
Tatsuro
Fandom: Máfia
Criado: 10/10/2026
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O Silêncio de Seda e o Gosto do Medo
O ar no porão era pesado, impregnado com o cheiro de mofo, ferrugem e algo metálico que Tatsuyo não conseguia identificar, mas que seu instinto dizia ser sangue seco. As paredes de pedra úmida pareciam se fechar sobre ela a cada respiração curta e trêmula que conseguia dar através da mordaça de tecido áspero. Seus pulsos, amarrados com força excessiva atrás das costas, já estavam dormentes, e a circulação falha fazia seus dedos formigarem de uma maneira dolorosa.
Ela não sabia há quantos dias — ou seriam horas? — estava naquela escuridão. O tempo havia se tornado uma massa disforme de terror. A última lembrança clara que tinha era das luzes de neon de Shinjuku, do cheiro de chuva no asfalto e, de repente, de mãos fortes cobrindo sua boca e o mundo escurecendo sob o efeito de um produto químico.
Agora, ela estava na Itália. Ou pelo menos foi o que entendeu pelos gritos dos homens que a jogaram naquele buraco. O idioma deles soava como trovões agressivos aos seus ouvidos; ela não compreendia uma única palavra. Tatsuyo tentou gritar novamente, mas o som saiu apenas como um lamento abafado e patético. Lágrimas quentes escorreram por sua pele parda, traçando caminhos limpos na sujeira de seu rosto, até sumirem sob a mordaça.
Ela tinha apenas dezoito anos. Sua vida deveria estar começando na universidade, não terminando em um leilão de carne humana organizado pela máfia.
O som pesado de uma tranca de ferro sendo girada ecoou pelo ambiente, fazendo o coração de Tatsuyo saltar contra as costelas. A porta no topo da escada de madeira rangeu, e uma silhueta alta bloqueou a luz fraca que vinha do corredor superior.
Passos lentos e deliberados começaram a descer. Toc. Toc. Toc.
Tatsuyo se encolheu contra a parede fria, seus longos cabelos pretos e ondulados caindo sobre os ombros como um manto de seda desgrenhado. Ela fechou os olhos com força, esperando o pior.
— Ora, ora... o que temos aqui? — Uma voz masculina, profunda e arrastada, preencheu o silêncio.
Tatsuyo abriu os olhos e o viu.
O homem era alto, muito mais alto que ela. Ele vestia uma camisa social preta entreaberta, revelando a musculatura definida de um abdômen trabalhado e o início de um peitoral robusto. O que mais chamava a atenção, porém, era o seu cabelo. Era branco, curto e repicado, mas na raiz, uma fina faixa de castanho-claro denunciava que ele havia negligenciado a tintura por algumas semanas. Seus olhos castanhos escuros brilhavam com uma intensidade predatória sob a luz fraca de uma lâmpada solitária que ele acabara de acender.
Ele se aproximou, agachando-se na frente dela. O cheiro de perfume caro e tabaco substituiu o odor de mofo, o que, por algum motivo, a deixou ainda mais em pânico.
— Tasuke... te... — Tatsuyo implorou em japonês, a voz saindo como um sussurro sufocado pela mordaça.
O homem inclinou a cabeça para o lado, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.
— Não entendo nada do que você diz, bonequinha — disse ele em italiano, a voz carregada de um deboche charmoso. — Mas o som da sua voz, mesmo abafado, é música para os meus ouvidos.
Ele estendeu a mão e, com um movimento lento, tocou o rosto de Tatsuyo. Ela recuou violentamente, batendo a cabeça contra a parede de pedra.
— Calma, piccola — murmurou ele, sem parecer ofendido pela reação dela. — Eu sou o Kuro. E, por enquanto, eu sou o seu dono, o seu guarda e a única coisa que impede meu pai de te entregar para aqueles porcos no leilão hoje à noite.
Tatsuyo soluçou, o corpo inteiro tremendo. Ela não entendia as palavras, mas entendia o olhar dele. Era o olhar de um lobo observando uma ovelha encurralada, mas havia algo mais — uma lascívia descarada que a fazia sentir-se despida.
Kuro levou a mão à mordaça e, com um movimento rápido, desamarrou o nó.
Tatsuyo tossiu, a boca seca e dolorida. Ela respirou fundo, o ar entrando em seus pulmões de forma desesperada.
— Por favor... me deixe ir... eu não fiz nada... — ela disparou em japonês, as palavras saindo em meio a soluços. — Eu quero ir para casa!
Kuro riu, um som baixo e gutural. Ele segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a a encará-lo.
— Você é linda demais para o seu próprio bem, sabia? — Ele deslizou o polegar pelo lábio inferior dela. — Essa pele parda, esse cabelo... você vai valer uma fortuna. Ou talvez eu devesse simplesmente ficar com você. O que acha?
Tatsuyo tentou cuspir nele, mas sua boca estava seca demais. Ela apenas rosnou, o ódio lutando contra o medo em seus olhos negros.
— Anata wa akuma da! — gritou ela.
— Akuma? — Kuro repetiu, franzindo a testa. — Soa como algo ruim. Mas vindo de uma coisinha como você, soa quase como um elogio.
Ele se levantou, mas não se afastou. Em vez disso, começou a caminhar ao redor dela, avaliando-a como se fosse uma mercadoria de luxo. Seus olhos percorriam as curvas de Tatsuyo, detendo-se nos pontos onde as roupas estavam rasgadas.
— Meu pai quer que eu te vigie até que ele decida o preço inicial — disse Kuro, voltando a ficar de frente para ela. — Ele acha que eu sou o melhor para isso porque eu sei como "amansar" as rebeldes.
Ele se ajoelhou novamente, desta vez ficando entre as pernas dela, forçando-as a se abrirem levemente enquanto ele se acomodava no espaço. Tatsuyo sentiu o calor do corpo dele e a pressão de seus músculos contra seus joelhos. O pânico atingiu um novo nível.
— Não! Afaste-se! — Ela tentou chutá-lo, mas Kuro foi mais rápido, prendendo as pernas dela com o peso do próprio corpo.
— Shhh... — Ele colocou um dedo sobre os lábios dela. — Se você continuar gritando, eu vou ter que colocar a mordaça de volta. E eu prefiro ouvir os seus gemidos a ouvir esse silêncio abafado.
Ele aproximou o rosto do pescoço dela, inalando o cheiro de sua pele. Tatsuyo sentiu o roçar do cabelo espetado dele contra sua bochecha.
— Você cheira a medo e a flores — sussurrou ele no ouvido dela, a respiração quente causando arrepios indesejados na jovem. — É uma combinação inebriante.
Tatsuyo fechou os olhos, as lágrimas escorrendo sem parar. Ela se sentia pequena, insignificante diante daquele gigante italiano que parecia encontrar diversão em seu desespero.
— Por favor... — ela sussurrou uma última vez, a voz falhando.
Kuro se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele viu a quebra, o momento exato em que a esperança de Tatsuyo começou a se esvair. Por um segundo, algo que não era apenas luxúria brilhou nos olhos castanhos dele, mas logo foi substituído pelo brilho perigoso de sempre.
— Você não tem ideia do que te espera lá fora, Tatsuyo — disse ele, usando o nome que vira nos documentos dela. — O mundo da máfia italiana não tem misericórdia para meninas bonitas. Mas aqui, comigo... — Ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Eu posso ser muito bom para você, se você aprender a me obedecer.
Ele estendeu a mão e desamarrou as cordas que prendiam os pulsos dela. Tatsuyo soltou um gemido de dor quando o sangue voltou a circular, suas mãos caindo pesadamente ao lado do corpo. Ela não tentou fugir; sabia que não tinha forças.
Kuro pegou uma das mãos dela e a beijou suavemente, um gesto que contrastava violentamente com a brutalidade da situação.
— Bem-vinda à sua nova vida — disse ele, levantando-se e puxando-a pelo braço, obrigando-a a se levantar também.
Tatsuyo cambaleou, as pernas fracas. Kuro a segurou pela cintura, colando o corpo dela ao seu. Ela podia sentir a dureza do abdômen dele e a força em seus braços. Ele era uma muralha de carne e perversidade.
— Eu odeio você — ela disse em japonês, o tom de voz gélido apesar do tremor.
Kuro não precisou de tradução para entender o veneno em sua voz. Ele apenas riu, puxando-a em direção à escada.
— O ódio é um ótimo começo, piccola. É muito mais divertido transformar ódio em prazer do que lidar com a indiferença.
Enquanto subiam os degraus em direção à luz incerta do resto da mansão, Tatsuyo olhou para a nuca de Kuro, notando a faixa castanha em sua raiz. Era um detalhe humano em um monstro, mas ela sabia que, naquela casa, não havia espaço para a humanidade. Ela estava em território inimigo, à mercê de um homem que a via como um brinquedo, e a única coisa que restava era tentar sobreviver ao inferno que estava apenas começando.
Ao chegarem ao topo, Kuro parou e a olhou uma última vez antes de abrir a porta para o corredor principal.
— Tente não fugir — avisou ele, a voz subitamente séria. — Meu pai mata o que não pode vender. E eu... eu ainda não terminei de brincar com você.
Ele abriu a porta, e a luz forte do corredor cegou Tatsuyo por um momento. Ela foi empurrada para a frente, sentindo a mão de Kuro possessivamente firme em seu ombro. O pesadelo estava longe de acabar; na verdade, as portas do inferno italiano haviam acabado de se escancarar para ela.
