comida. E roupas novas. Tome um banho. Há uma banheira no cômodo ao lado. Se você tentar pular pela janela, vai cair de uma altura de dez metros sobre cães que não são tão pacientes quanto eu. Entendido?

Tatsuyo assentiu rapidamente, o medo ainda latente, mas uma pequena faísca de sobrevivência começando a queimar em seu peito.

— Ótimo — disse Kuro, caminhando até a porta. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro. — Tente descansar. Você vai precisar de energia para o que vem pela frente.

A porta se fechou com um clique metálico, e Tatsuyo finalmente se permitiu desabar, chorando silenciosamente contra os travesseiros de seda. Ela estava no coração da máfia russa, nas mãos de um homem que a olhava como se ela fosse um tesouro proibido. Duas semanas. Ela tinha catorze dias para descobrir como sobreviver a Kuro Volkov e ao destino sombrio que a aguardava no fim daquele prazo.

Do outro lado da porta, Kuro encostou-se na parede, um sorriso satisfeito no rosto. Ele sabia que deveria apenas vigiá-la, mas a pureza e o terror nos olhos de Tatsuyo haviam despertado algo nele que ia além do dever familiar. Ela era dele para cuidar, dele para observar... e, talvez, dele para corromper antes que o mundo a levasse embora.

A Rússia era fria, mas dentro da mansão Volkov, o jogo estava apenas começando a esquentar.

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