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Amor oculto

Fandom: Vôlei

Criado: 11/10/2026

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Entre Passes e Marés

A claridade suave da manhã filtrava pelas frestas das cortinas do quarto de hotel, mas nenhuma das duas precisava do sol para despertar. Os pensamentos já estavam a mil por hora, ancorados nas memórias ainda vívidas da noite anterior. Havia algo de novo no ar, uma eletricidade adormecida que finalmente encontrava espaço entre a rotina exaustiva de jogos, treinos táticos e viagens da Savino Del Bene Scandicci.

No corredor do andar superior, Júlia Bergmann ajeitava o moletom da equipe enquanto descia os degraus de madeira. Os fios ruivos estavam presos em um coque ligeiramente desalinhado, e seus olhos claros ainda carregavam a névoa do sono. Ao seu lado, com passos firmes e postura altiva, a veterana Maja Ognjenović mantinha um sorriso sutil no canto dos lábios.

— Você está aérea demais para quem tem um treino duplo hoje — comentou Maja em tom de brincadeira, descendo o último degrau.

— Impressão sua, Maja. Só estou acordando aos poucos — desconversou a ponteira brasileira, embora suas bochechas entregassem o rubor discreto.

Quando alcançaram o restaurante do hotel, o movimento das atletas já enchia o salão com burburinhos e cheiro de café fresco. Em uma mesa redonda perto da janela que dava vista para o litoral, duas figuras imponentes se destacavam: Marina Lubian e Ekaterina Antropova. Kate, com sua vasta cabeleira loira caindo pelos ombros e a altura monumental que dominava qualquer ambiente, ergueu o olhar no exato momento em que Júlia se aproximou.

O impacto visual foi imediato. Os olhares de Júlia e Kate se cruzaram em um silêncio carregado de cumplicidade. A lembrança de como tudo havia sido leve, acolhedor e surpreendentemente íntimo na noite anterior pareceu pintar o rosto da oposta russa naturalizada italiana com um brilho tímido.

— Bom dia para as atrasadas — disse Lubian, servindo-se de uma fatia de melão e apontando para as cadeiras vagas. — Sentem logo antes que a comida boa acabe.

— O buffet não vai fugir, Marina — rebateu Maja, rindo e puxando uma cadeira ao lado de Lubian.

As quatro se acomodaram na mesma mesa. Kate e Júlia ficaram frente a frente. Por alguns instantes, nenhuma das duas tocou na comida; os dedos de Júlia apenas contornavam a borda da xícara de porcelana, enquanto Kate sustentava aquele olhar azul penetrante, cheio de perguntas e uma doçura quase infantil. Era nítido o quanto aquela lembrança compartilhada as envolvia.

Maja, com a perspicácia típica de uma levantadora que lê qualquer jogada a quilômetros de distância, cutucou o braço de Lubian por baixo da mesa.

— Marina, esqueci de pegar mais daquele iogurte com granola — declarou Maja em voz alta, levantando-se teatralmente. — Venha comigo, preciso que você me mostre onde achou.

— Mas tem iogurte bem na sua fren... — começou Marina, até sentir o olhar firme da sérvia e entender o recado imediatamente. — Ah! Sim, claro. Vamos lá, você é péssima procurando coisas no buffet.

As duas se afastaram com passos largos, deixando propositalmente para trás uma bolha de privacidade no meio daquele salão agitado.

Júlia baixou a cabeça, soltando uma risada curta e nervosa, antes de encarar Kate novamente.

— Elas não são nada discretas — murmurou a ruiva.

— Nem um pouco — concordou Kate, com um sorriso fraco que iluminou seu rosto angular. — Mas talvez tenham feito um favor.

Júlia respirou fundo, sentindo o coração bater com mais força contra as costelas.

— Eu só queria dizer... sobre ontem à noite... eu amei de verdade. Você salvou a minha noite, Kate. Se não fosse você, eu teria enlouquecido naquele quarto.

Kate inclinou-se um pouco para a frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa.

— Digo o mesmo, Júlia. Eu estava precisando daquilo tanto quanto você. Foi perfeito.

O silêncio confortável se instalou por breves segundos, até a loira reunir coragem para dar o próximo passo.

— Nós vamos terminar o treino às cinco hoje. Que tal darmos uma volta mais tarde? Só nós duas. Respirar um ar fresco fora do ginásio.

— Uma volta? — Júlia sorriu, os olhos brilhando. — Acho uma ótima ideia.

— Combinado, então — disse Kate, sentindo um alívio caloroso percorrer o peito antes de voltarem a comer e encerrarem a refeição em meio a conversas descontraídas com o resto do elenco que chegava.

A tarde, contudo, não deu trégua. O técnico exigiu o máximo das atletas. Foi uma sessão de treino pesada, com bloqueios repetitivos, ajustes táticos na rede e muito impacto no piso de madeira. Houve uma curta pausa para o almoço, onde ambas mal conseguiram trocar mais do que olhares exaustos, e logo voltaram à quadra até o apito final soar pontualmente às dezessete horas.

No vestiário, a atmosfera cheirava a spray analgésico e esforço físico. As atletas desfaziam as bandagens nos tornozelos e dedos. Enquanto Júlia estava no chuveiro, Marina Lubian encostou-se ao armário de Kate, cruzando os braços e observando a amiga com uma sobrancelha arqueada.

— Você está muito pensativa, Kate — começou Lubian em tom baixo. — Vai mesmo sair com ela?

— Vou — admitiu a oposta, amarrando os cadarços do tênis casual. — Ela aceitou tomar um ar mais tarde.

Lubian estreitou os olhos, oferecendo um conselho sincero de quem conhecia bem as nuances das pessoas:

— Olha só, dá um impulso. Vê se a Júlia acende, se ela entra no mesmo ritmo que você... mas vai devagar, tá? A Júlia é reservada, você sabe. Não queima a largada.

Kate deu de ombros, disfarçando a ansiedade que remexia seu estômago.

— Sei o que estou fazendo, Marina. Vai dar tudo certo.

Pouco depois, quando Júlia saiu do banho secando os cabelos ruivos com uma toalha, Kate a interceptou perto da saída do vestiário.

— Ainda de pé o nosso passeio? — perguntou a loira, com a voz ligeiramente vacilante.

— Claro que sim — respondeu Júlia, sorrindo docemente. — Só vou para o quarto me arrumar com calma. Às sete em ponto estou te esperando na recepção, pode ser?

— Perfeito. Estarei lá.

Quando o relógio marcou sete horas da noite, Kate já estava sentada em uma das poltronas de couro do lobby. Usava jeans escuros, uma jaqueta leve e mantinha os pés inquietos. Minutos depois, o elevador se abriu. Júlia vinha descendo, simples e deslumbrante em um suéter claro que contrastava lindamente com seus longos cabelos ruivos soltos sobre os ombros.

— Pontual — brincou a brasileira, aproximando-se.

— Quando o compromisso vale a pena, não me permito atrasar — respondeu Kate com elegância, levantando-se.

As duas deixaram o hotel caminhando lado a lado. O vento da noite soprava vindo do oceano, trazendo uma brisa úmida e salgada. Elas seguiram por um calçadão afastado, onde a movimentação de turistas era quase nula. O som ritmado e contínuo das ondas quebrando na areia preenchia o ambiente, criando uma redoma pacífica e intimista.

Encontraram um trecho calmo na beira da praia, onde uma mureta de pedra e a areia seca ofereciam um refúgio. Sentaram-se próximas, sentindo a maresia fria tocar a pele quente. A conversa fluiu fácil a princípio: falaram sobre a infância, as dificuldades de morar longe de casa por causa do voleibol, a pressão das competições e pequenos segredos do dia a dia.

A cada palavra, Kate sentia-se mais encantada. Havia uma suavidade única na voz de Júlia que parecia desarmar todas as suas defesas. O conselho de Lubian, que pedia cautela, começou a se perder em meio ao turbilhão de emoções que a loira experimentava naquele momento. Sentindo que a atmosfera estava perfeita, Kate virou o corpo na direção da brasileira.

Com os olhos fixos na boca rosada de Júlia, Kate estendeu a mão lentamente, tocando com a ponta dos dedos o maxilar delicado da ruiva. Inclinou-se com extrema delicadeza, diminuindo a distância entre seus rostos, esperando selar aquele momento em um beijo terno.

No entanto, no milissegundo em que os lábios de Kate quase se tocaram nos seus, Júlia arregalou os olhos. Um sobressalto de pânico atingiu o corpo da brasileira. Instintivamente, Júlia se esquivou para trás com brusquidão, afastando o rosto e puxando o tronco para longe do contato.

O choque foi imediato. A mão de Kate congelou no ar, e o vazio repentino caiu como um balde de água fria sobre seu peito.

— O que foi isso? — perguntou Kate, a voz subitamente rouca pela surpresa desagradável.

— Kate... não. Eu... não posso — respondeu Júlia, respirando rápido, ajeitando a jaqueta com mãos trêmulas enquanto recuava mais alguns centímetros na areia.

A frustração e a vergonha arderam no rosto de Kate em questão de segundos. A rejeição crua expôs uma ferida em seu orgulho que ela não soube disfarçar.

— Não pode? — questionou a loira, a voz subindo de tom, tingida por uma irritação defensiva. — Júlia, você passou o dia inteiro me olhando daquele jeito. Você disse que a noite passada foi ótima, aceitou sair comigo, veio até aqui... e agora age como se eu fosse um monstro tentando algo errado?

— Eu não disse que você é um monstro! — rebateu Júlia, levantando-se da areia, sentindo a raiva misturada ao pânico defensivo. — Você simplesmente tentou me beijar do nada, sem nem me perguntar se eu queria, sem perceber se era a hora certa! Eu só queria conversar, Kate!

— Do nada?! Estávamos aqui sentadas, sozinhas, criando um clima o tempo todo! — Kate também se ergueu, sua estatura impondo uma presença intimidadora, os punhos cerrados nos bolsos. — Se você não queria nada disso, por que diabos aceitou o convite? Estava só brincando comigo?

— Eu não brinco com ninguém! — gritou Júlia, as lágrimas de frustração começando a arder em seus olhos. — Você interpretou tudo errado e agora está descontando em mim porque as coisas não foram como você planejou na sua cabeça!

As duas quase explodiram em uma discussão ainda mais acalorada no meio da praia deserta. Os olhares feridos se chocaram em um impasse sufocante.

— Quer saber? — cortou Kate, com o tom de voz gelado, virando as costas. — Esquece. Vamos embora antes que a gente diga coisas que não dão para apagar.

A caminhada de volta ao hotel foi um pesadelo silencioso. Nenhum som além dos passos rápidos e da respiração pesada de ambas. A tensão era tão densa que sufocava. Ao chegarem à entrada, sem trocar uma única palavra de despedida, cada uma tomou um rumo em direção aos seus respectivos quartos.

Júlia entrou no quarto batendo a porta sem força, mas com o peso do mundo nas costas. Desabou sobre a cama com a cara enfiada no travesseiro, os ombros tremendo.

Maja, que lia um livro encostada na cabeceira da outra cama, baixou as páginas lentamente e encarou a colega com preocupação genuína.

— Júlia? O que aconteceu com você?

Entre soluços abafados, Júlia virou o rosto molhado para a veterana.

— Deu tudo errado, Maja... tudo errado.

Em meio a pausas e lágrimas, a ruiva descreveu cada detalhe: a caminhada, a conversa tranquila, a tentativa de beijo de Kate e a forma como ela própria havia recuado em pânico, desencadeando o bate-boca amargo na praia.

Maja respirou fundo, fechou o livro e sentou-se na beirada da cama de Júlia, adotando uma postura austera.

— Júlia, me escute com atenção — disse Maja, dando uma bronca firme, mas cheia de afeto. — Você foi injusta. Você gosta dela, não gosta? Passou a manhã inteira suspirando, alimentou a expectativa da menina e, quando ela tomou a iniciativa que você mesma desejava lá no fundo, você entrou em pânico e a empurrou para longe como se ela tivesse cometido um crime. Você não pode esperar que as pessoas adivinhem seus medos se você não fala com clareza. Você a machucou com essa reação.

Enquanto isso, no quarto do outro corredor, a atmosfera era igualmente tempestuosa. Kate entrou jogando as chaves sobre a cômoda com força excessiva, os olhos brilhando de raiva.

Marina Lubian, que ajeitava as malas, olhou para a amiga imediatamente.

— O que houve? Parece que viu um fantasma.

— A Júlia se esquivou de mim — soltou Kate, a voz trêmula de humilhação. — Eu tentei beijá-la na praia e ela recuou como se tivesse nojo. Depois quase nos matamos aos gritos porque ela disse que eu fui precipitada.

Marina suspirou profundamente, balançando a cabeça em reprovação antes de cruzar os braços e encarar a loira com severidade.

— E você foi, Antropova! O que foi que eu te falei no vestiário? Eu disse: vai devagar! Você é intensa demais, Kate. Acha que todo mundo processa os sentimentos na mesma velocidade que você. A garota é tímida, reservada, tem o tempo dela. Em vez de construir o momento com calma, você avançou o sinal e ainda ficou brava porque ela se assustou? Você deu um show de imaturidade brigando com ela por causa disso.

Kate caiu sentada na cama, cobrindo o rosto com as mãos grandes. As palavras duras de Lubian atingiram em cheio sua consciência. A raiva começou a se dissipar, deixando para trás apenas a culpa amarga e a certeza de que havia estragado algo precioso.

A noite avançou arrastada e pesada. No silêncio que engoliu o hotel por volta das três da manhã, Júlia ainda estava acordada. Revirava-se na cama, com o peito apertado, choramingando baixinho para não acordar Maja. O arrependimento corroía seus pensamentos: não queria ter agido daquela maneira, não queria que as coisas tivessem terminado em mágoa.

De repente, o som baixo e abafado do interfone do quarto quebrou a quietude da madrugada. Júlia franziu a testa, levantou-se com cuidado e atendeu o aparelho na parede.

— Sim? — sussurrou.

— Senhorita Bergmann? — disse a voz suave do recepcionista noturno. — Uma entrega acabou de ser deixada aqui para a senhora. Eu subi e deixei em frente à sua porta para não incomodar muito tarde.

Curiosa e com o coração acelerado, Júlia destrancou a porta lentamente e a abriu apenas uma fresta. No chão acarpetado, repousava uma cesta delicada: um buquê elegante de flores em tons claros, uma seleção dos seus doces favoritos e um envelope selado.

Júlia recolheu a cesta rapidamente e fechou a porta, encostando as costas na madeira fria. Sentou-se no chão mesmo, puxando o envelope com dedos trêmulos. Reconheceu a letra cursiva e impecável de Kate.

"Júlia, me perdoe. A Marina me abriu os olhos para o que eu fui incapaz de ver na hora. Eu agi como uma idiota orgulhosa. Fui rápida demais, cobrei de você um ritmo que não era o seu e deixei a frustração falar mais alto do que o respeito imenso que tenho por você. Ontem à noite você me fez tão bem, e a última coisa que eu queria era ser o motivo do seu sofrimento. Me desculpe de verdade por ter estragado tudo. Por favor, coma os doces e saiba que, no seu tempo, eu ainda estou aqui."

Ao terminar de ler a carta, Júlia não aguentou. As lágrimas quentes desceram silenciosas pelo seu rosto, pingando sobre o papel. Abraçou as flores contra o peito, soltando um suspiro trêmulo. Não queria que tivesse sido daquele jeito tão tempestuoso, mas saber que Kate havia compreendido tirou um peso colossal de suas costas. A madrugada seguiu seu curso, agora banhada por um silêncio muito mais sereno.

Na manhã seguinte, a rotina recomeçou. Quando as quatro atletas desceram para o café da manhã, o destino — ou o hábito — as colocou novamente na mesma mesa redonda perto da janela.

O clima ainda carregava uma leve pontada de timidez. Júlia e Kate sentaram-se frente a frente mais uma vez. A brasileira tinha os olhos levemente inchados da noite maldormida, mas havia um brilho terno em sua expressão.

Com voz calma e sincera, Júlia quebrou o gelo:

— Kate... obrigada pelo presente. As flores são lindas, e os doces... você acertou em tudo. E me desculpe também por ontem. Eu entrei em pânico e não soube me expressar.

Kate ergueu o olhar. Não havia mais resquício de arrogância ou mágoa; apenas um sorriso suave, acolhedor e genuíno que desarmou qualquer resquício de tensão.

— Eu quem devo desculpas — respondeu a loira em tom quase inaudível.

— Você não precisava ter ficado daquele jeito, triste ou brava consigo mesma — acrescentou Júlia, tocando de leve a ponta dos dedos de Kate sobre a toalha da mesa, um gesto breve, mas significativo. — Nós vamos nos entender. Só precisamos de tempo.

Nesse exato momento, Maja e Lubian voltaram à mesa equilibrando suas bandejas de comida, flagrando a troca de olhares doce e conciliadora entre as duas.

Maja colocou a xícara na mesa e soltou uma gargalhada cúmplice, enquanto Marina apoiava as mãos na cintura com uma careta divertida.

— Olha só para isso — zombou Marina, com um sorriso de orelha a orelha. — Parece que as duas crushes finalmente se resolveram! Não aguentava mais esse drama digno de novela italiana logo cedo.

— Graças a Deus — concordou Maja, fingindo alívio exagerado ao se sentar. — Achei que íamos ter que jogar a próxima partida com essas duas de bico virado uma para a outra. Já posso respirar em paz.

Kate e Júlia se entreolharam, sentindo as bochechas queimarem simultaneamente diante da provocação direta das companheiras de equipe. A vergonha durou apenas um segundo antes de se dissolver no ar. Uma gargalhada frouxa escapou de Júlia, imediatamente acompanhada pelo riso descontraído de Kate, Marina e Maja.

A risada compartilhada selou a paz entre elas, trazendo de volta a leveza necessária para encarar mais um dia de voleibol e a certeza de que, aos poucos, aquela história estava apenas começando.

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