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Fandom: Harry Potter

Criado: 11/10/2026

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Ecos nas Paredes de Pedra

A névoa de outono deslizava sobre os jardins úmidos de Hogwarts com a frieza de uma mão esquecida, mas, dentro do castelo, o ar pesava com uma eletricidade diferente, quase elétrica, carregada de memórias e promessas que Clara preferia manter trancafiadas.

Ela alisou a túnica branca e azul-marinho de curandeira, sentindo o tecido esticar confortavelmente sobre os quadris largos e os seios fartos. Clara Riddle sabia exatamente que tipo de figura cortava naqueles corredores ancestrais: aos vinte e cinco anos para sempre, com seus um metro e sessenta e oito de altura e os oitenta e cinco quilos muito bem distribuídos em curvas macias e acolhedoras, ela parecia jovem demais para ocupar um cargo oficial na enfermaria de Madame Pomfrey, mas qualquer um que olhasse com atenção para seus olhos castanho-claros enxergaria as décadas acumuladas que sua pele teimava em desmentir.

Ela puxou discretamente do bolso interno da capa um pequeno frasco de prata polida, destampou-o com o polegar e tomou um gole generoso. O conhaque de cereja queimou-lhe a garganta com uma doçura ardente, espalhando calor pelo peito ansioso.

— Precisa maneirar nisso antes que Papoula sinta o cheiro, Clara — murmurou ela para si mesma, limpando o canto dos lábios com as costas da mão rechonchuda e soltando um suspiro trêmulo. — Pelo amor de Merlin, é o primeiro dia de aula. Tenha juízo.

O juízo, contudo, nunca fora seu ponto mais forte. Se fosse, jamais teria se apaixonado por Tom Marvolo Riddle cinquenta anos atrás, naquelas mesmas masmorras úmidas e sob aquelas mesmas estrelas encantadas do teto do Salão Principal.

Ela era uma nascida trouxa vinda dos subúrbios cinzentos de Londres, desajeitada, de riso fácil e coração mole. Ele, o príncipe frio da Sonserina, brilhante, taciturno e perigoso. Como os dois tinham se colidido e criado algo parecido com uma trégua apaixonada permanecia um mistério até para ela. Tom era impiedoso com todos, menos quando afundava o rosto em seu pescoço nas noites frias da biblioteca abandonada, sussurrando promessas loucas de grandeza e de imunidade para a única garota que não tremia de medo diante de suas sombras. Fora ele quem, numa experiência misteriosa e silenciosa aos vinte e cinco anos dela, congelara seu tempo vital com um juramento de sangue do qual ela acordara imutável. Uma posse eterna, disfarçada de dádiva de amor.

O coração de Clara deu um salto descompassado quando a lembrança da última vez em que o vira rasgou seus pensamentos. A noite de trinta de outubro de 1981.

Ele havia surgido em sua cabana na floresta, desfigurado pela magia negra, mas ainda reconhecível sob a névoa vermelha de seu ódio. O Lorde das Trevas estava obcecado com a profecia, com a criança dos Potter, mas, naquela véspera de tragédia, buscara o calor macio de Clara como um náufrago faminto. Fora uma noite de desespero e fogo, de toques que queimavam a pele e juras entrecortadas de sussurros sombrios. No dia seguinte, ele tombara em Godric’s Hollow, destruído pela própria maldição. E, nove meses mais tarde, nascia Thomas.

Hoje, aos onze anos, o pequeno Thomas estava no trem.

Clara guardou o frasco de conhaque, ajustou a postura maternal e caminhou apressada em direção ao Salão Principal. Madame Pomfrey a esperava na entrada lateral, ajeitando as mangas e resmungando sobre a incompetência de garotos que já deveriam saber que não se come lesmas de brinquedo no expresso.

— Aí está você, querida — disse Papoula, lançando um olhar escrutinador para Clara. — Não se assuste com o movimento esta noite. O banquete costuma ser calmo, mas sempre há algum primeiranista engasgado com torta de abóbora ou em pânico por saudades de casa.

— Eu dou conta, Papoula — garantiu Clara, oferecendo um sorriso caloroso, daquele tipo que fazia qualquer paciente se sentir seguro sob seus cuidados protetores. — Cuidar de crianças é a minha especialidade.

— E você é muito boa nisso, não tenho dúvidas. Alvo me disse que suas poções calmantes são impecáveis. — Pomfrey franziu o nariz por uma fração de segundo, hesitando. — Mas você cheira a... amoras silvestres e algo alcoólico?

— Um tônico herbal para os nervos da viagem — disfarçou Clara sem pestanejar, rindo com doçura e afagando o braço da matrona. — O ar do norte é muito seco para os meus pulmões, só isso.

Pomfrey pareceu aceitar a desculpa e entrou no grande salão, mas, no instante em que Clara deu o primeiro passo além dos umbrais de carvalho maciço, uma onda gelada a atingiu em cheio na nuca.

Não era a brisa das janelas altas. Era uma sensação rastejante, pegajosa e opressiva, como se centenas de dedos invisíveis tocassem a base de sua espinha. Clara parou no meio do caminho, as mãos cerradas nas dobras do vestido azul, o peito arfando sob a pressão súbita.

Ela ergueu o queixo, examinando as sombras entre as tapeçarias góticas e as gárgulas cinzentas esculpidas no alto das colunas.

Havia alguém olhando.

Não eram os alunos ruidosos que se amontoavam nas quatro longas mesas, discutindo as férias e exibindo novos apetrechos da Logomagia. Não eram os fantasmas que flutuavam serenos sobre as tochas crepitantes. Era um olhar antigo, gélido e profundamente íntimo.

— Ele se foi... — sussurrou ela para si mesma, sentindo o pulso martelar nas têmporas. — Faz onze anos, Clara. Controle-se.

Ela respirou fundo, tentando acalmar os nós na garganta, e foi se sentar na ponta da mesa dos professores, um pouco afastada do centro onde Albus Dumbledore reinava com sua longa barba prateada e óculos de meia-lua. Quando o velho diretor virou os olhos azuis e brilhantes para ela, inclinou a cabeça num cumprimento silencioso e enigmático. Dumbledore conhecia seu rosto, sabia de quem ela fora companheira em tempos que muitos preferiam apagar da memória, mas permitira sua contratação. O diretor sabia que a lealdade de uma mãe era a âncora mais inquebrável do mundo.

As portas duplas se abriram ruidosamente com o toque da varinha da Professora McGonagall, e a procissão de primeiranistas começou a entrar em fila indiana. Pequenos, assustados, alguns com os uniformes compridos demais, outros com os olhos arregalados para as velas flutuantes.

E lá estava ele.

Clara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos no momento em que avistou seu filho. Thomas era um garoto de constituição forte como a dela, ombros firmes, mas com o rosto desenhado na simetria aristocrática dos Riddle, os cabelos negros como as asas de um corvo penteados para trás e olhos amendoados de um cinza tão escuro que pareciam absorver a luz das velas. Thomas olhava em volta não com medo, mas com uma curiosidade serena e controlada, quase solene.

Quando o olhar do menino encontrou o dela na mesa dos professores, sua expressão endurecida suavizou-se num instante. Ele deu um sorriso miúdo e tímido, reconhecendo a mãe, e Clara precisou de todo o seu autocontrole para não levantar, atravessar o salão e esmagá-lo num abraço protetor contra seu peito macio.

— Vai ficar tudo bem, meu amor — murmurou ela, apertando os nós dos dedos sob a toalha da mesa.

A Seleção começou. O Chapéu Seletor cantou seus avisos poéticos e logo os nomes começaram a ser chamados um a um.

— Riddle, Thomas! — a voz límpida e severa de Minerva ecoou pelas abóbadas.

Um murmúrio abafado correu por alguns professores mais velhos, embora a maioria dos alunos não fizesse a menor ideia daquele sobrenome; o mundo bruxo só conhecia o terror sob a alcunha do Lorde das Trevas, tendo esquecido há muito o nome civil do órfão de Wool.

Thomas caminhou com passos firmes até o banquinho de três pernas. Sentou-se, e Minerva pousou o chapéu puído sobre sua cabeça escura.

O silêncio estendeu-se por um minuto que pareceu durar um século. Clara prendia a respiração, o coração batendo com tanta violência que ela temia que a mesa tremesse. Ela não temia que ele fosse para a Sonserina; temia o que o castelo faria com a alma de seu garoto. Ela conhecia a escuridão que corria no sangue do pai, mas sabia também quanta ternura havia colocado no coração de Thomas durante toda a infância em sua pequena casa isolada, cercada de flores e livros de culinária e magia de cura.

— SONSERINA! — gritou o chapéu, com uma clareza cortante.

A mesa das vestes de detalhes verdes e prata irrompeu em aplausos corteses. Thomas tirou o chapéu, entregou-o respeitosamente a McGonagall com uma leve reverência de cabeça e desceu os degraus de pedra. Antes de se sentar ao lado de outros garotos da sua casa, ele buscou novamente o olhar de Clara.

Ela sorriu para ele com todo o calor e orgulho que cabiam em sua alma, assentindo lentamente.

— Minha cobra valente — pensou ela com carinho enternecido. — Nada vai machucar você aqui dentro. Eu não vou deixar.

O banquete correu com o costumeiro frenesi de banquetes mágicos, travessas de ouro transbordando assados e tortas suculentas, cálices enchendo-se com suco de abóbora fresco. Contudo, faltavam duas figuras notáveis na mesa da Grifinória. Clara notou a ausência do famoso menino da cicatriz, o tal Harry Potter, sobre quem todos falavam, e do garoto Weasley ruivo. Mas seus pensamentos logo foram desviados por aquela presença invisível, aquele olhar persistente que parecia emanar das próprias fundações do castelo.

Uma sensação gelada de frio na espinha voltou a atingi-la a meio da refeição. Clara olhou de soslaio para uma das frestas estreitas das janelas góticas que davam para o corredor de entrada. Não havia ninguém lá. Mas o ar ao seu redor cheirava a poeira antiga, mármore úmido e... serpente.

Assim que o banquete terminou e os alunos foram conduzidos aos seus dormitórios pelos monitores, Pomfrey tocou o ombro de Clara com certa pressa.

— Clara, querida, precisamos descer à ala hospitalar. Alvo me avisou discretamente que dois alunos do segundo ano conseguiram bater um carro trouxa no Salgueiro Lutador. Estão inteiros, aparentemente, mas o Professor Snape quer garantir que não tenham sofrido concussões graves antes das detenções.

— Um carro voador? — Clara ergueu as sobrancelhas bem desenhadas, quase soltando uma gargalhada genuína apesar da tensão. — Merlin do céu, a criatividade dos garotos de hoje não tem limites.

As duas desceram apressadas pelos corredores frios. A enfermaria estava silenciosa, os lençóis brancos esticados com perfeição militar nas dezenas de camas de ferro forjado. Poucos minutos depois, Severus Snape entrou conduzindo dois garotos desgrenhados e cobertos de fuligem e galhos esmagados.

— Aqui estão os infratores, Madame Pomfrey — disse Snape, a voz rasteira e aveludada pingando desdém. — Potter e Weasley acharam por bem encenar uma invasão cinematográfica na propriedade da escola.

Clara olhou para o garoto de cabelos negros despenteados e óculos redondos. O estômago dela revirou com um aperto doloroso. Aquele era o menino que Tom tentara matar. A criança que, sem saber, privara Thomas de um pai e transformara a vida de Clara num perpétuo esconderijo. Harry Potter parecia tão pequeno, tão confuso e frágil sob a túnica empoeirada.

— Venham aqui, os dois — disse Clara com sua voz suave e encorpada, aproximando-se antes que Snape pudesse azedar ainda mais o ar. — Sentem-se. Vamos ver esses arranhões.

Harry olhou para ela, parecendo surpreso ao encontrar uma curandeira jovem e acolhedora em vez de outra autoridade zangada.

— Nós não queríamos machucar a árvore... — tentou explicar o menino Weasley, a voz falhando de nervoso. — Ela é que atacou o carro!

— O Salgueiro Lutador ataca qualquer coisa que caia em cima dele, querido — respondeu Clara com doçura, puxando a varinha e murmurando um feitiço de diagnóstico que fez uma luz âmbar envolver as costelas do ruivo. — Sem ossos partidos. Apenas hematomas e susto. Tome isso.

Ela conjurou dois frascos pequenos com uma poção arroxeada e entregou a cada um.

— O que é isso? — perguntou Harry, desconfiado, fitando o líquido fumegante.

— Calmo-dor — explicou Clara, curvando-se ligeiramente para ficar na altura dos olhos verdes do garoto. — Vai fazer a dor muscular sumir e evitar que vocês acordem amanhã parecendo que foram atropelados por um trasgo. Beba tudo, garoto. Não é ruim, tem gosto de menta e anis.

Harry obedeceu, engolindo a poção de uma vez só e fazendo uma careta curta antes de suspirar aliviado, relaxando os ombros tensos. Ele fitou o rosto de Clara com atenção, quase intrigado.

— A senhora é nova aqui? Nunca a vi no ano passado.

— Sou a nova curandeira assistente, senhor Potter. Clara Riddle. Mas pode me chamar de Senhora Clara se isso o fizer se sentir menos em apuros.

No instante em que o nome escapou de seus lábios, Clara notou o movimento sutil da mão de Snape nas dobras de sua capa preta. O Mestre de Poções estreitou os olhos escuros como carvão, fixando-a com uma intensidade gélida e penetrante. Ele sabia. Snape reconhecia o sobrenome, é claro, mas manteve-se calado, apenas mantendo a guarda alta como um felino calculista.

Depois que Pomfrey dispensou os garotos e Snape os escoltou até seus dormitórios sob ameaça de semanas de detenção, o silêncio finalmente engoliu a enfermaria. Pomfrey recolheu-se aos seus aposentos privados, deixando Clara responsável pelo turno da madrugada.

A quietude da noite, no entanto, não trouxe descanso.

Clara sentou-se na poltrona almofadada junto à lareira da enfermaria, servindo-se de mais um gole do seu licor de cereja para tentar dissipar o calafrio que insistia em subir por seus braços. Ela pegou uma agulha e lã verde-escura para tricotar um cachecol novo para Thomas, mas suas mãos tremiam levemente.

O castelo parecia respirar. As pedras ao redor emitiam um som sibilante, quase inaudível, mas que Clara conhecia muito bem. Quantas noites ela não passara acordada ao lado de Tom ouvindo-o murmurar na língua das cobras durante o sono? Aquele eco não vinha de fora. Vinha das tubulações, de baixo, das entranhas esquecidas de Hogwarts.

De repente, um estalo ecoou no corredor vazio, logo do lado de fora das portas duplas da enfermaria.

Clara levantou-se num salto ágil, a varinha já empunhada na mão direita. Ela caminhou com passos amortecidos e abriu uma das pesadas portas de madeira.

O corredor das tochas apagadas estava deserto, mergulhado em sombras profundas e dançantes sob a luz da lua que entrava pelas ameias. Não havia vivalma por perto. Nem mesmo o gato do zelador ou os fantasmas errantes.

Contudo, gravado na poeira fina do parapeito da janela mais próxima, iluminado pelo feixe prateado do luar, havia o contorno perfeito e fresco de uma serpente enrolada em si mesma, com a cauda na própria boca.

O símbolo pessoal de Tom. O mesmo que ele costumava rabiscar nos cadernos dela quando eram estudantes.

Clara engoliu em seco, sentindo o peso sufocante de uma presença fria pairar no ar a poucos centímetros de suas costas, como se alguém estivesse ali, invisível, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido como fazia cinquenta anos atrás.

— Você veio... — o eco de uma voz espectral, jovem e macabra pareceu vibrar no fundo de sua mente, misturando-se com o vento que uivava nas frestas da torre. — Minha Clara...

Ela girou bruscamente, varinha em riste, o pulso acelerado disparando no peito volumoso.

Nada. Apenas o corredor vazio e o arrepio cortante da pedra fria.

Clara levou a mão livre à garganta, seus olhos cheios de uma determinação furiosa e maternal que enterrou o medo. Ela sabia que algo terrível estava despertando nas sombras de Hogwarts. Sentia o perigo se arrastando sob o piso onde seu filho dormia.

— Se você pensa que vai tocar no meu menino — sussurrou ela para a escuridão absoluta do castelo, a voz firme como ferro aquecido —, vai ter que me destruir primeiro, Tom. E você sabe muito bem que nunca teve coragem de fazer isso.

Com o queixo erguido e a guarda armada, ela deu um passo para trás e trancou a porta da enfermaria, sem tirar os olhos da escuridão.

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