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Tatsuro

Fandom: Hotel Assombrado

Criado: 10/10/2026

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Ecos de um Coração Incorpóreo

As luzes do Hotel Assombrado sempre pareciam ter um brilho diferente quando o silêncio se instalava nos corredores. Não era o silêncio do vazio, mas aquele carregado de presenças, de histórias que se recusavam a ser esquecidas. No saguão principal, a lareira crepitava com chamas azuladas que não emitiam calor, mas emanavam uma aura de conforto para aqueles que já não pertenciam ao mundo dos vivos.

Tatsuyo estava sentada em uma das poltronas de veludo, balançando levemente as pernas. Sua camisola branca de mangas longas, delicada e fluida, caía até a altura dos joelhos, contrastando com sua pele parda e seus longos cabelos pretos que cascateavam pelas costas até a cintura. Ela parecia uma boneca de porcelana em meio às sombras do hotel.

— Você está muito quieta hoje, Tatsy — comentou uma voz profunda, mas carregada de uma doçura rara.

Abaddon estava sentado no chão, encostado na base da poltrona dela. O demônio, geralmente tão imponente e temido, ali parecia apenas um irmão mais novo buscando proteção. Ele olhava para Tatsuyo com uma admiração genuína, um afeto fraternal que desafiava sua própria natureza. Para Abaddon, Tatsuyo era o porto seguro, a irmã mais velha que ele nunca teve na vida ou na morte.

— Só estou pensando, Abbie — respondeu ela, sorrindo e passando a mão pelos cabelos dele. — O hotel está calmo. Nathan e Katie estão na biblioteca, e Ben e Ester estão tentando convencer o Kuro a jogar esconde-esconde no sótão.

Abaddon soltou um bufo baixo, fechando os olhos sob o toque de Tatsuyo.

— O Kuro é um idiota — resmungou o pequeno demônio. — Ele passa tempo demais olhando para você e tempo de menos sendo útil.

Tatsuyo sentiu as bochechas esquentarem, um fenômeno curioso para uma fantasma.

— Não diga isso. Ele é... ele é apenas o Kuro.

Nesse momento, um estrondo vindo do topo da escadaria anunciou a chegada do restante do grupo. Ben, com seus doze anos e energia inesgotável, vinha descendo os degraus de dois em dois, seguido de perto por Ester, que mantinha sua postura habitual, embora seus olhos brilhassem com diversão. Logo atrás deles, flutuando com uma arrogância charmosa, estava Kuro.

Kuro era uma visão que sempre desestabilizava Tatsuyo. Com 1,80 m de altura, a pele alva como a lua e cabelos brancos curtos e repicados, ele exalava uma força física que a morte não conseguiu levar embora. Os músculos do abdômen eram visíveis sob a camisa levemente aberta, e seus olhos castanhos escuros pareciam queimar com uma intensidade que ele tentava, sem muito sucesso, esconder.

— Eu disse que ganharia! — exclamou Ben, parando diante de Tatsuyo e Abaddon. — Kuro tentou atravessar a parede para me pegar, mas eu fui mais rápido.

— Você só ganhou porque eu me distraí — rebateu Kuro, pousando os pés no chão e cruzando os braços musculosos. Seus olhos, no entanto, não estavam em Ben, mas fixos na figura de Tatsuyo na poltrona.

Ester se aproximou de Tatsuyo, sentando-se no braço da poltrona.

— Ele se distraiu porque viu a ponta da sua camisola no corredor, Tatsuyo — provocou a menina, com um sorriso de canto. — O Kuro perde todo o foco quando você está por perto.

— Mentira! — Kuro exclamou, embora o tom de sua voz tenha subido uma oitava. — Eu só estava... verificando a segurança estrutural do hotel.

— Sei, a "segurança" — Nathan comentou, entrando no saguão ao lado de Katie.

O casal mais velho olhava para os jovens fantasmas com um carinho paternal. Nathan e Katie haviam assumido o papel de guardiões daquele grupo eclético. Para eles, Kuro e Tatsuyo eram como sobrinhos crescidos, quase filhos, que precisavam de um empurrãozinho para entender o que estava bem diante de seus narizes.

— Por que vocês não vão para o jardim de inverno? — sugeriu Katie, ajeitando o cabelo de Tatsuyo. — Está uma noite linda, e a lua cheia atravessa o teto de vidro. É um desperdício ficar aqui dentro discutindo esconde-esconde.

— Ótima ideia! — Ben puxou Ester pela mão. — Vamos, Abaddon! Quero ver se você consegue pular da estátua do anjo sem usar as asas.

— Isso é humilhante — resmungou Abaddon, mas ele se levantou prontamente, lançando um olhar de aviso para Kuro antes de seguir os menores. — Se você fizer ela chorar, Kuro, eu te mando para o abismo pessoalmente.

Kuro engoliu em seco, observando os três saírem correndo. Nathan e Katie trocaram um olhar cúmplice e também se retiraram, deixando Kuro e Tatsuyo sozinhos sob a luz bruxuleante da lareira.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas era denso, carregado de palavras não ditas. Kuro caminhou lentamente até Tatsuyo, parando a poucos centímetros dela. Ele era muito mais alto, e a diferença de altura sempre fazia Tatsuyo se sentir pequena, mas protegida.

— Você está muito bonita hoje, Tatsy — disse ele, a voz baixinha, roçando o ouvido dela. — Essa camisola... ela combina com você. Fica soltinha nos lugares certos.

Tatsuyo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que Kuro tinha esse lado provocador, um pouco "tarado" como Ben costumava dizer escondido, mas era um comportamento reservado exclusivamente para ela.

— Kuro... — ela murmurou, desviando o olhar. — Não comece.

— Não comece o quê? — Ele se inclinou, apoiando as mãos nos braços da poltrona, cercando-a. — Só estou admirando a vista. Você sabe que eu não consigo evitar.

— Você é um fantasma pervertido — ela riu, finalmente encontrando os olhos dele.

— Sou apenas um fantasma apreciador da beleza — corrigiu ele, abrindo um sorriso ladino que mostrava seus dentes perfeitos. — E você é a coisa mais bonita que já passou por este hotel em cem anos.

Tatsuyo estendeu a mão e tocou o rosto de Kuro. A pele dele era fria, como a dela, mas o contato parecia gerar faíscas.

— Por que a gente faz isso? — perguntou ela, a voz subitamente séria.

— Isso o quê?

— Fingir. Fingir para o Ben, para a Ester, para o Abaddon... fingir que somos apenas amigos próximos quando eu sinto meu coração — que nem bate mais — disparar toda vez que você entra na sala.

O sorriso de Kuro desapareceu, sendo substituído por uma expressão de ternura vulnerável. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, segurando suas mãos pequenas nas dele, que eram grandes e calejadas.

— Porque é assustador, Tatsy — confessou ele. — Já perdemos tudo. Nossas vidas, nosso futuro, o mundo lá fora. Se eu admitir o quanto eu te amo e algo acontecer... se o hotel nos levar, ou se a gente passar para o outro lado e nos perdermos... eu não sei se suportaria.

Tatsuyo sentiu lágrimas de ectoplasma se formarem nos cantos dos olhos. Ela puxou Kuro para mais perto, fazendo-o descansar a cabeça em seu colo. Seus dedos se entrelaçaram nos cabelos brancos e repicados dele.

— O Abaddon me disse uma vez que o amor é a única coisa que atravessa o véu — sussurrou ela. — Se estamos presos aqui, que pelo menos estejamos presos juntos.

Kuro levantou a cabeça, os olhos brilhando com uma intensidade renovada. Ele se aproximou, o rosto a milímetros do dela.

— Eu te amo, Tatsuyo. E não é só porque você é a garota mais linda que eu já vi. É porque você é a única que me faz sentir vivo, mesmo estando morto.

Ele não esperou por uma resposta verbal. Kuro selou a distância entre eles com um beijo. Foi um toque suave no início, mas que logo se tornou profundo e urgente. As mãos de Kuro subiram para a cintura de Tatsuyo, puxando-a para mais perto, enquanto ela enroscava os braços no pescoço dele, sentindo a força dos músculos das costas dele sob seus dedos.

Longe dali, escondidos atrás da cortina pesada que dava para o corredor, três pares de olhos observavam a cena.

— Eu disse que eles iam se beijar hoje! — sussurrou Ben, triunfante. — Ester, você me deve três moedas de prata.

— Shh! — Ester deu um tapa leve no braço de Ben. — Eles vão ouvir.

Abaddon, ao lado deles, cruzou os braços e soltou um suspiro longo, mas havia um pequeno sorriso no canto de seus lábios.

— É bom que ele cuide bem dela — murmurou o demônio. — Ou eu realmente vou ter que usar aquele tridente que o Nathan escondeu no porão.

De volta à lareira, Kuro e Tatsuyo se separaram, ambos ofegantes. Kuro encostou a testa na dela, sorrindo de um jeito que Tatsuyo nunca tinha visto antes — um sorriso de pura paz.

— Então — disse ela, recuperando o fôlego —, isso significa que agora somos oficialmente um casal de fantasmas?

Kuro deu uma piscadela, recuperando seu jeito atrevido.

— Significa que eu tenho permissão oficial para te beijar sempre que o Abaddon não estiver olhando. E talvez até quando ele estiver, só para ver a cara de bravo dele.

Tatsuyo riu, empurrando-o levemente.

— Você não tem jeito, Kuro.

— Nenhum — concordou ele, puxando-a para cima e envolvendo-a em um abraço apertado. — E eu não pretendo mudar tão cedo.

Enquanto a lua cheia iluminava o Hotel Assombrado, dois corações que não batiam mais encontraram um ritmo comum. Entre corredores sombrios e memórias de vidas passadas, Kuro e Tatsuyo descobriram que, no fim das contas, a eternidade era um tempo curto demais para quem se ama. E, nas sombras, seus "irmãos" e "tios" sorriam, sabendo que, naquela noite, o hotel estava um pouco menos assombrado e muito mais cheio de vida.

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