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Fandom: Elphoria

Criado: 11/10/2026

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Sombras em Pele Quente

O ar de East Highland sempre tinha um gosto pesado no final da tarde, como uma mistura rançosa de grama recém-cortada, cloro de piscina e a poeira seca das estradas suburbanas. Rue Bennett estava sentada no meio-fio atrás da loja de conveniência, os joelhos magros puxados contra o peito por baixo do moletom cor de vinho surrado, observando as pontas dos próprios tênis All Star desgastados.

Ela não pretendia estar ali quando a caminhonete preta e reluzente estacionou. O ronco do motor de Nate Jacobs era inconfundível, um som agressivo que parecia exigir que o asfalto pedisse licença. Ele desceu batendo a porta com a precisão mecânica de sempre, o maxilar quadrado tenso, a postura de quem era o dono indiscutível de cada centímetro quadrado daquela cidadezinha decadente.

Nate passou os olhos por Rue. Não havia ódio explícito, apenas aquele desdém habitual, frio e calculista, reservado a tudo o que ele considerava fraco ou quebrado.

— O que você está fazendo aqui jogada, Bennett? — perguntou ele, a voz baixa, controlada, quase entediada.

Rue deu de ombros, sem erguer totalmente a cabeça. A névoa da maconha ainda deixava seus pensamentos lentos, mas não o suficiente para anestesiar o incômodo que a mera presença dele causava.

— Respirando oxigênio, Jacobs. O ar ainda é público, não é?

Nate bufou pelo nariz, ajeitando a gola da camisa polo impecável. Ele deu dois passos em direção à entrada da loja, parou e olhou para trás, como se uma ideia desagradável tivesse acabado de cruzar sua mente.

— Você tem visto a Clara? — soltou ele, com uma casualidade forçada demais para alguém que calculava até o próprio piscar de olhos.

Rue semicerrou as pálpebras sob os cachos bagunçados. O estômago dela deu um nó sutil. Ela era a única pessoa no mundo que sabia sobre os dois. Sabia das noites clandestinas, das mensagens apagadas às três da manhã, das janelas abertas em silêncio e dos meses em que Clara se deixou consumir pelo vazio de ser um segredo.

— Por que a pergunta, Nate? — Rue retrucou, arrastando as palavras. — Achei que seu contrato de invisibilidade com ela tivesse expirado quando ela te mandou pro inferno.

O maxilar de Nate endureceu. Um músculo saltou perto da orelha dele. Ele odiava ser lembrado de que Clara fora quem puxara o freio de mão, quem decidira que não aceitaria mais ser o fantasma mais quente da cama dele.

— Ela não me atende — disse ele, a voz descendo meio tom, carregada daquela ameaça silenciosa que ele usava para dobrar as pessoas. — Só quero ter certeza de que ela está bem.

Rue soltou uma risadinha rouca, balançando a cabeça. O efeito da fumaça a deixou ousada demais, ou talvez estúpida demais. A língua foi mais rápida que o bom senso.

— Ela está ótima, Nate. Mais do que ótima, na verdade. Você devia parar de ligar. Ela tá saindo com aquele cara da oficina perto da rota nove. Aquele que não tem vergonha de andar de mãos dadas com ela na luz do dia.

O silêncio que se seguiu pareceu sugar todo o oxigênio do estacionamento.

Nate congelou. Seus olhos azuis escureceram, pupilas dilatando como as de um predador farejando uma invasão de território. Ele não se mexeu por cinco segundos inteiros. Para qualquer outra pessoa, pareceria indiferença, mas Rue conhecia aquele olhar assassino.

— O quê? — Nate murmurou, a palavra saindo como uma lâmina deslizando no gelo.

Rue engoliu em seco. A névoa na sua cabeça clareou de repente em um surto de adrenalina gélida.

Merda, ela pensou, sentindo o peito afundar. Eu abri a boca.

— Esquece o que eu falei — Rue tentou consertar, levantando-se desajeitada do meio-fio e recuando um passo. — Ela não me conta a vida dela. Eu só ouvi um boato qualquer.

Nate não respondeu. Ele simplesmente deu meia-volta, ignorou a loja de conveniência, entrou na caminhonete e bateu a porta com tanta força que o som ecoou pelo quarteirão. O motor rugiu, os pneus cantaram no asfalto quente deixando marcas pretas, e ele arrancou em disparada.

Rue ficou parada na calçada, o coração batendo na garganta.

— Puta que pariu, Clara vai me matar — praguejou baixinho, enfiando as mãos trêmulas nos bolsos do casaco à procura do celular.


No quarto de Clara, o ventilador de teto girava com um zumbido suave e preguiçoso, cortando o ar que cheirava a loção corporal de baunilha e vela aromática. Clara estava de pé diante do espelho de corpo inteiro, ajeitando as alças de um vestido amarelo claro de algodão que destacava a pele dourada pelo sol.

Ela tinha um metro e sessenta e oito de altura e oitenta e cinco quilos de curvas macias, sólidas e perfeitamente distribuídas. Havia uma beleza calorosa, quase magnética, em seus quadris largos, nas coxas fartas que roçavam uma na outra quando caminhava e no busto generoso que sustentava o decote quadrado do vestido. Mas o que realmente desarmava quem olhava para Clara não era apenas a presença física evidente; era o contraste entre a doçura do seu sorriso e o fogo indomável que brilhava nos olhos escuros quando alguém tentava diminuí-la.

Clara era o tipo de garota que preparava um chá quente quando você estava triste, mas que não pensaria duas vezes antes de atirar uma cadeira se você ousasse desrespeitá-la ou a quem ela amava.

Ela suspirou, alisando o tecido sobre o abdômen suavemente arredondado. Sentia-se bonita. Uma sensação limpa, que não vinha com o gosto amargo da ansiedade.

Durante quase um ano, a mente de Clara fora colonizada por Nate Jacobs.

Ele nunca tinha encostado um dedo violento nela. Pelo contrário: no escuro, dentro do quarto trancado ou nos bancos de couro daquela caminhonete estacionada em estradas desertas, Nate a tocava com uma intensidade que beirava o desespero. Ele afundava o rosto nas curvas dela, apertava sua cintura com mãos possessivas, sussurrava coisas que faziam o estômago dela revirar em vertigem.

Mas, assim que a luz do sol nascia, Clara deixava de existir.

Nos corredores da escola, Nate passava reto, o olhar fixo no horizonte, acompanhado por líderes de torcida magras como varetas, garotas que cabiam exatamente na moldura esterilizada e perfeita que o pai dele e a sociedade exigiam. Clara não era uma daquelas garotas. Clara era carne, presença, espaço e calor. Ela era o oposto exato de tudo o que Nate dizia desprezar em voz alta para manter sua pose de atleta inatingível. Ele tinha vergonha de desejá-la. Tinha pavor de que o mundo visse que suas obsessões secretas não cabiam nas planilhas rígidas da sua masculinidade tóxica.

Um dia, Clara simplesmente acordou e olhou para si mesma. Viu uma mulher inteira se reduzindo a migalhas para caber nos bolsos escuros de um garoto covarde. E foi aí que a sua porção braba, a força que herdara da avó e que corria em suas veias como brasa, falou mais alto.

“Acabou, Nate. Eu não sou um erro que você esconde debaixo da cama. Não me procura mais.”

Ele tentara procurá-la no início. Mensagens duras, ordens disfarçadas de apelos, mas ela bloqueara cada uma das vias de acesso.

Agora, havia Lucas.

Lucas trabalhava com o irmão na oficina mecânica do outro lado da cidade. Tinha mãos com calos leves, um riso fácil e, no primeiro encontro na sorveteria do centro, puxara a cadeira para Clara, beijara-a na bochecha na frente de meio mundo e dissera que ela parecia uma pintura renascentista naquele vestido amarelo. Sem esconderijos. Sem vergonha.

O celular de Clara vibrou em cima da cômoda, quebrando o silêncio. Era uma mensagem de Rue.

“Clara, por favor não me esgana. Eu encontrei o Nate no posto. Ele perguntou de você. Eu tava chapada e falei demais. Falei que vc tá saindo com outro.”

Clara paralisou com a escova de cabelo a meio caminho da cabeça. O sangue ferveu instantaneamente, subindo do peito até as têmporas.

— Mas que porra, Rue?! — gritou para o quarto vazio, jogando a escova na cama.

Antes que pudesse digitar uma resposta furiosa, o som característico de pneus cantando na rua fez seu coração disparar. Um motor pesado parou exatamente em frente à sua casa.

Clara caminhou até a janela e afastou a cortina de renda. A caminhonete preta estava estacionada torta junto à guia, o motor ainda roncando baixo antes de ser cortado com violência. A porta se abriu e Nate desceu.

Ele não caminhou até a entrada com a calma habitual. Seus passos eram largos, pesados. Ele estava sem a jaqueta da escola, vestindo apenas uma camiseta cinza justa que marcava os ombros largos, e a expressão no rosto dele fez com que um arrepio percorresse a espinha de Clara. Não era medo — Clara não tinha medo dele —, era a antecipação de uma tempestade inevitável.

Ela desceu as escadas em passadas firmes. Seus pais tinham saído para jantar na casa dos tios; a casa estava vazia. Clara abriu a porta principal antes mesmo que ele tocasse a campainha, parando no limiar da entrada, cruzando os braços sob o peito farto e encarando-o de queixo erguido.

Nate subiu os três degraus da varanda. De perto, a presença física dele era sufocante. Mais de um metro e noventa de puro músculo e contenção neurótica.

— Quem é ele? — perguntou Nate, sem rodeios, sem bom dia, os olhos azuis faiscando sob a luz alaranjada do poste da rua.

Clara soltou uma risada seca, incrédula. A raiva que sentira da imprudência de Rue dissolveu-se, dando lugar a uma fúria muito mais antiga e afiada contra o garoto à sua frente.

— Dá o fora da minha varanda, Nate. Agora.

— Quem é o cara da rota nove, Clara? — ele insistiu, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Me responde.

— Não te devo satisfação nenhuma da minha vida! — Clara disparou, a voz subindo de tom, firme e sem qualquer hesitação. Ela não recuou um milímetro sequer. — Você perdeu esse direito no segundo em que decidiu que eu só servia pra quando as luzes estavam apagadas.

— Você não sabe o que tá fazendo — sibilou Nate, a respiração pesada, a mandíbula tão cerrada que parecia prestes a estalar. Ele olhou para o vestido dela, para o decote, para os lábios pintados de vermelho suave. O choque de vê-la arrumada para outro homem quase o fez perder a compostura. — Ele não conhece você. Aquele cara é um qualquer.

— E você é o quê, Nate? — ela rebateu, dando um passo incisivo para a frente, diminuindo a distância até que o topo de sua cabeça ficasse na altura do queixo dele. O perfume de baunilha dela o atingiu como um golpe físico. — Um príncipe? Um covarde de merda que passa por mim no corredor fingindo que eu tenho lepra porque seus amigos babacas não podem saber que você gosta de uma garota gorda? É isso que você é?

A palavra atingiu Nate no peito com a força de um tiro. Ele engoliu em seco, os olhos vacilando pela primeira vez. Ele abriu a boca para falar, mas nada saiu de imediato.

— Eu nunca... eu nunca disse isso — ele murmurou, a voz perdendo um pouco da rigidez, traindo a confusão caótica que Clara sempre provocava nele.

— Não precisava dizer, Nate. Suas atitudes gritavam isso toda maldita semana — disse ela, a voz descendo para um tom mortalmente calmo, que doía mais do que os gritos. — Você me usava pra preencher o buraco que você tem dentro desse peito podre, porque sabia que eu cuidava de você. Eu era carinhosa com você quando você tava à beira de um colapso, lembra? Quem segurou a sua mão quando você quase quebrou aquele espelho no seu quarto?

Nate desviou o olhar por uma fração de segundo, atormentado pela memória.

— Mas eu cansei — continuou Clara, apontando o dedo indicador firme contra o peito dele, sentindo os músculos rígidos sob a camiseta. — Eu tenho carne demais pra me contentar com as migalhas que você tem coragem de dar. O Lucas me olha no meio da rua como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo. E sabe o que é melhor? Ele não tem medo de quem tá olhando ao redor.

Ouvir o nome de outro homem saindo da boca dela com tanta naturalidade rompeu a última barreira de autocontrole de Nate. Ele agarrou o pulso de Clara — não com força suficiente para machucar, mas com o desespero cru de quem vê algo escapar por entre os dedos.

— Ele não olha pra você do jeito que eu olho, Clara. Você sabe que não.

— Solta o meu braço — ela disse, e o tom dela era puro aço. O olhar escuro de Clara ardeu com uma chama tão perigosa que Nate hesitou. — Solta agora, Nate, ou eu juro por Deus que eu quebro o seu nariz aqui mesmo e chamo a polícia pro seu pai ver a vergonha estampada no jornal amanhã.

Nate afrouxou o aperto lentamente, como se estivesse tocando em brasa. As mãos dele caíram ao lado do corpo, tremendo de leve. A impotência era um veneno que ele não sabia como engolir.

— Você tá jogando fora o que a gente tinha por capricho — murmurou ele, numa última tentativa patética de recuperar a ilusão de poder.

— A gente não tinha nada, garoto — Clara rebateu, ajeitando o vestido com dignidade, recuperando o fôlego e o controle absoluto da situação. — Você tinha um segredo. E eu tinha uma ilusão. Agora, se manda daqui antes que o Lucas chegue pra me buscar. E acredite em mim: você não vai querer estar aqui quando ele chegar.

Nate a encarou por um longo momento. Os olhos dele eram poços escuros de ressentimento, ciúme doentio e uma tristeza muda que ele jamais admitiria em voz alta nem sob tortura. Ela pertencia a outro mundo agora, um mundo quente e ensolarado onde as sombras dele não conseguiam sobreviver.

Sem dizer mais uma palavra, Nate deu um passo para trás. Depois outro. Desceu os degraus da varanda, as costas rígidas, os punhos cerrados nos bolsos da calça jeans. Ele entrou na caminhonete, bateu a porta e deu a partida. O veículo se afastou lentamente pela rua suburbana, desaparecendo na escuridão sob as copas das árvores.

Clara permaneceu na varanda até as lanternas traseiras vermelhas sumirem por completo. Ela soltou o ar que nem percebera que estava segurando, sentindo o calor da adrenalina abandonar seu corpo, deixando apenas uma sensação imensa e doce de alívio.

O celular tocou no bolso do vestido. Ela puxou o aparelho. Era uma mensagem de Lucas:

“Tô virando a esquina da sua rua. Tá pronta, linda?”

Clara sorriu, um sorriso genuíno que iluminou todo o seu rosto. Ela desceu os degraus da varanda, respirou o ar da noite — que finalmente parecia fresco e limpo — e caminhou até a calçada, pronta para viver tudo o que a claridade tinha para oferecer.

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