
liceo
Fandom: rebelde
Criado: 11/10/2026
Tags
Motores, Coroas e o Primeiro Sinal
A brisa matinal trazia o cheiro característico de recomeço que só o primeiro dia de aula no colégio era capaz de proporcionar. Os portões imponentes de ferro fundido, ladeados por muros altos de tijolos vermelhos e heras bem aparadas, já estavam abertos para receber os veteranos e calouros. Carros importados, sedãs executivos e motoristas particulares faziam uma fila barulhenta na calçada, desembarcando herdeiros de todas as partes da cidade com malas caras e uniformes impecavelmente alinhados.
Contudo, longe da fila de carros e estrategicamente posicionadas junto à mureta que cercava o pátio de entrada, quatro garotas pareciam donas daquele pedaço de calçada. Eram quatro integrantes do time titular de voleibol, a espinha dorsal de qualquer fofoca ou competição que envolvesse o ginásio.
Larissa, ou simplesmente Lary, apoiava o quadril no corrimão metálico. Aos catorze anos, ostentava uma estatura invejável que a transformara no terror das atacantes adversárias na rede. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo prático e os olhos atentos não deixavam escapar um único detalhe da movimentação dos recém-chegados.
Ao lado dela, Dany, outra gigante das quadras com seus catorze anos e madeixas loiríssimas que caíam em ondas perfeitas pelos ombros, ajustava a meia três-quartos do uniforme com uma calma irritante.
— Se o time continuar com esse mesmo ritmo do ano passado, nós vamos massacrar qualquer um no torneio de primavera — comentou Dany, ajeitando a gola engomada da camisa social. — Mas pelo que estou vendo ali embaixo, a nova leva de novatas não tem nem força para erguer uma mochila, quanto mais bloquear um ataque na diagonal.
— Deixa de ser pessimista, Dany — rebateu Jeny, soltando uma risadinha leve. Ela também tinha catorze anos, era tão loira quanto a amiga e trazia nos lábios um brilho labial de cereja reluzente. — O ano mal começou e você já está pensando em bloqueios e treinos táticos. Olha aquela ali tropeçando no próprio salto. Pobre coitada.
— O que me interessa é se alguém vai ter a coragem de quebrar essas regras ridículas deste lugar — opinou Bia, sem desgrudar um dos fones de ouvido.
Bia era o elemento destoante do grupo e não fazia a menor questão de esconder isso. Com os cabelos ruivos e rebeldes jogados sobre os ombros, os mesmos catorze anos das companheiras de quadra e um par de munhequeiras de couro pretas escondidas sob os punhos da camisa branca, a roqueira do colégio tamborilava os dedos na mureta no ritmo de um solo pesado de guitarra.
— Ninguém vai quebrar regra nenhuma, Bia — disse Lary, revirando os olhos. — No máximo vão tentar passar maquiagem escondidas no banheiro ou gazear a aula de história. A vida nesta prisão de mensalidade cara é sempre a mesma novela.
— Olha lá — Jeny apontou com o queixo, os olhos brilhando de expectativa. — Falando em novela... o dramalhão mexicano acabou de estacionar.
Todas se viraram na mesma direção. Um conversível vermelho cintilante freou rente ao meio-fio, quase colidindo com a faixa de pedestres. A porta do passageiro se abriu com uma lentidão calculada, como se o mundo precisasse desacelerar para que a ocupante fizesse a sua entrada triunfal.
De dentro do veículo, emergiu Amanda.
Aos catorze anos, Amanda — que adorava ser chamada de Amandita quando o tom era bajulador — parecia carregar o peso invisível de uma coroa sobre a cabeça loiríssima, armada em uma escova impecável que brilhava sob a luz da manhã. Desde que fora eleita a "Garota do Verão" no clube mais sofisticado da cidade durante as férias, seu nível de afetação havia atingido a estratosfera.
Antes de fechar a porta com um empurrão delicado da ponta dos dedos, ela se inclinou para dentro do carro, depositou um beijo rápido e superficial nos lábios de um garoto de dezoito anos ao volante, cujo nome provavelmente nem ela própria se lembrava com clareza.
— Obrigada pela carona, meu lindo — disse Amanda, com uma voz projetada para alcançar quem estivesse a pelo menos dez metros de distância. — Te ligo mais tarde. Ou talvez amanhã. Depende de como for o meu dia!
O motorista parecia hipnotizado, mas Amanda já havia virado as costas com um giro teatral da saia plissada do colégio, que ela mandara encurtar alguns centímetros a mais do que o regulamento permitia. Com óculos escuros gigantes cobrindo metade do rosto de traços finos, desfilou pela calçada com passos firmes e o queixo empinado, como se estivesse cruzando uma passarela em Milão e não o portão de entrada de um liceu tradicional.
— Ai, não... — resmungou Bia, puxando o outro fone do ouvido apenas para demonstrar sua insatisfação. — Alguém avisa para essa garota que as férias acabaram e que nós estamos numa escola, não no concurso de miss mirim?
— Deixa ela ouvir você — alertou Jeny em um sussurro, embora também estivesse segurando o riso. — Ela jura por tudo que é mais sagrado que é o centro gravitacional do colégio só porque ganhou uma faixa de cetim e uma coroa de plástico em janeiro.
— E aquele é o quarto namorado diferente que eu vejo com ela em menos de duas semanas — observou Dany, com um sorriso de canto. — Aposto dez pratas que ele não dura até o intervalo do almoço.
Amanda percebeu o grupo reunido perto da mureta e caminhou em direção a elas, puxando os óculos para a ponta do nariz arrebitado.
— Bom dia, meninas! — saudou ela, em um tom açucarado que transbordava condescendência. — Sentiram minha falta? Sei que as férias devem ter sido um tédio absoluto para vocês que passaram os meses enfiadas naquele clube esportivo empoeirado, mas fiquem calmas. A rainha de vocês chegou para animar este muquifo.
Lary deu um passo à frente, cruzando os braços compridos sobre o peito. A diferença de altura entre as duas era suficiente para fazer Amanda recuar meio milímetro, embora tentasse manter a postura inabalável.
— O clube não é empoeirado, Amandita — rebateu Lary, dando ênfase no diminutivo com sarcasmo. — A gente estava treinando para ganhar campeonatos de verdade. Algo que exige um pouco mais de talento do que sorrir de biquíni e acenar para jurados de sessenta anos.
— O talento de rebater uma bola redonda por cima de uma rede? — Amanda soltou uma risada afetada, ajeitando uma mecha loira. — Muito fofo, querida. Mas o mundo real valoriza carisma, presença e popularidade. Coisas que, convenhamos, não vêm em um apito de juiz.
— E muito menos num manual de futilidade barata — disparou Bia, ajustando as munhequeiras de couro. — Vai caçar a sua turma, Amanda. O seu fã-clube imaginário deve estar esperando você no pátio interno.
Amanda estava prestes a soltar mais uma resposta ácida, com o dedo indicador já erguido no ar para reforçar o drama, quando um estrondo grave e gutural rasgou o ar da rua, abafando completamente a conversa.
O barulho não era o ronco suave de um motor de luxo alemão, nem o clique ritmado dos carros dos professores. Era um ribombar metálico, encorpado, que vibrava no asfalto e fazia as janelas da portaria tremerem sutilmente.
Todos no portão se calaram de imediato. Alunos que subiam as escadarias pararam no meio do caminho. Até mesmo os porteiros uniformizados se endireitaram, franzindo as sobrancelhas para a curva da avenida.
— Mas o que diabos é isso? — perguntou Dany, esticando o pescoço sobre a mureta para enxergar melhor.
Dobrando a esquina com uma audácia descomunal para uma área escolar, vinha uma máquina totalmente fora dos padrões do Elite Way. Era um triciclo motorizado, robusto, com a pintura escura gasta em alguns pontos, garfos dianteiros longos e um escapamento duplo que rugia como um predador faminto. A máquina cortava o trânsito da manhã com habilidade, desviando dos carros burgueses com uma facilidade desconcertante.
No comando do veículo estava um rapaz.
Ele vestia uma jaqueta de couro surrada por cima da camisa do uniforme, que parecia ter sido colocada às pressas. Cabelos loiros, revoltos pelo vento e pelo descaso com qualquer tipo de gel modelador, emolduravam um rosto de traços marcantes, olhos determinados e uma postura descontraída de quem dominava a máquina com uma única mão. Ele aparentava ter cerca de quinze anos, mas carregava no olhar uma maturidade calejada, quase misteriosa.
Com uma manobra precisa e calculada, ele freou o triciclo exatamente em frente ao portão principal, levantando uma leve poeira da guia da calçada. O motor deu um último estalo grave antes de ser desligado com o giro da chave.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
— Caramba... — murmurou Jeny, com os olhos fixos na figura sobre o triciclo. — Quem é esse?
— Não sei — respondeu Bia, com um sorriso genuíno despontando no rosto pela primeira vez naquela manhã —, mas ele já ganhou meu respeito pelo motor. Aquilo ali é um clássico customizado, não essas porcarias automáticas que os pais de vocês compram.
O garoto desceu do triciclo com um movimento ágil. Ele puxou a mochila de lona gasta de cima do banco de trás, ajeitou a jaqueta de couro e correu os dedos pelos cabelos loiros para domar os fios que teimavam em cair sobre a testa. Havia algo de estrangeiro em seu jeito de andar, uma segurança despojada que não pertencia ao ambiente engessado e elitista daquele liceu.
Era Manuel. Tinha quinze anos, acabara de aterrissar direto da Argentina e não dava a mínima para os códigos sociais da elite local. Ele estava ali com um propósito bem definido, mas seu desembarque não poderia ter sido mais espetacular.
Amanda, que até dois segundos atrás exigia ser o centro de todas as atenções, permaneceu estática. Os óculos escuros quase escorregaram de seu nariz. Ela olhou para o garoto, depois para o veículo exótico e, finalmente, para a multidão de alunos que agora ignorava completamente a sua presença para fitar o recém-chegado. A indignação começou a ferver sob a sua pele perfeitamente maquiada, misturada a uma pontada inegável de curiosidade.
— Isso é... ridículo — balbuciou Amanda, embora sua voz não soasse tão firme quanto antes. — Ninguém pode entrar com uma geringonça dessas no colégio. O diretor vai ter um infarto!
— Ah, cala a boca, Amanda — cortou Lary, sem tirar os olhos do garoto loiro. — Olha o tamanho daquele garoto. Ele parece ter saído direto de um daqueles filmes de estrada rebeldes.
Manuel começou a caminhar em direção ao portão, jogando a mochila sobre um dos ombros. Ele percebeu os olhares fixos, a muralha de uniformes cinzas e azuis observando cada passo seu, mas manteve a cabeça erguida. Quando seus olhos encontraram o quarteto do voleibol e a figura emperiquitada de Amanda logo à frente, um sorriso de meio de lado se formou em seus lábios.
— Buenos días — disse ele, com um sotaque castelhano marcado, a voz rouca e segura ecoando com clareza. — ¿Este es el Liceo, verdad? ¿O me equivoqué de entrada y fui a parar a un concurso de modelos?
Jeny soltou uma risadinha abafada atrás da mão, enquanto Dany deu uma cotovelada cúmplice na amiga. Bia ergueu as sobrancelhas, achando a atitude do forasteiro sensacional.
Amanda, sentindo que o comentário sobre "concurso de modelos" era uma deixa para recuperar o território perdido, ajeitou a postura, jogou o cabelo para trás e deu dois passos pomposos em direção a ele.
— Você está no lugar certo, garoto do triciclo — declarou Amanda, cruzando os braços e tentando soar como uma autoridade inquestionável. — E para a sua informação, este colégio tem regras rígidas de conduta e vestimenta. Você não pode simplesmente largar essa moto esquisita na porta como se fosse o dono do pedaço.
Manuel a encarou de cima a baixo, os olhos azuis analisando o excesso de acessórios e a expressão mimada da garota. Ele não pareceu nem um pouco intimidado.
— Es una pena que a la reina no le guste mi transporte — retrucou Manuel, com uma pitada deliciosa de ironia na voz. — Pero no te preocupes, rubia. La moto se queda donde yo voy. Y hasta donde sé, las calles todavía son públicas.
— Rubia? — Amanda piscou, sem saber se ficava ofendida com a audácia ou lisonjeada por ter sido chamada de loira por alguém tão bonito. — Olha aqui, meu querido, eu sou a Garota do Verão deste ano, caso você não tenha reparado! Tenho influência suficiente para fazer o reitor guinchar essa sua lata-velha antes do primeiro intervalo!
— Garota do Verão? — Manuel soltou uma risada curta, balançando a cabeça em negação com um charme desconcertante. — Mirá vos... Qué honor. En Argentina las chicas de verano son un poco menos complicadas, te juro.
As quatro atletas atrás de Amanda não conseguiram mais segurar a onda de risadas. Até mesmo Lary, que costumava manter a pose de capitã séria e focada, gargalhou abertamente com a tirada do argentino.
— Ele acabou com você em um minuto e meio de conversa, Amanda — debochou Bia, descendo da mureta e se aproximando do rapaz. — Bem-vindo ao hospício, novato. Meu nome é Bia. E adorei o motor.
Manuel olhou para a ruiva, notando os fones de ouvido e as munhequeiras, e seu sorriso se tornou mais aberto e sincero.
— Gracias, Bia. Soy Manuel. Manu, para los amigos.
— Eu sou a Lary — apresentou-se a bloqueadora, estendendo a mão para cumprimentá-lo com firmeza. — Essas são Dany e Jeny. A gente joga vôlei pelo colégio. Se você não for problemático demais, até que pode sobreviver por aqui.
— Sou muito bom em sobreviver — respondeu ele, apertando a mão de Lary com a mesma segurança antes de cumprimentar as outras duas loiras, que retribuíram com sorrisos tímidos e curiosos. — Y sobre ser problemático... bueno, depende de quién invente las reglas.
Amanda bufou, batendo o pé no chão como uma criança contrariada ao ver sua autoridade se esvair diante do grupo. O fato de o argentino ter ignorado completamente o seu charme arrogante a deixara fora de si.
— Isso não vai ficar assim — sibilou ela, ajeitando a alça da bolsa de grife no ombro. — Vocês vão ver. Quando as aulas começarem e o diretor souber quem manda de verdade nesta turma, você vai se arrepender de ter aberto essa sua boca com esse sotaquezinho barato!
Ela deu meia-volta, fazendo questão de estalar os saltos com força na calçada de pedra enquanto cruzava os portões do liceu, marchando furiosa em direção aos corredores principais.
— Não liga para ela não, Manu — disse Jeny, revirando os olhos azuis. — A Amandita acha que o mundo gira em torno do umbigo dela só porque troca de namorado mais rápido do que a gente troca de uniforme.
— Não me preocupo — assegurou o argentino, observando a silhueta da garota desaparecer no saguão. — Conozco a gente como ella de sobra. En todos lados hay alguien que cree que el dinero compra hasta el aire que respira.
— Falou bonito — elogiou Bia, dando um tapinha amigável no ombro de couro do novato. — Você é de onde mesmo? Buenos Aires?
— Sí, de Buenos Aires — confirmou Manuel, embora por uma fração de segundo uma sombra tenha passado por seu olhar ao se lembrar dos motivos reais que o trouxeram até aquele país distante e àquele colégio específico. Ele disfarçou o peso com um meio sorriso rápido. — Vine a buscar un cambio de aire. Y parece que el aire por acá es bastante agitado.
— Você não faz ideia — comentou Dany, olhando para o relógio da torre central do colégio, cujos ponteiros quase alcançavam as oito horas. — O sinal vai tocar em três minutos. Se a gente não entrar agora, o professor de literatura vai trancar a porta e fazer a gente ler três capítulos em voz alta como punição.
— Péssima maneira de começar o primeiro dia — concordou Lary, ajeitando a mochila nas costas. — Vamos logo. Manu, você já sabe onde fica a sua sala?
— La secretaría me dio un papel, pero no tengo ni la menor idea de cómo encontrar el salón — confessou ele, tirando uma folha amassada do bolso da jaqueta.
— Deixa eu ver — pediu Jeny, pegando o papel com presteza e examinando o número da turma. Os olhos dela se iluminaram. — Você caiu na nossa sala! Segundo ano do ensino médio, turma B. A mesma da rainha mimada também, infelizmente.
— O ano promete — riu Bia, colocando os fones de volta no pescoço. — Vamos entrar antes que sobre para a gente. Quero só ver a cara da Amanda quando você sentar no fundo da sala como se nada tivesse acontecido.
O sinal estridente do liceu tocou, ecoando por todos os cantos do pátio e forçando a multidão de alunos a se apressar pelas portas duplas do edifício principal.
Manuel caminhou lado a lado com as quatro garotas, observando a arquitetura imponente, os vitrais antigos e o mar de rostos desconhecidos que cochichavam ao vê-lo passar com a jaqueta de couro e a postura destemida. Amanda podia ter a sua coroa imaginária e o colégio podia ter as suas tradições centenárias, mas algo no ar indicava que aquele ano letivo seria completamente diferente de tudo o que qualquer um deles já havia vivido.
O jogo havia acabado de começar, e o novato argentino no triciclo não estava ali apenas para ser mais um peão no tabuleiro do Elite Way.
