
Lorna sussssss
Fandom: Terrible Mouse
Criado: 12/10/2026
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O Delírio dos Lençóis Manchados
O silêncio do hospital abandonado era pesado, quebrado apenas pelo gotejar distante de canos enferrujados e pelo zumbido irregular das lâmpadas fluorescentes prestes a queimar. O ar cheirava a mofo, éter antigo e ferrugem. No final do corredor do segundo andar, encostado a uma parede descascada, Luke tentava normalizar a respiração descompassada.
Ele ajeitou o gorro azul de abas pontudas sobre as orelhas frias, puxando a gola alta bege para cobrir parte do pescoço. No peito de sua blusa, o desenho estampado do gato preto parecia quase uma ironia grotesca diante de tudo o que haviam acabado de enfrentar. Suas mãos tremiam levemente. Os arranhões recentes ardiam em suas bochechas salpicadas de sardas, e a ponta de seu canino pontiagudo pressionava o lábio inferior, um tique nervoso que ele não conseguia conter.
— Luke, temos que descer pelas escadas de emergência agora — sussurrou Robbie, a voz tensa, os olhos vasculhando a escuridão ao redor. — Aquilo lá atrás... rasgar a roupa dela foi sorte. Ela travou de vergonha, mas não vai durar. Quando aquele bicho se recompor, vai nos estripar.
Luke não respondeu de imediato. Seus olhos cinzentos estavam fixos na curva sombria do corredor. Desde o momento em que vira Lorna desprovida de sua armadura médica, humilhada e exposta, algo havia se rompido dentro dele. Ele fora o pária da escola, o garoto descartado e jogado aos leões quando uma brincadeira violenta terminou em morte. Conhecia o gosto do isolamento e da vergonha. Ver a predadora implacável reduzida àquela fragilidade patética não despertara nele apenas alívio; despertara um fascínio doentio, quente e confuso que pulsava em suas têmporas.
Uma sombra se projetou contra a parede descascada.
Passos suaves, almofadados, ecoaram sobre o linóleo imundo. Lorna reapareceu. A touca branca com a cruz vermelha escura pendia torta sobre seus cabelos cor de creme, que começavam a se soltar dos dois coques baixos. O avental rasgado fora precariamente ajustado, mas deixava à mostra faixas da pelagem incrivelmente branca como a neve de seus ombros e flancos. O nariz cor-de-rosa em forma de coração contraía-se delicadamente, farejando o ar.
Ela parou diante da porta entreaberta que dava para seus aposentos particulares — a antiga sala de repouso dos médicos. Os círculos rosados em suas bochechas estavam mais vivos do que nunca. Seus olhos anormais, com esclera amarela vívida e pupilas brancas cravadas na íris escura, fixaram-se diretamente em Luke.
Um sorriso torto e provocante curvou seus lábios pontiagudos.
— Luke... — a voz dela era um sussurro aveludado, um misto bizarro de ronronar felino e chiado agudo de roedor. — Venha aqui.
O garoto estremeceu. Um rubor violento subiu por seu pescoço, tingindo suas bochechas marcadas de vermelho.
— O quê? — Robbie deu um solavanco, agarrando o braço de Luke com força desmedida. — Luke, não olha para ela! Ela está atraindo você para aquela sala. É uma armadilha, idiota! Ela estripa pessoas!
Lorna inclinou a cabeça felina, apoiando a mão de garras retraídas na moldura da porta. Seu corpo arqueou ligeiramente, exibindo as curvas sinuosas que a mistura antinatural de rato e gato lhe conferia. Ela ergueu um único dedo peludo, chamando-o em um gesto lento e magnético.
— Você não queria ver o que havia por baixo, garotinho? — murmurou ela, as pálpebras descendo em uma expressão carregada de malícia. — Não precisa ter medo... venha cuidar de mim.
— Luke, larga de ser doente! — Robbie praticamente sibilava, puxando a manga da blusa de Luke. — Olha para a cara dela! Ela é um monstro!
Mas Luke já não ouvia com clareza. O mundo ao redor havia se reduzido à silhueta alva e perigosa de Lorna. A necessidade de provar algo a si mesmo, misturada a uma atração irracional que beirava a autodestruição, venceu qualquer resquício de bom senso. Ele desvencilhou o braço do aperto de Robbie com um solavanco brusco.
— Eu preciso ver uma coisa, Robbie — disse Luke, a voz rouca, quase sem fôlego.
— Você perdeu a cabeça?! Luke!
Sem olhar para trás, o rapaz caminhou pelo corredor escuro com passos rápidos e hesitantes. Lorna recuou para dentro do quarto, mantendo o olhar cravado no dele até desaparecer nas sombras do aposento. Robbie avançou dois passos, estendendo a mão no vazio, mas o rangido pesado da porta se fechando contra o batente o paralisou.
O trinco bateu. Um clique seco selou o quarto.
Do lado de fora, Robbie recuou até a parede oposta, o peito subindo e descendo em puro desespero. Suas costas bateram contra o reboco frio. O que diabos estava acontecendo? Luke havia enlouquecido de vez. Uma coisa era a paranoia que o amigo desenvolvera após o escândalo da escola, mas render-se de bom grado à enfermeira assassina era suicídio.
Robbie levou as mãos à cabeça, esperando ouvir gritos de agonia a qualquer segundo. Esperava o som de carne sendo rasgada, os ossos quebrando sob garras implacáveis, a risada sádica da criatura enquanto abria o peito de Luke como fizera com tantas outras cobaias.
Ele esperou um minuto. Dois. Cinco.
Nenhum grito veio.
Em vez disso, o silêncio do hospital foi quebrado por um ruído abafado, rítmico e estranho. Robbie franziu o cenho, aproximando-se lentamente da porta de madeira pesada. Ele colou o ouvido na superfície lascada.
O som que vinha lá de dentro fez o sangue de Robbie gelar por um motivo inteiramente diferente.
Eram suspiros. Ofegos entrecortados e densos, acompanhados pelo ranger das molas enferrujadas de uma cama hospitalar. Então, veio a voz de Lorna — não estridente de fúria, mas afogada em uma cadência doce e arrastada, gemidos compassados de um deleite puro e cru. O ronronar dela vibrava através da madeira, intercalado por arfares desordenados de Luke, cuja respiração parecia lutar por oxigênio em meio a um frenesi abafado.
— Ah... isso... continue... — a voz dela escapava em suspiros úmidos, lascivos, misturados a pequenos risos roucos.
Robbie sentiu um nó no estômago, uma mistura asquerosa de choque, repulsa e incredulidade. Suas mãos suavam frio. O som de lençóis sendo arrastados e corpos se chocando no calor sufocante do quarto ecoava de maneira quase surreal pelos corredores lúgubres daquele matadouro disfarçado de clínica.
Passaram-se minutos que pareceram horas para Robbie. A intensidade lá dentro parecia atingir picos febris, uma dança caótica entre o predador que cedia e a presa que se entregava, até que os gemidos deram lugar a respirações pesadas, lentas e exaustas.
O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo chiar abafado de pulmões esgotados.
Incapaz de conter a curiosidade mórbida e o medo pelo que teria restado do amigo, Robbie segurou a maçaneta de metal enferrujado. Para sua surpresa, o trinco não estava travado. Ele empurrou a porta devagar. O rangido das dobradiças soou estridente no ar estagnado.
Uma onda de calor e cheiro adocicado de suor, pelo úmido e pele quente atingiu o rosto de Robbie assim que a fresta se abriu.
Ele olhou para dentro.
A sala era iluminada apenas por uma lamparina fraca apoiada sobre um carrinho de metal com bandejas cirúrgicas descartadas. No centro do quarto, sobre uma cama de ferro com colchão amarelado, a cena diante de seus olhos desafiava qualquer lógica.
Lorna estava reclinada contra a cabeceira de metal. Sua pelagem branca e impecável estava arrepiada, úmida de suor, brilhando sob a luz tênue. Os cabelos cor de creme haviam se desfeito completamente dos coques, caindo em mechas desalinhadas ao redor de seu pescoço e ombros. O avental branco fora jogado no chão de ladrilhos, e tudo o que cobria seu corpo era um cobertor cinzento e puído, puxado descuidadamente até a altura dos quadris, deixando sua cintura esguia e grande parte do peito alvo à mostra.
Ela respirava com a boca entreaberta, o nariz em forma de coração pulsando suavemente, as bochechas coradas em círculos quase carmesins. Suas garras, antes ameaçadoras, estavam relaxadas sobre o lençol bagunçado.
Ao lado dela, quase afundado no colchão, estava Luke.
O rapaz parecia ter sido atropelado por um turbilhão. Seu gorro azul com abas pontudas estava jogado no canto da cama. Os cabelos pretos e curtos estavam encharcados de suor e colados à testa pálida, acentuando as sardas e os arranhões no rosto. A blusa bege de gola alta estava completamente amarrotada, desabotoada e torta no corpo, revelando a pele brilhante de cansaço. Luke estava enrolado em parte do mesmo cobertor puído, com o peito subindo e descendo em espasmos lentos. Ele parecia tonto, os olhos cinzentos semicerrados e vidrados no teto, atordoado e física e mentalmente exaurido depois de tanta loucura fervilhante.
A ponta de seu canino pontiagudo descansava sobre o lábio inferior entreaberto, ressecado pelo esforço.
Quando a porta rangeu mais uma vez sob o peso da mão trêmula de Robbie, as orelhas de Lorna se moveram instantaneamente.
A híbrida virou o rosto na direção da entrada. Ao ver Robbie parado ali, lívido de horror e espanto, nenhuma centelha de vergonha passou por suas feições. Pelo contrário. Seus olhos de esclera amarela brilharam com um deleite novo e perigoso. As pupilas brancas se dilataram, e um sorriso largo, carregado de uma malícia preguiçosa e triunfante, abriu-se em seu focinho.
Ela passou a língua fina sobre os dentes afiados, limpando uma gota de suor do lábio superior.
— Robbie... — chamou ela, com uma voz rouca e arrastada, cheia de um veneno doce. — Não fique aí na porta, querido.
Ela ergueu um dos braços esguios, afastando um pouco mais o cobertor que a cobria, revelando descaradamente a pele e a pelagem aquecidas, convidando-o com um aceno lento de sua mão de garras afiadas.
— Tem espaço para mais um... venha aqui.
Ao som daquela voz, Luke pareceu despertar do torpor. Ele piscou com esforço, a cabeça pesada girando com lentidão sobre o travesseiro puído. Seus olhos cinzentos, nublados pelo cansaço e pela névoa daquela loucura febril, finalmente focaram na figura paralisada à porta.
— Robbie...? — balbuciou Luke, a voz fraca, um sussurro seco que mal ultrapassou seus lábios.
O garoto tentou se apoiar nos cotovelos para se levantar, mas os músculos tremiam sem força; ele despencou de volta contra os lençóis bagunçados, puxando o cobertor com ele, atordoado demais para entender a gravidade do que estava presenciando. Ainda assim, seu olhar oscilou entre a criatura ao seu lado e o amigo que testemunhava sua queda.
Lorna soltou uma risadinha baixa, um ronrom profundo que vibrou no peito, deleitando-se com a vulnerabilidade absoluta dos dois rapazes. Ela inclinou-se para a frente, apoiando o queixo nas mãos, fitando Robbie com olhos famintos.
— O seu amigo é tão obediente... — murmurou ela, os olhos brilhando na penumbra. — Por que você não entra e descobre também?
Robbie deu um passo involuntário para trás, a garganta tão seca que ele não conseguia emitir um som sequer. A loucura havia tomado conta daquele hospital, e a fronteira entre predador e presa acabara de ser completamente destruída.
