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Ninguém é perfeito

Fandom: Alien stage

Criado: 11/10/2026

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Armários de Metal e Segredos Baratos

O barulho metálico dos armários batendo no corredor principal do terceiro ano sempre dava nos nervos de Sua. Era um eco desgraçado, misturado ao falatório arrastado de centenas de adolescentes que pareciam incapazes de falar em um tom de voz civilizado antes das oito da manhã. Ela manteve os dedos firmes na alça da mochila, os olhos roxos fixos no chão encerado para ignorar a claridade fluorescente excessiva das lâmpadas do teto.

— Caralho, você anda parecendo um zumbi — Ivan disse, encostando o ombro no armário ao lado do dela. O uniforme dele estava impecável, como sempre: a calça branca sem um amassado sequer, a gravata alinhada e um sorriso cínico desenhado no rosto. — Nossos pais mandaram você tomar aquele suco verde esquisito de novo?

Sua nem se deu ao trabalho de olhar para ele enquanto girava o segredo do próprio cadeado. Três giros para a direita, dois para a esquerda, parando exatamente no número vinte e quatro. Se não desse o clique perfeito no centro do marcador, ela teria que recomeçar.

— Vai se foder, Ivan — ela murmurou, a voz baixa, mas afiada. — Não enche meu saco tão cedo.

— Que grosseria gratuita, maninha. Eu só me preocupo com a sua saúde física e mental. — Ivan tirou uma bala de cereja do bolso da calça social, descascando o plástico com uma mão só com a maior calma do mundo. — Você devia sorrir mais. As rugas de estresse vão aparecer antes dos vinte.

— Insuportável. Meu Deus, você é completamente insuportável.

— E você me ama — retrucou ele, jogando a bala na boca e estalando a língua nos dentes.

Sua respirou fundo. O clique do cadeado encaixou perfeitamente. Ela abriu a portinhola de metal cinza, organizando seus livros milimetricamente por tamanho e cor antes de pegar o fichário de literatura. Ivan continuava ali, parado, uma presença alta e irritante que só servia para chamar atenção indesejada. E atenção era a última coisa que Sua queria, especialmente quando duas garotas do segundo ano passaram cochichando e encarando o irmão dela como se ele fosse a porra de um astro de cinema só porque usava a jaqueta do time de futebol americano nos dias de jogo.

— Ei! Vocês dois já começaram a se matar antes da primeira aula? Que novidade — uma voz feminina e alta cortou o corredor, fazendo Sua encolher os ombros de leve antes de erguer os olhos.

Era Mizi.

O ar pareceu mudar de densidade num segundo. Mizi vinha caminhando pelo meio do corredor com aquela postura de quem era dona do prédio inteiro, os cabelos cor-de-rosa compridos balançando, com as pontas tingidas de azul contrastando contra o tecido branco da camisa social. Como sempre, as regras da escola pareciam opcionais para ela: a saia pregueada era pelo menos dois dedos mais curta do que o regulamento mandava, o último botão do colarinho estava aberto de forma descarada e a gravata azul-escura pendia frouxa no pescoço. Seus olhos dourados brilhavam com uma ironia viva enquanto ela mastigava um chiclete.

Sua sentiu aquele nó habitual e incômodo se apertar bem no meio do peito. Mizi era linda pra caralho. Bonita demais para o bem-estar de qualquer pessoa que tentasse manter a sanidade por perto. Mas Sua apenas manteve a expressão neutra, fechando o armário com cuidado para que o metal não fizesse um estrondo estridente.

— O Ivan nasceu só pra testar o limite da minha paciência — respondeu Sua, com um tom seco, embora os olhos tenham vacilado por meio segundo no decote despretensioso de Mizi. — Ele precisa de um hobby urgente que não seja me encher o saco.

— Concordo em gênero, número e grau — disse Mizi, parando ao lado de Ivan e dando uma cotovelada na costela dele. — Qual é a tua, capitão? Já não basta as líderes de torcida ficarem me infernizando perguntando se a gente vai no baile juntos? Dá um tempo. Se mais uma patricinha daquele time vier me perguntar o que você prefere de presente, eu quebro o pescoço de alguém.

Ivan soltou uma risada baixa, divertida, passando o braço ao redor dos ombros de Mizi de um jeito tão casual quanto ensaiado. Do outro lado do corredor, cabeças se viraram na hora. Mais fofocas para o almoço.

— Admita, Mizi. Você adora o prestígio de ser a suposta namorada do astro do time. Isso mantém os idiotas da defesa longe de você.

— Mané prestígio — ela bufou, revirando os olhos e empurrando o braço dele para longe sem nenhuma cerimônia. — Eu tenho dinheiro suficiente pra comprar o time inteiro e mandar demolir aquele campo, garoto. Se eu quisesse prestígio, comprava um troféu de ouro maciço. Agora me solta, que calor do caralho.

— Tão agressiva... — Ivan zombou, cruzando os braços e recostando-se na parede. — Devia canalizar essa fúria nos treinos de ginástica.

— Vai se catar.

Sua observou a troca de longe, sentindo uma pontada amarga que fez questão de engolir junto com a saliva. O grupo inteiro sabia muito bem que Ivan era gay até o último fio de cabelo perfeitamente penteado e que Mizi só se interessava por garotas. Mas, para o resto do colégio de três mil alunos, os dois eram o casal dourado do último ano: o atleta e a líder de torcida ricaça. Uma farsa conveniente para Ivan manter as aparências que a família rigorosa dele exigia, e uma piada interna que Mizi tolerava simplesmente porque não tinha paciência para dar explicações da própria vida pessoal pra ninguém.

Passos pesados e arrastados chamaram a atenção de todos logo em seguida.

Till vinha pelo corredor com as mãos enfiadas nos bolsos da calça larga. Seu cabelo desgrenhado parecia ter sobrevivido a uma tempestade, a gravata estava completamente torta, apontando quase para a axila esquerda, e a mochila pesada pendia de um ombro só, coberta de rabiscos feitos com caneta esferográfica e botons desgastados de bandas punk que ninguém na escola ouvia. Ele parecia ter dormido três horas nas últimas quarenta e oito.

— Olha só se não é o rebelde sem causa — Ivan começou no mesmo instante em que Till se aproximou, o tom pingando sarcasmo puro. — Conseguiu chegar antes do sinal hoje? Achei que tivesse ficado preso no bueiro de onde você sai todo dia.

Till parou bruscamente. Os olhos verdes dele faiscaram de ódio quase que imediatamente.

— Cala essa boca de bosta, Ivan. Sério. Não fode a minha paciência hoje.

— Ui, que medo. Vai me bater com uma baqueta imaginária? — Ivan deu um passo à frente, abrindo um meio sorriso provocador que fez o sangue de Till ferver.

Sua notou na hora: os dedos de Till, do lado de fora dos bolsos agora, começaram a se fechar em punhos tão apertados que os nós dos dedos ficaram brancos, a pele repuxada pela tensão violenta. Ele fazia aquilo sempre que a raiva subia para a cabeça sem freio. Era uma resposta quase mecânica, uma necessidade física de esmagar qualquer coisa antes de explodir de vez.

— Eu vou é quebrar o teu nariz no meio se você não calar a porra da boca — a voz de Till tremeu, rouca, carregada de frustração pura. Ele detestava Ivan. Detestava a maneira como Ivan parecia existir unicamente para puxar seus gatilhos e vê-lo desmoronar publicamente.

— Chega, os dois — Mizi interveio, dando um passo rápido entre eles com as mãos nos quadris. A postura relaxada dela sumiu por uma fração de segundo, substituída por aquela faísca perigosa de irritação que qualquer um no grupo sabia reconhecer. Mizi não tinha paciência para chilique de homem. — Caralho, Ivan, você parece uma criança de cinco anos caçando briga. E você, Till, pelo amor de Deus, conserta essa merda dessa gravata antes que o inspetor venha encher o saco de todo mundo aqui.

A menção direta de Mizi fez Till travar no lugar.

Ele piscou, a fúria nos olhos vacilando e dando lugar a uma rigidez patética e sem jeito. Seus olhos verdes desceram para o uniforme desalinhado e, em seguida, subiram para o rosto de Mizi. Ele tentou ajeitar o tecido com uma mão desajeitada, piorando ainda mais o nó torto.

— Eu... tanto faz. O inspetor não manda em porra nenhuma — ele resmungou, desviando o olhar para a fileira de armários, as orelhas queimando em um tom avermelhado visível.

Ivan acompanhou cada movimento daquele constrangimento com um olhar afiado, quase faminto. O sorriso provocador dele continuava ali, mas por trás da máscara de garoto fútil havia uma tensão escura, uma fixação doentia que ninguém além de Sua — que convivia sob o mesmo teto frio e silencioso que ele — conseguia captar. Ivan sabia. Ivan sabia perfeitamente o que Till sentia por Mizi. E adorava esfregar o dedo nessa ferida aberta, mesmo que isso o corroesse por dentro de um jeito que ele jamais admitiria em voz alta.

— Ei, gente! Bom dia! — Uma voz solar e calorosa quebrou o clima pesado antes que mais alguém começasse uma briga física no meio do corredor.

Hyuna se aproximou a passos largos, com um sorriso aberto que parecia genuinamente ignorar a aura de caos entre os quatro. A pele morena brilhava sob a iluminação do colégio e os olhos azuis tinham aquele brilho cansado de quem tinha passado a madrugada ajudando o irmão ou resolvendo problemas alheios, mas ainda assim encontrava energia para fingir que tudo estava ótimo. A saia curta e a blusa impecavelmente fechada davam a ela um ar atlético e confiante.

Ao lado dela, quase colado como uma sombra calculista e elegante, vinha Luka.

O loiro usava óculos de armação fina sobre os olhos amarelos e claros, o cabelo perfeitamente dividido e o uniforme sem uma única dobra fora do lugar. Parecia um aluno de intercâmbio de algum colégio particular de elite que havia caído por engano naquela instituição pública barulhenta. Ele olhava para as pessoas no corredor como se todos fossem micróbios em uma lâmina de vidro.

Exceto quando olhou para Hyuna.

— Eu disse pra você não correr na escada — Luka comentou, a voz suave, macia e surpreendentemente paciente, enquanto tirava um fio de cabelo marrom que havia caído no ombro dela. — Você vai acabar torcendo o tornozelo de novo.

— Ah, relaxa, Luka! Eu tenho reflexos ótimos — Hyuna riu, dando um tapinha nas costas dele antes de se virar para o grupo. — Qual é o drama de hoje? Já ouvi os gritos do Till lá da escadaria.

— Ninguém tava gritando, caralho — Till resmungou, puxando as alças da mochila para cima e olhando feio para Luka.

Luka apenas retribuiu o olhar com um desprezo olímpico. Seus olhos passaram por Till, depois por Ivan e Sua, até pararem em Mizi. O desdém foi mútuo e instantâneo: Mizi fechou a cara imediatamente, cruzando os braços e virando o queixo para o lado oposto. Eles não se suportavam. Havia uma antipatia fria, visceral e mútua ali que nenhum dos dois jamais se deu ao trabalho de tentar remediar.

— Patético — murmurou Luka, ajustando os óculos no nariz com a ponta do dedo indicador. — Sempre a mesma algazarra antes do primeiro tempo. Parece que soltaram os animais do zoológico.

— Se não tá gostando, nerd de merda, pega tua pasta e vai pra sala especial de química — Mizi soltou com a voz carregada de veneno, dando um passo curto na direção dele. A mandíbula dela tensionou, o temperamento curto acendendo feito pólvora. — Ninguém te chamou pra ficar aqui enchendo o saco.

— Mizi, calma — Hyuna colocou a mão no braço dela, usando aquele tom conciliador automático que sempre adotava, como se fosse a mãe de todo mundo ali. — O Luka só tá estressado com o simulado de cálculo. Não começa.

Luka não pareceu se importar com a intervenção em prol da paz. Na verdade, seus olhos claros estavam cravados no ponto exato onde a mão de Hyuna tocava o braço de Mizi, com uma frieza tão cortante que quase dava para sentir a temperatura do ar despencar. Ele odiava quando Hyuna gastava saliva tentando apaziguar os outros. Ela devia ignorá-los. Todos eles eram ruídos irrelevantes. Mas ele manteve a boca fechada, apenas dando um meio passo para mais perto de Hyuna, reivindicando seu espaço ao lado dela como um cão de guarda silencioso.

— Ela começou — Luka disse, frio.

— Ah, vai pro inferno, Luka — Mizi rangeu os dentes, mas respirou fundo, soltando o ar pelo nariz com força para não avançar de verdade. Ela virou as costas para ele, passando a mão pelo cabelo rosa com força, frustrada consigo mesma por perder o controle tão fácil. — Eu preciso de um café. Se eu tiver que aguentar a aula de história com a senhora Gable sem cafeína, eu taco a carteira pela janela.

— Eu posso pegar um pra você na máquina antes do sinal — Till se apressou em dizer, a voz saindo um tom mais alto do que ele pretendia. Ele se calou na hora, mordendo o lábio inferior com força, o rosto esquentando de novo enquanto percebia o que tinha feito.

Ivan soltou um risinho baixo, sádico, cruzando os braços com ar de vitória.

— Olha só, o cachorrinho tá prestativo hoje — Ivan provocou.

Till deu um tranco para a frente, as mãos se fechando tão forte que as unhas se cravaram contra as próprias palmas, os nós dos dedos tremendo de raiva pura e descontrolada.

— Cala essa boca, seu viado de merda! — Till rugiu, esquecendo completamente onde estava.

O corredor fez um breve segundo de silêncio nas redondezas. Algumas pessoas olharam, mas logo voltaram a ignorar, acostumadas com as brigas matinais.

Sua olhou para o irmão. Ivan não se abalou com o xingamento — ele sabia que Till não usava a palavra no sentido homofóbico real, mas sim como um insulto jogado no calor do desespero adolescente. Ainda assim, Sua sentiu o peito arder. Ela odiava a postura do irmão, odiava como ele cavava a própria cova de propósito só para puxar a reação de Till, e odiava o fato de que ninguém ali enxergava o óbvio.

— Chega dessa merda — Sua interveio, a voz elevando-se pela primeira vez naquela manhã, cortando a discussão como uma lâmina fria. — Dá pra vocês dois pararem de agir que nem dois débeis mentais? O sinal vai bater em dois minutos e eu não quero o inspetor revistando nossos armários de novo por causa de escândalo.

Till respirou fundo, os ombros subindo e descendo com força, os olhos cravados em Ivan antes de se virar de costas, marchando irritado pelo corredor na direção da sala de aula sem olhar para mais ninguém.

Mizi deu um suspiro longo e pesado, balançando a cabeça.

— Esse garoto precisa seriamente de terapia — ela comentou, alheia a tudo, ajeitando a mochila nas costas. Seus olhos dourados encontraram os de Sua por um segundo, e ela deu um meio sorriso cansado. — Valeu pela intervenção, Sua. Se dependesse desses dois, a gente ia passar o primeiro período na diretoria.

— Tanto faz — Sua respondeu, o coração batendo um pouco mais forte do que o normal contra as costelas apenas com aquele olhar direto. Ela desviou a visão para o fichário nos próprios braços. — Só não quero barulho na minha cabeça.

— Você é muito antissocial, sabia? — Mizi riu, dando uma piscadela brincalhona antes de se afastar em direção às escadas. — Te vejo na aula de inglês. Tchau, gente.

Luka já havia pegado a alça da mochila de Hyuna, puxando-a levemente para o lado oposto.

— Vamos. Não quero me atrasar por causa do teatro alheio — ele disse, com uma indiferença calculada, guiando Hyuna para longe do grupo com uma atenção cirúrgica, como se ela fosse feita de porcelana.

— Calma, Luka! Espera! — Hyuna riu, deixando-se puxar, mas ainda acenou para trás por cima do ombro. — Até o almoço, gente! Juízo, Ivan!

E assim, o corredor começou a esvaziar à medida que o sinal estridente e metálico finalmente tocou, reverberando pelas paredes e fazendo os dentes de Sua vibrarem com a frequência horrível do alarme.

Restaram apenas ela e Ivan em frente aos armários.

O garoto encostou a cabeça na porta de metal, jogando o plástico da bala fora no chão — o que fez Sua franzir o cenho em desgosto pela quebra de ordem — e suspirou, a expressão arrogante de antes sumindo por uma fresta microscópica, revelando apenas o vazio cansativo que ele escondia dos corredores e de casa.

— Você devia parar — Sua disse em voz baixa, ajustando o fichário nos braços pela terceira vez para mantê-lo reto.

Ivan não a olhou.

— Parar com o quê?

— Com isso. Provocar o Till desse jeito. — Ela encarou o perfil do irmão, com a mesma pele pálida que a sua e os mesmos traços rígidos herdados de uma casa onde expectativas sufocavam tudo. — Não vai fazer ele olhar pra você do jeito que você quer, Ivan. Só faz ele te odiar mais.

Os olhos pretos de Ivan se moveram devagar na direção dela. Por um segundo, a máscara ameaçou cair, um reflexo sombrio e doloroso brilhando no fundo de sua postura de garoto perfeito. Mas então, com a rapidez de um reflexo treinado, o sorriso cínico voltou aos lábios dele.

— Não viaja, Sua. Eu só acho divertido ver a cara de bosta que ele faz. — Ele empurrou o corpo para longe da parede, ajeitando a gola impecável da camisa. — Anda logo pra sala antes que a nossa mãe receba uma notificação de atraso e decida que você precisa de mais um psiquiatra pra te 'consertar'.

Ele virou as costas e se misturou ao restante dos alunos que corriam para as portas, deixando Sua sozinha no corredor que começava a ficar deserto.

Ela permaneceu ali por mais alguns segundos, os nós dos dedos relaxando devagar ao redor do fichário. A madeira do chão, as lâmpadas frias, as vozes distantes. Todo mundo naquele prédio parecia estar correndo atrás de alguma coisa que não podia alcançar, fingindo uma normalidade patética que caía aos pedaços assim que as portas se fechavam.

Sua ajeitou a franja sobre a testa com um movimento preciso e começou a caminhar em direção à sala de inglês, engolindo em seco a imagem dos olhos dourados de Mizi que teimavam em não sair de sua cabeça.

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