Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Inazuma eleven: O coração de Kira

Fandom: Inazuma eleven

Criado: 11/10/2026

Tags

DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoAventuraEstudo de PersonagemTragédiaCenário CanônicoDivergência
≡ Índice

O Coração no Tabuleiro

O ronco constante do motor da Caravana Inazuma servia como um pano de fundo reconfortante para a equipe da Raimon. Depois de tantas batalhas dolorosas e incertezas, o clima a bordo finalmente recuperara uma centelha de esperança inabalável. O regresso de Axel Blaze em Okinawa não fora apenas um reforço para a linha de ataque; fora uma lufada de ar fresco que reacendera o espírito de todos.

No entanto, a ameaça da Academia Aliea ainda pairava como uma tempestade escura no horizonte. A derrota da Épsilon Kai fora uma vitória crucial, mas a treinadora Lina Schiller deixara bem claro: a equipa que enfrentariam a seguir, a Génesis, estava num patamar completamente diferente.

No centro da caravana, Mark Evans girava a sua velha bola de futebol entre as mãos enfaixadas. O brilho nos seus olhos castanhos era o mesmo de sempre, transbordando uma determinação pura e quase infantil.

— Treinadora! — chamou Mark, inclinando-se para a frente no assento. — Para onde estamos a ir agora? Quem é o próximo jogador? É alguém com um remate incrível? Ou talvez um defesa intransponível?

Ao lado de Mark, Axel apenas soltou um suspiro divertido, com os braços cruzados contra o peito. A sua presença serena equilibrava perfeitamente a euforia do capitão.

— Acalma-te, Mark — disse Axel, com a sua voz calma habitual. — Seja quem for, tenho a certeza de que a treinadora tem um motivo específico para nos levar até lá.

Jude Sharp, ajustando os seus óculos de proteção característicos, olhou para o monitor instalado no painel central. Havia relatórios táticos abertos, mas nenhum continha vídeos de técnicas especiais espalhafatosas ou estatísticas de força física fora do comum.

— O Axel tem razão — interveio Jude, com o tom analítico que o definia. — Se vamos enfrentar a Génesis, a nossa coordenação tem de ser perfeita. Eu consigo organizar a equipa, mas contra adversários que se movem a uma velocidade sobre-humana, uma única mente tática no meio-campo não será suficiente. Precisamos de alguém que veja o campo antes mesmo de a jogada existir.

A treinadora Lina Schiller permaneceu de costas para eles durante alguns segundos, observando a estrada através do vidro fumado, antes de se virar com a sua habitual postura rígida.

— Exatamente, Jude — confirmou a treinadora, tocando no ecrã para projetar uma ficha de dados com pouquíssima informação visual. — O nosso próximo alvo não é um goleador nem uma muralha defensiva. É uma estratega. Uma prodígia cujo nome desapareceu dos registos oficiais há mais de um ano.

No ecrã, surgiu uma fotografia antiga de uma rapariga de cabelos escuros e olhar penetrante, acompanhada por um nome em letras garrafais: Kira Aizawa.

— Kira Aizawa? — repetiu Mark, pestanejando com curiosidade. — Nunca ouvi falar dela. Ela jogava no Torneio de Futebol Fronteira?

— Não — respondeu Jude, arregalando ligeiramente os olhos ao reconhecer o apelido. — Espera... Aizawa? Não me digas que ela é da família do...

— Sim — interrompeu Lina, a sua voz pesada com uma seriedade gélida. — Ela é a irmã mais nova de Ren Aizawa.

Um silêncio momentâneo instalou-se na caravana. Até mesmo Kevin Dragonfly e Nathan Swift, que conversavam nos bancos de trás, pararam para ouvir.

— Ren Aizawa... — murmurou Axel, com uma centelha de reconhecimento a passar pelo seu olhar. — O capitão e médio ofensivo que dominou as ligas juvenis há dois anos. Diziam que ele tinha o talento de uma geração inteira. Uma visão de jogo comparável à dos maiores génios mundiais.

— Mas o que aconteceu com ele? — perguntou Mark, franzindo o sobrolho. — E o que é que a Kira tem a ver com isso?

Lina desligou o ecrã com um toque seco.

— Há cerca de um ano, Ren e Kira sofreram um acidente rodoviário gravíssimo. Ren não sobreviveu aos ferimentos. Kira ficou internada durante meses em estado crítico, à beira da morte. Quando finalmente teve alta, abandonou completamente o futebol. Nenhuma escola secundária tem registo de que ela tenha voltado a tocar numa bola.

— Ela perdeu o irmão... — sussurrou Silvia Hartland, com a mão no peito, sentindo o peso daquela tragédia. — Que terrível...

— Mas por que razão a estamos a procurar agora, se ela nem sequer joga? — questionou Kevin, cruzando os braços, desconfiado. — Como sabemos se ela é assim tão boa? O irmão dela podia ser brilhante, mas isso não garante nada sobre ela!

— As pessoas que acompanhavam os treinos da academia onde ambos jogavam diziam o contrário — explicou Jude, encarando Kevin com firmeza. — Ren era a espada reluzente, aquele que todos viam finalizar e brilhar sob os holofotes. Mas quem lia as defesas adversárias, quem orquestrava os movimentos milimétricos e encontrava as brechas invisíveis era a Kira. Ela não jogava futebol como os outros. Ela tratava o campo como um tabuleiro de xadrez em movimento contínuo.

— Um tabuleiro de xadrez... — repetiu Mark, e um sorriso determinado começou a desenhar-se no seu rosto. — Então ela adora futebol tanto quanto nós! Uma pessoa que entende o jogo dessa maneira tem de amar o desporto do fundo do coração!

— Não tires conclusões precipitadas, Mark — avisou Axel, pousando a mão no ombro do amigo. — A dor de perder alguém que dividia essa paixão connosco pode transformar o amor pelo futebol num fardo insuportável. Eu sei o que é querer afastar-me dos relvados para proteger o que nos resta.

Mark olhou para Axel, compreendendo de imediato a profundidade daquelas palavras. Lembrou-se de quanto Axel sofrera por causa de Julia.

— Mesmo assim... — insistiu Mark, apertando a bola de couro com força. — Se ela ainda tiver uma faísca dentro do peito, nós temos de tentar. Não apenas porque precisamos de uma estratega contra a Aliea, mas porque ninguém deve carregar essa tristeza sozinho. Temos de ir falar com ela!

A Caravana Inazuma reduziu a velocidade, entrando numa cidade litorânea tranquila, cercada por colinas arborizadas e pelo som distante das ondas. Era uma localidade calma, longe do caos e da destruição que os extraterrestres vinham causando por todo o país.

— Chegámos — anunciou o senhor Veteran, travando suavemente o veículo perto de um parque residencial antigo. — De acordo com a morada que a treinadora conseguiu, a jovem Aizawa reside nesta área.

— Muito bem! — exclamou Mark, levantando-se de imediato com a sua habitual energia. — Jude, Axel, venham comigo. Vamos descobrir onde ela está!

— Não façam escândalo — ordenou Lina de forma categórica antes que saíssem. — Kira Aizawa não sabe quem nós somos, e a sua família manteve discrição absoluta desde o acidente. Abordem-na com cuidado.

Ao descerem da caravana, o ar fresco do oceano bateu nos rostos dos três rapazes. A cidade parecia alheia à invasão que abalava o Japão, envolta numa pacatez melancólica.

— Por onde começamos? — perguntou Axel, olhando em volta para as ruas desertas daquele início de tarde.

— Não sabemos a rotina dela — respondeu Jude, ajeitando a capa vermelha. — Mas se ela era uma atleta dedicada, duvido que fique simplesmente fechada em casa. Vamos perguntar no centro desportivo local ou no campo público mais próximo.

Seguindo a sugestão de Jude, os três caminharam alguns quarteirões até encontrarem um pequeno complexo desportivo municipal. No campo de relva sintética, um grupo de crianças disputava uma partida barulhenta, correndo atrás da bola com entusiasmo desordenado.

Num banco de madeira afastado, debaixo da sombra de uma grande árvore, estava sentada uma rapariga solitária.

Ela vestia um casaco desportivo simples e escuro, abotoado até ao pescoço, e segurava um bloco de notas preto no colo. A sua postura era impecavelmente ereta, estoica, quase sem vida. Não torcia, não sorria e não demonstrava qualquer emoção enquanto os seus olhos castanho-escuros seguiam o movimento das crianças no campo.

O que chamou a atenção imediata de Jude foi a forma como a mão dela se movia no papel. Ela não desenhava; traçava vetores, linhas geométricas perfeitas e pequenos pontos que representavam a posição de cada jogador.

— É ela — murmurou Jude num sussurro tenso. — Kira Aizawa.

— Olhem para ela... — disse Mark, fascinado pela concentração absoluta da jovem. — Ela não está apenas a ver o jogo. Ela está... a prever tudo!

No campo, uma das crianças preparava-se para chutar à baliza, mas Kira, sem sequer desviar o olhar do bloco, murmurou algo inaudível e desenhou uma seta curta para a esquerda. Dois segundos depois, um defesa tropeçou na bola, desviando-a exatamente para a trajetória que ela anotara no papel.

— Incrível... — admitiu Axel, semicerrando os olhos. — Ela viu o ressalto antes do próprio defesa cometer o erro.

Incapaz de conter a sua curiosidade e a vontade de estabelecer contacto, Mark deu um passo em frente, quebrando a distância respeitosa.

— Olá! — gritou Mark, com a sua voz aberta e vibrante, aproximando-se do banco.

Kira não se assustou. Com uma calma quase enervante, ela fechou o bloco de notas com um estalo suave, pousou a caneta no bolso e ergueu o rosto para encarar os três recém-chegados. O seu olhar era frio, analítico e totalmente desprovido de qualquer calor humano.

— Quem são vocês? — perguntou ela. A voz era baixa, firme e desprovida de qualquer entoação amigável. — E porque é que estão a observar-me há mais de cinco minutos?

Mark parou a dois metros de distância, coçando a nuca com um sorriso sem jeito.

— Desculpa se parecíamos intrometidos! Eu sou o Mark Evans, da Escola Raimon! Este é o Axel Blaze e este é o Jude Sharp.

Kira correu os olhos pelas fardas dos três rapazes, detendo-se momentaneamente nas ligaduras nos pulsos de Mark, na postura de atirador de Axel e na capa e óculos de Jude. O cérebro dela processou as informações com a velocidade de um relâmpago.

— Raimon. O colégio que venceu o Futebol Fronteira — disse ela, num tom monocórdico, como se estivesse apenas a ler uma entrada de enciclopédia. — E agora viajam pelo país a combater os invasores que se autodenominam Academia Aliea. A vossa presença aqui não faz sentido logístico. Este lugar não tem relevância tática para a vossa guerra.

Jude deu um passo à frente, impressionado pela lucidez fria da rapariga.

— Não viemos pela cidade, Kira. Viemos por ti.

Pela primeira vez, uma ligeira contração ocorreu no rosto de Kira. Um brilho tênue de desconforto passou pelos seus olhos, mas ela recuperou a compostura de imediato.

— Não sei quem vos deu o meu nome, mas perderam o vosso tempo — declarou ela, levantando-se do banco com elegância sóbria. — Eu não tenho nada a oferecer à vossa equipa.

— Espera aí! — interveio Mark, estendendo a mão para tentar impedir que ela se fosse embora. — Nós precisamos da tua ajuda! A Génesis está a destruir tudo o que encontra pela frente. Nós precisamos de alguém com a tua inteligência, com a tua capacidade de ler o jogo!

Kira virou-se de costas para eles, segurando o bloco de notas com força contra o peito. A mão dela apertava o casaco exatamente sobre o lado esquerdo do tórax.

— Eu não jogo futebol — disse ela, sem olhar para trás.

— Mas tu estás aqui! — retrucou Mark, apontando para o campo onde as crianças continuavam a correr. — Estavas a analisar aquele jogo! Estavas a prever cada passe, cada desarme! Uma pessoa que não se importa com futebol não faria isso!

— Analisar probabilidades é apenas um exercício mental — rebateu Kira, a sua voz endurecendo como gelo. — O futebol não passa de vinte e duas peças num retângulo de relva a perseguirem uma esfera de couro. Não há sentimentos nisso. Não há glória. Apenas números, trajetórias e riscos desnecessários.

— Estás a mentir para ti mesma — disse Axel, com a voz serena, mas cortante.

Kira estacou no lugar. Virou ligeiramente o rosto, fixando os olhos em Axel.

— O que disseste? — perguntou ela.

— Eu já estive no teu lugar — continuou Axel, dando alguns passos lentos na direção dela. — Já tentei afastar-me da bola. Tentei convencer-me de que o futebol só trazia tragédia e dor. Mas quanto mais tentas fugir, mais a tua mente procura o campo. O teu corpo pode tentar esquecer, mas o teu coração sabe a verdade.

Ao ouvir a palavra coração, Kira estremeceu visivelmente.

Por debaixo do casaco grosso, sob a cicatriz cirúrgica que atravessava o seu peito, uma batida súbita e violenta ecoou no seu interior. Um pulso forte, ritmado, que não parecia pertencer totalmente a ela, mas sim a uma memória viva que recusava desaparecer. A imagem do irmão sorrindo, pedindo-lhe um último passe, relampejou na sua mente com a intensidade de um raio.

A rapariga cerrou os dentes, sufocando a respiração por uma fração de segundo até recuperar o controlo absoluto das suas reações físicas.

— Vocês não sabem absolutamente nada sobre mim — murmurou Kira, virando-se completamente para os encarar, desta vez com uma frieza cortante. — Não sabem nada sobre o meu coração, nem sobre o que perdi. O vosso capitão vive num mundo infantil onde a paixão resolve todos os problemas. Mas no mundo real, a paixão destrói as pessoas.

Mark não recuou diante daquele olhar gélido. Pelo contrário, deu mais um passo em frente, com a bola debaixo do braço e os olhos a brilharem com uma intensidade inquebrantável.

— O futebol não destrói ninguém, Kira! — afirmou Mark com convicção absoluta. — O futebol une as pessoas! Se tu ainda tens essa visão incrível, se ainda consegues ver o campo antes de toda a gente, isso é um dom maravilhoso! E se estás a carregar uma dor tão pesada... deixa-nos carregar essa dor contigo!

Kira encarou Mark com uma expressão indecifrável. Aquele rapaz à sua frente era o completo oposto de tudo o que ela considerava lógico. Não havia cálculo nas ações dele, não havia estratégia fria. Havia apenas uma vontade cega e abrasadora de proteger aquilo em que acreditava.

Por um breve instante, Kira viu no olhar de Mark o mesmo brilho insuportável e radiante que o seu irmão costumava ter sempre que pisava os relvados.

A mão dela relaxou ligeiramente no casaco. A dor no peito diminuiu, substituída por um calor estranho e desconhecido que tentava furar a sua armadura de estoicismo.

— Não importa o que digam — disse Kira, a voz perdendo um pouco da rigidez cortante, tornando-se apenas distante. — A resposta continua a ser não. A Raimon deve procurar outros jogadores se quer derrotar a Aliea. Eu não sou a salvadora que procuram.

Ela deu meia-volta e começou a afastar-se a passos medidos pelo caminho de cascalho que subia a colina.

— Kira! — chamou Mark, mas ela não parou.

Jude colocou a mão no braço do capitão, travando o seu ímpeto de ir atrás dela.

— Deixa-a ir, Mark.

— Mas Jude! Ela...

— Ela está a erguer uma muralha porque se sente ameaçada — explicou Jude, observando a silhueta da rapariga desaparecer entre as árvores. — Pressioná-la agora só vai fazer com que ela se isole ainda mais. Mas o Axel tinha razão. Notaste como ela reagiu? O futebol ainda está muito vivo dentro dela. Ela apenas tem medo de voltar a sentir.

Axel concordou com um aceno subtil de cabeça.

— Nós sabemos onde ela mora e sabemos quem ela é. Agora que fizemos o primeiro contacto, ela vai pensar nas palavras do Mark, quer queira, quer não.

Mark olhou para a colina vazia, sentindo a brisa marítima agitar a sua fita laranja na testa. O coração dele estava inquieto, mas não desanimado. Muito pelo contrário. Ele sentira algo naquele breve encontro. Por detrás daquela máscara de gelo e raciocínio puro, Kira Aizawa estava a lutar uma batalha interna muito mais difícil do que qualquer jogo contra alienígenas.

— Nós não vamos desistir dela — declarou Mark, voltando a sorrir com aquela determinação inabalável que sempre arrastava a equipa para a frente. — Vamos mostrar-lhe que o campo de futebol não é apenas um tabuleiro frio. É o lugar onde podemos ser livres outra vez!

≡ Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic

Novidades do Fanfy

Um novo modelo para suas histórias

Atualizamos o modelo de geração para deixar suas histórias ainda melhores. O novo modelo já está ativado.

Se preferir a versão anterior, escolha «Anterior» no menu do perfil: clique no seu avatar no canto superior direito.

Seus capítulos já escritos serão mantidos. Sua escolha vale para as próximas gerações.