
Hhsbshdh
Fandom: It a coisa
Criado: 11/10/2026
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O Sangue sob as Tábuas de Neibolt
O ar dentro do número 29 da Rua Neibolt cheirava a madeira podre, mofo e a uma doçura nauseante que lembrava carne esquecida ao sol. Clara Tozier odiava aquele lugar antes mesmo de cruzar a soleira quebrada. Aos dezoito anos, ela sentia que carregar o peso de ser a irmã mais velha de Richie era uma sentença de vigília perpétua. Richie tinha a boca grande demais e ossos frágeis de menos para o tipo de perigo que insistia em caçar por Derry.
Ela ajustou a jaqueta sobre os ombros largos, sentindo o tecido apertar levemente em seus braços. Clara sempre tivera consciência incômoda de seu próprio corpo: com um metro e sessenta e oito e seus oitenta e cinco quilos, as curvas acentuadas e a maciez de sua silhueta pareciam ocupar espaço demais num mundo feito para garotas etéreas e esguias. Seus cabelos ondulados e castanhos estavam presos de qualquer jeito, caindo em mechas desordenadas ao redor do rosto pálido.
A insegurança que a consumia não vinha apenas das ruas cinzentas da cidade, mas da ausência ensurdecedora deixada há três meses. Ele havia sumido. Bill — o homem misterioso de olhos intensos e sorriso cortante com quem ela vivera tardes clandestinas e noites febris em um casebre esquecido na periferia. Ele dizia que a amava com uma urgência quase dolorosa, fitando cada centímetro de sua pele como se estivesse faminto por ela. E então, sem uma palavra, desaparecera.
Clara passara as últimas semanas se punindo no silêncio do quarto, convencida de que o peso a mais em seu corpo, a celulite em suas coxas ou sua falta de experiência na cama o haviam espantado. Ela sabia que Derry escondia uma criatura, uma sombra grotesca que os garotos chamavam de Pennywise ou Coisa; Richie e os amigos não paravam de sussurrar sobre dentes, balões e esgotos. Mas Clara nunca havia imaginado que o monstro pudesse usar o rosto daquele que havia tocado sua alma.
— Clara, você não devia estar aqui! — sibilou Richie, ajeitando os óculos grossos no nariz suado enquanto empunhava um pedaço de pau lascado. — Isso não é brincadeira de babá. O Bill gago e os outros entraram primeiro, e aquela coisa tá aqui dentro. Cai fora!
— Cala a boca, Richie — respondeu ela com a voz rouca, tentando mascarar o tremor nos joelhos. — Você mal tem força pra levantar esse galho podre. Eu não vou deixar vocês sozinhos num covil de psicopata.
— É sério! — insistiu Eddie Kaspbrak, apertando a bombinha de asma contra o peito, os olhos arregalados fitando o teto que rangia. — Esse lugar tem bactérias mortais e... e palhaços comedores de gente!
— Vamos logo achar o resto do grupo e sair daqui — disse Clara, dando um passo à frente no corredor estreito do segundo andar.
O chão gemia sob cada pisada. A madeira estava tão encharcada de umidade antiga que parecia quase esponjosa. Mais adiante, os gritos abafados do jovem Bill Denbrough ecoavam de um dos quartos. Richie deu um salto para avançar, mas Clara o puxou pelo colarinho no mesmo instante em que uma tábua cedeu à esquerda.
— Cuidado, seu idiota! — gritou ela.
Foi então que o peso dela, somado à fraqueza secular da estrutura, cobrou o preço.
Um estalo ensurdecedor partiu as vigas de sustentação sob as botas de Clara. O chão simplesmente sumiu. Richie berrou enquanto tentava agarrá-la pela manga, mas o tecido se rasgou entre seus dedos. Clara caiu através do buraco, atravessando ripas quebradas e pregos enferrujados em uma queda violenta de quase três metros até o piso térreo.
O impacto foi brutal. Uma viga lascada atingiu seu quadril com força estarrecedora, jogando-a de lado sobre uma pilha de entulho e vigas pontiagudas. O ar foi expulso de seus pulmões num arquejo mudo. Durante alguns segundos, tudo foi poeira cinzenta e um zumbido agudo em seus ouvidos.
— Clara! — a voz de Richie soava distante, desesperada, vinda do andar de cima. — Clara, fala comigo! Meu Deus, Eddie, ela não tá se mexendo!
Clara tentou respirar, mas uma pontada dilacerante atravessou seu ventre. Não era uma dor comum de pancada; era uma queimação profunda, cortante, que vinha de dentro para fora, como se suas entranhas estivessem sendo retorcidas por mãos geladas. Ela soltou um gemido sôfrego, levando as mãos à barriga.
Ao tentar se erguer apoiando-se nos cotovelos, uma onda súbita de calor escorreu entre suas coxas. Clara olhou para baixo, o pânico nublando sua visão.
O tecido escuro de sua calça estava encharcado, tingido por um vermelho espesso e brilhante que começava a vazar abundantemente, escorrendo em direção aos joelhos e manchando a madeira podre do piso.
— Não... — balbuciou ela, o terror sufocando sua garganta. — O que... o que é isso?
A dor no baixo ventre se intensificou, fazendo-a dobrar o corpo para frente. A quantidade de sangue aumentava a cada respiração trêmula. Ela não entendia. Não era sua menstruação, não deveria sangrar daquele jeito, não com aquela violência que drenava suas forças em questão de segundos.
O ar na casa subitamente congelou. O cheiro de podridão foi engolido por um odor metálico de ozônio e cinzas, misturado àquele perfume amargo que Clara reconheceria em qualquer lugar do mundo.
As sombras no canto da sala quebrada começaram a se esticar, contorcendo-se como vermes gigantescos. O som de passos pesados ecoou não das tábuas, mas de algum ponto invisível entre as paredes.
Richie e Eddie desciam correndo os degraus restantes da escada em ruínas, tropeçando no entulho, quando uma força invisível os arremessou de costas contra a parede oposta.
— Fiquem onde estão — rosnou uma voz.
Não era a voz estridente e teatral de uma criatura circense. Era uma voz gutural, densa, carregada de um ódio tão primordial que fez o pó no ar estremecer. No entanto, havia ali uma nota aguda de desespero cego.
Das sombras, uma figura emergiu. Não trajava cetim prata nem ostentava pompons alaranjados. Ele usava a forma que Clara conhecia: alto, de mandíbula forte, olhos de um azul tão pálido que pareciam queimar como brasas, vestindo a mesma camisa de flanela desgastada que ela tantas vezes puxara com as próprias mãos. Era o Bill dela.
Mas os olhos dele estavam loucos. As pupilas vibravam, dilatando-se até quase engolir a íris, e suas mãos tremiam incontrolavelmente ao ver a poça vermelha crescendo ao redor da garota.
— Clara... — murmurou ele, a voz quebrando em um tom que não parecia pertencer a nada humano, oscilando entre o carinho profundo e o urro de uma besta ferida.
Richie se ergueu com esforço, esfregando as costas machucadas, e quando viu o homem avançando em direção à irmã, pegou uma pedra solta no chão com as mãos trêmulas.
— Se afasta dela, seu filho da mãe! — berrou Richie, a voz desafinada pelo choro. — Não toca na minha irmã!
O homem sequer virou o corpo inteiro. Apenas moveu o pescoço em um ângulo não natural, quase noventa graus para a esquerda, fitando os dois meninos com uma fúria tão fulminante que as lâmpadas inexistentes da casa pareceram estalar. Seus lábios se repuxaram sobre dentes que, por uma fração de segundo, pareceram finos e afiados demais.
— Se derem mais um passo — sibilou ele, e a própria estrutura da casa pareceu vibrar sob o aviso —, eu arranco as gargantas dos dois antes que consigam piscar. Eu abro seus peitos e deixo vocês engasgarem no próprio sangue. Afastem-se dela!
Eddie desabou no chão, paralisado de puro choque, enquanto Richie recuava involuntariamente, as costas coladas nas ripas de madeira, a pedra caindo de seus dedos entorpecidos pelo medo primal que emanava do homem.
Ele se ajoelhou na sujeira ao lado de Clara, ignorando completamente as lascas de madeira que furavam suas calças. A fúria em seu rosto se desfez em um segundo, substituída por um pavor absoluto, uma angústia crua que não combinava com o poder terrível que acabara de demonstrar.
— Clara, meu amor... olha pra mim — pediu ele, e suas mãos grandes e pálidas tocaram o rosto dela com uma delicadeza espantosa, quase reverente. — Olha pra mim, por favor.
Clara pestanejou, sentindo a visão escurecer nas bordas. O frio tomava conta de suas extremidades, mas o calor das mãos dele queimava sua pele fria.
— Bill...? — sussurrou ela, as lágrimas finalmente escorrendo e abrindo caminhos claros na poeira de suas bochechas. — É você... você voltou...
— Eu estou aqui — disse ele, a voz embargada por algo que soava assustadoramente humano. — Eu nunca quis ir embora, minha garota macia, minha vida... eu só... eu tinha medo de machucar você com a minha fome, de devorar a única coisa que já me fez querer parar.
— Eu tô sangrando, Bill... — gemeu ela, curvando-se enquanto outra pontada aguda rasgava seu ventre. — Tá doendo tanto... por que você sumiu? Foi por causa de mim? Eu sou... eu não fui o bastante pra você? Meu corpo...
— Cale a boca — sussurrou ele, quase em desespero, colando a testa na dela. Os cabelos ondulados de Clara se misturavam aos fios dele. — Nunca mais repita essa loucura. Eu sou louco por cada parte de você. Eu queimei por semanas longe dessa pele, longe do seu cheiro. Você é perfeita. Você é minha.
Ele baixou os olhos para a poça escarlate entre as pernas dela. A expressão do homem se tornou lívida, um terror ancestral invadindo sua postura. Ele pousou uma das mãos sobre o ventre de Clara, logo abaixo do umbigo.
No instante em que a palma dele tocou o tecido manchado, uma sensação estranha e pulsante percorreu o corpo de Clara. Uma calma gelada se espalhou por suas veias, amortecendo a queimação torturante.
— O que tá acontecendo comigo? — perguntou ela, a respiração entrecortada.
— Você não sabia... — disse ele, olhando para ela com uma reverência assustada, quase incrédula. Seus lábios tremiam. — Há algo nosso crescendo aqui dentro.
Clara arregalou os olhos úmidos, o choque congelando o choro em sua garganta.
— O quê...? Não... isso é impossível...
— Não é impossível — sussurrou ele, os olhos brilhando com uma luz dourada e alienígena por uma fração de segundo antes de voltar ao azul profundo. — Está vivo. Uma centelha nossa. Mas o impacto... o choque da queda feriu o ninho. Está rompendo.
— Eu vou perder? — Clara agarrou a jaqueta dele com desespero, os nós dos dedos brancos. Toda a insegurança, todo o medo daquele lugar macabro desapareceu diante do instinto repentino que inundou seu ser. — Bill, por favor! Não deixa! Salva ele! Salva o nosso bebê!
Ele fechou os olhos com força, respirando fundo como se sugasse a dor dela para dentro de si. Suas mãos emitiram um leve vapor frio, e a pressão no abdômen de Clara começou a diminuir. O sangramento contínuo que a aterrorizava começou a desacelerar, estancando sob a força invisível que a criatura exercia sobre a carne e a vida que compartilhava de sua essência.
— Não vai morrer — disse ele com firmeza, abrindo os olhos e cravando o olhar no dela. — Mas é frágil. Essa vida é de alto risco agora, Clara. A sua carne e a minha essência em guerra e harmonia dentro de você... você precisará de repouso absoluto. Você não pode carregar peso, não pode sangrar de novo, não pode correr riscos.
Ele deslizou os braços por baixo do corpo dela com facilidade aterradora, erguendo-a nos braços como se seus oitenta e cinco quilos não pesassem mais do que uma pluma. Clara soltou um suspiro dolorido e apoiou o rosto na curva do pescoço dele, aspirando o aroma estranho e hipnótico que a acalmava, sentindo o sangue estancado nas pernas manchar o casaco dele sem que ele se importasse a mínima.
Richie deu um passo vacilante à frente, com a voz embargada pelo pavor e pelo desespero fraternal.
— O que você vai fazer com ela?! Larga a minha irmã, seu monstro!
Bill parou. Não se virou com rapidez, mas a aura que emanou de sua silhueta fez as paredes apodrecidas da casa estalarem, pedaços de gesso caindo do teto como uma chuva pálida. Ele olhou para Richie com um desdém mortal, a voz ecoando simultaneamente no ar e diretamente dentro da mente dos dois garotos.
— Agradeça à sua ligação de sangue com ela, Tozier — rosnou a criatura, a mandíbula tensa —, ou eu arrancaria sua espinha pela garganta por tê-la trazido a este lugar. Ela é intocável. O que está dentro dela é intocável.
— Bill... — murmurou Clara fracamente contra o ombro dele, apertando o tecido de sua camisa. — Não faz nada com ele... é meu irmão...
O homem relaxou visivelmente ao som da voz dela, o brilho assassino em seus olhos se suavizando apenas para fitá-la.
— Eu não vou matá-los — prometeu ele baixinho contra os cabelos dela, deixando um beijo rápido e ardente no topo de sua cabeça. — Mas Derry não é mais segura para você andar desprotegida. Nunca mais saia da minha vista.
Ele começou a caminhar em direção à saída dos fundos, passos firmes e silenciosos, carregando Clara para longe da poeira e do horror de Neibolt.
— Aonde você tá levando ela?! — gritou Richie, impotente, caindo de joelhos no chão manchado de sangue.
— Para onde ela possa descansar — ecoou a voz dele, desaparecendo nas sombras do corredor. — E se algum de vocês cruzar nosso caminho novamente antes que ela esteja curada... não sobrará nada para enterrar.
Nos braços dele, sentindo o latejar ainda perigoso em seu ventre, mas com a hemorragia finalmente contida, Clara fechou os olhos. Aquele homem era a sombra que aterrorizava a cidade, a encarnação do pesadelo que Richie tanto temia. Mas, enquanto os braços fortes e protetores a apertavam com um zelo feroz, ela soube que o monstro a amava mais do que a própria escuridão — e que ele queimaria o mundo inteiro antes de deixá-la perder a vida que agora pulsava entre os dois.
